Meu namorado terminou comigo pela amiga de infância — e os melhores amigos dele se revoltaram por causa da minha comida
Parte 4
Caio voltou dez dias depois.
Dessa vez, não apareceu sem avisar.
Mandou uma mensagem perguntando se eu aceitaria conversar no domingo à tarde. Eu demorei algumas horas para responder e marquei um café perto do condomínio, em lugar neutro.
Quando cheguei, ele já estava sentado.
Não havia flores sobre a mesa.
Nenhum presente.
Nenhuma caixa de joias tentando substituir palavras.
Achei aquilo um começo melhor.
— Obrigado por vir — ele disse.
Sentei diante dele.
— Eu disse que ouviria.
Caio passou alguns segundos organizando o que queria falar.
— Eu pensei muito no que você disse. Sobre eu ter vindo falar do que perdi, e não do que fiz.
Esperei.
— Você tinha razão.
Não respondi imediatamente.
Caio continuou:
— Eu reclamava de você para os meus amigos porque era mais fácil fazer você parecer exagerada do que admitir que eu gostava da atenção da Helena.
A frase doeu.
Mas pelo menos era verdadeira.
— Eu não traí você enquanto a gente estava junto — ele prosseguiu. — Só que também não coloquei limites claros. Eu queria continuar recebendo atenção dela e, ao mesmo tempo, queria que você aceitasse isso sem reclamar.
— E quando eu reclamava, você dizia que eu era possessiva.
— Porque você realmente estava sendo, em alguns momentos.
— Eu sei.
Ele pareceu surpreso de novo.
— Mas existia um motivo para eu estar insegura — completei. — Isso não transforma minhas cobranças em certas. Só significa que você não pode usar meus erros para apagar os seus.
Caio assentiu.
— Concordo.
Essa palavra, vinda dele, pareceu quase estranha.
Ele apoiou as mãos sobre a mesa.
— Depois que terminamos, eu saí com Helena algumas vezes. Não aconteceu nada enquanto você e eu estávamos juntos. Depois… a gente tentou entender se aquele sentimento antigo ainda existia.
— E não existia.
— Não do jeito que eu imaginava.
— Então você veio atrás de mim.
Ele respirou fundo.
— No começo, sim.
A honestidade me fez levantar os olhos.
— No começo?
— Quando as coisas com Helena não deram certo, eu senti falta de você. Só que, sendo sincero, senti falta das coisas que você fazia. Da casa organizada, da comida, de chegar e ter alguém esperando.
Eu quase sorri de amargura.
— Que declaração bonita.
— Eu sei como isso soa.
— Soa exatamente como foi.
Caio não tentou se defender.
— Depois eu comecei a perceber o restante.
Ficamos alguns segundos em silêncio, mas dessa vez a pausa não parecia uma estratégia.
— Quando Rafael contou que você estava trabalhando com comida, minha primeira reação foi ficar ofendido porque você estava cobrando deles. Eu pensei: “Ela fazia isso para nós de graça.”
Ele abaixou os olhos.
— Foi aí que percebi o absurdo.
— Demorou.
— Demorou.
— Três anos.
— Eu sei.
Não havia nada que ele pudesse dizer para recuperar aquele tempo.
E, pela primeira vez, Caio parecia entender isso.
— Eu gostava de falar que você estava comigo porque tinha sorte — continuou. — Eu nunca dizia diretamente na sua cara, mas pensava assim. Eu vinha de uma família rica, você estava começando a vida, e eu transformei essa diferença numa espécie de crédito permanente.
Meu estômago se apertou.
Eu já sabia.
Ainda assim, ouvir aquilo de sua própria boca tinha outro peso.
— Quando eu dava alguma coisa para você, eu me sentia generoso. Quando você fazia dez coisas por mim, eu tratava como normal.
Passei o dedo pela borda da xícara.
— E seus amigos?
— Eu deixava que falassem.
— Você fazia mais do que deixar.
Caio levantou os olhos.
— Fazia.
A resposta veio sem desculpa.
— Eu participava.
Ali estava a confirmação final.
Não uma gravação secreta.
Não um documento conveniente.
Não uma revelação milagrosa.
Só um homem finalmente admitindo aquilo que suas próprias atitudes já tinham mostrado.
Eu respirei devagar.
— Sabe o que mais me incomoda?
— O quê?
— Eu realmente gostava de cuidar de vocês.
Caio franziu a testa.
— Eu sei.
— Não. Você não sabe.
Minha voz saiu mais firme.
— Eu gostava quando vocês comiam e repetiam. Gostava quando alguém ligava perguntando como eu fazia determinado prato. Gostava de preparar as coisas. O problema não era cozinhar, Caio.
Aproximei um pouco a cadeira.
— O problema era vocês terem transformado meu carinho em obrigação e depois usado exatamente esse carinho como prova de que eu não tinha nada de especial além da cozinha.
Ele ficou imóvel.
— Rafael me contou.
Caio fechou os olhos por um instante.
— Eu imaginei.
— “Família simples, bonita e cozinha bem.” Era assim?
— Lívia…
— Era?
— Era.
Assenti.
Não havia mais motivo para procurar uma versão menos dolorosa.
— Então pronto.
Ele pareceu alarmado.
— Pronto como?
— Agora eu sei exatamente que relacionamento eu estava tentando salvar quando fazia aquelas cenas por causa da Helena.
— Eu não queria que você pensasse que tudo foi falso.
— Não acho que foi falso.
E aquilo era verdade.
Houve dias bons.
Houve afeto.
Houve viagens, noites em que conversamos até amanhecer e momentos em que Caio cuidou de mim quando precisei.
Uma relação não precisava ser inteiramente ruim para não servir mais.
— Acho que você gostou de mim do jeito que sabia gostar — falei. — Só que esse jeito me colocava abaixo de você.
Caio passou as mãos pelo rosto.
— Dá para consertar.
Eu já esperava pela frase.
Mesmo assim, fiquei quieta antes de responder.
— Talvez você consiga consertar isso em você.
— Eu estou falando da gente.
— Eu também.
Ele se inclinou para a frente.
— Eu não estou pedindo para voltar hoje. A gente pode começar devagar. Eu faço terapia, mudo algumas coisas, você estabelece limites…
— Caio.
Ele parou.
— Percebe o que você acabou de fazer?
— O quê?
— Montou um plano inteiro para nós dois sem perguntar se eu ainda quero participar.
Ele ficou pálido.
Talvez aquela tenha sido a frase que finalmente explicou tudo de uma forma que nenhuma discussão anterior conseguira.
— Você ainda quer? — perguntou.
Eu pensei antes de responder.
Não porque tivesse dúvida.
Porque ele merecia uma resposta consciente, e eu também.
— Não.
Caio ficou olhando para mim.
— Não quer tentar?
— Não.
— Mesmo que eu mude?
— Se você mudar, vai ser bom para você e para a próxima pessoa que estiver ao seu lado.
Ele desviou o rosto.
— Tem outra pessoa?
— Não.
— Rafael comentou uma coisa sobre apresentar alguém para você.
Balancei a cabeça, quase incrédula.
Aquele grupo realmente não sabia ficar fora da vida amorosa alheia.
— Rafael e os outros disseram que iam arrumar um namorado novo para mim porque queriam continuar comendo minha comida.
Caio soltou um riso breve e sem alegria.
— É a cara deles.
— Eu mandei os três cuidarem da própria vida.
— Então você não está saindo com ninguém.
— Caio, minha decisão não depende da existência de outro homem.
Dessa vez ele não insistiu.
Pedi a conta.
Antes de irmos embora, ele falou:
— A casa já está com o registro concluído.
— Eu sei. Recebi a confirmação.
— Não vou tentar desfazer nada.
— Nunca achei que fosse.
Ele assentiu.
— E as coisas que eu te dei… são suas. Eu fui ridículo quando perguntei das bolsas.
— Foi.
Um canto da boca dele se moveu.
— Você não facilita.
— Durante três anos eu facilitei bastante.
— Justo.
Nos levantamos.
Na porta do café, Caio ficou parado na calçada.
— Eu sinto muito, Lívia.
Olhei para ele.
— Pelo quê?
Talvez eu estivesse testando.
Talvez precisasse ouvir se ele finalmente tinha entendido.
Caio demorou um pouco.
— Por ter colocado você abaixo de mim porque eu tinha mais dinheiro. Por ter deixado meus amigos fazerem o mesmo. Por ter alimentado a situação com Helena e chamado você de louca quando reagiu. E por ter tratado tudo o que você fazia por mim como se fosse obrigação.
Não era perfeito.
Mas era específico.
— Obrigada por dizer.
— Você me perdoa?
Pensei mais uma vez.
— Um dia talvez eu deixe de sentir raiva quando lembrar. Mas isso não significa voltar.
Ele assentiu lentamente.
— Eu entendo.
— Espero que sim.
Seguimos em direções opostas.
Não houve abraço cinematográfico.
Não houve chuva.
Não houve Caio correndo atrás de mim no estacionamento.
E foi exatamente por isso que aquele encerramento pareceu verdadeiro.
Nos meses seguintes, meu pequeno negócio cresceu no ritmo que eu conseguia sustentar.
Não virei empresária milionária de uma hora para outra.
Houve encomendas canceladas, dias cansativos, receitas que precisei refazer e semanas em que o lucro ficou abaixo do esperado.
Mas tudo que eu construía agora tinha meu nome.
Com ajuda de um contador, organizei a empresa, regularizei o que precisava e defini um limite de encomendas por semana.
Comecei a trabalhar com uma auxiliar em dias de eventos maiores.
Depois contratei outra pessoa algumas horas por semana para cuidar das mensagens e dos pedidos.
A casa que tinha chegado até mim como “compensação” deixou de parecer lembrança de um término.
Virou meu endereço.
Meu espaço.
Minha cozinha.
Rafael e os outros continuaram aparecendo.
Mas aprenderam rápido.
Pedido tinha prazo.
Encomenda tinha preço.
Amizade não dava direito a exploração.
Um sábado, Rafael chegou para retirar seis travessas destinadas ao aniversário do pai.
Conferiu tudo e perguntou:
— Posso reclamar de uma coisa?
— Você já pagou?
— Já.
— Então pode.
Ele fingiu estar ofendido.
— Desde que você terminou com o Caio, minha conta bancária nunca mais foi a mesma.
— Aprende a cozinhar.
— Tentei.
— E?
— Minha família pediu para eu parar.
Balancei a cabeça.
Ele pegou as sacolas, mas antes de sair se virou.
— Tenho um amigo solteiro.
Apontei para a porta.
— Rafael.
— Só estou informando.
— Rua.
— Ele é médico.
— Rua.
— Gosta de comida brasileira.
— Rafael.
Ele levantou as duas mãos.
— Tá bom, tá bom. Estou indo.
Quando a porta fechou, eu ri sozinha.
Eles ainda eram inconvenientes.
Mas agora sabiam até onde podiam ir.
Sobre Caio, ouvi pouca coisa.
Rafael contou apenas que ele tinha diminuído as noites no bar, começado terapia e parado de fazer piadas sobre relacionamento quando os amigos entravam no assunto.
Não perguntei mais.
Mudança verdadeira não precisava ser exibida para mim.
Também não era minha responsabilidade premiá-lo por começar a tratar outras pessoas com o respeito que sempre deveria ter existido.
Quase um ano depois do término, fiz um jantar em casa.
Não por obrigação.
Não porque alguém tinha mandado mensagem exigindo um prato específico.
Convidei minha mãe, algumas amigas, Rafael e mais duas pessoas que tinham se tornado próximas através do trabalho.
Fiz comida demais.
Dessa vez, porque quis.
Quando coloquei a última travessa sobre a mesa, Rafael olhou para mim com desconfiança.
— Isso está incluído no valor da amizade ou vai chegar boleto amanhã?
— Come primeiro. Depois eu decido.
Todos riram.
Eu também.
Mas, enquanto me sentava à mesa, percebi algo que mudou completamente o significado daquele momento.
Durante anos, eu tinha acreditado que cozinhar era a forma que possuía para manter pessoas importantes perto de mim.
Agora sabia que quem quisesse ficar precisava gostar também da mulher que existia depois que os pratos eram retirados da mesa.
Eu não precisava abandonar aquilo que sabia fazer para provar que era mais do que aquilo.
Minha comida continuava sendo parte de mim.
Só não era mais o preço que eu pagava para ser amada.
Olhei ao redor da minha própria casa, ouvi as conversas se misturando e senti uma tranquilidade que nenhum presente caro de Caio tinha conseguido comprar.
Eu não tinha saído daquele relacionamento sem dor.
Tinha saído com algo melhor.
A capacidade de reconhecer meu próprio valor antes que outra pessoa decidisse quanto ele valia.
E naquela noite, quando sentei para comer a comida que eu mesma havia preparado, não havia ninguém ocupando o lugar principal da minha vida além de mim.
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