Meu noivo desapareceu por seis meses para “viver livre” — e mentia até para a mecânica que o acolheu
Parte 3
Na segunda-feira, cheguei à sede da empresa vinte minutos antes das nove.
Não era para demonstrar força. Era hábito. Durante os seis meses em que Caio esteve desaparecido, eu havia aprendido a chegar antes dos problemas porque, se esperasse alguém assumir responsabilidade, muitas vezes ninguém assumia.
A sala do conselho já estava preparada. Sobre a mesa havia apenas a documentação necessária: atas das reuniões anteriores, relatórios do projeto conjunto e o contrato revisado que ainda estava em negociação.
Nada secreto.
Nada capaz de resolver a vida de ninguém com uma assinatura.
Apenas meses de trabalho acumulado.
O tio de Caio estava sentado na ponta da mesa, representando a direção interina dos Azevedo. Minha equipe ocupava o outro lado. Às nove e sete, a porta se abriu.
Caio entrou.
O cabelo estava cortado, o rosto sem graxa e a roupa era uma camisa social que provavelmente alguém da família havia separado para ele. Mesmo assim, havia algo nele que não conseguia mais parecer o antigo herdeiro seguro de si.
Talvez porque agora todos soubessem que aquela segurança dependia demais do lugar que davam a ele.
— Quero saber por que fui afastado sem meu consentimento — disse antes mesmo de se sentar.
O tio empurrou uma cópia de uma ata para o centro da mesa.
— Porque você não apareceu para trabalhar por mais de trinta dias, não respondeu às notificações e não deixou qualquer substituto formal para suas funções. O conselho se reuniu e encerrou sua posição executiva conforme o contrato de administração.
Caio pegou as folhas e passou os olhos rapidamente.
— Eu sou acionista.
— Continua sendo.
— Então não podem me excluir.
— Ninguém mexeu nas suas ações.
O tio falou sem levantar a voz.
— Ser acionista não significa ter direito automático a um cargo executivo.
Caio apertou a mandíbula.
— E quem decidiu colocar o senhor no lugar?
— O conselho.
— Com meu pai internado.
— Fui indicado antes do AVC do seu pai para assumir interinamente parte das responsabilidades que você abandonou. Depois do afastamento dele, o conselho ampliou minhas atribuições.
Eu observava em silêncio.
Caio havia chegado preparado para encontrar uma tomada de poder. Parecia até decepcionado por encontrar um procedimento comum, registrado em ata, com datas que coincidiam exatamente com seu desaparecimento.
Ele me encarou.
— Você sabia disso tudo?
— Eu participei das reuniões relacionadas ao nosso projeto.
— E não tentou impedir?
— Por que eu impediria uma empresa parceira de substituir um diretor que desapareceu?
O rosto dele ficou vermelho.
— Porque eu era seu noivo.
A frase caiu na mesa de um jeito constrangedor.
Alguns dos presentes desviaram os olhos.
Eu apoiei as mãos sobre o relatório à minha frente.
— E esse é exatamente o problema, Caio. Você ainda acha que ser meu noivo significava que eu deveria proteger suas consequências profissionais.
— Não distorce o que estou dizendo.
— Então explique melhor.
Ele respirou fundo.
— Eu estava esgotado. Você sabia. Todo mundo sabia. Eu não suportava mais viver como se cada minuto fosse propriedade da família.
— E eu disse alguma vez que você não podia pedir afastamento?
Ele não respondeu.
— Seu pai disse que você não podia renunciar?
Silêncio.
— O conselho negou férias? Tratamento? Uma troca de função?
— Não era tão simples.
— Claro que não era. Escolhas adultas raramente são.
Caio jogou a ata sobre a mesa.
— Você sempre foi boa nisso. Sempre teve resposta para tudo.
— Não. Nos últimos seis meses, eu só precisei ter resposta para coisas que você deixou sem resposta.
Abri um dos relatórios.
— Três fornecedores aguardaram retorno por mais de duas semanas porque você saiu sem transferir os contatos. Duas reuniões com o banco precisaram ser reagendadas. Um cronograma de licenciamento teve de ser reorganizado. Não porque você fosse insubstituível, mas porque ninguém sabia quais pendências estavam sob sua responsabilidade.
Ele apontou para mim.
— E você assumiu tudo.
— Assumi o que dizia respeito ao grupo Souto e ajudei a reorganizar o projeto para que ele não parasse.
— Então saiu ganhando.
A sala ficou quieta.
Foi a primeira frase daquele dia que realmente me atingiu.
Não por ser verdadeira.
Mas porque revelou com precisão o modo como Caio enxergava tudo que eu havia feito.
Minha voz saiu mais baixa.
— Sua mãe me ligava chorando de madrugada porque achava que você estivesse morto. Eu acompanhei buscas, falei com investigadores, participei de reuniões extras e tentei evitar que centenas de pessoas envolvidas num projeto fossem prejudicadas. E você chama isso de “sair ganhando”?
Caio desviou o rosto.
Seu tio fechou a pasta à frente.
— A reunião de hoje não é sobre o relacionamento de vocês.
— Pois deveria ser — Caio rebateu. — O projeto nasceu porque nossas famílias iam se unir.
Eu o encarei.
— Então talvez seja bom esclarecer isso de uma vez.
Passei para ele a versão revisada do contrato.
— A cooperação empresarial não depende do nosso casamento. As duas empresas existem separadamente, têm sócios separados e precisam decidir se o projeto ainda faz sentido por mérito próprio. Foi por isso que exigimos a revisão.
Ele folheou o documento.
— Vocês reduziram a participação dos Azevedo.
— Não.
Apontei para uma cláusula.
— A participação econômica básica foi mantida. O que mudou foram os mecanismos de decisão e responsabilidade operacional. Antes, muita coisa dependia de uma pessoa indicada por cada família. Depois do que aconteceu, propusemos que decisões críticas dependam de cargos, não de sobrenomes.
O tio de Caio assentiu.
— É uma mudança que eu apoio.
Caio riu sem humor.
— Claro que apoia.
— Você pode discordar como acionista — respondeu o tio. — Mas não pode fingir que seis meses de ausência não aconteceram.
A reunião seguiu por quase duas horas.
Pela primeira vez, não fiz esforço para suavizar nada para Caio.
Quando discordava de uma cláusula, eu explicava. Quando ele tentava transformar uma questão empresarial em assunto familiar, eu trazia a conversa de volta aos documentos.
Não humilhei.
Não ataquei.
Apenas parei de protegê-lo da realidade.
Quando terminou, recolhi minhas coisas e fui para o corredor.
Caio veio atrás.
— Marina.
Continuei andando até ele segurar meu braço.
Parei imediatamente.
Ele soltou.
— Desculpa.
A palavra pareceu difícil.
— Pelo quê?
— Por tudo.
Balancei a cabeça.
— “Tudo” não é uma resposta.
Ele passou a mão pelo cabelo.
— Eu estava sufocado. Eu sabia que, se dissesse que queria ir embora, meu pai não aceitaria.
— Você perguntou?
Caio ficou irritado.
— Você conhece meu pai.
— Conheço. E conheço você também. Você não quis correr o risco de ouvir um “não”. Então preferiu desaparecer e obrigar todo mundo a aceitar sua decisão depois que ela já estivesse tomada.
Ele abriu a boca, mas não falou.
Continuei:
— E ainda mentiu para a Lívia porque dizer a verdade teria estragado a imagem de homem abandonado pelo mundo.
— Eu não planejei aquilo.
— Não precisava planejar seis meses de cada vez. Bastava renovar a mentira todos os dias.
Caio encostou na parede.
— Eu pensei que ela gostasse de mim.
— Esse é outro problema.
— O quê?
— Você confunde pessoas cuidando de você com pessoas te devendo amor.
Ele ergueu os olhos.
A frase doeu.
Eu percebi.
Mas não retirei.
— Sua mãe procurou você, então você acha que pode voltar e ser recebido como antes. Lívia te acolheu, então você concluiu que ela te amava. Eu segurei o projeto e enfrentei reuniões enquanto você sumia, então você acha que ainda deveria proteger seu lugar.
Respirei fundo.
— Todo mundo estava cuidando das consequências. Você foi o único que chamou isso de liberdade.
Caio ficou alguns segundos parado.
— Eu quero consertar.
— Comece sem usar essa frase como atalho.
— O que você quer que eu faça?
— Não cabe a mim criar um roteiro para você virar uma pessoa responsável.
Ele olhou para a pasta em minha mão.
— E o noivado?
— Acabou.
— Eu não assinei.
— Sua assinatura não me obriga a casar com você.
Ele apertou os lábios.
— Os documentos que levei à oficina tratam principalmente das despesas, compromissos e devoluções ligados ao casamento que estávamos preparando. Você pode colaborar para encerrar isso de forma organizada ou pode obrigar nossos advogados a resolver item por item. Mas o noivado não depende da sua autorização.
— Você fala como se vinte anos não significassem nada.
Aquilo doeu mais do que eu esperava.
— Significam.
Minha voz falhou por um instante.
— É justamente por significarem tanto que eu não vou fingir que os últimos seis meses foram um detalhe.
Caio abaixou a cabeça.
— Eu consigo mudar.
— Talvez consiga.
Ele me encarou, surpreso com a resposta.
— Mas eu não vou continuar noiva de você para descobrir.
Passei por ele.
Antes que eu alcançasse o elevador, sua voz veio atrás de mim.
— Minha mãe quer que as duas famílias se encontrem hoje à noite.
Parei.
— Ela acha que a gente precisa conversar sem conselho, sem advogado, sem empresa no meio.
— Sobre o quê?
— Sobre nós.
Virei devagar.
Caio parecia inseguro, mas ainda havia algo em seu olhar que me incomodava.
Esperança demais.
Como se uma reunião de família fosse recolocar tudo no lugar.
— Ela disse que meu pai está sofrendo com tudo isso — continuou. — Talvez você possa pelo menos evitar tomar uma decisão definitiva agora.
Ali estava novamente.
O pai doente.
A mãe abalada.
As empresas.
Vinte anos.
Tudo colocado sobre meus ombros para me convencer a adiar uma decisão que dizia respeito à minha própria vida.
Aproximei-me.
— Eu vou à reunião.
Os ombros de Caio relaxaram.
— Sério?
— Sim.
Ele quase sorriu.
Completei:
— Mas não vou para reconsiderar. Vou para dizer diante de todos exatamente o que eu disse a você.
O sorriso desapareceu.
As portas do elevador se abriram.
Entrei e pressionei o térreo.
Antes que se fechassem, Caio perguntou:
— Você vai mesmo acabar com tudo na frente das nossas famílias?
Sustentei o olhar dele.
— É exatamente isso que vou fazer.
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