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Passei seis meses grudada nele porque o sistema disse que ele gostava disso — então descobri que era justamente o contrário

Parte 3

Entrei no carro sem saber o que Bruno pretendia dizer. Durante seis meses, eu havia interpretado cada expressão dele com base nas instruções do sistema. Se ele ficava quieto, eu entendia como timidez. Se se afastava, eu acreditava que estava apenas cansado. Agora eu sabia que grande parte daquilo tinha sido irritação, e isso tornava qualquer gesto impossível de decifrar.

Bruno dirigiu alguns minutos antes de falar.

— Você mudou de uma hora pra outra.

— Eu percebi que estava exagerando.

— Isso eu ouvi. Quero saber por quê.

Olhei pela janela.

Eu não podia dizer que um monte de comentários flutuantes havia me contado que ele era o vilão de uma história e que eu estava perseguindo o homem errado havia meio ano.

— Porque percebi que você não gostava.

— E você precisou de seis meses pra perceber?

Aquilo doeu mais do que deveria.

— Pois é.

Bruno soltou o ar pelo nariz.

— Não falei isso pra te atacar.

— Mas é verdade.

Ele parou no sinal vermelho e virou o rosto para mim.

— Eu realmente odiava algumas coisas.

Meu estômago apertou.

— Tipo?

— Você ficar na porta do banheiro.

Assenti.

Justo.

— Você entrar no meu quarto quando eu estava estudando sem bater.

— Justo também.

— Você mandar quinze mensagens seguidas se eu demorasse vinte minutos pra responder.

Abaixei a cabeça.

— Eu entendi.

— Mas eu nunca disse que odiava você.

Ergui os olhos.

O sinal abriu, e Bruno voltou a dirigir como se não tivesse acabado de jogar aquela frase no meio do carro.

Por alguns segundos, não consegui encontrar resposta.

— Não odiar alguém não significa gostar.

— Eu sei.

O tom dele foi tão neutro que não consegui entender se havia alguma coisa por trás.

Na faculdade, Bruno estacionou e desligou o motor.

— Eu deveria ter falado antes.

— Falado o quê?

— Que algumas coisas me incomodavam.

Eu ri sem humor.

— Teria ajudado.

— Eu achei que você perceberia.

— E eu achei que você gostava.

Ele franziu a testa.

— Por que você achou isso?

Quase respondi “porque um sistema inútil me contou”.

Em vez disso, apenas disse:

— Interpretei tudo errado.

Bruno ficou me olhando.

— Então agora vai fazer o oposto de tudo?

Aquilo me atingiu porque era exatamente o que eu estava fazendo.

Eu havia passado de uma personalidade construída pelo sistema para outra personalidade construída pelos comentários.

Primeiro, grudenta.

Depois, fria.

Nenhuma delas era realmente minha.

Não respondi.

Saí do carro.

Durante a aula, aquela ideia não saiu da minha cabeça.

Eu não sabia mais quais comportamentos eram meus e quais pertenciam à missão.

No mundo original, antes de morrer, eu tinha sido uma pessoa comum. Gostava de ficar sozinha em alguns dias e de conversar demais em outros. Gostava de cuidar de quem eu amava, mas também precisava de silêncio.

Depois de entrar naquele mundo, tudo virou cálculo.

Sorrir porque o sistema mandava.

Abraçar porque aumentava a pontuação.

Esperar diante do banheiro porque supostamente aquilo agradava ao protagonista.

Talvez o maior problema não fosse ter interpretado Bruno errado.

Talvez fosse ter esquecido completamente quem eu era.

Na hora do almoço, sentei sozinha em uma mesa do pátio.

Uma janela do sistema surgiu.

“Taxa atual de compatibilidade: 41%.”

Quarenta e um.

Antes dos comentários aparecerem, eu tinha chegado a 68%.

Então minha mudança havia derrubado a pontuação.

Meu coração afundou.

Logo depois, porém, surgiu outra linha.

“Índice de rejeição do alvo: 12%.”

Pisquei.

Antes, eu nunca tinha visto aquele índice.

— Sistema.

Nenhuma resposta.

— Qual era o índice de rejeição antes?

A tela demorou alguns segundos.

“Último registro: 79%.”

Fiquei olhando para o número.

Minha suposta compatibilidade era alta quando Bruno quase não suportava minha presença.

Era absurdo.

Ou talvez aquelas duas métricas medissem coisas completamente diferentes.

Abri o histórico.

Pela primeira vez, em vez de simplesmente obedecer, comecei a ler tudo.

O contrato dizia que eu precisava criar um “vínculo afetivo genuíno com o alvo vinculado”.

Não dizia que eu precisava me comportar conforme o perfil sugerido.

A parte sobre “preferências do alvo” aparecia apenas como recomendação automática.

O sistema havia sugerido um perfil errado.

E eu transformara aquela sugestão em regra.

Continuei descendo.

Encontrei uma linha que nunca havia notado:

“Dados comportamentais podem conter margens de erro quando há conflito de identificação narrativa.”

Conflito de identificação narrativa.

Era exatamente o que os comentários tinham dito.

Eu fora vinculada ao vilão em vez do protagonista.

Mas havia algo ainda mais importante.

Em nenhuma parte dizia que a missão seria automaticamente considerada um fracasso por causa disso.

O objetivo era o vínculo com o alvo vinculado.

Bruno.

Não importava o papel que ele deveria desempenhar na história original.

Se ele era o alvo, era com ele que a missão precisava ser construída.

A partir dali, eu tinha duas escolhas.

Continuar atuando conforme algum personagem que terceiros diziam que ele gostava.

Ou, pela primeira vez, conversar com o homem de verdade.

Fechei a tela.

Quando levantei a cabeça, Bruno estava parado do outro lado do pátio com duas bandejas nas mãos.

Ele veio até mim e colocou uma na minha frente.

— Você não ia almoçar?

— Ia.

— Então come.

Olhei para a bandeja.

Era exatamente o prato que eu costumava escolher antes de começar a copiar as preferências dele.

— Como você sabia?

Bruno puxou a cadeira.

— Você sempre olha pra esse prato antes de escolher o mesmo que eu.

Fiquei imóvel.

Durante seis meses, eu escolhera o que ele escolhia porque o sistema dizia que compartilhar gostos aumentava proximidade.

Bruno tinha percebido.

— Você sabia que eu não gostava da mesma comida que você?

— Era difícil não perceber.

— E nunca falou nada?

— Achei que você gostasse de fazer isso.

Soltei uma risada curta.

— Nós dois somos péssimos em conversar.

— Finalmente concordamos em alguma coisa.

Aquela foi a primeira vez em dias que eu sorri sem pensar em pontuação.

Bruno percebeu.

Não comentou.

Depois do almoço, eu comecei a testar uma ideia.

Não uma estratégia.

Uma ideia simples.

Eu faria apenas o que tivesse vontade de fazer.

Quando quisesse mandar mensagem, mandaria uma.

Não quinze.

Quando não quisesse, não mandaria nenhuma.

Se tivesse vontade de assistir ao treino dele, iria.

Se preferisse voltar para casa, voltaria.

E se Bruno não gostasse de mim daquele jeito, eu precisaria aceitar.

A missão podia ser importante para minha sobrevivência.

Mas eu já havia morrido uma vez.

Não queria passar uma segunda vida inteira interpretando uma personagem.

Nos dias seguintes, os números começaram a mudar lentamente.

Compatibilidade: 44%.

Depois 47%.

Rejeição: 10%.

Depois 8%.

Os comentários ficaram cada vez mais confusos.

【Ela não tá fazendo a rota fria direito.】

【Por que a pontuação tá subindo?】

【Na história original, o vilão nem tinha esse tipo de cena.】

Eu parei de confiar neles da mesma forma que tinha parado de confiar cegamente no sistema.

Eles podiam saber como aquela história deveria ter acontecido.

Mas não sabiam o que aconteceria agora.

Numa sexta-feira, fui ao treino de Bruno porque realmente queria assistir.

Sentei no fundo da arquibancada com um livro.

Quando o jogo terminou, ele veio até mim.

— Você ficou.

— Fiquei.

— Por quê?

Fechei o livro.

— Porque quis.

Ele pareceu surpreso.

Depois estendeu a mão.

— Água.

— Você trouxe a sua.

— Acabou.

Olhei para a garrafa ao lado da minha bolsa.

— Essa é minha.

— Eu sei.

— Você odeia beber na mesma garrafa.

Bruno puxou a garrafa da minha mão.

— Eu odeio um monte de coisa.

Bebeu.

Depois devolveu.

Os comentários explodiram diante dos meus olhos.

【Ele nunca fazia isso!】

【Isso saiu completamente do roteiro.】

【A protagonista original já devia ter ido embora dessa rota nessa altura!】

Ignorei todos.

— Bruno.

— Hum?

— Posso te perguntar uma coisa?

— Pergunta.

Respirei fundo.

— Por que você nunca terminou comigo se eu te irritava tanto?

Ele ficou quieto.

Dessa vez, não desviei o olhar.

Bruno sentou ao meu lado.

— No começo, porque eu achava que era só seu jeito.

— E depois?

— Depois porque comecei a perceber que você fazia coisas que não combinavam com você.

Meu coração acelerou.

— Como assim?

— Você dizia que amava ficar acordada jogando comigo, mas dormia sentada. Dizia que gostava do mesmo café sem açúcar que eu, mas fazia careta escondido. Dizia que não se importava de esperar na porta do banheiro, mas às vezes ficava bocejando lá fora por quarenta minutos.

Eu não soube o que dizer.

Bruno continuou:

— Era irritante. Mas também parecia que você estava se esforçando demais por alguma coisa que eu não entendia.

— E você nunca perguntou?

— Não sabia como.

Ele esfregou as mãos.

— Então fui deixando.

Baixei os olhos.

— Eu achei que, se fizesse tudo certo, você acabaria gostando de mim.

— Tudo certo segundo quem?

A pergunta me atravessou.

— Segundo uma versão minha que não existe mais.

Bruno não insistiu.

Ficamos sentados em silêncio.

Não um silêncio pesado.

Um silêncio em que eu finalmente não precisava preencher cada segundo com conversa.

Naquela noite, quando chegamos em casa, fui para o quarto de hóspedes.

Bruno parou diante da porta.

— Vai continuar dormindo aqui?

— Por enquanto.

— Mesmo depois da nossa conversa?

— Justamente por causa dela.

Ele franziu a testa.

— Não entendi.

— Quero parar de fazer mudanças bruscas só pra conseguir uma reação sua.

Bruno ficou sério.

— Então isso não é punição?

— Não.

— Nem teste?

— Não.

— Nem alguma estratégia?

Engoli em seco.

— Não mais.

Ele assentiu.

— Certo.

Antes de entrar no meu quarto, porém, tomei uma decisão.

— Bruno.

Ele olhou para trás.

— Amanhã, se você quiser, podemos tomar café juntos. Sem roteiro. Sem fingir que gostamos das mesmas coisas. Sem adivinhar o que o outro quer.

Bruno me encarou por um instante.

Depois respondeu:

— Oito horas.

— Oito e meia.

— Oito e quinze.

— Fechado.

Quando tranquei a porta, a janela do sistema apareceu.

“Taxa de compatibilidade: 63%.”

Arregalei os olhos.

Embaixo, uma nova frase surgiu.

“Critério secundário desbloqueado: autenticidade do vínculo.”

Logo depois, os comentários ficaram completamente silenciosos.

E pela primeira vez desde que cheguei àquele mundo, eu entendi que talvez minha sobrevivência não dependesse de conquistar Bruno.

Dependesse de parar de tentar ser a mulher que todos diziam que ele deveria amar.

Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖

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