Meu namorado tirava meus óculos para me humilhar — até eu descobrir que ele se casaria com outra em um mês
Parte 3
Lucas ficou parado perto da porta, ainda segurando a caixa de bolo. Seus olhos passaram por Helena, pelo anel sobre a mesa e finalmente pararam em mim. Durante alguns segundos, ninguém disse nada.
— Que história é essa? — ele perguntou.
Helena se levantou.
— Eu poderia perguntar a mesma coisa.
Lucas olhou de novo para mim e pareceu entender. Não tudo, mas o suficiente para perceber que as duas partes da vida que ele mantinha separadas estavam na mesma sala.
Ele colocou o bolo sobre o aparador.
— Clara, você está fazendo o quê?
Aquela pergunta quase me fez perder o controle.
— Eu?
Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
— Você vai mesmo começar por mim?
Helena cruzou os braços.
— Responde uma coisa simples, Lucas. Você namora a Clara?
Ele respirou fundo.
— Helena, isso é mais complicado do que parece.
— Sim ou não?
Lucas não respondeu imediatamente.
Olhou para mim como se estivesse tentando calcular qual versão da história ainda poderia funcionar.
— Clara e eu estávamos passando por uma fase…
— Uma fase de um ano e quatro meses? — interrompi.
Ele fechou a boca.
Helena apontou para o anel.
— E nós estamos em que fase? Porque nosso casamento está marcado para daqui a um mês.
Lucas passou a mão pelo rosto.
— Meu relacionamento com você envolve nossas famílias, a empresa, uma série de coisas que a Clara não entende.
Eu senti o golpe, mas não como antes.
Naquele momento, não era mais a frase de alguém que tinha poder sobre mim. Era apenas mais uma tentativa de transformar duas mulheres enganadas em pessoas incapazes de compreender a genialidade do homem que mentia para ambas.
— Eu entendo perfeitamente — respondi. — Você ia casar com ela e continuar comigo até quando fosse conveniente.
— Não foi assim.
— Então explica.
Lucas virou-se para mim.
— Eu gosto de você.
Helena soltou uma risada sem humor.
— Impressionante.
Lucas ignorou.
— Clara, o que nós temos nunca foi falso.
— O apartamento foi falso?
Ele franziu a testa.
— Que pergunta é essa?
— Você comprou aquele apartamento porque queria me dar segurança ou porque sabia que eu acreditaria que um homem disposto a colocar uma casa no meu nome também estaria disposto a casar comigo?
O rosto dele mudou.
Foi pequeno.
Quase imperceptível.
Mas eu vi.
— Quem falou isso para você?
Eu senti meu estômago revirar.
Não havia arrependimento naquela pergunta.
Só preocupação em descobrir quanto eu sabia.
— Você falou.
Lucas ficou imóvel.
— Hoje, no hotel.
O silêncio ficou pesado.
Helena olhou para ele.
— Ela ouviu tudo?
Ele desviou os olhos.
Eu continuei:
— Ouvi você dizer que mulheres “certinhas” só precisam de uma casa no nome para acreditar em casamento.
Minha voz começou a tremer, mas não parei.
— Ouvi você me chamar de Cinderela. Ouvi você dizer que era como pendurar uma cenoura na frente de um animal.
Lucas abriu a boca.
— Clara…
— E ouvi o que você falou da minha visão.
Ele ficou pálido.
Helena também.
— Ouvi você contando aos seus amigos coisas da nossa intimidade.
Minha garganta queimou.
— Coisas que eu te pedi para não fazer. Coisas que você prometia não repetir. E você estava rindo porque, sem os óculos, eu demorava a perceber.
— Eu estava bêbado.
Balancei a cabeça.
— Não estava.
Ele se aproximou.
Eu recuei.
— Não encosta em mim.
Lucas parou.
Helena pegou o anel e colocou na mão dele.
— Nosso casamento acabou.
— Helena, não faz isso no impulso.
— Impulso?
Ela apontou para mim.
— Você manteve um relacionamento com outra mulher por mais de um ano enquanto nossas famílias planejavam um casamento.
— Você sabe que nosso noivado não começou por amor.
— Isso não te dava permissão para transformar outra pessoa em brinquedo.
Lucas apertou o anel na mão.
— Você também não me amava.
— Talvez não.
Helena sustentou o olhar dele.
— Mas eu nunca menti dizendo que era solteira.
Ele ficou sem resposta.
Foi naquele momento que percebi uma coisa dolorosa: eu não era a mulher escolhida nem a mulher rejeitada. Eu era apenas a pessoa que Lucas acreditava poder manter escondida porque confiava demais nele.
Helena pegou a bolsa.
Antes de sair, virou-se para mim.
— Amanhã vou cancelar o contrato do casamento com a empresa de vocês. Não quero causar problema no seu trabalho. Vou explicar que o cancelamento é pessoal.
Assenti.
— Obrigada.
Ela olhou para Lucas pela última vez.
— Não me procura hoje.
A porta fechou.
Lucas ficou no meio da sala, olhando para mim.
— Você precisava envolver a Helena?
Eu quase não acreditei.
— Eu precisava?
— Você podia ter falado comigo primeiro.
— Para você preparar outra mentira?
Ele respirou fundo.
— Clara, eu sei que fiz coisas erradas.
— Coisas?
— Tá bom. Eu errei.
— Você mentiu sobre seu trabalho, sua família, seu dinheiro, seu noivado e nosso futuro.
Apontei para a porta.
— Vai embora.
Lucas me encarou.
— Essa casa também é minha.
Eu senti uma calma estranha nascer dentro de mim.
— Não.
Ele franziu a testa.
— Fui eu que paguei.
— Mas você colocou no meu nome.
— Clara, não começa.
— Você acabou de me explicar para que servia a casa.
Ele desviou os olhos.
— Eu estava fazendo graça com meus amigos.
— Então agora você pode fazer graça em outro lugar.
Lucas tentou argumentar durante quase meia hora. Disse que tinha sentimentos por mim. Disse que os pais pressionavam pelo casamento com Helena. Disse que o relacionamento das famílias era antigo. Disse que nunca pretendia me machucar daquele jeito.
Mas não pediu desculpas pelo que mais me doía.
Não falou sobre ter ignorado meus limites.
Não falou sobre ter exposto nossa intimidade.
Não falou sobre ter usado aquilo que eu considerava prova de amor como instrumento para conquistar minha confiança.
Quando percebeu que eu não mudaria de ideia, ficou irritado.
— Você vai jogar fora tudo que vivemos por causa de uma conversa idiota?
Eu encarei o homem diante de mim e pensei em quantas vezes havia interpretado aquela impaciência como cansaço.
— Não.
Abri a porta.
— Estou jogando fora porque finalmente descobri o que nós vivemos para você.
Ele saiu sem levar nada.
Naquela mesma noite, tranquei a porta e empurrei uma cadeira contra ela, embora soubesse que não impediria Lucas de entrar se ainda tivesse a chave.
Não dormi.
De manhã, liguei para um chaveiro indicado pelo condomínio e troquei a fechadura.
Depois mandei uma mensagem curta para Lucas:
“Nosso relacionamento terminou. Suas coisas serão separadas e você poderá retirar tudo em horário combinado, acompanhado pelo porteiro. Não entre no apartamento sem minha autorização.”
Ele ligou seis vezes.
Não atendi.
No trabalho, contei à minha melhor amiga apenas o necessário. Ela me abraçou, mas eu pedi que não falasse mal dele.
Eu ainda estava tentando organizar o que sentia.
Raiva era só uma parte.
Havia vergonha.
Nojo.
E uma sensação difícil de explicar, como se eu tivesse sido enganada não apenas sobre quem Lucas era, mas sobre quem eu mesma havia sido ao lado dele.
Naquela tarde, Helena formalizou o cancelamento do evento. Pagou apenas o que já estava previsto no contrato e pediu que os fornecedores fossem avisados de que a cerimônia não aconteceria.
Não me procurou para conversar.
Eu agradeci por isso.
Eu não precisava transformar nossa dor em amizade imediata.
Nós duas tínhamos sido enganadas de maneiras diferentes.
Nos dias seguintes, Lucas alternou entre mensagens de desculpa e irritação.
“Eu estava errado.”
“Você também está exagerando.”
“Eu realmente pensava em você.”
“Não precisa destruir minha vida.”
“Podemos resolver isso como adultos.”
A frase que mais me marcou foi justamente a última.
Como adultos.
Eu tinha passado mais de um ano construindo uma vida adulta com um personagem inventado.
Na sexta-feira, procurei uma advogada indicada pela minha melhor amiga. Não queria processar ninguém nem transformar aquilo numa guerra. Queria apenas saber onde eu estava pisando.
Levei a escritura, a matrícula atualizada e os comprovantes que Lucas tinha deixado comigo na época da compra.
A advogada analisou tudo.
— O imóvel está registrado exclusivamente no seu nome.
— Mas foi ele que pagou.
— Isso pode gerar discussão dependendo do que ele alegar e dos documentos existentes, mas a propriedade registrada não desaparece porque ele se arrependeu.
Ela mostrou a matrícula.
— Não há cláusula de reversão aqui. Não existe nenhum documento dizendo que o imóvel voltaria para ele se vocês terminassem.
Respirei um pouco melhor.
— Ele pode simplesmente tomar de volta?
— Simplesmente? Não.
Ela foi cuidadosa.
— Ele poderia tentar discutir judicialmente a origem do dinheiro ou alegar alguma situação específica. Mas teria de sustentar isso formalmente. Você não precisa assinar transferência nenhuma por medo.
Saí dali sem sensação de vitória.
Aquele apartamento ainda tinha cheiro de Lucas.
Na sala havia a caneca que ele usava aos domingos.
No banheiro, o barbeador.
No quarto, duas camisas penduradas.
Eu não queria ganhar nada dele.
Queria apenas parar de ser manipulada.
Por isso tomei uma decisão pequena, mas importante.
Separei todas as coisas de Lucas em caixas, fotografei o conteúdo e deixei tudo organizado para retirada.
Depois desliguei o compartilhamento de localização, troquei as senhas dos serviços que usávamos juntos e removi o acesso dele às contas domésticas.
Não era vingança.
Era limite.
Lucas apareceu no sábado, acompanhado pelo porteiro, como eu havia exigido.
Quando viu as caixas perto da porta, seu rosto mudou.
— Você fez isso mesmo.
— Fiz.
— Nem vai me deixar entrar?
— Não.
Ele me encarou por alguns segundos.
— Clara, eu ainda posso consertar.
— Não pode.
— Você nem me deu oportunidade.
Aquilo despertou uma raiva que eu vinha segurando.
— Eu te dei um ano e quatro meses.
Minha voz saiu firme.
— Você teve centenas de oportunidades para dizer a verdade.
Ele olhou para o chão.
— Eu tinha medo de perder você.
— Então escolheu me manter através de uma mentira.
Lucas pegou a primeira caixa.
Antes de ir embora, perguntou:
— E o apartamento?
— O que tem?
— Vamos precisar resolver isso.
— Se você quiser discutir o imóvel, fale com minha advogada.
Pela primeira vez, não vi superioridade no rosto dele.
Vi surpresa.
Talvez Lucas tivesse passado tempo demais acreditando que a minha confiança significava incapacidade de reagir.
Na segunda-feira de manhã, recebi uma correspondência no trabalho.
Era uma notificação extrajudicial enviada por um escritório que representava a família Duarte.
O documento exigia que eu comparecesse a uma reunião para tratar da “devolução voluntária” do apartamento.
No último parágrafo havia uma frase destacada:
“Na ausência de acordo, serão avaliadas as medidas judiciais cabíveis.”
Fiquei olhando para aquelas palavras.
Então peguei o telefone.
Dessa vez, eu não liguei para Lucas.
Liguei para minha advogada.
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