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O funcionário da empresa parceira zombou da minha aparência — e o chefe dele ainda pediu que eu relevasse

Parte 3

Na manhã seguinte, cheguei à sala do comitê com vinte minutos de antecedência. Não queria entrar ali movida pela raiva que ainda sentia de Thiago nem pela irritação que Carlos havia provocado. Passei novamente pelos números, pelos prazos e pelas cláusulas do contrato até conseguir separar três coisas que, para mim, já estavam muito claras: respeito profissional, risco operacional e interesse da Estelar.

Carlos entrou acompanhado do gerente de projetos da Áurea. Thiago não veio. A ausência dele não me surpreendeu, mas o diretor da Áurea fez questão de explicar antes mesmo que alguém perguntasse.

— Achamos melhor não expor o rapaz novamente.

Não respondi.

Meu diretor executivo abriu a reunião.

— Estamos aqui para decidir se a implantação segue com a Áurea, se há necessidade de medidas corretivas adicionais ou se retomamos o processo com outro fornecedor. Quero fatos e impactos. Nada além disso.

Carlos se inclinou para a frente.

— Perfeito. Então vamos começar pelo fato mais importante: a Áurea cumpriu todos os requisitos técnicos até aqui.

Concordei.

— Cumpriu a parte técnica da fase de seleção.

Ele pareceu satisfeito com minha resposta.

— Exato. Temos preço competitivo, cronograma aprovado e uma equipe que já conhece o projeto. Trocar agora custa dinheiro e tempo. Tudo porque um funcionário fez uma piada infeliz.

Coloquei diante de mim a resposta formal enviada pela empresa.

— Não estamos aqui apenas por causa de uma piada infeliz.

Carlos sorriu de lado.

— Lívia, todos sabemos o que aconteceu.

— Sabemos?

Abri o primeiro registro.

— Em maio, numa reunião de escopo, Thiago disse a uma analista nossa que cabelo preto fazia com que ela parecesse mais velha.

Abri outro.

— Em junho, comentou sobre as pernas de outra profissional e disse como ela deveria se vestir para escondê-las.

Mais um.

— Em agosto, fez comentários sobre o peso de uma integrante da equipe durante um intervalo.

O sorriso desapareceu.

— Ontem, fez comentários sobre o meu rosto e sobre eu não usar maquiagem.

O gerente da Áurea abaixou os olhos.

Carlos tentou manter a voz controlada.

— Esses relatos foram produzidos depois da discussão de ontem. Isso precisa ser colocado em perspectiva.

— Concordo. Por isso não os tratei como prova absoluta.

Empurrei uma folha na direção dele.

— Perguntamos à sua empresa se havia recebido reclamações anteriores. Vocês responderam que não encontraram registros formais.

— Exatamente.

— Mas também disseram que não entrevistaram as pessoas da própria equipe que participaram dessas reuniões.

Ele apertou os lábios.

O representante de suprimentos da Estelar entrou na conversa.

— O problema que estamos avaliando não é apenas a conduta individual. É a capacidade do fornecedor de responder adequadamente quando uma conduta inadequada é reportada.

Carlos virou-se para ele.

— E respondemos.

— Chamando de ruído de comunicação — observei.

Peguei a manifestação da Áurea.

— Seu documento não reconhece o que foi dito, não apresenta procedimento de apuração, não define ação preventiva e nem sequer informa se Thiago continuará responsável pela nossa conta.

— Nós o advertimos verbalmente.

— E ele foi mandado de volta à sala para pedir desculpas.

Carlos abriu os braços.

— Sim.

— Você sabe como foi o pedido de desculpas?

Ele não respondeu.

Repeti as palavras principais de Thiago: que era apenas sincero, que eu era sensível demais, que eu não deveria transformar tudo em problema e que uma diretora importante não devia perseguir um funcionário pequeno.

Meu diretor executivo franziu a testa.

Carlos olhou para o gerente sentado ao lado dele.

— Foi isso?

O homem demorou a responder.

— Mais ou menos.

— Mais ou menos como?

O gerente esfregou as mãos.

— Ele… não estava muito disposto a pedir desculpas.

Foi a primeira rachadura.

Até aquele momento, Carlos parecia realmente acreditar que o funcionário tinha sido levado até mim, dito “desculpe” e encerrado o assunto. A expressão dele mudou.

— Você me disse que estava resolvido.

O gerente engoliu em seco.

— Achei que seria suficiente.

Não senti vitória.

Aquilo apenas confirmava uma coisa mais incômoda: dentro da Áurea, o problema tinha sido empurrado de uma pessoa para outra até chegar ao diretor como uma versão suavizada.

— É justamente isso que me preocupa — falei. — Um funcionário age de forma inadequada. O gerente chama de brincadeira. O diretor recebe a versão de que foi um mal-entendido. E, no final, quem reclama passa a ser tratado como a pessoa que criou o problema.

Carlos se recostou na cadeira.

— Certo. Admito que a condução não foi boa. Podemos corrigir isso.

O diretor executivo me olhou.

— Lívia, fale da alternativa operacional.

Abri o arquivo da segunda fornecedora.

— A Horizonte Sistemas mantém capacidade técnica para assumir o projeto. O custo anual é aproximadamente quatro por cento maior na configuração atual. A entrada completa exigiria três semanas extras.

Carlos soltou uma risada curta.

— Então está aí. Vocês perderiam três semanas e pagariam mais.

— Se simplesmente trocássemos hoje, sim.

Mudei a página.

— Mas não precisamos fazer isso dessa maneira.

Meses antes, ainda durante a seleção, eu havia dividido a implantação em módulos porque não queria que nenhuma fornecedora tivesse acesso simultâneo a todas as etapas sem validação. Aquilo não tinha sido criado para a situação de Thiago. Era apenas a forma como eu costumava reduzir risco de implantação.

Os dois primeiros módulos podiam permanecer temporariamente internos por algumas semanas.

A Horizonte assumiria o terceiro e prepararia a migração dos demais na sequência.

O impacto líquido no cronograma cairia para oito dias úteis.

O custo adicional também seria menor no primeiro ano porque alguns serviços opcionais da proposta original da Áurea seriam retirados.

Carlos folheou os números.

— Ainda assim, vocês teriam impacto.

— Claro.

Fechei a pasta.

— Uma decisão séria sempre tem custo. O que precisamos decidir é qual custo faz sentido assumir.

Meu diretor executivo perguntou:

— Você recomenda encerrar o contrato imediatamente?

Balancei a cabeça.

— Não.

Carlos pareceu surpreso.

— Recomendo seguir o procedimento previsto. A Áurea ainda está dentro do prazo contratual para apresentar um plano corretivo adequado. Se fizer isso, o comitê pode avaliar a continuidade. Se insistir em negar o problema, temos uma alternativa operacional viável.

Foi importante dizer aquilo.

Eu não queria que ninguém saísse daquela sala acreditando que eu estava procurando uma justificativa para punir uma empresa inteira por causa de um homem.

Queria que a responsabilidade ficasse exatamente onde devia ficar.

Carlos respirou fundo.

— O que vocês considerariam uma correção adequada?

O representante de suprimentos respondeu primeiro:

— Apuração formal, substituição do profissional responsável pela conta durante a investigação, protocolo claro para ocorrências de conduta e treinamento da equipe de atendimento.

Acrescentei:

— E um pedido de desculpas que reconheça o comportamento. Sem “se você se sentiu ofendida”. Sem me chamar de sensível. Sem insinuar que quem denuncia é culpado pelo desconforto criado.

Carlos assentiu lentamente.

Parecia, pela primeira vez, ouvir o que estávamos dizendo.

A reunião terminou sem uma decisão definitiva. A Áurea recebeu mais dois dias úteis para apresentar uma correção completa. Até lá, a suspensão da implantação permaneceria.

Quando todos saíram, Larissa estava me esperando perto da minha sala.

— E aí?

— Ainda não acabou.

Ela fez uma expressão frustrada.

— Achei que vocês iam mandar a Áurea embora hoje.

— E se eles corrigirem o problema?

— Você continuaria com eles?

Sentei-me.

— Talvez.

Ela pareceu decepcionada, e eu entendi.

— Larissa, proteger vocês não significa tomar a decisão que causa mais dano a quem errou. Significa garantir que o comportamento pare, que haja consequência e que ninguém precise aceitar isso de novo.

Ela ficou pensando.

— Faz sentido.

— Se a empresa aprender alguma coisa e mudar, ótimo. Se não aprender, temos outra fornecedora.

Naquela tarde, recebi uma mensagem inesperada do gerente de projetos da Áurea.

Ele não tentou me convencer de nada.

Perguntou apenas se poderia encaminhar, pelos canais formais, uma informação que considerava relevante para a apuração interna.

Respondi que sim.

Uma hora depois, a Áurea enviou uma atualização oficial.

Thiago já tinha recebido, meses antes, duas orientações informais de colegas por comentários semelhantes dentro da própria empresa. Nenhuma havia virado advertência formal.

Não era um documento mágico que resolvia tudo.

Era pior justamente porque mostrava uma sequência banal de pequenas omissões.

Alguém ouvira.

Alguém achara desagradável.

Alguém pedira que ele parasse.

Depois todos continuaram trabalhando.

E Thiago aprendeu que a consequência máxima de humilhar uma mulher era alguém dizer: “Pega leve”.

Na manhã seguinte, Carlos me ligou.

O tom era completamente diferente.

— Lívia, eu lhe devo um pedido de desculpas.

Não falei nada.

— Ontem eu disse que você precisava separar o pessoal do profissional. Agora percebo que fui eu quem tratou um problema profissional como se fosse apenas uma questão de sensibilidade pessoal.

Ele respirou fundo.

— Nossa investigação encontrou outros episódios.

— Eu imaginei.

— Thiago foi retirado de qualquer contato com clientes enquanto o processo interno acontece. Também vamos substituir a gestão da sua conta.

— E o plano formal?

— Será enviado hoje.

Aquela poderia ter sido a resolução.

Mas, perto das quatro da tarde, Júlio entrou na minha sala com o rosto tenso.

— Lívia, precisamos conversar.

Ele fechou a porta.

— Thiago acabou de mandar mensagens para duas pessoas da nossa equipe.

Meu estômago apertou.

— O que ele disse?

Júlio colocou o celular sobre a mesa.

Thiago não ameaçava ninguém.

Não confessava nenhum grande segredo.

Fazia algo mais previsível.

Dizia que estava “pagando pela frescura da diretora”, que as meninas da Estelar tinham se juntado para prejudicá-lo e que, se perdesse o emprego, todos deveriam saber de quem era a culpa.

Em outra mensagem, escreveu:

“Ela quer mostrar poder. Vamos ver até onde vai quando o projeto começar a atrasar.”

Larissa estava entre as pessoas que receberam aquilo.

Li tudo duas vezes.

Na segunda, já não senti raiva.

Senti clareza.

Até então eu ainda acreditava que talvez estivéssemos diante de um homem inconveniente que precisava aprender limites.

Aquelas mensagens mostravam outra coisa.

Ele conhecia perfeitamente o limite.

Só estava revoltado porque, pela primeira vez, alguém o havia obrigado a respeitá-lo.

Peguei meu celular e liguei para Carlos.

— Recebemos novas mensagens do Thiago.

A voz dele mudou na hora.

— O quê?

— Vou encaminhá-las pelos canais oficiais agora. Não quero que ninguém fale diretamente com ele.

— Lívia, eu…

Interrompi sem levantar a voz.

— Carlos, o prazo para o plano de correção continua sendo hoje. Mas, da minha parte, uma coisa mudou.

— O quê?

Olhei para Larissa, Patrícia e Júlio diante de mim.

— Thiago não volta a ter contato com nenhuma pessoa da minha equipe. Isso não está mais em negociação.

Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖

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