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Fui ao cartório casar por raiva e descobri que já era esposa do meu melhor amigo havia meses

Parte 3

O almoço ficou marcado para domingo.

Passei o sábado inteiro tentando inventar uma desculpa para cancelar. Lucas rejeitou todas.

— Minha mãe está doente.

— Você falou com ela há dez minutos.

— Meu pai está doente.

— Ele acabou de mandar mensagem perguntando se eu gosto de churrasco.

— Eu estou doente.

Lucas colocou a mão na minha testa.

— Sem febre.

Afastei a mão dele.

— Você está se divertindo demais com isso.

— Talvez um pouco.

Foi então que percebi que ele realmente estava relaxado.

Eu, por outro lado, não conseguia parar de pensar na pergunta que Talita havia jogado no restaurante.

Ela tinha ciúme de mim havia quanto tempo?

E por quê?

No domingo, Lucas apareceu na minha casa usando uma camisa azul que eu mesma tinha comprado para ele no aniversário anterior. Quando perguntei por que havia escolhido justamente aquela, respondeu como se fosse óbvio:

— Sua mãe gosta quando eu venho arrumado.

Aquela frase mexeu comigo de um jeito estranho.

Minha mãe gostava de Lucas.

Meu pai também.

Eles o conheciam havia anos.

O almoço deveria ser um desastre.

Foi pior.

Minha mãe abriu a porta, olhou primeiro para mim, depois para Lucas e ficou completamente imóvel.

— Não.

Lucas sorriu.

— Boa tarde, dona Helena.

Ela apontou para ele.

— Você?

Meu pai apareceu atrás dela.

— Quem é?

Quando viu Lucas, levou alguns segundos para entender.

Depois começou a rir.

— Eu sabia!

— Sabia o quê? — perguntei.

Ele abriu a porta.

— Entrem antes que sua mãe desmaie no corredor.

Mal nos sentamos, as perguntas começaram.

Quando casamos?

Por que não contamos?

Onde foi?

Quem pediu quem?

Por que não houve festa?

Eu e Lucas trocávamos olhares desesperados, tentando contar uma versão que não nos fizesse parecer dois irresponsáveis bêbados.

No fim, falamos a verdade.

Quase toda.

Dissemos que tínhamos bebido depois de um momento difícil, tomado uma decisão impulsiva e só descoberto a extensão daquilo meses depois.

Minha mãe ficou em silêncio.

— Então vocês vão se divorciar?

Abri a boca.

Lucas respondeu primeiro:

— Ainda não decidimos.

Virei o rosto para ele.

A frase não estava combinada.

Minha mãe olhou para mim.

— Júlia?

A pressão familiar que vinha me irritando havia meses voltou imediatamente.

Só que, daquela vez, eu não queria fugir.

— Mãe, eu preciso te pedir uma coisa.

Ela franziu a testa.

— O quê?

— Para de decidir que estar solteira significa que minha vida está incompleta.

A mesa ficou quieta.

Continuei antes que perdesse a coragem.

— Eu aceitei sair com pessoas que nem me interessavam porque vocês faziam parecer que eu estava atrasada. Hoje eu quase me casaria por raiva se não tivesse descoberto que já tinha feito isso antes.

Meu pai baixou os olhos.

Minha mãe tentou falar.

— Eu só queria…

— Eu sei que você quer me ver feliz. Mas felicidade não é cumprir prazo.

Ela respirou fundo.

Não pediu desculpas imediatamente.

Também não discutiu.

Depois de alguns segundos, apenas assentiu.

— Tá bom. Eu passei do limite.

Foi uma frase simples.

Mesmo assim, senti algo afrouxar dentro de mim.

Durante a sobremesa, meu pai começou a contar histórias da adolescência.

Falou da vez em que Lucas apanhou de três garotos porque tentou me defender.

Lucas protestou.

— Não apanhei.

— Voltou para casa com o nariz sangrando.

— Detalhes.

Minha mãe riu.

— E aquela vez em que a Júlia ficou duas horas no pronto atendimento porque você quebrou o braço?

— Ela não precisava ter ficado — Lucas respondeu.

— Precisava, sim — falei. — Você estava chorando.

— Eu tinha dezesseis anos!

Nós dois começamos a discutir.

Meus pais ficaram olhando.

Foi minha mãe quem sorriu primeiro.

Depois do almoço, enquanto eu ajudava a recolher os pratos, ela se aproximou.

— Posso falar uma coisa sem você ficar brava?

— Depende.

— Eu sempre achei que vocês dois acabariam juntos.

Revirei os olhos.

— Mãe.

— Não estou mandando você ficar com ele.

Ela diminuiu a voz.

— Só estou dizendo que nunca vi você confiar em ninguém como confia naquele homem.

Olhei pela porta da cozinha.

Lucas estava na varanda com meu pai, discutindo futebol.

— Confiança não significa amor.

— Eu sei.

Minha mãe voltou a empilhar os pratos.

— Mas amor sem confiança costuma durar menos.

Não respondi.

Na volta para casa, fiquei silenciosa.

Lucas percebeu.

— O que foi?

— Nada.

— Mentira.

Olhei pela janela.

— Minha mãe disse que sempre achou que a gente ia acabar junto.

O carro ficou estranhamente quieto.

Lucas não riu.

— E você respondeu o quê?

— Que confiança não é amor.

— Faz sentido.

Esperei alguma piada.

Ela não veio.

Virei para ele.

— Só isso?

— O que você quer que eu diga?

— Não sei.

Ele estacionou diante do meu prédio.

Ficamos ali.

Eu poderia ter descido.

Não desci.

— Lucas.

— Hum?

— Você já pensou nisso?

A mão dele parou sobre o câmbio.

— Nisso o quê?

— Em nós dois.

Ele olhou para frente.

A demora foi uma resposta.

Meu estômago se contraiu.

— Já.

A palavra saiu baixa.

— Quando?

Lucas soltou o ar lentamente.

— Algumas vezes.

— Algumas?

Ele deu uma risada nervosa.

— Júlia, você quer mesmo ter essa conversa aqui dentro do carro?

— Quero.

Ele esfregou o rosto.

— Tá bom.

Depois me encarou.

— Antes da Talita, eu já tinha pensado.

Senti o coração bater mais forte.

— E durante?

— Durante meu namoro eu parei de pensar porque estava comprometido com outra pessoa.

— E agora?

Lucas ficou calado.

Eu odiei a quantidade de coisas que consegui imaginar naquele silêncio.

Finalmente, ele falou:

— Agora ficou complicado.

— Porque somos casados?

— Porque você continua sendo minha melhor amiga.

Olhei para minhas mãos.

— Então a Talita tinha razão.

— Não.

A resposta veio firme.

— Ela tinha razão em perceber que você era importante para mim. Não tinha direito de me trair, nem de te culpar por isso.

Assenti.

Lucas continuou:

— Eu nunca fiquei com você enquanto estava com ela. Nunca prometi nada para você. Nunca usei nossa amizade como desculpa para desrespeitar meu relacionamento.

— Eu sei.

— E eu também nunca te contei que já tinha pensado em nós porque você nunca me deu sinal de que queria isso.

Ri, sem graça.

— Talvez porque eu também nunca tenha entendido direito.

Ele virou o corpo na minha direção.

— Júlia, escuta. Eu não quero que esse casamento acidental vire uma armadilha para você.

Aquilo doeu.

— Armadilha?

— Você passou meses tentando satisfazer sua família. Hoje mesmo quase casou com outro homem por pressão. Eu não vou usar um papel para te empurrar para uma relação comigo.

Fiquei olhando para ele.

Lucas engoliu em seco.

— Se você quiser o divórcio, eu assino.

Meu peito apertou.

— E se eu não quiser?

Pela primeira vez, ele perdeu completamente a segurança.

— Aí eu preciso saber por quê.

Não consegui responder.

Subi para meu apartamento e passei a noite acordada.

O problema já não era mais descobrir por que eu havia me casado.

O problema era entender por que a ideia de deixar de ser esposa de Lucas de repente parecia tão dolorosa.

Nos dias seguintes, evitamos o assunto.

Não evitamos um ao outro.

Lucas continuou me mandando fotos absurdas no horário do almoço.

Eu continuei reclamando quando ele esquecia de comer.

Na quarta-feira, ele apareceu na minha porta com café.

— Você está me evitando.

— Você também.

— Eu estou te dando espaço.

— Parece a mesma coisa.

Ele entrou.

Sentamos na sala.

— Eu pensei — falei.

Lucas ficou sério.

— E?

— Quero continuar com o processo de divórcio.

Vi a decepção atravessar o rosto dele antes de desaparecer.

Foi rápido.

Mas eu vi.

— Certo.

Ele assentiu.

— Se é isso que você quer…

— Não terminei.

Lucas me encarou.

— Eu quero continuar porque não quero ficar casada com você por acidente.

Ele franziu a testa.

— Júlia…

— Se algum dia existir alguma coisa entre nós, eu quero saber que aconteceu porque nós dois escolhemos.

Meu coração parecia bater na garganta.

— Não porque eu estava bêbada. Não porque minha família me pressionou. Não porque você ficou com pena de mim.

Lucas permaneceu imóvel.

— Então o que você está dizendo?

Respirei fundo.

— Estou dizendo que talvez eu queira descobrir se existe um “nós”.

Ele deu um passo na minha direção.

Parei imediatamente.

— Mas tem uma condição.

— Qualquer uma.

— Você não vai decidir por mim.

A expressão dele mudou.

Mais séria.

— Nunca.

— E eu também não vou usar nossa amizade como esconderijo.

Lucas assentiu.

Estendi a mão.

— Então começamos do zero.

Ele olhou para minha mão.

Depois sorriu.

— Tipo primeiro encontro?

— Exatamente.

— Mesmo já sendo meu cônjuge no sistema?

— Não estraga o momento.

Lucas segurou minha mão.

O toque era familiar.

Mas, pela primeira vez, pareceu completamente novo.

Naquela noite, antes de ir embora, ele parou na porta.

— Júlia.

— O quê?

— Nosso primeiro encontro pode ser sexta?

Sorri.

— Pode.

Ele sorriu também.

Então o celular dele tocou.

O nome na tela fez o sorriso desaparecer.

Talita.

Lucas recusou a chamada.

Imediatamente, chegou uma mensagem.

Ele leu.

Seu rosto endureceu.

— O que ela quer?

Lucas hesitou.

Depois virou a tela na minha direção.

“Precisamos conversar. Tem uma coisa sobre você e a Júlia que eu deveria ter falado antes.”

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