Meu amigo de infância usou minhas fotos para namorar online e, na noite da minha declaração, descobri toda a mentira
Parte 4
Cheguei à cafeteria dez minutos antes do horário combinado.
Escolhi uma mesa próxima à entrada, onde havia funcionários circulando e outras pessoas por perto. Não porque acreditasse que Caio fosse me agredir, mas porque finalmente compreendia que confiança não era uma obrigação.
Ele chegou às duas em ponto.
Estava sem o terno da noite anterior, usando camiseta escura e calça jeans. Parecia ter dormido pouco.
Sentou-se diante de mim.
— Seus pais sabem que você está aqui?
— Sabem.
A pergunta o irritou.
— Agora precisa pedir proteção para falar comigo?
— Não pedi proteção. Apenas parei de esconder dos outros o que está acontecendo.
Ele desviou o rosto.
Durante alguns segundos, ouvi apenas a máquina de café trabalhando atrás do balcão.
— Júlia, eu pensei muito ontem.
Esperei.
— Eu errei.
Não respondi.
Caio respirou fundo.
— Eu não devia ter usado suas fotos.
— Continue.
Ele franziu a testa.
— Continuar o quê?
— Você não usou apenas minhas fotos.
Apontei para o celular dele.
— Usou minhas conversas, meus horários, minhas histórias e até coisas que eu te contava porque confiava em você.
— Tá bom. Isso também.
— E ameaçou seus amigos para ninguém me contar.
Ele apertou os lábios.
— Eu estava com raiva.
— Isso não é explicação.
— Meu pai tem negócios com as famílias deles. Eu só falei…
— Eu ouvi o que você falou.
Caio passou a mão pelo rosto.
— O que você quer de mim, afinal?
Coloquei sobre a mesa uma folha com três pontos escritos.
Não era um contrato mágico nem um documento capaz de resolver tudo. Era apenas a lista do que eu exigia para encerrar qualquer contato direto entre nós.
— Primeiro: você vai apagar tudo que guardou para fingir ser eu. Segundo: vai enviar para Rafael, na minha frente, uma mensagem dizendo que foi você quem criou a conta e que eu nunca participei daquilo. Terceiro: vai escrever no grupo dos seus amigos que ninguém tem autorização para manter, encaminhar ou usar minhas fotos.
Ele soltou uma risada incrédula.
— Você quer me humilhar.
— Não.
Inclinei-me um pouco para a frente.
— Eu quero meu nome de volta.
Caio ficou me encarando.
— E se eu não fizer?
Peguei meu celular.
— Então eu sigo com o que já estou preparando. Tenho os registros enviados por Rafael, minhas conversas originais com você e a mensagem que você me mandou esta manhã tentando me intimidar. Minha família já sabe. E, se for necessário, vou registrar formalmente o uso indevido das minhas imagens e da minha identidade.
Ele ficou rígido.
— Você faria isso comigo?
A pergunta quase me fez rir.
Não de humor.
De cansaço.
— Curioso você perguntar o que eu faria com você depois de passar um mês sem perguntar o que estava fazendo comigo.
Caio baixou os olhos.
Durante toda nossa infância, ele sempre soube me convencer a ceder.
Quando pegava meu material sem pedir, sorria.
Quando esquecia um compromisso, aparecia com alguma sobremesa.
Quando dizia algo cruel durante uma discussão, bastava aparecer no dia seguinte fingindo que nada havia acontecido.
Eu ajudara a construir aquele hábito também.
Sempre facilitara sua volta.
Naquela mesa, decidi que não faria isso novamente.
— Abra o celular — falei.
Caio hesitou.
— Júlia…
— Você perguntou o que eu queria. É isso.
Ele finalmente desbloqueou o aparelho.
A conta falsa ainda estava instalada.
Meu peito apertou quando vi minha foto no perfil.
Meu nome.
Minha idade.
Até uma frase que eu costumava colocar nas minhas redes sociais havia sido copiada para a descrição.
— Apaga.
Ele tocou na tela.
Antes de confirmar, parou.
— Rafael também mentiu para você.
— Sobre o quê?
— Ele não veio até Campinas só por acaso. Queria encontrar você.
— Eu sei.
Caio pareceu surpresendido.
— Ele me contou. A pessoa que você fingia ser havia concordado em conversar sobre um encontro depois da festa. Foi por isso que ele estava perto do hotel.
O rosto de Caio mudou.
Talvez tivesse esperado que aquela informação me assustasse.
Não assustou.
Era apenas mais uma consequência de uma mentira criada por ele.
— E você não acha isso estranho?
— Acho estranho você ter marcado um encontro usando meu rosto e depois estar preocupado porque a pessoa apareceu.
Caio não respondeu.
Confirmou a exclusão da conta.
Depois abriu a galeria.
Havia uma pasta com meu nome.
Senti meus dedos ficarem frios.
Mais de cem arquivos.
Fotos minhas no ônibus.
Na biblioteca.
Em casa.
No espelho.
Na praia com minha família.
Algumas eu nem lembrava de ter enviado.
Caio percebeu minha expressão.
— Eu guardava antes disso.
— Por quê?
Ele demorou para responder.
— Porque eram suas.
Aquilo poderia ter parecido romântico para a Júlia de dois dias antes.
Para mim, naquele momento, parecia apenas triste.
— Apague.
Ele selecionou a pasta inteira.
— Nem todas foram enviadas para ele.
— Eu não perguntei quais foram.
Caio fechou os olhos.
Depois apagou.
Pedi também que esvaziasse a lixeira do aparelho.
Ele fez isso.
Em seguida, escreveu para Rafael:
“Fui eu que criei a conta e usei fotos e informações da Júlia sem autorização. Ela nunca conversou com você e não sabia de nada. Não procure responsabilizá-la pelo que eu fiz.”
Leu antes de enviar.
— Está bom?
— Envie.
A mensagem saiu.
Pouco depois apareceu como visualizada.
Rafael respondeu apenas:
“Entendido.”
Nada de ameaça.
Nada de insulto.
Caio pareceu quase decepcionado.
— É isso? — perguntou.
— Ainda falta o grupo.
— Júlia…
— O grupo.
Ele abriu a conversa com os amigos.
Escreveu algo curto demais.
“Apaguem as fotos da Júlia.”
— Não — falei.
— O quê?
— Escreva por quê.
Ele me encarou com raiva.
— Você quer mesmo fazer todo mundo saber?
— Todo mundo ali já sabia.
Caio ficou quieto.
Depois digitou novamente.
“Eu usei fotos da Júlia sem autorização para criar um perfil falso e vários de vocês receberam ou viram essas imagens. Apaguem tudo e não encaminhem nada. Ela não teve participação nisso.”
Ele enviou.
As confirmações começaram a aparecer.
Um amigo respondeu:
“Já apaguei.”
Outro:
“Também.”
O rapaz que havia admitido a verdade na noite anterior escreveu:
“Apagado. Júlia, se ela estiver vendo isso, eu sinto muito.”
Caio virou o celular para baixo.
— Pronto.
Olhei para ele.
— Pronto.
Ele respirou fundo e, pela primeira vez, sua voz perdeu completamente a arrogância.
— Então acabou mesmo?
Eu sabia do que ele estava falando.
Não era sobre a conta falsa.
Era sobre nós.
— Sim.
— Você nem vai me dar chance de consertar?
— Consertar não significa voltar ao que era.
— A gente se conhece desde criança.
— Justamente por isso doeu tanto.
Ele abaixou os olhos.
— Eu gostava de você também.
Meu coração se apertou, mas não da maneira que eu imaginara tantas vezes.
— Então por que queria aquela outra garota?
— Eu não sei. Era uma competição idiota. Todo mundo falava dela. Eu queria provar que conseguia.
— E comigo?
Caio ficou olhando para as próprias mãos.
— Com você eu achava que não precisava provar nada. Você sempre estaria lá.
A resposta fechou algo dentro de mim.
Não era amor.
Era certeza de posse.
Eu me levantei.
— Esse foi seu maior erro.
Ele também se levantou.
— Júlia, espera.
Parei, mas não voltei a sentar.
Caio respirou fundo.
— Eu sinto muito.
Dessa vez, não completou com “mas”.
Não disse que era brincadeira.
Não falou que eu estava exagerando.
Não culpou Rafael, os amigos, o jogo ou aquela garota da escola.
Apenas repetiu:
— Eu sinto muito pelo que fiz com você.
Assenti.
— Espero que um dia você realmente entenda por quê.
Saí da cafeteria.
Não fui direto para casa.
Caminhei durante quase uma hora pelas ruas movimentadas, sentindo o calor do fim de tarde e tentando organizar tudo que havia acontecido em menos de dois dias.
Algumas consequências vieram nas semanas seguintes.
A plataforma suspendeu a conta usada por Caio depois de analisar a denúncia e os registros enviados por Rafael. A história também se espalhou entre alguns amigos, mas não da forma explosiva que Caio temia.
Ninguém destruiu a vida dele.
Ninguém arruinou sua família.
Ele simplesmente deixou de controlar a narrativa.
Alguns amigos se afastaram.
Outros permaneceram próximos, mas já não riam quando ele transformava alguém em piada.
A garota pela qual ele havia entrado naquela competição também soube de parte da história e deixou claro que não queria envolvimento com ele.
Eu não comemorei nada disso.
Não precisava.
A consequência mais importante era outra: Caio já não tinha acesso automático à minha vida.
Quando as respostas das faculdades começaram a chegar, fui aprovada justamente no curso que havia colocado como primeira opção depois de sair daquela festa.
Minha mãe perguntou se eu tinha certeza de que queria ir.
— Tenho.
— Mesmo sendo mais longe?
Sorri.
— Principalmente porque foi a primeira escolha que fiz pensando só em mim.
Rafael e eu mantivemos um contato cauteloso.
Durante semanas, nossas conversas foram apenas sobre o que havia acontecido.
Ele respondia quando eu perguntava alguma coisa e nunca aparecia sem ser chamado.
Um dia, perguntei sobre as histórias que os amigos de Caio tinham contado.
Rafael respondeu:
“Briguei com um jogador há anos. Foi feio e me arrependo. Mas ninguém foi parar numa UTI por minha causa. A história aumentou cada vez que alguém contou.”
Depois acrescentou:
“Não espero que você confie em mim por causa disso.”
Gostei daquela frase.
Talvez porque ele não estivesse tentando me obrigar a acreditar.
Meses depois, pouco antes de eu me mudar para começar a faculdade, Rafael perguntou se poderia me pagar um café.
“Um café normal”, escreveu. “Sem jogo, sem perfil falso e sem ninguém fingindo ser outra pessoa.”
Fiquei olhando para a mensagem e sorri.
Não respondi imediatamente.
Eu ainda estava aprendendo que não precisava dizer sim só porque alguém queria alguma coisa de mim.
Depois de pensar, aceitei.
Não porque ele fosse o número um de algum servidor.
Não porque tivesse aparecido de maneira dramática naquela noite.
Muito menos porque eu precisasse substituir Caio por outra pessoa.
Aceitei porque, ao longo daqueles meses, Rafael havia respeitado todas as vezes em que eu disse “agora não”.
No café, ele parecia nervoso.
— Tem uma coisa que eu preciso esclarecer antes de qualquer coisa.
— O quê?
Ele ficou vermelho.
— Aquela frase ridícula na frente do hotel.
Eu não consegui impedir um sorriso.
— Qual delas?
— Você sabe muito bem qual.
— A de mostrar “aquilo”?
Ele cobriu o rosto com a mão.
— Meu Deus.
Dessa vez, eu ri.
Não da humilhação dele.
Ri porque finalmente aquela memória não tinha mais poder para me assustar.
— Relaxa — falei. — Você já pediu desculpas.
Ele abaixou a mão.
— Eu só não quero que nossa primeira conversa de verdade comece com uma mentira antiga.
Minha expressão ficou séria.
— Então não começa.
Conversamos por quase duas horas.
Sem personagens.
Sem fotos roubadas.
Sem alguém escolhendo respostas por mim.
Quando nos despedimos, Rafael não pediu promessa nenhuma.
— Boa sorte na faculdade, Júlia.
— Obrigada.
— Se quiser conversar algum dia, você sabe onde me encontrar.
Assenti.
Ele foi embora.
Eu também.
Caio ainda tentou entrar em contato algumas vezes nos meses seguintes. Não para ameaçar ou insistir em voltar, mas para pedir desculpas novamente.
Respondi apenas uma vez.
Disse que esperava que ele aprendesse alguma coisa com aquilo, mas que eu não pretendia reconstruir nossa amizade.
Ele respondeu:
“Eu entendo.”
E, dessa vez, respeitou.
No dia em que arrumei minhas malas para começar a faculdade, encontrei no fundo de uma gaveta uma caixa cheia de lembranças da infância.
Ingressos de cinema.
Fotos de escola.
Bilhetes escritos por Caio.
Guardei algumas.
Joguei outras fora.
Não precisei apagar minha infância para seguir em frente.
Só precisei aceitar que alguém fazer parte da minha história não lhe dava direito automático de participar do meu futuro.
Fechei a mala e olhei para a tela do computador.
A confirmação da matrícula estava aberta.
Meses antes, eu havia escolhido aquela faculdade num banheiro de hotel, com uma carta rasgada dentro de uma lixeira e o coração cheio de raiva.
Naquele momento, achei que estivesse apenas deixando de seguir Caio.
Só depois percebi que estava fazendo algo muito maior.
Eu estava começando a seguir a mim mesma.
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