Os pais de Helena brigaram pela guarda, mas ela apontou para mim — e então eu vi como tudo terminaria
Parte 3
Eu fiquei parada diante do celular até a tela apagar. Não abri a conversa, não procurei senha e não tirei o aparelho do lugar. O que eu tinha visto já era suficiente para me deixar com o estômago embrulhado: alguém estava dizendo exatamente o tipo de coisa que uma menina ferida pela ausência dos pais gostaria de ouvir.
Quando Helena voltou do banho, percebeu meu rosto.
— O que foi?
— Uma mensagem apareceu na tela do seu celular.
Ela avançou um passo e pegou o aparelho.
— Você mexeu?
— Não.
— Leu?
— Li o que apareceu na notificação.
A expressão dela mudou na hora.
— Então você fica espionando meu celular agora?
— Não. Mas se alguém está dizendo que vai tirar você daqui quando fizer quinze anos, nós vamos conversar.
Helena apertou os lábios.
— Ele não falou sério.
— Ótimo. Então não deve ser difícil me explicar.
Ela se fechou.
Durante quase vinte minutos, respondeu apenas “não é da sua conta”, “você não entende” e “ele gosta de mim”. Eu poderia ter confiscado o celular. Poderia ter ameaçado chamar os pais, proibir saídas, mudar Helena de escola e transformar a casa numa prisão.
A lembrança daqueles comentários me impediu.
Se eu fizesse Helena acreditar que todos queriam controlá-la, bastaria aquele rapaz dizer “só eu estou do seu lado” para vencer.
— Não vou discutir com você gritando — falei. — Mas também não vou fingir que isso é normal. Quantos anos ele tem?
— Dezesseis.
— De onde você conhece?
— De amigos.
— Que amigos?
Ela ficou em silêncio.
Esse silêncio me preocupou mais do que qualquer resposta.
Nos dias seguintes, procurei observar sem persegui-la. Descobri que o rapaz não estudava na escola dela e que Helena o conhecera pela internet. Uma colega tinha compartilhado um vídeo, ele começara a seguir várias meninas e depois passou a conversar diretamente com Helena.
Nada daquilo, isoladamente, provava um crime.
E foi justamente isso que tornou tudo mais difícil.
Ele sabia ser gentil.
Perguntava como tinha sido o dia dela. Lembrava de pequenas coisas. Mandava mensagem quando os pais esqueciam datas importantes. Dizia que Helena era “diferente das outras”. Quando ela reclamava de mim, ele concordava.
O problema apareceu aos poucos.
Primeiro, ele dizia que as amigas tinham inveja.
Depois, que professores queriam humilhá-la.
Em seguida, que eu só me preocupava com as notas porque receberia dinheiro dos pais se ela entrasse na universidade.
Essa última frase não tinha surgido do nada.
Helena sabia do contrato.
Eu mesma tinha contado quando ela fez doze anos porque não queria que descobrisse por outra pessoa.
Expliquei que o bônus e a casa existiam, mas também disse que ela não me devia uma aprovação em universidade nenhuma. Se quisesse fazer faculdade, eu ajudaria. Se escolhesse outro caminho responsável, continuaríamos conversando.
Mesmo assim, a existência daquele contrato era uma arma fácil nas mãos de quem quisesse colocar nós duas uma contra a outra.
— Ele disse que você só é legal comigo porque quer ficar rica — Helena disparou certa noite.
Aquilo doeu.
Mas eu não respondi com raiva.
— E você acredita nisso?
— Não sei.
— Então pense. Não precisa me defender e não precisa defender ele. Pense no que você viveu comigo.
Ela desviou os olhos.
— Você vai ganhar esta casa.
— Talvez. Se o contrato for cumprido.
— Então pronto.
— Helena, escute uma coisa. Se amanhã seus pais cancelarem esse contrato e eu nunca receber esta casa, você acha que eu vou parar de me preocupar quando alguém tentar convencer você a abandonar os estudos e fugir?
Ela não respondeu.
Peguei a pasta onde mantinha cópias dos relatórios mensais.
Não coloquei nas mãos dela como se aquilo fosse uma grande prova de inocência. Apenas abri algumas páginas.
Havia mensagens minhas para os pais pedindo que comparecessem às reuniões escolares, pedidos para que participassem dos aniversários, avisos de que Helena estava sentindo falta deles.
As respostas eram curtas.
“Estou fora do país.”
“Resolva você.”
“Transfira o valor necessário.”
“Não posso nesse fim de semana.”
Helena leu duas páginas e empurrou a pasta para longe.
Os olhos estavam cheios de lágrimas.
— Para.
Fechei tudo imediatamente.
— Tudo bem.
— Eu não quero ver isso.
— Então não veja.
Ela subiu para o quarto.
Naquela noite, não fomos jantar juntas.
No dia seguinte também quase não conversamos.
Mesmo assim, uma mudança pequena aconteceu: Helena parou de dizer que o rapaz era o único que se importava com ela.
Não significava que tinha se afastado dele.
Pelo contrário.
Pouco depois de completar quinze anos, as notas começaram a cair.
Primeiro em matemática.
Depois em física.
Em seguida vieram duas faltas que eu não sabia explicar.
A escola me ligou na terceira.
Descobri que Helena tinha saído pelo portão no horário do almoço e não retornara para as aulas.
Quando chegou em casa, já perto das cinco, entrou sorrindo como se nada tivesse acontecido.
— Onde você estava?
O sorriso sumiu.
— Na escola.
— A coordenação me ligou.
Ela largou a mochila no sofá.
— Então você já sabe.
— Quero ouvir de você.
— Saí para encontrar ele.
Meu peito apertou.
— Onde?
— No shopping.
— Durante o horário de aula?
— Foi só uma vez.
— Foram três faltas.
Ela congelou.
— Estão controlando até isso?
— A escola registra presença, Helena. Isso não é perseguição.
Ela bufou.
— Você é insuportável.
— Pode achar isso. Mas amanhã vamos conversar com a coordenação.
— Eu não vou.
— Vai.
A discussão daquela noite foi a pior que já tivemos.
Helena gritou que eu não era mãe dela.
Eu respondi que ela tinha razão.
Depois fechei a boca.
Porque era verdade.
Eu não era a mãe dela.
E talvez parte do problema fosse justamente eu ter assumido tantas funções que os pais se sentiram ainda mais autorizados a desaparecer.
Na manhã seguinte, antes da reunião na escola, liguei para os dois.
Não mandei mensagem.
Liguei.
Minha patroa tentou dizer que estava em São Paulo e tinha compromissos.
Meu patrão disse que estava prestes a entrar numa reunião.
— Então remarquem — falei.
Houve silêncio na linha.
Nenhum dos dois estava acostumado a me ouvir daquela forma.
— Joana, nós pagamos você para lidar com isso — meu patrão respondeu.
— Vocês me pagam para cuidar dela. Não para ser pai e mãe no lugar de vocês.
Minha patroa soltou um suspiro irritado.
— O que você quer?
— Que pelo menos um dos dois esteja na escola hoje.
— Isso é exagero.
— Helena está faltando aula escondida para encontrar um rapaz que conheceu pela internet e que fala em tirá-la de casa. Se isso não merece duas horas da agenda de vocês, digam claramente. Eu coloco essa resposta no relatório deste mês.
Às onze e meia, minha patroa apareceu.
Chegou de salto alto, falando ao celular e olhando para o relógio.
Ainda assim, apareceu.
A coordenadora explicou as faltas e mostrou a queda no rendimento.
Helena manteve os braços cruzados.
Quando a mãe perguntou quem era o rapaz, ela respondeu:
— Alguém que pelo menos gosta de conversar comigo.
Minha patroa ficou pálida.
Por um instante, imaginei que finalmente tivesse entendido.
Mas a reação veio errada.
— Joana, como você deixou isso acontecer?
Eu senti algo dentro de mim mudar.
O futuro que eu tinha visto dizia que eles me culpariam.
Aquela era a primeira vez.
E, desta vez, eu não ia baixar a cabeça.
— Eu não “deixei” acontecer. Eu percebi, comuniquei, trouxe você até aqui e estou tentando impedir que piore.
Ela endureceu o rosto.
— Essa era sua responsabilidade.
— Não sozinha.
A coordenadora tentou diminuir a tensão.
Helena olhava de uma para a outra.
Minha patroa juntou a bolsa.
— Depois resolvemos isso em casa.
— Não — respondi. — Vamos começar a resolver aqui.
Pedi que Helena participasse da conversa sobre o que aconteceria dali em diante.
Nada de punições absurdas.
Ela recuperaria as aulas perdidas, teria acompanhamento nas matérias em que estava mal e manteria o celular, mas sem encontros escondidos durante horário escolar.
Minha patroa queria simplesmente bloquear o rapaz em todas as redes.
— Se fizer isso sem conversar, ela cria outra conta — eu disse.
Helena me lançou um olhar rápido.
Eu tinha acertado.
Na semana seguinte, ela iniciou acompanhamento com a psicóloga da escola e, depois, com uma profissional indicada pela família. Não porque estivesse “doente”, mas porque carregava há anos perguntas que eu, uma babá, não tinha formação nem direito de responder por ela.
No início, odiou.
Depois passou a ir sem reclamar.
As notas demoraram a reagir.
O relacionamento com o rapaz também não terminou.
Ele começou a dizer que terapia era uma maneira de “colocar coisas na cabeça dela”.
Quando Helena contou isso durante o jantar, deixei o garfo no prato.
— E o que você achou?
Ela deu de ombros.
— Estranho.
Foi a primeira vez que ela própria usou essa palavra para alguma atitude dele.
Meses depois, veio outra.
— Ele fica bravo quando eu saio com minhas amigas.
— E você acha isso normal?
— Antes eu achava fofo.
— E agora?
Helena mexeu no arroz.
— Agora cansa.
Eu não sorri.
Não comemorei.
Apenas deixei que ela continuasse pensando.
O problema é que relações assim raramente desaparecem de uma hora para outra.
Quando Helena se afastava, ele aparecia com pedidos de desculpa.
Quando ela reclamava, ele dizia que tinha medo de perdê-la.
Quando ela ameaçava terminar, lembrava todas as vezes em que os pais tinham faltado.
— Eu nunca faria isso com você — ele dizia.
Helena acreditava o suficiente para continuar.
Perto dos dezesseis anos, ela melhorou na escola, mas começou a falar cada vez mais em “ter liberdade”.
Certa sexta-feira, ouvi enquanto ela conversava no jardim.
— Eu disse que ainda não sei.
Houve uma pausa.
— Não, não contei para a Joana.
Outra pausa.
— Eu sei que depois vai ser tarde.
Quando ela entrou, perguntei diretamente:
— O que vai ser tarde?
Helena ficou branca.
— Nada.
— Não minta para mim.
Ela apertou o celular contra o peito.
— Ele recebeu uma proposta de trabalho no interior.
O ar pareceu desaparecer da sala.
— Onde?
— Numa propriedade rural de um conhecido.
— E o que isso tem a ver com você?
Helena não respondeu.
Minha voz saiu mais baixa.
— Ele pediu para você ir junto?
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
— Ele disse que a gente pode começar nossa vida.
Na mesma hora, os comentários que eu tinha visto oito anos antes voltaram à minha memória.
O rapaz loiro.
A fuga.
O lugar distante.
A menina que desapareceria da própria vida.
Aquela noite, porém, havia uma diferença enorme entre o futuro que eu vira e a garota diante de mim.
Helena tinha contado.
Mesmo com medo, mesmo pela metade, ela tinha contado.
Sentei na cadeira sem me aproximar demais.
— Você quer ir?
Ela chorou em silêncio.
— Eu não sei.
— Então não vá enquanto não souber.
— Ele disse que, se eu não for agora, acabou.
Respirei fundo.
— E alguém que ama você deveria exigir que você abandone escola, casa e segurança para provar amor?
Helena passou as mãos pelo rosto.
— Você não entende.
— Talvez não. Mas você também não precisa decidir sua vida hoje.
Ela subiu para o quarto.
Às duas da madrugada, acordei com um barulho no corredor.
Abri a porta.
A luz da entrada estava acesa.
A mochila grande de Helena não estava mais no armário.
E, sobre a mesa, havia apenas uma folha dobrada com três palavras escritas à mão:
“Não me procure.”
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