Minha mãe me abandonou aos três anos porque acreditava que eu destruiria uma família que eu nem conhecia
Parte 3
A palavra “grávida” fez meu corpo inteiro esfriar.
Eu nem precisei olhar para o ar para saber que os comentários voltariam. Eles surgiram quase imediatamente, atravessando minha visão como faziam desde meus três anos.
【Chegamos nessa parte!】
【O primeiro filho de Beatriz.】
【Agora só falta a escada.】
Senti vontade de mandar minha irmã embora, trancar a porta e nunca mais chegar perto dela. Em vez disso, puxei uma cadeira.
— De quantas semanas?
Beatriz sorriu, passando a mão pela barriga ainda quase plana.
— Onze.
Onze semanas.
Na história que aquelas vozes repetiam havia anos, eu empurraria Beatriz de uma escada depois que ela estivesse com Henrique. Ela perderia o bebê, e aquilo seria o ponto sem volta entre nós.
— Você ficou branca — ela disse. — Não gostou?
— Claro que gostei.
Minha resposta saiu depressa demais.
Beatriz estreitou os olhos.
— Desde criança você faz isso.
— Isso o quê?
— Fica feliz e assustada ao mesmo tempo quando alguma coisa boa acontece comigo.
Baixei o rosto.
Ela tinha razão.
Quando Beatriz passou na faculdade, fiquei feliz e depois passei semanas evitando ficar sozinha com ela. Quando começou a namorar Henrique, diminuí ainda mais minhas visitas. Quando anunciaram o noivado, inventei plantões, viagens de trabalho e compromissos que poderiam ter sido remarcados.
Eu dizia a mim mesma que estava protegendo Beatriz.
Na prática, estava desaparecendo da vida dela.
— Você acha que eu tenho inveja de você? — perguntei.
Minha irmã pareceu ofendida.
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Mesmo depois de tudo?
— Que tudo?
Não consegui explicar.
Como eu diria a uma mulher adulta que, desde pequena, via comentários flutuando no ar dizendo que eu destruiria a vida dela?
Como explicaria que nossa mãe biológica me abandonara porque acreditava na mesma história?
Beatriz ficou esperando.
Por fim, falei apenas:
— Tenho medo de machucar você.
Ela apoiou os braços na mesa.
— Você nunca me machucou.
— Ainda.
A palavra escapou.
O rosto dela mudou.
— O que significa “ainda”?
Respirei fundo.
— Significa que eu passei a vida inteira esperando o dia em que alguma coisa dentro de mim mudaria e eu viraria uma pessoa horrível.
Beatriz ficou quieta.
Contei então sobre a rodoviária.
Não o que todos já sabiam, mas o que eu nunca tivera coragem de dizer: as palavras de minha mãe, a conversa sobre outra vida, as vozes que apareceram diante dos meus olhos, as previsões sobre ela, Henrique, Vinícius e o bebê.
Esperava que ela risse.
Ou que me mandasse procurar ajuda.
Beatriz não fez nenhuma das duas coisas.
— Você vê essas coisas até hoje?
Assenti.
— Às vezes.
— E elas disseram que você vai machucar meu filho?
Minha garganta fechou.
— Disseram que eu vou empurrar você de uma escada.
Ela permaneceu imóvel por alguns instantes.
Depois respirou devagar.
— Certo.
— “Certo”?
— Eu não sei se essas vozes são algo sobrenatural, lembranças criadas pelo trauma ou qualquer outra coisa. Mas sei de uma coisa.
— O quê?
— Você tinha três anos e viu uma criança sendo sequestrada. Todo mundo mandava você olhar para nossa família, e mesmo assim você correu para salvar o Vinícius.
Não respondi.
— Aos três anos — ela repetiu. — Antes de ser minha irmã. Antes de alguém ensinar você a ser boa.
As lágrimas vieram sem aviso.
Beatriz se levantou e me abraçou.
— Eu não estou com medo de você.
— Talvez devesse estar.
— Não. Mas estou cansada de ver você com medo de si mesma.
Naquela noite, depois que ela foi embora, sentei no chão da sala e pensei em tudo que tinha perdido tentando não me transformar na mulher que os comentários descreviam.
Nunca disputei nada com Beatriz.
Mas também quase nunca comemorei plenamente ao lado dela.
Nunca me interessei por Henrique.
Mas tratei o simples fato de ele entrar numa sala como se fosse uma ameaça.
Nunca fui cruel com meus pais adotivos.
Mesmo assim, passei anos recusando ajuda porque tinha medo de “tomar” deles alguma coisa que deveria pertencer a Beatriz.
A história não tinha me transformado numa vilã.
O medo da história tinha me transformado numa visitante dentro da minha própria família.
Dois dias depois, recebi uma mensagem inesperada.
Era do meu irmão biológico.
Nós tínhamos mantido contato irregular depois de adultos. Minha mãe nunca gostara disso, então ele normalmente falava comigo sem contar a ela.
“Ela sabe sobre a gravidez da Beatriz.”
Meu estômago apertou.
Liguei imediatamente.
— Como ela sabe?
— Viu alguma coisa nas redes sociais. Depois começou a dizer que chegou a época.
— Que época?
Do outro lado, meu irmão soltou o ar.
— A época em que, segundo ela, você fez tudo aquilo na outra vida.
Fechei os olhos.
— Ela falou em procurar a Beatriz?
— Falou.
Levantei da cadeira.
— Escuta. Não dê endereço, telefone nem informação nenhuma.
— Eu não dei.
Houve uma pausa.
— Irmã…
— O quê?
— Quando a gente era pequeno, eu acreditava no que ela dizia.
Eu continuei em silêncio.
— Ela repetia que você tinha me matado numa outra vida. Dizia que, se eu sentisse saudade, era porque você sabia manipular as pessoas. Eu passei anos com medo até de lembrar de você.
Sua voz ficou rouca.
— Depois cresci e comecei a pensar: se você era esse monstro, por que minha lembrança mais forte daquele dia era você dizendo que dividiria seu pirulito comigo?
Apertei o celular.
Eu também lembrava.
— Você não tinha culpa — falei.
— Eu sei. Mas precisava dizer isso.
Depois da ligação, tomei uma decisão pequena.
Pela primeira vez em anos, não cancelei o jantar de domingo na casa dos meus pais.
Cheguei cedo.
Ajudei minha mãe adotiva na cozinha, discuti com meu pai sobre onde colocar uma prateleira e fiquei ao lado de Beatriz enquanto ela mostrava pela décima vez as imagens do ultrassom.
Henrique também estava lá.
Ele me cumprimentou com educação, e eu respondi da mesma maneira.
Nada aconteceu.
Nenhuma paixão incontrolável surgiu.
Nenhum impulso terrível despertou.
Era apenas o homem que minha irmã amava.
Quase ri de alívio.
Algumas semanas se passaram.
Passei a acompanhar Beatriz em parte dos preparativos do casamento. Ela tinha decidido manter uma cerimônia pequena e adiar a festa maior por causa da gravidez.
Eu já conseguia entrar no apartamento dela sem procurar escadas.
Mas os comentários começaram a aparecer com maior frequência.
【Está chegando.】
【Não adianta fugir.】
【Ela sempre acaba fazendo aquilo.】
Tentei ignorá-los.
Até a tarde em que fui ao prédio de Beatriz levar uma pasta com documentos que ela havia esquecido na casa dos nossos pais.
Henrique ainda estava no trabalho.
Beatriz tinha acabado de chegar de uma consulta.
Entrei no elevador, mas ele parou dois andares antes do destino por causa de uma manutenção inesperada.
— Vamos ter que subir o restante pela escada — o funcionário avisou.
Meu coração quase saiu pela boca.
Escada.
Fiquei parada diante da porta.
Os comentários tomaram minha visão.
【É aqui.】
【Finalmente!】
【A cena da queda!】
Minhas mãos começaram a suar.
Pensei em descer.
Pensei em ligar para Beatriz e mandar que esperasse dentro do apartamento.
Pensei em correr para a rua.
Foi então que ouvi a voz dela no lance acima.
— Você chegou?
Beatriz apareceu no patamar.
Estava sorrindo.
— O elevador travou para você também?
— Fica aí.
Meu tom foi tão brusco que ela parou.
— O que foi?
— Não desce.
— Por quê?
Os comentários se acumulavam.
【Vai acontecer.】
【Ela vai empurrar.】
【A história não muda.】
Beatriz franziu a testa e deu um passo.
— Ei, você está bem?
— Eu disse para ficar aí!
Ela se assustou.
E recuou.
O salto baixo do sapato encostou na borda do degrau.
Vi o corpo dela perder o equilíbrio.
Naquele instante, entendi uma coisa terrível.
Eu podia passar a vida inteira fugindo.
Mesmo assim, o medo podia criar exatamente o acidente que eu queria evitar.
Joguei a pasta no chão e subi os degraus correndo.
Beatriz tombou para trás.
Agarrei seu braço com uma mão e sua cintura com a outra.
O impacto me fez bater o joelho no degrau.
Doía.
Mas ela não caiu.
Ficamos abraçadas contra o corrimão, respirando com dificuldade.
— Meu Deus — Beatriz sussurrou.
— Você está bem?
— Estou.
— Sua barriga?
— Estou bem.
Mesmo assim, ligamos para Henrique e fomos ao pronto atendimento.
O médico avaliou Beatriz, pediu os exames necessários e confirmou que não havia sinal de complicação.
Quando ouvi os batimentos do bebê, comecei a chorar mais do que ela.
Beatriz segurou minha mão.
— Olha para mim.
Obedeci.
— Você não me empurrou.
As lágrimas escorreram pelo meu rosto.
— Eu quase causei a queda quando gritei com você.
— E depois me segurou.
— Porque eu estava tentando fugir daquela história.
— Então para de fugir.
Os comentários reapareceram.
Mas estavam diferentes.
【Não era assim.】
【Ela deveria ter empurrado.】
【Por que mudou?】
Pela primeira vez, não senti medo.
Senti raiva.
Não importava quem escrevia aquelas frases.
Não importava se eram ecos de outra vida, espectadores de algum destino ou apenas algo que minha mente nunca compreenderia.
Eles não seguravam minhas mãos.
Não escolhiam minhas palavras.
Não decidiam meus passos.
Eu decidia.
Quando saímos do hospital, vi uma mulher parada do outro lado do estacionamento.
Cabelos agora grisalhos nas pontas.
Rosto mais cansado.
Mas eu reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar.
Minha mãe biológica.
Ela olhou para Beatriz, depois para a barriga dela.
E então apontou para mim.
— Eu sabia — disse. — Chegou a hora. Agora vocês finalmente vão entender por que eu abandonei essa menina.
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