Meu ex levou a nova namorada à minha loja de lingerie para me constranger — três anos depois de me desprezar
Parte 3
A frase de Helena ficou no ar.
Gustavo não respondeu imediatamente. Eu conhecia aquele olhar: era o mesmo de quando algo saía do controle e ele tentava encontrar uma explicação que preservasse todas as pessoas ao mesmo tempo. Durante nosso relacionamento, quase sempre era assim que ele começava a me machucar.
— Minha mãe te deu o endereço? — ele perguntou.
Helena levantou o queixo.
— Ela disse que eu estava ficando paranoica à toa. Falou que, se eu quisesse entender quem você tinha namorado antes, bastava vir aqui e olhar.
Gustavo passou a mão pelo rosto.
— E ela sabia que você pretendia provocar a Tânia?
— Eu não pedi autorização para sua mãe.
— Chega.
Minha voz fez os dois virarem na minha direção.
— Vocês podem continuar essa conversa em qualquer lugar que não seja a minha loja.
Helena me encarou.
— Você está me expulsando?
— Estou pedindo que duas pessoas que trouxeram um problema pessoal para o meu ambiente profissional saiam antes que eu precise chamar a segurança do shopping.
Não levantei a voz.
Não precisei.
Talvez por isso tenha funcionado.
Helena pegou a bolsa. Antes de sair, passou por Gustavo sem tocar nele. Ele ficou alguns segundos parado diante do balcão, como se esperasse que eu dissesse alguma coisa.
Não disse.
— Tânia…
— Eu também pedi para você sair.
Ele assentiu.
Foi embora.
Só depois que os dois desapareceram pelo corredor eu percebi Daniela parada perto do estoque. Ela parecia preocupada.
— Você está bem?
Respirei fundo.
— Estou trabalhando.
Ela fez uma careta.
— Isso não respondeu.
Dessa vez sorri de verdade.
— Vou ficar.
Naquela tarde, Camila me ligou novamente. A equipe responsável pela experiência do cliente havia analisado a reclamação, meus registros e os relatos das funcionárias. Também verificaram o histórico da compra, as câmeras da área comum e o fato de que eu não havia utilizado nenhum dado de cliente para entrar em contato com Gustavo ou Helena.
Nada indicava conduta inadequada da minha parte.
A reclamação seria encerrada internamente.
Mesmo assim, Camila fez uma pergunta antes de desligar.
— Você ainda quer ir para Paris?
Eu quase perguntei por que não iria.
Então percebi que, poucas horas antes, uma parte antiga de mim havia considerado exatamente aquilo.
Talvez fosse melhor evitar exposição.
Talvez fosse melhor pedir alguns dias de folga.
Talvez fosse melhor desaparecer até Gustavo, Helena e a mãe dele voltarem para o mundo ao qual pertenciam.
Era assim que eu costumava reagir.
Diminuindo meu próprio espaço para não incomodar ninguém.
— Quero — respondi. — E vou.
— Ótimo. Era o que eu esperava ouvir.
À noite, havia oito mensagens de números desconhecidos no meu celular.
Não precisei abrir todas para entender.
A primeira era da mãe de Gustavo.
“Precisamos conversar sobre o que você está fazendo.”
Quase achei engraçado.
Eu não estava fazendo absolutamente nada.
Mesmo assim, segundo ela, o problema continuava sendo eu.
Bloqueei o número.
Dez minutos depois, outro telefone ligou.
Atendi porque poderia ser algum fornecedor.
— Tânia.
Reconheci sua voz imediatamente.
— Senhora Nogueira.
— Pelo menos ainda sabe quem eu sou.
Fechei os olhos.
— Se a ligação for sobre uma compra, posso passar o telefone da loja.
— Não faça ironia comigo. Gustavo discutiu com Helena por sua causa.
Encostei na bancada da cozinha.
— Eles discutiram porque Helena foi à minha loja fingindo não me conhecer, tentou me humilhar durante o atendimento e depois apresentou uma reclamação contra mim.
— Helena é jovem.
— E eu sou funcionária no meu local de trabalho. Uma coisa não justifica a outra.
Ela soltou uma risada curta.
— Você sempre soube transformar tudo em ofensa.
Por um instante, voltei a ter vinte e poucos anos.
Vi aquela mulher olhando para meu crachá.
Ouvi os amigos de Gustavo rindo.
Lembrei do vestido branco sobre o sofá.
Naquela época, eu teria tentado explicar que meu emprego era digno.
Teria listado horas trabalhadas, metas alcançadas, clientes satisfeitas.
Talvez até contasse que parte do dinheiro usado por Gustavo nos primeiros meses da empresa vinha do salário de uma “simples vendedora”.
Mas eu não precisava mais convencer aquela mulher de nada.
— A senhora forneceu meu local de trabalho para Helena?
Houve silêncio.
— Ela estava insegura.
— A senhora forneceu?
— Eu disse onde você trabalhava. Não mandei ninguém fazer escândalo.
— Obrigada. Era só isso que eu precisava saber.
— Tânia, não desligue.
— A partir de agora, não entre em contato comigo por números diferentes. E não envie mais ninguém ao meu trabalho para resolver assuntos particulares.
Ela elevou a voz.
— Você acha mesmo que Gustavo ainda quer alguma coisa com você?
Olhei pela janela do meu apartamento.
Os prédios de São Paulo brilhavam ao longe.
— Não faço ideia.
Parei.
— E esse é justamente o ponto. Eu não me importo.
Desliguei.
Minhas mãos tremiam.
Não de medo.
Era uma descarga atrasada, como se meu corpo estivesse finalmente entendendo que eu podia responder sem pedir licença.
Na manhã seguinte, Gustavo apareceu de novo.
Não entrou.
Ficou do lado de fora até Daniela me avisar.
— Ele perguntou se você aceita conversar cinco minutos no corredor.
— Disse sobre o quê?
— Disse que é para pedir desculpas.
Pensei antes de sair.
Quando cheguei, Gustavo estava sem paletó. As olheiras pareciam mais profundas do que dois dias antes.
— Cinco minutos — avisei.
Ele assentiu.
— Conversei com minha mãe.
— Isso é assunto de vocês.
— Eu sei.
Parecia difícil para ele não acrescentar uma justificativa.
Talvez estivesse começando a perceber que qualquer frase iniciada por “ela só queria” seria exatamente o problema.
— Helena retirou a reclamação.
— Ela não precisava. A empresa já concluiu a análise.
Gustavo abaixou os olhos.
— Eu soube.
— Então por que veio?
Ele demorou um pouco.
— Porque você estava certa naquela noite, três anos atrás.
Não disse nada.
— Eu dizia que não tinha vergonha de você.
Gustavo respirou fundo.
— Mas tinha vergonha da maneira como as pessoas do meu novo círculo me enxergavam quando você estava comigo.
A frase doeu mais por ser simples.
Sem traição secreta.
Sem conspiração extraordinária.
Só covardia.
— Quando meus amigos faziam piada, eu sabia que você ficava desconfortável — ele continuou. — Eu percebia. Só achava mais fácil dizer que você estava exagerando do que confrontar gente que poderia ser útil para minha empresa.
Meu peito apertou.
Gustavo prosseguiu:
— Minha mãe criticava seu trabalho e eu fingia que ela era apenas direta. Quando pedi para você usar aquele vestido branco, eu sabia o que estava pedindo.
Ele finalmente me encarou.
— Eu queria que você parecesse uma pessoa que eles aprovassem.
Aquela era a primeira vez que Gustavo colocava em palavras aquilo que eu tinha entendido sozinha durante três anos.
— Sabe o que foi pior? — perguntei.
Ele balançou a cabeça.
— Você me fez achar que eu estava criando problema por perceber o problema.
Seu rosto se contraiu.
— Eu sei.
— Não, Gustavo. Você sabe agora.
Parei perto da vitrine.
— Naquela época, eu chegava em casa e ficava me perguntando se realmente era sensível demais. Se devia ignorar as piadas. Se devia trocar de emprego. Se devia trocar de roupa. Se devia falar menos.
Minha voz não falhou.
— Até perceber que eu estava diminuindo tudo em mim para caber na vida que você queria construir.
Gustavo fechou os olhos por um instante.
— Eu não tenho desculpa.
Aquilo me surpreendeu.
Não porque fosse suficiente.
Mas porque, pela primeira vez, ele não tentou se defender.
— Helena e eu terminamos ontem — disse.
Balancei a cabeça.
— Não me diga isso como se tivesse alguma relação comigo.
— Não estou dizendo para você voltar.
— Então melhor.
Ele respirou fundo.
— Terminamos porque eu descobri coisas sobre a forma como ela lidava comigo. O que aconteceu aqui só acelerou uma conversa que já deveria ter acontecido.
— Continua não sendo meu problema.
— Eu sei.
Houve um silêncio menos agressivo dessa vez.
Gustavo enfiou as mãos nos bolsos.
— Minha mãe disse uma coisa ontem.
— Gustavo…
— Só mais isso.
Cruzei os braços.
— Ela disse que, quando você terminou comigo, eu deveria ter deixado você ir porque mulheres como você sempre voltavam quando percebiam o que tinham perdido.
Quase sorri.
— E você acreditou?
Ele demorou.
— Sim.
A honestidade dele me atingiu de uma maneira inesperada.
— Por quanto tempo?
— Durante meses.
Gustavo olhou para o chão.
— Primeiro eu achava que você ia voltar. Depois comecei a ficar com raiva porque você não voltou. Então passei a dizer para mim mesmo que nosso relacionamento nunca teria funcionado.
— Era mais fácil do que admitir que você tinha me deixado sair.
— Era.
As portas automáticas da loja se abriram atrás de mim.
Uma cliente entrou.
Eu precisava voltar ao trabalho.
— Seus cinco minutos acabaram.
Gustavo assentiu.
Quando me virei, ele chamou meu nome.
— Tânia.
Parei.
— Não vou aparecer aqui de novo sem você permitir.
Olhei para ele.
Pela primeira vez desde que nos reencontramos, não vi o empresário, o terno, o relógio ou o Bentley.
Vi apenas um homem finalmente obrigado a encarar as próprias escolhas.
— Ótimo.
Voltei para dentro da loja.
Naquela noite, recebi a confirmação definitiva da viagem para Paris.
Abri o e-mail três vezes.
Depois mandei uma mensagem para Camila aceitando também uma entrevista interna para uma futura vaga de treinamento de equipes, algo que eu vinha adiando havia meses porque não tinha certeza se estava pronta.
Quando apertei “enviar”, senti medo.
Mas não voltei atrás.
Dois dias antes da minha viagem, Gustavo mandou uma única mensagem.
“Posso pedir uma última conversa? Não para pedir que você volte. Só quero responder qualquer pergunta que você ainda queira fazer e depois respeitarei o que decidir.”
Fiquei olhando para a tela.
Meu primeiro impulso foi apagar.
O segundo foi fugir daquele assunto para sempre.
Escolhi uma terceira opção.
“Quarenta minutos. Amanhã, às sete. Café no térreo do shopping. Eu escolho as perguntas.”
A resposta dele veio quase imediatamente.
“Combinado.”
Na manhã seguinte, coloquei meu passaporte dentro da bolsa.
Ao lado dele estava a confirmação da entrevista para a nova função.
Pela primeira vez, percebi que não estava indo encontrar Gustavo para descobrir se ele ainda me amava.
Eu estava indo descobrir se ainda havia alguma coisa que eu precisava dizer antes de deixar aquela história definitivamente para trás.
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