A família do líder da comunidade saqueava nosso morro havia anos e ainda tentou tomá-lo do meu pai doente
Parte 3
Dário abriu a boca, mas o pesquisador nem sequer discutiu com ele. Pediu apenas para ver a documentação e explicou que a equipe não entraria no grotão nem retiraria material adicional enquanto não tivesse certeza de quem possuía o direito de uso e quais autorizações ambientais seriam necessárias.
Entreguei a cópia do contrato. O pesquisador comparou os dados com o mapa que eu havia desenhado na carta e apontou para uma faixa úmida perto da parte superior do morro. Era justamente o corredor por onde meu pai costumava passar para chegar ao pequeno vale escondido.
— A população vegetal que você descreveu fica aqui?
— Um pouco acima. Depois daquela formação de pedras.
Dário tentou interferir.
— Aquela parte é área comunitária.
O pesquisador fechou a pasta.
— Nesse caso, teremos de verificar os limites oficiais antes de qualquer atividade.
Ele não tomou partido. Não prometeu dinheiro. Não disse que eu estava certa.
Mesmo assim, o simples fato de agir como se documentos importassem deixou Dário inquieto.
Sandra apareceu meia hora depois, ofegante de tanto subir.
— Então era isso — disse. — Você estava escondendo alguma coisa.
— Eu mandei uma amostra para identificação.
— E quanto eles vão pagar?
Eu não respondi.
Ela riu.
— Ah, agora entendi por que virou valente.
Meu pai, que ainda estava internado, não sabia que Dário havia começado a espalhar outra versão pela comunidade. Segundo ele, eu tinha encontrado “uma planta milionária” numa área que pertencia a todos e agora tentava tomar para mim algo que sempre fora coletivo.
Em dois dias, pessoas que antes roubavam samambaia para o almoço passaram a falar em “patrimônio da comunidade”.
Era impressionante como a palavra patrimônio só apareceu quando alguém imaginou que pudesse existir dinheiro.
Voltei à prefeitura.
Desta vez, pedi não apenas a certidão do nosso contrato, mas cópia de qualquer pedido recente relacionado à área.
A funcionária procurou o número do processo.
— Tem uma solicitação protocolada ontem pela associação.
Meu estômago apertou.
— Posso ver?
Ela imprimiu as páginas que podiam ser fornecidas ao titular.
O pedido alegava que a área estava abandonada, sem exploração produtiva e que meu pai havia manifestado “verbalmente” intenção de devolvê-la.
No fim, solicitavam vistoria e retomada antecipada.
Não era ainda a fraude da minha outra vida.
Mas era o começo do mesmo caminho.
Levei a cópia para o hospital.
Meu pai leu devagar.
— Eu nunca disse isso.
— Eu sei.
— Nem para o presidente, nem para Dário.
— Então vamos responder por escrito.
Ele ficou olhando para mim.
— “Vamos”?
— O senhor também.
Pedi ajuda a uma funcionária do hospital para imprimir uma declaração simples. Meu pai afirmou que não havia renunciado à cessão, que continuava interessado na área e que qualquer manifestação em sentido contrário deveria ser desconsiderada.
Ele assinou.
Não precisei falar por ele.
No dia seguinte, protocolei a declaração junto com notas antigas de venda, recibos de ferramentas, fotografias de transplantes feitos por meu pai e uma relação das áreas manejadas.
Não eram documentos mágicos.
Nenhum deles, sozinho, resolvia tudo.
Mas juntos mostravam algo muito simples: o morro não havia sido abandonado.
Enquanto o processo administrativo avançava, os pesquisadores retornaram apenas para fazer observações externas e levantar coordenadas, sem coletar nada.
Um deles explicou que a planta realmente parecia incomum e que o instituto teria interesse em financiar uma pesquisa de campo, caso a identificação preliminar se confirmasse.
Meu coração disparou.
— Isso significa que vocês comprariam a planta?
— Não funciona assim.
A resposta me trouxe de volta à realidade.
Ele explicou que recursos genéticos e pesquisas com espécies nativas tinham regras próprias. Haveria registros, autorizações, avaliação jurídica e, caso existisse desenvolvimento comercial no futuro, outras obrigações.
O que o instituto poderia negociar de forma mais imediata era a prestação de apoio local, acesso à área sob responsabilidade da família, acompanhamento de campo e um acordo temporário de exclusividade para aquela pesquisa, caso a titularidade estivesse regular.
Ou seja: minha lembrança do futuro podia abrir uma porta.
Não podia atravessar a burocracia por mim.
Ainda assim, naquela tarde recebi uma proposta preliminar.
Se a vistoria confirmasse a localização da população vegetal dentro dos limites da nossa cessão e se toda a documentação estivesse regular, o instituto estaria disposto a celebrar um contrato de dois anos para apoio de campo e acesso controlado à área.
O valor inicial poderia chegar a R$ 120 mil.
Li a página três vezes.
Não era riqueza.
Era a cirurgia do meu pai.
Mas ainda não tínhamos o dinheiro.
Havia condições a cumprir.
E Dário sabia que alguma coisa importante estava acontecendo.
Na semana seguinte, ele começou a colocar estacas perto da nossa divisa.
Encontrei duas no chão e uma amarrada numa árvore.
Não arranquei.
Fotografei tudo com uma câmera emprestada de uma colega da escola e fiz um desenho indicando os pontos.
Depois procurei o responsável pela vistoria municipal e entreguei o material.
— Não quero que digam depois que fui eu quem mudou a divisa — expliquei.
O técnico assentiu.
— Fez certo em não mexer.
Foi naquele momento que percebi algo que não tinha entendido na minha primeira vida.
Eu passara meses reagindo ao que eles faziam.
Agora, eu estava construindo um registro antes que pudessem reescrever a história.
Minha raiva ainda existia.
Às vezes era tão forte que eu lembrava da ideia que tivera ao voltar: substituir as plantas comestíveis por espécies ornamentais que ninguém deveria ingerir e deixar os invasores colherem por conta própria.
Cheguei até a pesquisar mudas.
Mas, parada diante do morro, imaginei uma criança seguindo a mãe, levando uma folha para casa sem saber de nada.
Também imaginei Dário usando uma intoxicação contra mim.
Não.
Aquilo não seria proteção.
Seria vingança cega.
Peguei o papel onde havia anotado a ideia e rasguei.
Em vez disso, coloquei placas simples nos acessos:
“ÁREA SOB CESSÃO DE USO. COLHEITA SOMENTE COM AUTORIZAÇÃO.”
Também comecei um caderno.
Data, quantidade colhida, destino, manutenção feita.
Meu pai sorriu quando contei.
— Você está administrando melhor do que eu.
— Eu aprendi vendo o que acontece quando a gente não registra nada.
Ele não entendeu todo o peso daquela frase.
Não precisava.
A vistoria aconteceu numa quarta-feira.
O técnico municipal percorreu as áreas de transplante, analisou a cobertura vegetal, verificou os limites e conversou com meu pai no hospital por telefone.
Dário acompanhou quase tudo, repetindo que o terreno estava “subutilizado”.
O técnico fez anotações, mas não deu resultado na hora.
Sandra perdeu a paciência.
— Olha para isso! Mato para todo lado!
Eu me agachei e mostrei as fileiras.
— Manejo de samambaia não parece plantação de milho.
O técnico confirmou apenas que havia sinais de intervenção humana.
Foi o suficiente para Sandra parar de falar.
Dois dias depois, o instituto realizou sua própria visita, desta vez acompanhado de um consultor ambiental.
A pequena população vegetal estava dentro da faixa indicada no nosso contrato.
O pesquisador não comemorou.
Coletou apenas o que estava autorizado para identificação inicial e registrou cada procedimento.
Antes de ir embora, disse:
— Se o laudo botânico confirmar o que suspeitamos, seguimos para a fase contratual.
Pela primeira vez desde que voltei àquela vida, permiti-me imaginar meu pai saindo de uma sala de cirurgia vivo.
Naquela noite, encontrei-o acordado.
— Está com medo? — perguntei.
— Da cirurgia?
— De tudo.
Ele demorou para responder.
— Tenho medo de você gastar sua juventude tentando consertar meus problemas.
Sentei ao lado dele.
— O senhor não é um problema.
Ele virou o rosto.
— Eu devia ter defendido você e sua mãe melhor.
— Então começa agora.
Meu pai segurou minha mão.
— Eu não assino nada para eles.
Era uma frase pequena.
Mas, vinda dele, parecia uma porta se abrindo.
Três dias depois, a prefeitura enviou uma notificação: o pedido de retomada apresentado pela associação não poderia ser decidido sem audiência dos titulares e análise da vistoria.
A reunião administrativa foi marcada.
Dário apareceu na nossa casa naquela mesma noite.
— Você está achando que ganhou?
— Ainda não.
— Então escuta um conselho. Aceita R$ 20 mil e sai disso.
— Não.
— R$ 30 mil.
— Não.
— Você nem sabe se essa empresa vai pagar alguma coisa.
— Então por que você quer tanto que eu desista?
Ele apertou a mandíbula.
— Porque essa área não é só sua.
— Enquanto o contrato estiver válido, você também não manda nela.
Dário foi embora batendo o portão.
Na manhã seguinte, voltei à prefeitura para confirmar o horário da audiência.
A funcionária que já me conhecia franziu a testa diante da tela.
— Tem um documento novo anexado ao processo.
Senti o corpo inteiro ficar alerta.
— Que documento?
Ela imprimiu uma cópia.
Era uma ata extraordinária da associação.
Dizia que meu pai havia concordado com a devolução voluntária da área.
Abaixo do texto havia uma assinatura com o nome dele.
Fiquei encarando aquele traço.
Eu conhecia aquela cena.
Não exatamente aquele papel, nem aquela data.
Mas conhecia a intenção.
Levei a folha até o hospital.
Meu pai mal precisou olhar.
— Essa assinatura não é minha.
Virei a página.
O documento afirmava que ele havia comparecido pessoalmente ao salão da associação naquela semana.
Na data indicada, meu pai estava internado havia nove dias.
Ele ergueu os olhos para mim.
Desta vez, não havia medo.
Havia indignação.
— Lívia, eu nunca assinei isso.
Dobrei a cópia devagar.
— Então agora eles cometeram o erro que eu estava esperando que cometessem.
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