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Na 16ª vez que Rafael pediu o divórcio, Mariana desligou o fogo e respondeu: “Então vamos nos divorciar.”

Parte 4

A negociação não terminou em uma semana.

Nem em duas.

Rafael resistiu principalmente quando percebeu que Mariana não aceitava simplesmente sair com suas roupas e alguns móveis. O casamento havia sido construído durante anos nos quais os dois contribuíram de formas diferentes, e os bens adquiridos nesse período precisavam ser tratados de acordo com o regime patrimonial que haviam escolhido.

Mariana não pediu nada que não pudesse ser justificado.

Também não abriu mão do que lhe cabia apenas para parecer “boazinha”.

Essa mudança irritou Rafael.

Na reunião mais difícil, ele perdeu a paciência.

— Você nunca colocou dinheiro na empresa como eu coloquei!

Mariana pousou a caneta.

— Não. Eu coloquei tempo.

— Isso não é a mesma coisa.

— Quando você abriu a empresa, quem cuidou de tudo para que você pudesse trabalhar quinze horas por dia?

Rafael se calou.

— Quem saiu do emprego porque você disse que seria temporário? Quem organizava sua vida, recebia sua mãe, ajudava sua família e ouvia que a empresa precisava vir em primeiro lugar?

Ela não aumentou a voz.

— Não estou dizendo que construí sua empresa sozinha. Estou dizendo que você não construiu nossa vida sozinho.

Rafael olhou para os papéis.

A negociação continuou.

Sem milagres.

Sem alguém aparecer para obrigá-lo a fazer o que Mariana queria.

Houve avaliação de bens, análise de documentos, discussão sobre valores e concessões de ambos os lados.

O apartamento ficou previsto para venda, com a divisão correspondente depois da quitação do saldo do financiamento. Outros ativos adquiridos durante o casamento também entraram no acordo conforme a orientação jurídica recebida pelos dois.

Rafael continuou com a empresa.

Mariana não queria administrá-la, nem transformar o divórcio numa tentativa de destruí-lo profissionalmente.

O que ela queria era sair sem fingir que seus anos de trabalho invisível não tinham valor algum.

Enquanto isso, sua própria vida começou a ganhar forma.

No escritório, Mariana cometeu erros nas primeiras semanas.

Demorava mais que os colegas em alguns programas e precisava revisar detalhes que antes executava de memória.

Em vez de esconder, estudava.

Chegava cedo.

Anotava dúvidas.

Fazia cursos à noite.

Dois meses depois, recebeu a responsabilidade de participar da reforma de um pequeno centro cultural na zona oeste.

Quando viu as plantas do projeto sobre a mesa, lembrou-se da pasta que havia encontrado no fundo do guarda-roupa.

A coincidência não lhe pareceu um sinal do destino.

Pareceu apenas uma lembrança de que aquela profissão ainda fazia parte dela.

Em casa, Rafael também começou a enfrentar consequências que não podiam ser terceirizadas.

Sônia ficou furiosa quando soube que ele havia se recusado a financiar mais um negócio de Diego.

— Desde quando você virou esse tipo de homem? — ela perguntou.

— Desde que comecei a olhar minhas próprias contas.

— Foi aquela mulher que colocou isso na sua cabeça.

Rafael perdeu a paciência.

— Mariana não está mais aqui, mãe. Se eu digo não para o Diego agora, a decisão é minha.

Foi talvez a primeira vez que ele colocou um limite claro na própria família.

Mas Mariana não ficou sabendo disso naquele momento.

E, quando soube semanas depois, não interpretou como motivo para voltar.

Mudanças tardias podiam ser importantes para Rafael.

Não criavam uma dívida de perdão para ela.

Lívia também deixou de trabalhar diretamente com ele.

Não houve escândalo.

Rafael transferiu responsabilidades para outro setor depois de perceber que manter a proximidade com ela alimentava comentários no escritório e dificultava ainda mais qualquer tentativa de assumir seus próprios erros.

Algum tempo depois, Lívia enviou uma mensagem curta para Mariana.

Não pediu amizade.

Não tentou se justificar demais.

Disse apenas que sabia que havia ultrapassado um limite ao aceitar os jantares e o beijo sabendo que Rafael era casado, e que lamentava ter participado daquilo.

Mariana leu.

Não respondeu.

A confirmação já não mudava nada.

O momento mais difícil aconteceu poucos dias antes da assinatura final.

Rafael pediu para encontrar Mariana em uma cafeteria.

Ela quase recusou.

Depois decidiu aceitar porque ainda havia uma última questão prática para alinhar.

Ele chegou antes dela.

Quando Mariana entrou, percebeu algo que não esperava: Rafael parecia nervoso.

Não arrogante.

Nervoso.

— Pedi um café para você — disse ele.

— Eu mudei. Agora tomo sem açúcar.

Rafael olhou para a xícara.

— Eu não sabia.

— Pois é.

Aquela resposta simples pareceu resumir mais do que os dois gostariam.

Ele empurrou a xícara para o lado.

— Eu pensei muito.

Mariana não respondeu.

— Sobre o que você falou. Sobre a empresa. Sobre minha mãe. Sobre a Lívia. Sobre as vezes que pedi divórcio.

Ele engoliu em seco.

— Eu sabia que estava usando isso para assustar você.

Mariana manteve os olhos nele.

Rafael continuou:

— Toda vez que você discordava de mim, eu ameaçava ir embora porque sabia que você ficaria desesperada. Eu fazia isso para encerrar a discussão do meu jeito.

Era a primeira vez que ele descrevia o próprio comportamento sem transformá-lo em “briga de casal”.

— E quando minha mãe humilhava você, eu ficava calado porque era mais fácil deixar você suportar aquilo do que enfrentar minha família.

Mariana apertou os dedos em torno do copo de água.

— Sobre a Lívia… eu gostei da atenção. Gostei de alguém me admirando sem conhecer minhas partes ruins. Mentir para você foi uma escolha minha. O beijo também.

Ele respirou fundo.

— Não tenho justificativa.

Mariana desviou o olhar para a rua.

Durante anos, ela imaginara como seria ouvir Rafael admitir tudo.

Achava que sentiria alívio.

Talvez raiva.

Talvez vontade de perguntar por quê.

Naquele momento, sentiu apenas tristeza.

— Eu queria ter ouvido isso antes.

— Eu sei.

— Antes da décima sexta ameaça. Antes de você me fazer acreditar que eu era insuficiente. Antes de eu abandonar tanto de mim mesma.

Rafael baixou a cabeça.

— Eu sei.

Ela olhou para ele novamente.

— E o que você espera que eu faça com esse pedido de desculpas?

Ele demorou a responder.

— Não sei.

Mariana percebeu que, pela primeira vez, aquela frase parecia sincera.

— Parte de mim queria pedir para você voltar.

Ele soltou o ar devagar.

— Mas se eu fizer isso agora, talvez seja só outra forma de colocar sobre você a responsabilidade de me fazer sentir melhor.

Mariana sentiu os olhos arderem.

Rafael continuou:

— Então não vou pedir.

Ficaram alguns segundos em silêncio.

— Eu destruí a confiança entre nós — disse ele. — E vou ter que conviver com isso.

Mariana assentiu.

— Vai.

Não houve abraço.

Não houve beijo.

Não houve promessa.

Ela terminou o café e foi embora.

Na manhã marcada para concluir o procedimento consensual, Mariana acordou cedo.

Escolheu novamente o vestido azul-marinho que usara no dia em que decidira começar o processo.

Dessa vez, não precisou se convencer diante do espelho.

Seu rosto parecia o mesmo.

Mas ela não era mais a mesma mulher.

Rafael já estava esperando quando ela chegou.

Pontual.

Os documentos haviam sido preparados e revisados. Os termos patrimoniais estavam definidos. Com a assistência necessária, os dois puderam formalizar o divórcio no cartório.

Quando chegou sua vez de assinar, Mariana segurou a caneta.

Por um segundo, lembrou-se da cozinha.

Da panela sobre o fogo.

Do avental florido.

Do rosto de Rafael quando ela disse “então vamos nos divorciar”.

De todas as vezes anteriores em que tivera medo de perder aquele homem.

Assinou.

Rafael assinou depois.

Não aconteceu nada de extraordinário.

O teto não desabou.

O mundo não parou.

Mariana apenas respirou.

Ao saírem, ficaram juntos por alguns metros na calçada.

O movimento da cidade seguia como em qualquer outro dia.

Pessoas entravam e saíam de lojas.

Um ônibus parou no semáforo.

Alguém passou apressado falando ao telefone.

Rafael colocou as mãos nos bolsos.

— Mariana.

Ela parou.

— O quê?

Ele parecia procurar as palavras.

— Depois de tudo… você acha que algum dia a gente pode ser amigo?

Mariana não precisou pensar.

— Não.

Rafael ficou surpreso.

— Nem no futuro?

Ela sorriu de leve.

Não havia raiva naquele sorriso.

— Rafael, eu não tenho o hábito de tomar remédio para arrependimento.

Ele soltou uma risada curta, amarga.

Mariana continuou:

— Eu não quero ser sua inimiga. Espero que você melhore, que trate melhor as pessoas e que aprenda alguma coisa com tudo isso.

— Mas amizade é outra coisa.

Ela ajeitou a bolsa no ombro.

— Eu passei muitos anos tentando deixar uma porta aberta para você. Agora quero saber como é viver sem ficar esperando alguém decidir se entra ou sai.

Rafael assentiu.

Dessa vez, não tentou argumentar.

— Se cuida, Mariana.

— Você também.

Ela atravessou a rua.

Não olhou para trás.

Nos meses seguintes, a vida não se transformou em um conto de fadas.

Mariana teve dias ruins.

Teve medo de não acompanhar os colegas mais novos.

Teve noites em que sentiu saudade não exatamente de Rafael, mas da vida que imaginara ter com ele.

Também houve momentos em que se perguntou se poderia ter tentado mais uma vez.

Nessas horas, não precisava inventar monstros para justificar a própria decisão.

Bastava lembrar da mulher que havia se tornado dentro daquele casamento.

Pequena.

Culpada.

Sempre com medo da próxima ameaça.

Era disso que ela tinha ido embora.

Quase um ano depois, Mariana estava diante de uma parede cheia de plantas e referências no escritório.

O projeto do centro cultural no qual começara como apoio havia avançado para uma nova etapa, e sua contribuição recebera elogios da equipe.

Não era um prêmio estadual.

Não era uma promoção extraordinária.

Era algo mais simples e real.

Seu trabalho estava sendo respeitado novamente.

Camila apareceu no fim do expediente com dois cafés.

— Sem açúcar para você — disse.

Mariana riu.

— Finalmente alguém aprendeu.

As duas foram até a janela.

Lá embaixo, São Paulo seguia barulhenta, cheia de buzinas, luzes e gente correndo para todos os lados.

Camila perguntou:

— Se pudesse voltar sete anos, faria tudo diferente?

Mariana pensou.

— Algumas coisas.

— Casaria com ele?

Ela demorou um pouco mais.

— Não sei.

Camila arqueou as sobrancelhas.

Mariana sorriu.

— Mas sei que nunca mais vou abandonar a mim mesma para impedir alguém de me abandonar.

Naquela noite, quando voltou para seu apartamento, Mariana abriu a velha pasta de projetos.

O desenho premiado da faculdade ainda estava lá.

Ao lado dele, colocou uma cópia impressa do primeiro projeto importante de sua nova fase.

Fechou a pasta e a guardou na estante.

Não no fundo do armário.

Seu passado continuava fazendo parte dela.

Só não mandava mais em seu futuro.

E, pela primeira vez em muitos anos, Mariana não precisava que ninguém escolhesse ficar para sentir que sua vida estava completa.

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