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A aluna transferida jurou tirar meu primeiro lugar — e virou a sala inteira contra mim por apenas dois pontos

Parte 3

O professor me encarou por um instante, talvez esperando raiva, gritos ou alguma frase afiada. Eu também esperava isso de mim. Só que a sensação que dominava meu corpo naquele momento era outra: uma calma pesada.

Bianca havia passado semanas dizendo que me venceria. Eu não tinha problema nenhum com isso. Podia estudar até de madrugada, fazer mil exercícios, comemorar cada ponto conquistado e entrar na sala pensando em me superar.

Mas insinuar que eu tinha conseguido minha nota de forma desonesta era diferente.

— Certo — disse o professor. — Vou levar isso à coordenação.

Bianca pareceu não ter imaginado que eu aceitaria tão rápido.

— Eu só acho estranho — acrescentou, cruzando os braços. — Sua mãe trabalha com educação. Seu pai conhece muita gente. Não estou afirmando nada.

— Acabou de afirmar o suficiente para pedir uma investigação diante de trinta pessoas.

A sala silenciou.

Caio se levantou.

— Clara, também não precisa transformar isso num drama.

Virei para ele.

— Eu estou transformando em drama?

— A Bianca está nervosa. Ela estudou muito.

— E eu não?

Ele abriu a boca e fechou novamente.

Foi a primeira vez que percebi com clareza o que vinha acontecendo havia meses. Não era só que Caio tivesse se aproximado de Bianca. Isso nunca me incomodara. O problema era que ele havia decidido que os sentimentos dela eram importantes e os meus, dispensáveis.

Se Bianca chorava, precisávamos consolá-la.

Se Bianca perdia, eu deveria ser gentil.

Se Bianca me acusava de trapacear, eu deveria compreender que ela estava nervosa.

Eu, aparentemente, tinha a obrigação de ser forte o tempo inteiro e, por isso mesmo, ninguém precisava se preocupar com a forma como me tratava.

— Clara… — ele começou.

— Não precisa.

Sentei novamente.

Naquela tarde, fui chamada à coordenação. Expliquei exatamente como havia me preparado, mostrei meu caderno de exercícios quando perguntaram sobre minha rotina e respondi às questões da coordenadora sem acrescentar acusações contra ninguém.

O colégio tinha procedimentos simples para situações daquele tipo. As provas eram elaboradas por uma equipe de professores, armazenadas em uma pasta interna com acesso restrito e impressas na manhã da aplicação. Havia duas versões com ordem diferente de questões.

Meus pais não tinham qualquer vínculo profissional com a escola.

Minha mãe trabalhava em uma empresa de tecnologia educacional. Meu pai era engenheiro.

Ter estudado em boas universidades não dava a eles poderes mágicos sobre o sistema de provas de um colégio.

Nos dias seguintes, a investigação correu sem espetáculo. Professores revisaram os registros disponíveis, compararam minhas respostas com as duas versões e verificaram minhas provas anteriores.

Enquanto isso, o clima da sala ficou estranho.

O grupo que antes fazia piada com “vinte pontos” ficou quase parado.

Bianca evitava falar comigo.

Caio tentou me abordar duas vezes. Nas duas, disse que queria “explicar o lado dela”.

— Não estou interessada — respondi.

— Você nem sabe o que eu vou dizer.

— Sei o suficiente. Você vai dizer que ela estava sob pressão, que não quis me acusar de verdade e que eu deveria entender.

Ele pareceu ofendido.

— Você sempre acha que sabe tudo.

— Não. Só conheço você há tempo suficiente.

Continuei andando.

Na quinta-feira, a coordenadora entrou em nossa sala acompanhada do professor responsável pela prova.

Ninguém precisou explicar por que estavam ali.

Bianca ficou imóvel.

— A revisão solicitada sobre o resultado da avaliação mensal foi concluída — anunciou a coordenadora. — Não foi encontrada nenhuma irregularidade na prova de Clara Nogueira nem nos procedimentos de aplicação.

Algumas pessoas desviaram os olhos.

Ela continuou:

— As respostas são compatíveis com o desempenho anterior da aluna e com o processo individual de resolução apresentado na avaliação. Também não existe qualquer relação profissional entre familiares da estudante e a elaboração ou armazenamento das questões.

Respirei devagar.

Não senti vontade de sorrir.

Ganhar uma competição era prazeroso.

Ser inocentada de algo que nunca deveria ter sido insinuado não era vitória. Era apenas a restauração do mínimo.

A coordenadora então olhou para Bianca.

— Uma dúvida pode ser levada aos professores de forma responsável. Uma acusação pública sem fundamento é outra coisa. Isso será tratado separadamente com você e sua família.

Bianca baixou a cabeça.

Quando os dois adultos saíram, ninguém falou por alguns segundos.

Então uma garota perto da janela murmurou:

— Bom… pelo menos agora está esclarecido.

Olhei para ela.

— Não estava esclarecido antes?

Ela ficou vermelha.

Não continuei.

Bianca permaneceu sentada até o intervalo. Depois me encontrou sozinha perto da biblioteca.

— Clara.

Parei.

Ela segurava as alças da mochila com tanta força que os dedos estavam brancos.

— Eu exagerei.

Esperei.

— Mas você também não facilitou.

Soltei uma respiração curta.

— Aí está.

— O quê?

— Seu pedido de desculpas já virou justificativa antes mesmo de terminar.

Ela pareceu irritada.

— Você não entende como é difícil competir com você.

— Então não compita.

A resposta a atingiu mais do que eu esperava.

— Fácil falar quando você sempre ganha.

— Bianca, foi você quem veio até mim no primeiro dia. Foi você quem disse diante da escola inteira que tinha se transferido para tirar meu primeiro lugar. Eu achei ótimo. Finalmente apareceu alguém que parecia gostar de competir tanto quanto eu.

Ela me encarou.

— Então por que você me trata como se eu fosse ridícula?

— Porque você transformou perder uma prova em uma questão de popularidade. Depois transformou perder outra em suspeita de fraude.

Seu rosto ficou vermelho.

— Você nunca fica abalada.

— Isso não significa que pode fazer qualquer coisa comigo.

Ela não respondeu.

Comecei a ir embora, mas sua voz me fez parar.

— Na minha antiga escola, eu era você.

Olhei por cima do ombro.

Bianca respirou fundo.

— Eu era sempre a primeira. Todo mundo esperava que eu fosse a primeira. No ano passado, participei de uma seletiva regional e fiquei atrás de uma aluna daqui. Era você.

Lembrei vagamente da competição.

Ela continuou:

— Meu pai ficou repetindo sua nota durante semanas. “Olha essa garota de Campinas. Olha quanto ela fez. Se ela conseguiu, por que você não conseguiu?” Quando apareceu a oportunidade de transferência, eu pensei que, se viesse para cá e passasse você, isso acabaria.

A raiva que eu sentia perdeu uma pequena parte da força.

Não porque aquilo justificasse alguma coisa.

Mas, pela primeira vez, Bianca parecia uma pessoa e não apenas alguém encenando uma rivalidade diante de uma plateia.

— E acabou? — perguntei.

Ela soltou uma risada amarga.

— Não.

— Porque nunca foi sobre mim.

Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas dessa vez não havia ninguém em volta oferecendo lenço.

— Eu sei.

Fiquei alguns segundos pensando.

— Seu pai comparar você comigo não dá a você o direito de me transformar na pessoa responsável pela sua frustração.

— Eu sei.

— E dizer “eu sei” também não apaga o que você fez.

Ela assentiu.

Não a abracei.

Não disse que estava tudo bem.

Porque não estava.

Mas também não senti prazer em vê-la daquele jeito.

— Você é muito boa — falei. — Dois pontos atrás de mim na primeira prova foi um resultado excelente. O problema é que você parece acreditar que ser segunda significa ser ninguém.

Bianca apertou os lábios.

— E você não acredita?

A pergunta me surpreendeu.

Pensei antes de responder.

— Eu odeio perder.

Ela quase sorriu.

— Isso eu percebi.

— Mas se alguém me vencer honestamente, o problema é meu. Eu estudo e tento de novo. Não preciso transformar essa pessoa numa vilã para suportar o resultado.

Bianca ficou olhando para o chão.

Saí dali sem saber se aquela conversa mudaria alguma coisa.

Mais tarde, Caio apareceu ao meu lado na saída.

— Ela me contou que falou com você.

— Certo.

— Você poderia pegar mais leve.

Parei tão de repente que ele deu mais dois passos antes de perceber.

— Você não ouviu nada do que aconteceu, não é?

— Ouvi.

— Então por que sua primeira preocupação continua sendo comigo pegando leve?

Ele ficou em silêncio.

Dessa vez, não deixei a conversa morrer.

— Desde criança você conta para todo mundo que somos melhores amigos. Mas me diga uma coisa, Caio: qual é minha matéria favorita?

Ele franziu a testa.

— Matemática.

— Física.

— Dá quase na mesma.

— Qual universidade eu quero tentar?

Seu rosto mudou.

— Você nunca falou.

— Falei três vezes.

Ele desviou os olhos.

— Você sabe de cor qual música Bianca mais gosta, qual cafeteria ela prefere e que ela não come tomate. E isso é ótimo. Significa que vocês ficaram próximos.

— Clara…

— Só não continue usando a expressão “amiga de infância” como se o tempo sozinho significasse intimidade.

Atingi exatamente onde doía.

Ele ficou pálido.

— Eu sempre estive do seu lado.

— Não. Você sempre esteve perto. É diferente.

Peguei meu celular.

Abri nossa conversa e rolei algumas mensagens antigas.

Havia dezenas de pedidos dele.

“Me manda o exercício.”

“Seu carro passa que horas?”

“Me lembra da inscrição.”

“Você fez a lista?”

Pouquíssimas perguntas sobre mim.

Bloqueá-lo seria infantil. Não precisava disso.

Só parei de carregar uma amizade que existia principalmente na versão contada por ele.

— Acho melhor a gente ser só vizinho daqui para frente.

Caio arregalou os olhos.

— Você está acabando uma amizade de anos por causa da Bianca?

— Não.

Guardei o celular.

— Estou deixando de fingir que uma amizade de anos existia só porque você dizia que existia.

Ele não me seguiu quando fui embora.

Na semana seguinte, a escola anunciou a seletiva interna para representar o colégio numa competição estadual de conhecimentos. As duas maiores notas avançariam para uma segunda etapa individual.

Vi o aviso no mural.

Meu coração acelerou.

Poucos minutos depois, Bianca parou ao meu lado.

Ela leu o cartaz inteiro.

Depois virou o rosto na minha direção.

Não havia lágrimas.

Não havia plateia.

— Vai participar?

— Claro.

Ela respirou fundo.

— Eu também.

— Ótimo.

Bianca hesitou.

— Dessa vez, sem torcida organizada.

Finalmente sorri de verdade.

— Dessa vez, sem desculpas.

Naquela tarde, preenchi minha inscrição.

Não sabia quem ficaria em primeiro.

Mas, pela primeira vez desde que Bianca chegara, eu tinha a sensação de que descobrir isso poderia significar alguma coisa além de uma simples nota.

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