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Minha prima sabotou sete encontros dizendo que eu tinha transtorno mental — e apareceu namorando um deles diante da família

Parte 3

Às seis da tarde do dia seguinte, estacionei diante da casa dos meus pais com a pasta médica, o notebook e uma decisão que eu ainda não sabia se teria coragem de cumprir até o fim.

Meu pai havia pedido que eu não levasse celular para a mesa. Eu respeitei a parte literal do pedido. O telefone ficou dentro da bolsa.

O restante estava no computador.

Quando entrei, percebi que ele não tinha convocado uma conversa particular. Minha tia estava lá. Natália também. Caio ocupava a mesma cadeira do almoço anterior, mas dessa vez não segurava a mão dela.

Minha mãe estava perto da janela.

Meu pai apontou para uma cadeira.

— Sente.

Sentei.

Ele começou dizendo que ninguém queria me humilhar, que tudo havia saído do controle e que o melhor seria esquecer o assunto.

— Sua tia falou coisas de cabeça quente. Natália falou demais. Você também provocou. Todo mundo errou.

Eu já esperava por aquilo.

— Não. Não foi todo mundo que enviou a mesma mentira para sete homens diferentes.

Minha tia bufou.

— Helena, de novo isso?

Abri o notebook.

— Sim. De novo isso.

Natália cruzou os braços.

— Você veio fazer apresentação agora?

— Vim impedir que vocês transformem uma mentira repetida durante meses numa simples discussão de família.

Caio desviou os olhos para a tela.

Meu pai perdeu a paciência.

— Eu chamei você aqui para resolver, não para piorar.

— Resolver como? Eu peço desculpas, Natália continua dizendo que tentou me proteger e daqui a seis meses todo mundo repete que eu sou emocionalmente instável?

Ninguém respondeu.

Abri a primeira conversa.

Depois a segunda.

Não li tudo. Não precisava.

Mostrei apenas as partes em que Natália dizia que eu tinha “histórico psiquiátrico”, recomendava cautela e pedia que os homens não comentassem comigo.

— Isso aqui foi para o primeiro.

Passei para a seguinte.

— Isso para o segundo.

Outra.

— Terceiro.

Quando cheguei à quarta, Natália se levantou.

— Todo mundo já entendeu.

— Eu ainda não.

Ela me encarou.

— O que você quer?

A pergunta me fez perceber que, até aquele momento, ninguém tinha perguntado isso.

Todos haviam me mandado sentar, calar, pedir desculpas, esquecer.

Ninguém tinha perguntado o que eu queria depois de ter meu nome usado daquela forma.

— Quero que você diga por que fez isso.

Natália riu sem humor.

— Já expliquei. Eu estava preocupada.

Abri outra conversa.

— Então explica esta parte.

Girei o notebook.

Depois de alertar o quarto homem sobre mim, Natália tinha escrito:

“Ela se apega muito rápido. Se você quiser se afastar, é melhor fazer isso logo.”

Quatro horas depois, mandara:

“Mas se quiser conversar com alguém mais tranquila, estou por aqui.”

Caio se inclinou para enxergar melhor.

Natália fechou o notebook com a mão.

— Chega.

Afastei a mão dela e abri novamente.

— Não encosta.

Minha tia se levantou.

— Você está humilhando sua prima.

Olhei para ela.

— Ontem vocês me chamaram de doente diante de uma mesa inteira de parentes por causa de uma cicatriz. Hoje mostrar as palavras que ela mesma escreveu é humilhação?

Ela abriu a boca e fechou.

Minha mãe finalmente saiu de perto da janela.

Colocou a pasta médica sobre a mesa.

— Eu também tenho uma coisa para dizer.

Meu pai franziu a testa.

— Você não precisa se meter.

— Eu precisava ter me metido ontem.

Ela abriu a pasta.

Primeiro retirou o relatório da época da escola.

Eu tinha dezessete anos quando uma sequência de humilhações e perseguições de colegas me deixou semanas sem dormir. Minha mãe me levou ao pronto atendimento porque eu já não conseguia acompanhar as aulas.

O documento descrevia insônia relacionada a estresse, recomendação de acompanhamento e uma prescrição curta.

Nada de internação psiquiátrica.

Nada do que Natália dizia aos homens.

Depois minha mãe colocou sobre a mesa o relatório da faculdade.

— E isso aqui é sobre o braço.

Natália perdeu a cor.

Minha tia pegou o papel.

Leu em silêncio.

Ferimento acidental durante preparo de alimento.

Atendimento ambulatorial.

Três pontos.

Alta no mesmo dia.

Minha mãe respirou fundo.

— Natália estava lá quando o médico explicou.

Meu pai levantou os olhos para ela.

— Você tinha certeza disso?

— Eu vi ela entrando no alojamento naquela noite. E ela ficou conosco até voltarmos para casa.

Natália respondeu rápido:

— Eu era nova. Posso ter entendido errado.

Eu quase ri.

— Durante oito anos?

Ela me lançou um olhar duro.

— Eu lembrava que você estava com o pulso enfaixado.

— Mas não lembrava de estar sentada ao lado da minha mãe enquanto o médico explicou como eu tinha me cortado?

— Eu não presto atenção em tudo.

— Curioso. Você lembra o suficiente para contar a história a sete desconhecidos.

Caio passou a mão pelo rosto.

Pela primeira vez, a segurança dele havia desaparecido.

— Natália, você disse que a Helena tinha escondido isso até da família.

Ela virou para ele.

— Foi o que eu lembrava.

— Você disse que a família escondia porque tinha medo de ela não conseguir casar.

Ela hesitou.

— Caio…

Ele pegou o próprio celular.

— Você disse isso para mim na primeira noite.

Minha tia tentou interromper.

— Gente, mas isso não muda o fato de que vocês se gostam.

Caio nem olhou para ela.

— Quando você me adicionou?

Natália ficou quieta.

Ele repetiu:

— Qual foi o dia?

— Não lembro.

Eu lembrava.

Abri a conversa que Caio havia enviado meses antes quando ainda estávamos nos conhecendo. Ele nunca imaginara que aquela mensagem teria importância.

— Eu saí com o Caio numa sexta-feira. No domingo, ele me perguntou se eu queria ir ao cinema no fim de semana seguinte. Na segunda-feira à noite, você adicionou ele.

Caio olhou para mim.

Depois para Natália.

— Não. Foi na terça.

— Foi segunda — respondi. — Tenho a mensagem que você me mandou na terça de manhã dizendo que tinha conhecido “uma pessoa interessante” online.

O rosto dele ficou vermelho.

Ele sabia de quem eu estava falando.

Natália mexeu no cabelo.

— E daí? Eu podia conversar com quem quisesse.

— Podia — eu disse. — O que você não podia era inventar uma doença para afastar as pessoas de mim.

— Ninguém foi obrigado a ficar comigo.

— Também não estou dizendo isso.

Olhei para Caio.

— Você fez suas próprias escolhas.

Ele baixou os olhos.

Eu não precisava transformá-lo numa vítima para provar que Natália tinha mentido.

Minha tia tornou a falar:

— Helena, você está exagerando. Esses homens não eram seus namorados. Eram encontros.

— Exatamente. Então por que Natália precisava entrar em contato com todos?

Silêncio.

— Sete vezes — continuei. — Não uma. Não duas. Sete.

Natália respirou fundo.

— Você quer saber por quê? Porque você sempre chegava depois dos encontros falando como se todos estivessem interessados em você.

— Eu nunca disse isso.

— Dizia que tinham sido educados, que queriam sair de novo, que mandavam mensagem…

— Porque mandavam.

— Está vendo?

Ela soltou uma risada nervosa.

— Sempre isso. Helena recebe atenção, Helena é elogiada, Helena é a filha tranquila, Helena é a neta responsável…

Minha tia levantou a mão.

— Natália.

Mas ela já havia começado.

— Você acha que é melhor do que todo mundo.

Senti minha garganta apertar.

Não porque aquilo fosse verdade.

Porque finalmente havia algo honesto naquela conversa.

— Então não era preocupação.

Natália percebeu tarde demais.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Você acabou de dizer.

— Eu estava com raiva.

— Sete vezes?

Ela se calou.

Meu pai encostou as costas na cadeira.

Parecia mais velho do que no dia anterior.

Minha mãe segurou a borda da mesa.

Caio falou baixo:

— Quando você começou a falar comigo, eu ainda estava conversando com a Helena.

Natália virou-se para ele.

— Vocês tinham saído uma vez.

— Não foi o que perguntei.

— Caio, isso não importa.

— Importou quando você me disse que ela estava obcecada porque eu tinha terminado.

Eu congelei.

Olhei para ele.

— Ela disse isso?

Ele assentiu.

— Disse que você tinha dificuldade para aceitar rejeição. Por isso eu fui tão duro ontem.

A vergonha apareceu no rosto dele, mas não senti pena.

— E você acreditou sem nunca me perguntar.

— Eu sei.

— Então assuma essa parte.

Ele respirou fundo.

— Eu assumo.

Natália bateu a mão na mesa.

— Isso virou um tribunal?

Fechei o notebook.

— Não. Se fosse um tribunal, provavelmente você estaria mais preocupada com o que escreveu.

Meu pai me olhou.

— O que isso significa?

— Significa que hoje de manhã eu conversei com uma advogada para entender meus direitos.

Minha tia empalideceu.

— Você vai processar sua própria família?

— Eu pedi orientação. Existe diferença.

Falei devagar.

— Disseminar informações falsas sobre a saúde de alguém com a intenção de prejudicar sua reputação não vira brincadeira só porque foi feito por uma prima.

Natália riu.

— Você não vai fazer isso.

— Talvez eu nem precise.

Retirei uma folha da pasta.

— Primeiro, quero que você pare imediatamente de falar sobre minha saúde com qualquer pessoa. Segundo, quero que envie uma correção para todos os homens para quem mandou aquela mensagem. Nada de desculpa vaga. Quero que diga que a informação sobre doença psiquiátrica e tentativa de tirar a própria vida era falsa.

— Você perdeu a cabeça.

— Terceiro, quero uma retratação no grupo da família.

Minha tia ficou indignada.

— De jeito nenhum.

— Então não façam.

Guardei o papel.

— Eu só queria deixar claro o que considero o mínimo antes de decidir os próximos passos.

Meu pai bateu a mão na mesa.

— Você está ameaçando sua família.

Levantei.

— Ontem o senhor disse que, se eu não pedisse desculpas por uma mentira contada sobre mim, eu não precisaria mais me sentar à mesa desta família.

Ele ficou em silêncio.

— Então talvez seja melhor eu parar de tentar conquistar um lugar numa mesa onde minha dignidade vale menos do que evitar constrangimento.

Minha mãe chamou meu nome.

Fiz um gesto para ela esperar.

Olhei para Natália.

— Eu não vou mais pedir que você admita que gosta de competir comigo. Isso já ficou claro. Quero apenas que pare de usar minha saúde, meu passado e meu nome como ferramentas.

Peguei a bolsa.

Caio levantou também.

— Helena, espera.

— Para quê?

Ele olhou para Natália.

— Porque eu quero uma resposta antes de você sair.

Natália cruzou os braços.

— Resposta sobre o quê?

Caio abriu a conversa deles no celular.

A voz dele não estava mais irritada.

Estava fria.

— Você me procurou antes ou depois de eu dizer para a Helena que nós não daríamos certo?

Natália tentou desviar o olhar.

Caio colocou o telefone sobre a mesa.

— Porque aqui está a data.

E, pela primeira vez desde o início de tudo, Natália não conseguiu responder.

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