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No primeiro dia desempregada, acordei com um homem desaparecido, uma ave depenada na cozinha e cinco ovos de Fênix a caminho

Parte 3

O telefone continuou tocando.

Lucas ficou parado diante da mesa, com o rosto iluminado pela tela. Clara ligou uma vez. Depois outra. Na terceira, eu peguei um dos cobertores que cobriam os ovos e ajeitei uma ponta, fingindo não prestar atenção.

Não queria pedir que ele ficasse.

Se eu precisasse implorar para um homem escolher cinco filhos em vez da mulher que o rejeitara repetidas vezes, então o problema já estaria respondido.

Lucas recusou a chamada.

Meu peito relaxou um pouco, mas ele continuou segurando o celular. Alguns segundos depois, chegou uma mensagem. Ele leu, apertou os lábios e saiu do quarto.

Eu fiquei olhando para a porta.

Os comentários apareceram.

【No enredo antigo, ele iria correndo.】

【Mas agora existem os ovos. A linha da história já mudou.】

【Cuidado, figurante. Um homem pode permanecer fisicamente e ainda deixar o coração em outro lugar.】

Aquilo me atingiu mais do que eu gostaria.

Eu não estava apaixonada por Lucas. Pelo menos era o que repetia para mim mesma. Morávamos sob o mesmo teto havia poucas semanas, e nossa relação tinha começado da forma mais absurda possível.

Mas eu já sabia reconhecer perigo emocional.

Meu antigo chefe tinha começado com “favores pequenos”. Depois vieram os convites. Quando recusei, ele tentou transformar minha dignidade em problema profissional.

Eu tinha prometido que nunca mais permitiria que alguém definisse quanto eu valia com base no quanto eu estava disposta a suportar.

Lucas voltou quase vinte minutos depois.

— Clara está mal.

— Entendi.

— Ela brigou com ele.

Continuei ajeitando o tecido em volta do segundo ovo.

— Também entendi.

— Você não vai perguntar se eu vou encontrá-la?

— Não.

Ele franziu a testa.

— Por quê?

Levantei o rosto.

— Porque você é adulto.

A resposta pareceu incomodá-lo.

— Isso significa o quê?

— Que eu não sou sua mãe, sua namorada nem sua carcereira. Você sabe onde estão seus filhos. Sabe que Clara costuma procurar você quando está magoada. Sabe o que sente por ela. Faça o que considerar certo.

Lucas ficou em silêncio.

— Só não espere que minhas escolhas permaneçam iguais depois das suas.

Foi a primeira vez que eu disse aquilo em voz alta.

Ele me encarou por um longo momento.

Depois colocou o celular com a tela para baixo.

— Não vou sair.

Eu assenti.

— Certo.

— Só isso?

— O que você esperava? Uma medalha?

A boca dele quase se moveu num sorriso, mas não chegou a tanto.

— Eu esperava que você ficasse feliz.

— Fico feliz pelos cinco.

Apontei para os ovos.

— Eles merecem um pai presente.

Lucas desviou o olhar.

Talvez tivesse entendido exatamente o que eu não disse.

Não bastava ficar naquela noite.

Na manhã seguinte, recebi uma resposta de uma empresa para a qual havia enviado currículo. Era uma vaga administrativa numa rede de logística. O salário não chegava perto do padrão de vida daquela mansão, mas era bom, o trabalho parecia sólido e eu preenchia todos os requisitos.

A entrevista seria por vídeo.

Quando contei a Lucas, ele imediatamente perguntou:

— Quer que eu faça uma ligação?

— Não.

— Eu conheço um dos investidores.

— Então faça o favor de esquecer que conhece.

Ele respirou fundo.

— Você dificulta tudo.

— Eu simplifico. Se eu conseguir a vaga, quero saber que foi pelo meu currículo.

Ele levantou as mãos.

— Está bem.

Passei a tarde me preparando. Pesquisei a empresa, organizei exemplos de projetos anteriores e treinei respostas no quarto. Quando a entrevista começou, Lucas desapareceu do corredor sem que eu precisasse pedir.

Duas horas depois, recebi uma mensagem dizendo que eu avançara para a etapa final.

Saí pulando do quarto.

Lucas estava sentado diante dos ovos.

— Passei!

Ele se levantou tão rápido que quase derrubou a cadeira.

— Você conseguiu?

— Próxima fase.

Ele abriu um sorriso.

Não era o sorriso elegante das fotos de revista.

Era meio bobo.

— Eu sabia.

— Você nem sabe como eu fui.

— Sei que você ficou quatro horas falando sozinha para a parede ontem.

— Eu estava treinando.

— A parede parecia convencida.

Joguei uma almofada nele.

Lucas pegou no ar.

E, sem perceber, começamos a rir.

Talvez tenha sido ali que o perigo mudou de formato.

Antes eu temia depender dele.

Agora começava a temer gostar dele.

Os dias seguintes foram tranquilos até que Clara apareceu pessoalmente.

Eu estava na cozinha tentando convencer o administrador da casa de que ele não precisava esconder todas as panelas quando eu entrava, quando ouvi uma voz feminina no hall.

— Lucas está?

Não precisei perguntar quem era.

Clara Menezes parecia exatamente como nas fotos. Elegante, bonita e perfeitamente acostumada a entrar naquela casa sem ser barrada.

O administrador olhou para mim.

Eu fiz um gesto de quem dizia: “A casa não é minha”.

Clara foi direto para a sala onde os ovos estavam.

Lucas tinha acabado de chegar de uma reunião.

Quando a viu, ficou tenso.

— Clara.

Ela sorriu, mas os olhos estavam inchados.

— Você não atende mais minhas ligações.

— Eu estava ocupado.

Ela olhou para os cinco ovos.

A expressão mudou.

— Então é verdade.

Lucas não respondeu.

Clara me examinou pela primeira vez.

Não havia desprezo explícito. O que havia era surpresa. Talvez ela simplesmente nunca tivesse considerado que outra pessoa pudesse ocupar espaço na vida dele.

— Podemos conversar sozinhos?

Lucas olhou para mim.

Eu fui até o terceiro ovo e conferi a temperatura.

— Não precisam da minha autorização.

Saí.

Mas a mansão era silenciosa demais.

Da biblioteca ao lado, consegui ouvir parte da conversa sem querer.

— Desde quando você faz isso comigo? — Clara perguntou.

— Isso o quê?

— Me evita.

— Não estou evitando.

— Antes, sempre que eu precisava de você…

Ela não terminou.

Lucas completou:

— Eu aparecia.

— Sim.

Houve uma pausa.

— E agora não aparece.

— Agora existem outras responsabilidades.

A voz de Clara ficou mais baixa.

— Por causa dela?

Eu parei diante de uma estante.

Lucas demorou a responder.

— Por causa dos meus filhos.

Uma parte de mim relaxou.

Outra não.

Clara insistiu:

— Você dizia que me amava.

— Eu amei você por muito tempo.

A palavra no passado me fez erguer os olhos.

Mas Lucas continuou:

— Talvez uma parte de mim ainda não saiba o que fazer com tudo isso.

Ali estava a verdade.

Não perfeitamente resolvida.

Não convenientemente limpa.

Apenas verdade.

Clara também percebeu.

— Então ainda sente alguma coisa.

— Não foi isso que eu disse.

— Mas também não disse que não sente.

Saí dali antes de ouvir mais.

Não queria transformar cada hesitação de Lucas em alimento para uma esperança que eu nem deveria ter.

Naquela noite, um dos ovos começou a vibrar.

Lucas chamou por mim tão alto que corri achando que a casa estava pegando fogo.

Uma pequena rachadura surgiu na casca.

Depois outra.

Nós dois nos ajoelhamos diante do ninho.

— Já? — perguntei.

— Os registros diziam que poderia acontecer a qualquer momento.

— Ótimos registros.

A rachadura se alargou.

Um bico minúsculo apareceu.

Lucas parou de respirar.

Eu segurei seu braço.

A primeira bolinha de penas douradas saiu desajeitada, caiu de lado e soltou um som tão fino que meus olhos se encheram imediatamente.

Lucas cobriu a boca.

— É muito pequeno.

— Geralmente bebês são.

— Parece frágil.

— Também é uma característica comum.

Ele ignorou minha ironia.

O segundo ovo começou a rachar.

Depois o terceiro.

Em menos de uma hora, havia cinco criaturas minúsculas, quentes e absurdamente fofas se espremendo umas contra as outras.

O administrador chorou tanto que precisou se sentar.

Eu também chorei.

Lucas tentou fingir que não.

Falhou miseravelmente.

Durante os dias seguintes, os cinco começaram a se transformar de maneiras inesperadas. Às vezes pareciam pintinhos dourados. Às vezes assumiam brevemente formas humanas de bebês antes de voltarem a ser pequenas aves.

Foi nesse período que percebi algo importante.

Lucas não estava apenas cumprindo obrigação.

Ele estava encantado.

Cancelou compromissos desnecessários.

Aprendeu horários.

Passou a carregar paninhos no bolso.

Decorou cada som diferente.

E entrou numa guerra pessoal contra qualquer imagem de ave que considerasse “má influência”.

Certa tarde, encontrei-o diante dos cinco com um livro ilustrado.

— Prestem atenção. Esse aqui é um quero-quero. Faz escândalo por qualquer coisa.

Cruzei os braços.

— Você está ensinando preconceito contra outras espécies?

Lucas apontou para outra foto.

— Esse é um galo.

O administrador, parado na porta, ficou ofendido.

— Senhor Lucas.

— Não estou falando do senhor.

— Espero que não.

Foi nesse exato momento que Clara apareceu de novo.

Ela havia discutido outra vez com o homem que amava.

Entrou na sala e parou.

Lucas estava agachado no tapete, cercado pelos cinco filhotes, com o livro aberto nas mãos.

— Esse pintinho amarelo aí tem cara de valentão — dizia ele. — Se virem um parecido, mantenham distância.

Clara não falou nada por vários segundos.

Eu também não.

Os comentários apareceram diante dos meus olhos.

【Chegamos à cena!】

【No original, ele estaria esperando Clara na chuva. Agora está ensinando cinco Fênix a fugir de galinhas briguentas.】

【A figurante mudou a história, mas ainda precisa escolher a própria vida.】

Essa última frase me fez congelar.

Naquela mesma manhã, eu tinha recebido a confirmação.

A empresa de logística queria me contratar.

Salário digno.

Benefícios.

Início em duas semanas.

E havia outra coisa.

Eu tinha visitado um apartamento pequeno perto do trabalho.

Nada parecido com a mansão de Lucas.

Dois quartos.

Uma varanda minúscula.

Cozinha simples.

Mas, pela primeira vez em semanas, quando entrei ali, pensei:

Isso pode ser meu.

Clara pediu para conversar com Lucas.

Dessa vez, eu não fiquei para ouvir.

Subi, abri o notebook e respondi ao e-mail da empresa.

“Proposta aceita.”

Depois liguei para a imobiliária.

— Quero fechar o apartamento.

Quando desliguei, fiquei olhando para os cinco berços improvisados que Lucas mandara colocar no meu quarto.

Eu não pretendia afastar os filhos dele.

Nem fugir.

Só precisava construir uma vida em que eu permanecesse porque queria.

Não porque estava sem dinheiro.

Não porque tinha cinco filhos com um homem rico.

Não porque uma mansão era confortável demais para abandonar.

Lucas entrou alguns minutos depois.

— Clara foi embora.

— Certo.

Ele percebeu as caixas abertas sobre a cama.

Seu rosto mudou.

— O que é isso?

Fechei o notebook.

— Consegui o emprego.

— Eu sabia que conseguiria.

— E aluguei um apartamento.

O sorriso desapareceu.

— Um apartamento?

— Vou me mudar.

Lucas olhou para as caixas e depois para mim.

— Por quê?

Respirei fundo.

— Porque nós precisamos descobrir se existe alguma coisa entre nós quando eu tiver uma porta que possa fechar, um salário meu e um lugar para onde voltar.

Ele ficou imóvel.

Continuei:

— Não quero ser a mulher que ficou porque você tinha dinheiro. Nem a mãe dos seus filhos que aceitou viver no espaço deixado por Clara.

Lucas empalideceu.

— Você não está no espaço dela.

— Então prove isso para você mesmo antes de tentar provar para mim.

Peguei uma peça de roupa e coloquei dentro da caixa.

Foi uma decisão pequena diante de uma mansão, cinco Fênix e um homem que poderia comprar quase tudo.

Mas, naquele momento, pareceu a maior decisão da minha vida.

Lucas se aproximou.

— E as crianças?

Olhei para ele.

— Continuam tendo pai e mãe.

Fechei a caixa.

— Só não vão ter uma mãe que desapareceu dentro da vida do pai.

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