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Na sexta-feira em que eu seria promovida a gerente da loja, meu chefe pôs na minha mesa a demissão da colega que me ensinou o trabalho — e mandou que eu mesma a entregasse.

Parte 4

Os primeiros dias foram piores do que eu tinha imaginado.

Um plano fica bonito numa folha porque as pessoas não aparecem nele com sono, hábito, resistência e medo de perder espaço.

Dois vendedores reclamaram que a nova divisão favorecia Célia.

Um deles, Paulo, perguntou por que ela podia passar parte do dia “sem vender” enquanto os outros continuavam cobrados por meta.

Eu quase respondi dizendo que Célia fazia mais do que todos percebiam.

Parei antes.

Reunimos a equipe.

— A função dela mudou — expliquei. — Então a meta também mudou. Se alguém aqui estiver executando tarefas que ocupam tempo e não entram na avaliação, quero saber. O erro não é mudar a meta da Célia. O erro seria continuar avaliando qualquer pessoa por um trabalho diferente daquele que ela realmente faz.

Célia estava sentada no fundo.

Não falou nada.

Depois da reunião, passou por mim e disse:

— Dessa vez você respondeu a pergunta.

Na segunda semana, os resultados começaram a aparecer.

Mateus deixou de pedir ajuda em quase toda troca.

Os pedidos online passaram a sair em horários previsíveis.

As horas extras diminuíram porque o fechamento já não acumulava tarefas que tinham sido empurradas durante o dia.

Não virou uma loja perfeita.

Continuávamos perdendo algumas vendas para sites maiores.

Ainda havia clientes reclamando de preço e sábado apertado no caixa.

Mas o trabalho começou a ter menos desperdício.

Rogério acompanhava tudo.

Ele não elogiava.

Perguntava números.

Quanto caiu o tempo das trocas?

Quantos erros de pedido?

Quantas horas extras?

Eu respondia.

Célia também acompanhava os próprios indicadores.

Em duas ocasiões, foi ela quem apontou falhas no plano.

— Se colocarem treinamento na sexta de tarde, não funciona — disse. — O movimento cresce depois das quatro. Joga isso para terça.

Mudamos.

Na terceira semana, Rogério me chamou.

— Você está gostando de ser gerente?

Pensei.

— Tem dia que não.

Ele soltou uma risada.

— Então começou direito.

Depois ficou sério.

— A folha caiu. Não tudo o que eu queria, mas caiu.

— E os erros também.

— Eu vi.

— Então?

— Ainda temos uma semana.

Saí sem pressioná-lo.

A versão de mim que tinha entrado naquela sala no primeiro dia teria pedido uma resposta.

Eu queria a confirmação de que estava certa.

Aquela necessidade tinha diminuído.

Mais importante do que vencer Rogério era saber se o modelo funcionava.

Na última sexta-feira do teste, sentamos novamente os três na mesma sala onde Célia havia recebido o comunicado de desligamento.

O envelope não estava mais ali.

Mas todos nos lembrávamos dele.

Rogério colocou os relatórios na mesa.

— Reduzimos horas extras em trinta e oito por cento. Os erros nos pedidos online caíram. O tempo das trocas melhorou bastante.

Célia olhou para mim.

Eu não comemorei.

Rogério continuou:

— Financeiramente, a mudança da carga horária mais os ajustes de escala chegam perto do que precisávamos economizar.

— Perto quanto? — perguntei.

— O suficiente para eu não precisar cortar outra pessoa agora.

Célia soltou o ar devagar.

— “Agora” é uma palavra perigosa.

Rogério assentiu.

— É a palavra verdadeira.

Gostei da resposta.

Ele virou-se para ela.

— Quero manter sua nova função.

Célia não sorriu.

— Nas condições que combinamos?

— Trinta e duas horas. Quinta à tarde livre. Avaliação por atendimento, treinamento e suporte. Venda só entra proporcionalmente ao tempo que você realmente ficar no salão.

— E o salário?

Rogério mostrou a proposta final.

Ela leu com calma.

— É menor.

— Porque são menos horas.

— Eu sei fazer conta.

Eu quase ri.

Rogério também percebeu o tom.

— É a mesma proporção por hora.

Célia conferiu novamente.

— Está certo.

Colocou a folha sobre a mesa.

— Tem mais uma coisa antes de eu assinar.

Rogério ficou esperando.

— Eu quero ouvir de você por que aquele primeiro desligamento foi errado.

Ele imediatamente tentou responder.

— A empresa estava…

Célia levantou a mão.

— Eu não perguntei por que você precisava cortar custo.

Rogério ficou calado.

Ela continuou:

— Eu sei que loja não vive de amizade. Sei que às vezes gente boa perde emprego porque conta não fecha. O que eu quero saber é se você entendeu o que fez errado comigo.

Eu permaneci quieta.

Aquela conversa não era minha para conduzir.

Rogério olhou para o relatório.

Depois para ela.

— Eu transformei tudo que você fazia numa única coluna.

Célia não desviou os olhos.

— Continue.

— Eu sabia que você treinava gente e resolvia problemas, mas tratei isso como favor informal porque era mais fácil do que organizar a função.

Ela assentiu uma vez.

Rogério respirou.

— E pedi para Adriana entregar sua demissão porque achei que isso provaria que ela tinha postura para ser gerente.

Eu não esperava que ele dissesse aquilo tão claramente.

— Foi covarde — completou.

Célia inclinou a cabeça.

— Foi.

— Desculpa.

Ela não disse “tudo bem”.

Apenas respondeu:

— Obrigada por dizer direito.

Pegou a caneta.

Antes de assinar, olhou para mim.

— E você?

— Eu o quê?

— Aprendeu alguma coisa ou só ganhou uma sala?

Sorri.

— Aprendi que tentar poupar alguém de uma conversa difícil pode ser outra forma de tirar a escolha dela.

Célia apontou a caneta para mim.

— Essa serve.

Assinou a nova proposta.

A vida não mudou de uma vez depois daquela reunião.

Rogério continuou sendo teimoso.

Eu continuei tendo vontade de resolver certas coisas sozinha para acabar mais rápido.

Célia continuou dizendo quando achava uma ideia ruim, inclusive as minhas.

Talvez por isso tenha funcionado.

Dois meses depois, contratamos uma nova funcionária para o movimento de fim de ano.

O nome dela era Luana.

Tinha vinte e dois anos e passou a primeira manhã tentando esconder o nervosismo atrás de uma pressa enorme.

Perto do almoço, ouvi um barulho no setor de utensílios.

Uma caixa tinha caído.

Duas peças de cerâmica quebraram no chão.

Luana ficou imóvel, pálida.

Eu me levantei da cadeira.

Célia chegou primeiro.

Pegou a vassoura no armário.

— Primeiro a gente limpa — disse.

Luana começou a pedir desculpas.

— Depois você fica com vergonha. Agora segura essa pá para mim.

Parei a poucos metros das duas.

A cena me levou onze anos para trás.

Célia me viu.

— Não vem ficar emocionada, gerente. Pega outra vassoura.

— Estou indo.

Ajoelhei ao lado delas.

Luana olhava de uma para outra, sem entender por que estávamos rindo.

Naquela tarde, Rogério passou pela sala e deixou uma pilha de relatórios na minha mesa.

— Preciso da sua opinião antes de mudar a escala de dezembro.

Antes.

Uma palavra pequena.

Mas eu percebi.

Abri os relatórios.

— Te mando uma proposta amanhã.

Ele ia saindo quando eu o chamei.

— Rogério.

— Oi?

— Obrigada por perguntar primeiro.

Ele deu de ombros, um pouco sem jeito.

— Estou tentando aprender também.

Quando o expediente terminou, passei pelo salão apagando as luzes dos setores.

Célia estava na mesa de treinamento, mostrando a Luana como conferir uma troca sem fazer o cliente repetir a história três vezes.

Minha antiga mesa de vendas ficava vazia naquele horário.

A placa de gerente continuava na minha porta.

Durante muito tempo eu pensei que chegar até ela seria a prova de que eu tinha avançado.

Hoje eu sabia que era apenas uma responsabilidade.

Antes de ir embora, Célia colocou a bolsa no ombro.

— Até amanhã, chefe.

— Até amanhã, professora.

— Não exagera.

Ela saiu rindo.

Luana pegou o caderno e foi atrás dela para perguntar mais alguma coisa.

Eu fiquei alguns segundos observando as duas atravessarem a porta da loja.

Depois apaguei a última luz.

Naquela sexta-feira, meses antes, achei que assumir um cargo significava aprender a mandar alguém embora.

Acabei aprendendo outra coisa: nenhuma empresa consegue prometer emprego para sempre, mas qualquer pessoa que aceite liderar pode escolher não tratar gente como se fosse apenas uma linha que precisa desaparecer da planilha.

E você, teria aceitado a promoção nas condições que Rogério colocou no início ou teria recusado imediatamente? Conte nos comentários como você teria agido e siga a página para acompanhar novas histórias.

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