Na manhã da premiação, minha filha confessou que assinou sozinha o projeto feito com a melhor amiga e me pediu que sustentasse a mentira diante da escola
Parte 4
Dois meses depois, o protótipo ainda estava no armário.
A rotina voltou sem realmente voltar ao que era antes. Isadora estudava para o vestibular, eu diminuí um dos turnos extras que vinha aceitando aos sábados e Bruna continuava atravessando os corredores da escola sem sentar ao lado da antiga melhor amiga.
Não havia reconciliação bonita esperando na esquina.
Havia consequência.
E havia tempo.
Numa terça-feira, Isadora chegou em casa e encontrou sobre a mesa o boleto do curso preparatório que tínhamos visitado meses antes.
— Você pagou?
— Ainda não.
Ela viu o valor.
— R$ 490 por mês?
— Eu sei.
— Não dá.
— Posso pegar mais um sábado.
Ela colocou o boleto de volta na mesa.
— Não.
— Isa…
— Foi exatamente assim que começou.
A frase me fez calar.
— Eu quero fazer o curso — continuou. — Mas não quero passar um ano olhando para você saindo às seis da manhã no sábado e pensando que eu tenho obrigação de transformar isso numa aprovação.
Sentei diante dela.
— Então qual é sua ideia?
Isadora tinha pesquisado um cursinho comunitário que cobrava R$ 120 por mês e oferecia material digital. O espaço ficava mais longe, exigiria dois ônibus, e não tinha a estrutura do outro.
— Não é tão bom — ela admitiu.
— E você quer mesmo assim?
— Quero tentar.
Olhei para aquela menina que, meses antes, acreditava precisar ganhar uma competição para justificar os esforços que fazíamos por ela.
— Tá bom.
Ela sorriu.
— Só isso?
— Você queria que eu fizesse um discurso?
— Normalmente você faz.
— Estou evoluindo.
A mudança mais difícil, porém, ainda estava por vir.
Na semana de encerramento do semestre, a escola organizou uma exposição dos projetos desenvolvidos durante o ano. O Raiz aparecia no catálogo porque tinha sido registrado antes da desclassificação.
Denise perguntou às duas se autorizavam que o projeto fosse exibido apenas como trabalho acadêmico, fora de qualquer premiação.
Bruna respondeu que sim.
Isadora também.
Mas havia uma condição: o painel deveria mencionar as duas como autoras.
Na sexta-feira à tarde, fui à escola.
O auditório estava cheio de mesas com robôs pequenos, cartazes sobre reaproveitamento de alimentos, modelos de pontes e aplicativos desenvolvidos pelos alunos.
Encontrei o Raiz perto de uma janela.
Na placa estavam os dois nomes.
Bruna estava de um lado da mesa.
Isadora, do outro.
Não conversavam.
Durante quase meia hora, visitantes passavam, faziam perguntas e seguiam adiante.
Até que um professor de outra turma perguntou:
— Quem teve a ideia?
As duas se entreolharam.
Meses antes, aquela pergunta teria sido uma disputa.
Bruna respondeu:
— Surgiu numa conversa nossa.
Isadora completou:
— Eu pensei no uso para hortas pequenas. A Bruna encontrou um jeito barato de fazer os sensores funcionarem.
— E a estrutura?
— A gente montou juntas — disse Bruna.
Foi simples.
Quase banal.
Talvez por isso tenha sido tão importante.
Depois que o professor saiu, Isadora falou baixo:
— Obrigada por ter vindo.
Bruna organizou alguns fios.
— Eu vim pelo projeto.
— Eu sei.
Não havia cobrança na resposta.
Perto do fim da exposição, duas alunas do primeiro ano pararam na mesa. Uma delas perguntou se poderiam usar a ideia como ponto de partida para um projeto de irrigação no semestre seguinte.
Isadora olhou para Bruna antes de responder.
— Se vocês citarem o projeto e fizerem o desenvolvimento de vocês, claro.
Bruna concordou.
Eu fiquei a alguns metros, fingindo interesse num cartaz sobre compostagem.
Quase ri sozinha.
Às vezes a vida oferecia uma segunda chance sem devolver a primeira.
Na saída, Isadora caminhou comigo até o portão.
— Foi estranho.
— O quê?
— Apresentar com ela.
— Ruim?
— Não.
Pensou um pouco.
— Só não era como antes.
— Talvez não precise ser.
Ela ficou em silêncio.
Então alguém chamou seu nome.
Bruna vinha correndo pelo corredor, segurando um estojo.
— Você esqueceu.
Entregou o estojo a Isadora.
— Valeu.
Bruna deu dois passos e voltou.
— Isa.
— Oi?
— A professora Denise falou que, no próximo semestre, vai abrir um grupo para ajudar o pessoal do primeiro ano no laboratório.
Minha filha assentiu.
— Eu vi.
— Eu vou me inscrever.
— Legal.
— Se você quiser também, tudo bem.
Isadora não respondeu imediatamente.
— Tem certeza?
Bruna encolheu os ombros.
— Não estou dizendo que tudo voltou ao normal.
— Eu sei.
— E se você fizer aquela mania de pegar meu ferro de solda sem pedir, eu vou esconder.
Isadora sorriu.
— Justo.
Bruna começou a ir embora.
— Bru.
Ela olhou para trás.
— Eu não vou estragar isso.
A amiga ficou séria.
— Não promete.
Isadora pareceu confusa.
Bruna continuou:
— Só faz diferente.
Depois foi embora.
No ônibus, minha filha repetiu aquela frase.
— “Só faz diferente.”
— É uma boa frase.
— Dá um pouco mais de trabalho do que pedir desculpa.
— Normalmente dá.
Ela ficou olhando a cidade pela janela.
— Mãe, posso te perguntar uma coisa?
— Pode.
— Você acha que a Márcia ainda lembra do que você fez?
Eu ri sem humor.
— Provavelmente.
— Você queria falar com ela?
Pensei na colega da lanchonete que eu não via havia mais de quinze anos.
— Não para pedir que ela me perdoe. Mas talvez para dizer que hoje entendo melhor o que tirei dela.
Isadora encostou a cabeça no banco.
— Eu achava que admitir uma coisa errada fazia a pessoa parecer pior.
— Eu também.
— Agora acho que esconder dá mais trabalho.
— Principalmente porque você precisa continuar escondendo.
Ela sorriu.
Em janeiro, Isadora começou o cursinho comunitário.
Pegava o primeiro ônibus às sete, levava sanduíche de casa e reclamava dos ventiladores barulhentos. Algumas aulas eram ótimas. Outras, nem tanto.
Quando precisava de um computador melhor, usava o laboratório da escola.
O prêmio de R$ 8 mil foi para outro projeto.
Durante alguns dias, aquilo doeu.
Depois virou apenas uma coisa que ela não tinha ganhado.
Bruna e Isadora entraram no grupo de apoio do laboratório no semestre seguinte.
No começo, trabalhavam em mesas diferentes.
Depois dividiram ferramentas.
Mais tarde voltaram a trocar mensagens sobre exercícios.
A amizade não reapareceu como se nada tivesse acontecido. Foi construída de outro jeito, mais devagar e com menos certeza.
Certa tarde, Bruna veio à nossa casa pela primeira vez desde a premiação.
Eu estava cortando cebola quando ouvi as duas discutindo na sala.
— Esse fio não vai aí.
— Vai, sim.
— Você continua teimosa.
— E você continua mandona.
Esperei.
Então ouvi as duas rirem.
Não saí correndo para ver.
Algumas coisas precisam de testemunha.
Outras precisam de espaço.
Quando Bruna foi embora, Isadora apareceu na cozinha com um pequeno corte no dedo e uma expressão satisfeita.
— Ela voltou? — perguntei.
Minha filha pensou antes de responder.
— Um pouco.
Meses depois, saiu o resultado do vestibular.
Isadora não entrou no curso que queria na primeira chamada.
Chorou naquela noite.
No dia seguinte, acordou cedo, conferiu as opções e decidiu continuar estudando para tentar novamente.
Eu quase disse que pegaria mais turnos.
Segurei a frase.
— Quer café?
— Quero.
Foi o que consegui oferecer sem transformar amor em cobrança.
No fim daquele ano, o pequeno protótipo Raiz saiu definitivamente do armário.
Não foi para uma competição.
As meninas o levaram para a horta comunitária mantida por moradores perto da escola, onde alguns estudantes testavam projetos simples de automação. O aparelho tinha arranhões, fita nova em dois pontos e nenhum valor comercial importante.
Na lateral permanecia a placa de papel plastificado:
“Desenvolvido por Isadora Ferreira e Bruna Alves.”
Fiquei olhando enquanto as duas instalavam o sensor num canteiro.
— Mãe! — Isadora chamou. — Para de fotografar escondido.
— Eu não estou escondendo nada.
— Está com o celular atrás da bolsa.
— Isso é técnica.
Bruna riu.
Isadora veio até mim para pegar uma garrafa de água.
Antes de voltar ao canteiro, olhou para a placa.
— Engraçado.
— O quê?
— Eu quase perdi uma amiga porque achei que dividir meu nome diminuía o meu trabalho.
— E agora?
Ela observou Bruna ajoelhada na terra, tentando prender um fio.
— Agora eu acho que tem coisa que só fica realmente nossa quando a gente consegue admitir a parte que pertence ao outro.
Não respondi.
Dessa vez, ela não precisava que eu completasse a lição.
Isadora voltou para o canteiro, Bruna reclamou que ela estava segurando a ferramenta errada, e as duas começaram outra pequena discussão.
Eu guardei o celular.
Durante muito tempo, tentei preparar minha filha para vencer.
Naquele fim de tarde, vendo as duas trabalhando novamente lado a lado, entendi que talvez eu devesse ter me preocupado um pouco mais em ensiná-la a saber quem queria ser quando não vencesse.
E foi justamente depois de perder um prêmio que Isadora começou a construir alguma coisa que nenhum troféu poderia fazer por ela.
Se você estivesse no lugar de Luciana, teria se recusado a mentir mesmo sabendo que sua filha poderia perder o prêmio? Conte nos comentários o que você faria e siga a página para ler novas histórias.