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Minha sogra colocou meu apartamento e meu carro no testamento dela — e meu marido pediu que eu relevasse

Parte 3

Passei três noites na casa dos meus pais.

Não contei tudo de imediato. Disse apenas que eu e Gustavo estávamos enfrentando um problema sério e que queria deixar alguns documentos guardados ali. Minha mãe percebeu que havia mais, mas não me pressionou.

Foi bom ter alguns dias longe daquela casa.

Sem os gritos de Sônia, sem Gustavo tentando encerrar cada conflito antes que ele realmente fosse resolvido, comecei a enxergar coisas que durante três anos eu tinha tratado como pequenos incômodos.

Sônia sempre perguntava quanto eu ganhava. Queria saber quanto meus pais tinham pago pelo apartamento. Perguntava se eu ainda o alugava, quanto recebia de aluguel e por que não vendia para comprarmos algo “da família”.

Eu ria, desviava de assunto ou respondia pela metade.

Gustavo costumava dizer que a mãe era curiosa.

Quando ela implicava com uma viagem que eu queria fazer ou opinava sobre como eu deveria usar meu dinheiro, ele dizia:

— Você sabe como ela é.

Aquela frase tinha servido para justificar quase tudo.

No quarto dia, Gustavo apareceu na casa dos meus pais.

Eu estava sozinha na sala quando ele chegou.

— Podemos conversar?

Deixei que entrasse.

Ele parecia cansado. Não tentou me abraçar, o que foi bom.

— Minha mãe vai retirar seu apartamento e seu carro do testamento — disse.

Esperei.

— Quando?

— Eu conversei com ela ontem. Ela ainda está muito irritada, mas disse que pode voltar ao cartório.

— Pode ou vai?

Gustavo apertou a mandíbula.

— Larissa, eu estou tentando.

— Eu também tentei durante três anos.

Ele franziu a testa.

— O que isso quer dizer?

— Quer dizer que eu passei três anos tentando ser compreensiva com tudo o que sua mãe dizia ou fazia. Quando ela perguntava quanto meus pais tinham, eu relevava. Quando dizia que meu apartamento seria melhor aproveitado por Camila, eu achava inconveniente e deixava passar. Quando queria saber das minhas contas, eu mudava de assunto. E você sempre dizia a mesma coisa: “Ela é assim.”

Gustavo sentou-se no sofá.

— Eu nunca pensei que fosse chegar a esse ponto.

— Esse é exatamente o problema. Você nunca quis pensar.

Ele ficou quieto.

Eu continuei:

— Você sabia que ela falava sobre meu apartamento como se um dia fosse passar para a Camila. Talvez não soubesse do testamento, mas ouviu o começo disso e decidiu não me contar.

— Porque achei que não fosse sério.

— Tudo o que te incomoda enfrentar acaba deixando de ser sério.

A frase pareceu acertá-lo.

Gustavo passou as mãos pelo rosto.

— Eu errei nisso.

Foi a primeira vez que o ouvi dizer aquelas palavras sem acrescentar um “mas”.

— Eu devia ter cortado quando ela começou a falar do apartamento. Devia ter contado para você.

— Devia.

— E quando você encontrou o testamento, eu devia ter ficado do seu lado sem tentar amenizar.

Eu senti um aperto no peito.

Parte de mim queria que aquela admissão tivesse vindo antes.

— Por que não fez?

Ele demorou a responder.

— Porque eu cresci tentando evitar briga com minha mãe.

Sua voz ficou mais baixa.

— Depois que meu pai morreu, eu tinha vinte e quatro anos. Ela passou a depender muito de mim para tudo. Se eu contrariava, ela chorava, dizia que estava sozinha, que ninguém ligava para ela. Eu fui aprendendo a ceder porque era mais fácil.

— E depois que casou, passou a esperar que eu cedesse também.

Ele me encarou.

— Sim.

Não havia orgulho na resposta.

Aquilo não apagava nada, mas pelo menos era uma verdade.

— E a Camila? — perguntei. — Por que ela tinha tanta certeza de que poderia ficar com meu apartamento?

Gustavo respirou fundo.

— Falei com ela.

Eu esperei.

— Camila está tentando financiar um apartamento há quase um ano. O banco não aprovou o valor que ela queria. Minha mãe começou a dizer que ela não precisava se preocupar, porque no futuro teria um imóvel.

— O meu.

— Sim.

— E a Camila nunca achou estranho?

— Ela disse que achava que nós dois tínhamos combinado.

Balancei a cabeça.

— Curioso como ninguém pensou em confirmar comigo.

Gustavo não respondeu.

Dois dias depois, encontrei Camila num café perto do meu trabalho. Foi ela quem pediu para conversar.

Dessa vez, parecia menos defensiva.

— Eu vim pedir desculpas — disse assim que se sentou.

Não respondi imediatamente.

— Quando minha mãe começou a falar do apartamento, eu perguntei se você concordava. Ela disse que isso seria decidido “em família” e que o Gustavo não teria problema.

— E isso bastou para você?

Camila abaixou os olhos.

— Na hora, eu quis acreditar.

A sinceridade me surpreendeu.

— Eu estava frustrada porque não conseguia comprar o imóvel que queria. Ouvir que poderia ter um apartamento no futuro foi conveniente demais.

Ela mexeu na xícara.

— Mas depois da nossa discussão eu pensei melhor. Se alguém colocasse minhas coisas num testamento sem me perguntar, eu também ficaria furiosa.

Não virei amiga dela naquele momento. Não era tão simples.

Mas percebi uma diferença importante.

Camila estava reconhecendo que tinha se agarrado a uma promessa que nunca deveria ter aceitado.

— Então diga isso à sua mãe — falei.

— Eu disse ontem.

Ergui os olhos.

— E?

Ela soltou o ar.

— Ela ficou furiosa comigo também.

Quase sorri, mas não havia graça.

— Disse que eu estava ficando do seu lado e que ninguém valorizava o sacrifício dela.

— Parece familiar.

Camila fez que sim.

— Também falei que não quero seu apartamento nem seu carro.

Aquilo importava.

Não resolvia o problema principal, mas retirava de Sônia uma justificativa que ela vinha usando desde o início.

— Obrigada por dizer isso.

Camila assentiu.

— Só tem uma coisa que acho que você precisa saber.

Meu corpo ficou tenso.

— O quê?

— Minha mãe não pretende admitir que estava errada.

Eu já imaginava.

— Ela disse que vai mudar o testamento apenas porque o Gustavo está pressionando. E continua dizendo que você está destruindo a família.

— Isso também não me surpreende.

Camila me olhou com cuidado.

— O Gustavo está péssimo.

— Eu também fiquei.

Ela baixou a voz.

— Eu sei.

Naquela noite, Gustavo me ligou.

— Amanhã minha mãe marcou no cartório para fazer uma alteração.

— Certo.

— Você vai voltar para casa depois?

A pergunta ficou entre nós.

Olhei para a mala ainda aberta no quarto dos meus pais.

— Não sei.

— Larissa…

— O testamento nunca foi o único problema, Gustavo.

— Eu sei agora.

— Sabe mesmo?

Ele demorou.

— Estou começando a saber.

Isso era mais honesto do que qualquer promessa grandiosa.

No dia seguinte, Sônia de fato voltou ao cartório.

Eu não fui com ela. Nem precisava.

Gustavo me mostrou depois uma cópia da nova disposição, em que meu apartamento e meu carro não apareciam mais.

Pela primeira vez desde o início da confusão, aquela parte objetiva estava encerrada.

Mas eu não senti alívio suficiente para voltar correndo.

Encontrei Gustavo naquela noite no apartamento onde morávamos.

Sônia estava na casa de uma irmã.

Entramos na sala e sentamos sem acender a televisão.

— Ela mudou — disse ele.

— Eu vi.

— Então…

— Então o documento foi corrigido.

Ele me encarou.

— E nós?

Eu sabia que aquela pergunta chegaria.

— Nós ainda precisamos descobrir se existe um “nós” que não dependa de eu suportar tudo para manter sua mãe satisfeita.

Gustavo respirou fundo.

— O que você quer que eu faça?

— Não quero te dar uma lista como se você fosse uma criança.

Ele baixou os olhos.

— Eu preciso ver o que você decide fazer sem eu te empurrar.

Fiquei alguns segundos pensando antes de continuar.

— Eu não vou mais morar com sua mãe.

Ele levantou a cabeça.

Morávamos na casa de Sônia havia quase dois anos, depois que ela dissera que ficava sozinha desde a morte do marido. No início, seria por alguns meses. Depois virou algo permanente.

— Larissa…

— Esse é meu limite.

Minha voz estava tranquila.

— Se nosso casamento continuar, precisamos ter nossa própria casa. Sua mãe pode ser amada, visitada, ajudada. Mas não vai mais participar de cada decisão nossa, nem transformar nosso casamento numa extensão da vontade dela.

Gustavo ficou em silêncio.

Eu não o pressionei.

Aquela era precisamente a diferença.

Eu não queria arrancar uma resposta que ele pudesse depois usar contra mim.

— Eu preciso pensar — disse finalmente.

Assenti.

— Pense.

Peguei algumas roupas do armário.

Quando passei pela sala com a bolsa, ele se levantou.

— Você vai embora de novo?

— Vou.

— Até quando?

Olhei para ele.

— Até você descobrir se quer construir uma vida comigo ou continuar administrando a vida da sua mãe para que ela nunca fique contrariada.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Não é tão simples.

— Eu sei.

Segurei a maçaneta.

— Mas também não é impossível. Só é uma escolha.

Saí.

Dessa vez, não saí chorando.

Doía, claro. Eu amava Gustavo.

Mas comecei a entender que amar alguém não podia exigir que eu entregasse meus limites em parcelas.

Nos cinco dias seguintes, não nos encontramos.

Trocamos apenas mensagens práticas.

Na sexta-feira à noite, Gustavo pediu para conversar.

Marcamos no mesmo café onde eu havia encontrado Camila.

Quando cheguei, havia dois papéis sobre a mesa.

Meu coração acelerou.

— O que é isso?

Ele empurrou o primeiro em minha direção.

Era um orçamento de aluguel de um apartamento pequeno, a cerca de quinze minutos do meu trabalho.

O segundo era uma lista de despesas.

— Eu procurei um lugar para nós — disse.

Fiquei olhando para ele.

— Sua mãe sabe?

— Sabe.

— E o que ela disse?

Gustavo soltou uma risada cansada.

— Que eu estava abandonando a própria mãe por causa de uma mulher.

Aquela palavra voltou.

Uma mulher.

A esposa dele.

— E você?

Ele me encarou.

— Disse que não estava abandonando ninguém. Disse que ia continuar sendo filho dela, mas que precisava finalmente aprender a ser marido também.

Meu peito apertou.

Antes que eu dissesse alguma coisa, ele continuou:

— Mas tem outra coisa.

O tom mudou.

— Minha mãe se recusou a aceitar a mudança. Hoje de manhã, ela colocou minhas roupas em malas e disse que, se eu saísse da casa dela, não precisava voltar.

Eu senti tristeza, não surpresa.

— O que você fez?

Gustavo ficou olhando para mim por alguns segundos.

Então colocou uma chave nova sobre a mesa.

— Assinei o contrato do apartamento.

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