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Minha mãe de criação me jogou na neve, e um anúncio antigo revelou que eu tinha outra família procurando por mim

Parte 3

Ricardo demorou para responder.

Eu já estava preparada para ouvir alguma desculpa de adulto: que era complicado, que eu era pequena demais para entender, que ele explicaria quando eu crescesse. Marta usava essas frases sempre que queria encerrar uma conversa.

Mas ele puxou a cadeira para perto da cama, sem se sentar perto demais.

— Porque eu falhei em encontrar você — disse.

Franzi a testa.

— Isso eu já sei.

Beatriz fez um movimento como se fosse repreendê-lo, porém Ricardo levantou a mão.

— Ela perguntou. Eu vou responder direito.

Ele explicou que eu desaparecera quando tinha três anos, durante uma viagem da família pela região serrana. Houve confusão perto de uma área de lazer às margens de um rio, muita gente circulando, e bastaram alguns minutos para que ninguém mais soubesse onde eu estava.

A polícia foi acionada no mesmo dia. A família divulgou fotografias, ofereceu recompensa, contratou profissionais para ajudar nas buscas e distribuiu cartazes por cidades próximas.

— Procuramos em hospitais, rodoviárias, abrigos, escolas, cadastros públicos… — Ricardo falou. — Houve centenas de denúncias. Quase todas eram falsas.

— E Marta?

— O nome dela nunca apareceu.

Eu puxei o cobertor para cima.

— Ela falou que me encontrou perto do rio.

Ricardo assentiu.

— Isso é o que a polícia vai investigar agora.

Caio, que estava parado perto da porta, abriu uma pasta e explicou que Marta tinha se mudado mais de uma vez depois de me levar para casa. Na matrícula escolar, havia apresentado documentos incompletos e alegado que meu registro estava sendo regularizado. Em comunidades pequenas, entre mudanças e informações mal preenchidas, eu acabara sendo conhecida apenas como Vitória Nunes.

Nada daquilo significava que Ricardo tivesse feito pouco.

Também não significava que tivesse feito tudo certo.

Ele mesmo deixou isso claro.

— Eu aceitei algumas respostas cedo demais — admitiu. — Houve momentos em que eu confiei que determinada região já tinha sido verificada. Em outros, procurei onde parecia mais provável. Cinco anos é tempo suficiente para eu olhar para trás e encontrar uma decisão que gostaria de ter tomado diferente em quase todos os meses.

— Você desistiu?

A palavra saiu baixa.

Ricardo se levantou e foi até uma mochila que Caio havia trazido.

De dentro, tirou um maço de papéis amassados pelo uso.

Eram anúncios.

Não apenas o que eu havia encontrado na caçamba.

Havia versões de anos diferentes. Em alguns eu aparecia com três anos. Em outros, uma imagem produzida por computador mostrava como eu talvez estivesse aos cinco, seis, sete.

No canto inferior, datas recentes.

— Nunca — respondeu.

Passei os dedos sobre uma das folhas.

Pela primeira vez desde que encontrara aquele anúncio, não pensei na recompensa.

Pensei no número de vezes que meu rosto devia ter sido colado em paredes enquanto eu lavava roupa no quintal de Marta, buscava Tiago na escola ou ficava trancada dentro de casa para não “incomodar”.

Eu estava sendo procurada.

E, ao mesmo tempo, vivendo a poucos quilômetros de pessoas que nunca perguntaram de onde eu tinha vindo.

A policial voltou naquela tarde.

Ela pediu que eu contasse novamente, com calma, como Marta dizia ter me encontrado. Lembrei que a história nunca era exatamente igual. Às vezes ela dizia que eu estava chorando perto da margem do rio. Em outras ocasiões, dizia que eu estava perto de uma ponte. Quando bebia e ficava irritada, afirmava que eu tinha aparecido “do nada” e que devia agradecer todos os dias por não ter morrido.

— Ela chegou a dizer que procurou sua família? — perguntou a policial.

Pensei.

— Falava que ninguém me queria.

A caneta parou por um instante.

— Alguma vez mostrou que havia procurado?

Balancei a cabeça.

— Não.

— Você já viu alguma coisa daquela época na casa?

Lembrei da fotografia que queria buscar.

— Tem uma foto. Eu encontrei escondida numa gaveta.

Ricardo se inclinou, mas não falou.

— Que foto?

— Eu, pequena. Com uma mulher.

Beatriz empalideceu.

— Como era essa mulher?

Descrevi um cabelo comprido e escuro, um vestido amarelo e uma pulseira brilhante. Eu não lembrava da mulher, mas tinha passado horas olhando aquela fotografia sem saber quem ela era.

Beatriz começou a chorar.

— Marina tinha uma pulseira de prata que usava sempre.

Meu coração apertou.

A policial não tratou a foto como uma solução mágica. Disse apenas que, se estivesse onde eu indicara, seria recolhida durante a diligência junto com outros objetos que pudessem ajudar a reconstruir minha história.

Naquele dia, eu não voltei à casa de Marta.

Era melhor assim.

O Conselho Tutelar e a polícia organizaram a retirada das minhas coisas sem me levar ao local. Duas caixas chegaram ao hospital na manhã seguinte.

Meu caderno estava ali.

A fita vermelha também.

A lata de moedas veio com R$ 23,75.

— Está faltando dinheiro — falei.

Caio me olhou assustado.

— Quanto?

— Vinte e cinco centavos.

Ele abriu a boca.

Ricardo pegou a lata, contou tudo duas vezes e disse:

— Nós vamos registrar uma reclamação formal sobre esses vinte e cinco centavos.

Eu percebi que ele estava tentando brincar sem rir da minha preocupação.

Foi a primeira vez que sorri perto dele.

No fundo da segunda caixa estava a fotografia.

Beatriz pediu permissão antes de pegá-la.

Eu entreguei.

Ela levou a mão à boca.

A mulher do vestido amarelo era Marina.

Minha mãe.

Ao lado dela, um Ricardo mais jovem segurava uma menina de três anos no colo. Eu reconheci a pequena marca atrás da orelha, embora quase não fosse visível.

A foto não provava como Marta tinha me encontrado.

Mas provava uma coisa dolorosa: em algum momento, ela tivera nas mãos uma imagem que poderia ter ajudado a identificar minha família.

A pergunta era desde quando.

Dois dias depois, a policial trouxe uma informação.

Durante a busca autorizada na casa de Marta, haviam encontrado numa caixa antiga alguns papéis guardados junto de objetos meus. Entre eles estava parte de uma página de jornal sobre meu desaparecimento, já amarelada.

A data era de poucos dias depois de eu ter sumido.

Meu estômago revirou.

— Ela sabia?

— Ainda estamos ouvindo pessoas e verificando as circunstâncias — a policial respondeu. — O papel mostra que essa informação estava na casa. Não vou dizer mais do que podemos provar.

Gostei daquela resposta, embora doesse.

Eu estava cansada de adultos que transformavam suposições em verdades convenientes.

Ricardo fechou os olhos.

— Então ela podia ter…

— Ricardo — Beatriz interrompeu. — Não na frente dela.

— Pode falar na minha frente — eu disse.

Os dois me olharam.

— É sobre mim.

Foi a primeira vez que percebi que eles precisavam aprender alguma coisa também.

Ser minha família não significava decidir tudo por mim.

Naquela tarde, Beatriz finalmente cumpriu a promessa que fizera quando chegou ao hospital.

Ela trouxe uma caixa de madeira pequena.

— Sua mãe deixou isso.

Dentro havia cartas, fotografias e alguns cartões.

Marina tinha morrido dois anos depois do meu desaparecimento, após uma doença que já enfrentava antes de eu sumir. Beatriz explicou isso sem transformar a morte dela em castigo ou em espetáculo.

— Ela ficou doente antes de você desaparecer — disse. — E continuou procurando por você até não conseguir mais sair de casa.

Peguei a primeira carta.

Na frente estava escrito: “Para Estela, quando tiver oito anos.”

Eu tinha oito.

Não consegui abrir.

— Leia você — pedi a Beatriz.

Ela começou.

Marina não escreveu sobre dinheiro, vingança ou culpa. Contou que, quando eu tinha dois anos, gostava de arrancar os próprios sapatos e escondê-los atrás do sofá. Disse que eu odiava cenoura, adorava olhar a chuva e sempre queria dormir segurando um pedaço do cabelo dela.

Eu toquei meus dedos.

Sem perceber, segurava uma mecha do meu próprio cabelo.

Beatriz parou de ler.

Ricardo saiu do quarto.

Dessa vez, não fiquei com pena porque ele estava chorando.

Fiquei com raiva.

Ele teve três anos comigo.

Marina também.

Eu não lembrava de nenhum deles.

Marta havia ficado com quase todo o resto.

Naquela noite, tive um pesadelo e acordei gritando.

Ricardo apareceu na porta, mas não entrou.

— Posso chegar perto?

Fiquei olhando para ele no escuro.

Depois fiz que sim.

Ele se sentou numa cadeira ao lado da cama.

— Estou com raiva de você — falei.

— Eu sei.

— E dela.

— Eu sei.

— E de Marta.

— Tem direito.

— Não fala que eu tenho direito. Isso me irrita.

Ele respirou fundo.

— Tá bom.

Ficamos sem conversar.

Foi estranho, mas não ruim.

Depois de alguns minutos, tirei o doce de morango debaixo do travesseiro. A embalagem estava um pouco amassada.

Ricardo olhou.

— Ainda guardando para amanhã?

— Acho que amanhã já chegou.

Abri o doce e coloquei na boca.

Era doce demais.

Mesmo assim, não guardei metade.

Na manhã seguinte, a assistente social perguntou como eu gostaria de ser chamada enquanto os procedimentos sobre minha guarda eram organizados.

Olhei para “Vitória Nunes” escrito numa pulseira antiga do hospital.

Depois olhei para a fotografia da menina nos braços de Marina.

— Estela.

Ricardo ficou imóvel.

— Tem certeza?

— Vitória era o nome que Marta me deu. Não preciso odiar. Mas não quero carregar uma coisa que ela escolheu para mim só porque achava que eu devia trazer sorte para o filho dela.

Respirei fundo.

— Quero Estela.

A assistente social anotou.

Era uma decisão pequena.

Eu ainda não sabia onde iria morar definitivamente, quando deixaria de ter pesadelos nem quanto tempo o processo levaria.

Mas aquele nome era meu.

No fim da tarde, a policial entrou mais uma vez.

Desta vez, seu rosto estava diferente.

Ela fechou a porta antes de falar.

— Estela, nós ouvimos uma antiga vizinha de Marta. Ela se lembra do dia em que você chegou à casa.

Meu coração acelerou.

— E?

— Segundo ela, Marta contou naquela época que tinha encontrado uma menina perto da estrada e que estava esperando “a poeira baixar” antes de procurar alguém.

Ricardo se levantou.

A policial continuou:

— E a mesma vizinha se lembra de ter visto um dos anúncios de desaparecimento na mão de Marta poucos dias depois.

Eu apertei o lençol.

— O que ela fez quando viu?

A policial hesitou apenas o suficiente para escolher as palavras.

— A vizinha disse que Marta rasgou o anúncio e jogou parte dele no fogão.

Olhei para a fotografia de minha mãe sobre a mesa.

Cinco anos.

Cinco anos em que eu poderia ter voltado.

E, naquele instante, entendi que a pergunta já não era se Marta sabia quem eu podia ser.

A pergunta era por que ela havia decidido me esconder.

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