Minha melhor amiga barganhou com a menina que a chamava de mãe nos sonhos — até ela decidir parar de esperar
Parte 3
Acordei antes do despertador, com a sensação da mão pequena ainda presa ao meu dedo. Fiquei sentada na cama, olhando para a claridade entrando pelas frestas da cortina, enquanto repetia para mim mesma que tinha sido apenas um sonho. Só que eu já havia usado essa mesma explicação duas vezes, e nas duas algo impossível tinha acontecido depois.
Não contei nada para minha amiga. Pela primeira vez desde que aquela história começou, senti que aquele sonho não pertencia a ela. Também não queria transformar o que a menina tinha me dito em outra negociação, outra aposta ou outro teste para saber se ela era “real”.
Passei o dia trabalhando, mas a pergunta ficou comigo. Eu queria mesmo ser mãe ou só estava com pena daquela criança que aparecia nos nossos sonhos? Quando cheguei em casa, sentei à mesa com papel, calculadora e os extratos das minhas contas.
Meu medo de ter filhos nunca tinha sido falta de afeto. Era medo de não conseguir sustentar uma criança sem depender de ninguém. Eu morava em um apartamento pequeno, tinha emprego fixo, algumas economias e uma vida simples, mas durante anos me convenci de que maternidade só seria possível depois de atingir uma segurança quase perfeita.
Olhando para a vida da minha amiga, percebi a ironia. Ela recebera dinheiro suficiente para resolver problemas que levariam décadas para a maioria das pessoas. Ainda assim, havia encontrado novos motivos para adiar.
Eu fazia o contrário. Não pedia nada a ninguém, mas também usava o medo como desculpa para nunca decidir.
Durante as semanas seguintes, procurei informações com calma. Marquei uma consulta em uma clínica de reprodução assistida de Belo Horizonte, conversei com uma médica sobre maternidade independente, custos, exames, banco de sêmen e possibilidades reais. Saí de lá sem nenhuma promessa de sucesso e, estranhamente, isso me tranquilizou.
Não havia magia no consultório. Não existia garantia.
Existiam etapas, despesas, exames, tentativas e escolhas.
Era justamente disso que eu precisava.
Cortei gastos que não faziam diferença para mim, reorganizei minha reserva financeira e defini um limite que eu poderia assumir sem colocar minha vida em risco. Não fiz aquilo porque uma menina no sonho tinha me prometido alguma coisa. Fiz porque, pela primeira vez, consegui separar o desejo do medo.
Minha amiga percebeu que eu estava diferente.
— Você anda sumida — comentou certo sábado, entrando no meu apartamento sem esperar convite, como fazia havia anos. — Está escondendo namorado?
— Não.
— Mudando de emprego?
— Também não.
Ela me examinou dos pés à cabeça.
— Então é dinheiro.
Quase ri.
Para ela, tudo acabava chegando nisso.
— Nem tudo é dinheiro.
— Depois daquela história toda, você ainda fala isso?
Coloquei duas canecas sobre a mesa e perguntei:
— Você sonhou novamente com a menina?
O sorriso dela desapareceu.
Por alguns instantes, ela mexeu no celular, fingindo procurar alguma coisa. Depois respondeu:
— Não.
— Desde seu aniversário?
— Não.
Ela mordeu o lábio.
— Nem antes.
Aquilo chamou minha atenção.
— Como assim?
Minha amiga se levantou e começou a andar pela sala.
— Tem uma coisa que eu não te contei.
Esperei.
— Naquela terceira vez, quando pedi a promoção para gerente e o bônus… ela não respondeu.
— Você disse que ela só tinha ficado olhando para você.
— Eu menti.
Ela parou junto à janela.
— A menina falou alguma coisa.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
— O quê?
Minha amiga demorou a responder.
— Ela disse: “Eu já dei para você o que pediu.”
Engoli em seco.
— Só isso?
— Não.
Ela virou o rosto.
— Depois falou: “Mas você nunca me deu o que prometeu.”
A sala ficou silenciosa.
Eu já imaginava algo parecido, mas ouvi-la admitir causou uma sensação diferente. Não havia mais brincadeira na voz dela.
— E por que você escondeu isso?
— Porque fiquei com raiva.
— Com uma criança?
— Com a situação! — respondeu, elevando a voz. — Eu pensei que, se ela podia fazer aquelas coisas acontecerem, podia fazer mais uma. Não estava pedindo um castelo.
— Você estava pedindo outra recompensa para cumprir uma promessa que já deveria ter cumprido.
Ela cruzou os braços.
— Você não entende.
— Eu entendo perfeitamente.
Pela primeira vez, minha amiga não conseguiu transformar a conversa em piada.
Sentou no sofá e confessou algo ainda pior.
Depois que completara trinta anos, o marido acreditava que os dois finalmente começariam a tentar ter um filho. Ela, porém, tinha renovado o método contraceptivo sem contar a ele.
— Você disse que estava tentando?
— Eu só disse que não ia mais evitar.
— Isso é mentir.
— Eu precisava de tempo.
— Você já teve anos.
Ela passou a mão pelo rosto.
— Eu gosto da minha vida como está.
— Então fale isso para seu marido.
— E se ele quiser ir embora?
A resposta saiu da minha boca antes que eu pudesse suavizar:
— Você não pode construir um casamento mantendo alguém preso a uma promessa que não pretende cumprir.
Ela ficou profundamente ofendida.
— Agora você virou juíza da minha vida?
— Não. Só cansei de fingir que tudo isso é engraçado.
Ela pegou a bolsa e foi embora batendo a porta.
Nas semanas seguintes, mal nos falamos.
Continuei meu tratamento.
Os exames estavam dentro do esperado e, depois de discutir as opções com a médica, decidi iniciar uma tentativa de inseminação. Não contei para ninguém além das pessoas estritamente necessárias. Eu sabia que poderia não funcionar e não queria transformar cada etapa em expectativa pública.
A primeira tentativa falhou.
Chorei naquela noite.
Não porque acreditasse que a menina tivesse me abandonado, mas porque percebi que já desejava verdadeiramente aquela maternidade. O fracasso deixou de ser apenas um resultado médico e se tornou uma perda de uma possibilidade que eu tinha começado a amar.
No mês seguinte, tentei novamente.
Dessa vez, esperei o tempo recomendado e fiz o exame sem criar grandes cenas na minha cabeça.
Quando vi o resultado positivo, sentei no chão do banheiro.
Não gritei.
Não telefonei para ninguém.
Só fiquei ali, segurando a folha com as duas mãos, tentando respirar.
Naquela noite, não sonhei com a menina.
Nem na seguinte.
Curiosamente, isso me trouxe paz.
Eu tinha dito a ela que não precisava me dar nada, e talvez aquela promessa valesse nos dois sentidos. Eu também não precisava receber nenhum sinal sobrenatural para aceitar o que estava acontecendo.
As primeiras semanas exigiram cuidado e acompanhamento, como qualquer gravidez. Só depois de passar por uma etapa inicial mais segura contei para minha família e para duas amigas próximas.
Eu ainda não tinha contado para a vizinha da porta em frente.
Ela descobriu sozinha.
Certa manhã, voltávamos juntas pelo elevador quando meu celular tocou. Era a clínica confirmando o horário de um exame. Eu respondi rapidamente, mas ela ouviu o nome do setor.
Quando entramos no corredor, segurou meu braço.
— Que exame é esse?
— Nada que diga respeito a você.
Ela ficou imóvel.
Seus olhos desceram lentamente até minha barriga, embora ainda não houvesse praticamente nada para ver.
— Você está grávida?
Respirei fundo.
— Estou.
A cor sumiu do rosto dela.
— De quanto tempo?
Respondi.
Ela recuou um passo.
— Você sonhou com ela.
Não era uma pergunta.
Não respondi.
— Você sonhou, não foi?
— Isso não muda nada.
— Meu Deus.
Ela começou a andar de um lado para o outro no corredor.
— Foi por isso que você ficou estranha depois do meu aniversário.
— Eu decidi ser mãe porque queria ser mãe.
— Ela voltou para você.
— Pare.
— Ela voltou!
A voz dela aumentou tanto que uma porta no fim do corredor se abriu.
Segurei a maçaneta do meu apartamento.
— Não transforme meu filho em mais uma coisa que pertence a você.
— Sua filha.
Congelei.
Eu ainda não sabia o sexo.
Minha amiga percebeu o que havia dito e também ficou parada.
— Eu só…
— Você não sabe se é menina.
Ela passou os dedos pelos cabelos.
— Eu sei.
— Não, você não sabe.
— Era ela.
A convicção em seu rosto me incomodou.
Entrei em casa e fechei a porta.
Naquela noite, ela bateu três vezes.
Não abri.
No dia seguinte, deixou mensagens dizendo que precisava conversar. Depois mandou outra dizendo que eu tinha “tomado uma decisão importante sem pensar nas consequências”.
Bloqueei as notificações por algumas horas.
Dois dias mais tarde, o marido dela me encontrou na garagem.
Seu rosto parecia destruído.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Depende.
— Minha esposa realmente pretendia ter um filho algum dia?
Meu coração afundou.
— Essa resposta precisa vir dela.
Ele soltou um riso sem humor.
— Foi o que eu pensei.
Só então descobri que eles tinham discutido na noite anterior. Minha amiga, tomada pela raiva depois de descobrir minha gravidez, acabara revelando mais do que pretendia. Contou sobre o sonho, as promessas e, no meio da discussão, admitiu que havia renovado o contraceptivo escondida.
O marido não acreditava na parte sobrenatural.
Mas acreditava perfeitamente na mentira.
— Passei anos achando que estávamos esperando estabilidade — disse. — Agora descobri que ela nunca tinha uma data. Toda vez que a vida melhorava, aparecia uma nova condição.
Eu não quis me colocar no meio.
— Conversem quando estiverem mais calmos.
— Eu tentei.
Ele olhou para a porta do apartamento deles.
— Ela disse que talvez quisesse um filho agora.
Aquilo deveria ter sido uma boa notícia.
Mas não foi.
Eu sabia exatamente por que minha amiga tinha mudado de ideia naquele momento.
Não era porque finalmente estava pronta.
Era porque acreditava que tinha perdido alguma coisa para mim.
Naquela tarde, ela apareceu diante da minha porta.
Desta vez, não estava irritada.
Estava chorando.
— Eu quero corrigir tudo.
— Então comece sendo sincera com seu marido.
— Eu vou.
— E pare de falar sobre minha gravidez como se fosse uma propriedade sua.
Ela apertou as mãos.
— Mas você não entende.
— Eu entendo mais do que você imagina.
Ela ergueu os olhos vermelhos.
— Se essa criança for aquela menina, ela deveria ter sido minha filha.
Senti uma calma estranha tomar conta de mim.
— Não. Ela nunca “deveria” ter sido de ninguém.
— Ela me chamou de mãe.
— E você respondeu com condições.
Minha amiga fechou os olhos.
— Eu estava com medo.
— Você estava negociando.
— Eu errei.
— Errou.
Ela respirou fundo.
Por um instante, achei que finalmente ouviria algo diferente.
Mas então veio a frase que acabou com o pouco de paciência que me restava:
— Se você ainda não está tão avançada na gravidez, talvez pudesse pensar melhor antes de levar isso adiante.
Fiquei olhando para ela.
— O que você acabou de dizer?
Ela percebeu imediatamente a gravidade do que tinha insinuado.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Foi exatamente isso.
— Eu só quis dizer que talvez essa menina tenha vindo para você porque ficou com raiva de mim. Se eu corrigir as coisas…
Abri a porta do corredor e apontei para o apartamento dela.
— Vá embora.
— Me escuta.
— Não.
Minha voz não saiu alta, mas saiu firme.
— Minha gravidez não existe para te ensinar uma lição, te devolver sorte ou permitir que você conserte suas promessas. Esta criança é minha responsabilidade. E, a partir de hoje, você não vai ultrapassar essa porta enquanto não aprender a respeitar isso.
Ela ficou branca.
— Você está jogando nossa amizade fora por causa de um sonho?
— Não.
Segurei a maçaneta.
— Estou colocando limite por causa de tudo que você fez acordada.
Fechei a porta.
Naquela mesma noite, ouvi malas sendo arrastadas no apartamento em frente.
Pouco depois, o elevador desceu.
Eu não precisava olhar para saber quem estava indo embora.
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