Meu padrasto parecia um chefe de gangue e eu morria de medo dele — até encontrar o desabafo que ele fez sobre mim
Parte 4
Mauro me encarou como se eu tivesse acabado de descobrir um segredo de Estado.
— Que perfil?
A pergunta saiu tão rápida que quase seria convincente.
Cruzei os braços.
— O da camisa rosa.
Ele fechou os olhos.
Devagar.
Depois passou uma mão pelo rosto.
— Meu Deus.
Eu não consegui evitar um sorriso.
— Então é seu.
— Lívia…
— É ou não é?
Ele deixou o celular sobre a mesa.
— É.
— Desde quando?
— Desde antes de eu casar com sua mãe.
Aquilo me surpreendeu.
— Você já escrevia sobre mim antes do casamento?
Mauro afundou no sofá.
Toda a postura intimidadora tinha desaparecido.
— Eu precisava saber se estava fazendo as coisas direito.
— E resolveu perguntar para desconhecidos na internet?
— Quando você fala desse jeito, parece uma decisão ruim.
— Porque foi uma decisão meio ruim.
Ele assentiu.
— Justo.
Fiquei alguns segundos sem saber por onde começar.
Havia tantas coisas acumuladas que nenhuma parecia adequada para ser a primeira.
No fim, escolhi a que mais tinha doído.
— Por que você saía da sala quando eu chegava?
Mauro ergueu os olhos.
— Você leu isso.
— Li.
Ele apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Eu achava que você queria conversar com sua mãe sem mim por perto.
— Eu achava que você não queria ficar perto de mim.
A reação dele foi imediata.
— O quê?
— Era exatamente isso que parecia.
— Lívia, não.
— Mas você fazia.
— Eu sei.
Ele respirou fundo.
— Agora eu sei como parecia.
Minha voz saiu mais baixa.
— Eu passei mais de um ano tentando não incomodar você.
Mauro ficou imóvel.
— Incomodar?
— Eu sabia que a casa era sua. Sabia que minha mãe e eu tínhamos chegado depois. Então pensei que, se eu fosse educada, não desse trabalho e ficasse no meu canto, pelo menos você não teria motivo para se arrepender de ter casado com ela.
O rosto dele mudou.
Não foi pena.
Foi algo mais pesado.
— Você pensava isso?
— Pensava.
Ele levantou, deu dois passos pela sala e voltou.
Parecia precisar se movimentar para organizar o que sentia.
— Lívia, escuta uma coisa.
A voz estava firme, mas não fria.
— Esta casa não é “minha” no sentido que você está falando. É a nossa casa.
Baixei os olhos.
Ele continuou:
— Você não precisa merecer comida. Não precisa merecer um quarto. Não precisa tirar nota boa para poder morar aqui. E não precisa ser invisível para eu não me arrepender de nada.
A última frase atingiu alguma coisa dentro de mim.
Meu pai biológico costumava fazer contas em voz alta.
Quanto gastava com material escolar.
Quanto custava minha comida.
Quanto “teria economizado” se eu fosse um menino mais velho que pudesse trabalhar com ele.
Durante anos, aprendi a interpretar cuidado como dívida.
Mauro não sabia de tudo.
Minha mãe nunca gostava de falar em detalhes sobre aquela época.
Mesmo assim, parecia ter percebido alguma coisa.
— Eu não sabia como me aproximar de você — ele disse. — E fiz o pior possível. Esperei que uma menina de quinze anos resolvesse aquilo por nós dois.
— Eu também nunca falei.
— Você era a adolescente. Eu era o adulto.
A sinceridade me fez levantar os olhos.
Ele não tentou dividir a culpa.
Não disse que eu também era fria.
Não inventou desculpa.
Apenas assumiu.
Mauro puxou a poltrona e sentou mais perto.
— Quando conheci sua mãe, ela falou de você no segundo encontro.
— Sério?
— O segundo encontro inteiro.
Eu ri.
— Parece com ela.
— Mostrou foto, boletim, desenho antigo, foto sua sem os dentes da frente…
— Ela mostrou essa?
— Mostrou.
— Vou conversar com ela.
— Não envolve meu nome.
Pela primeira vez, a tensão diminuiu.
Então Mauro ficou sério outra vez.
— Ela me perguntou se ter uma filha seria um problema.
Sua mão se fechou sobre o próprio joelho.
— Aquilo me incomodou.
— Por quê?
— Porque significava que alguém já tinha feito vocês duas acreditarem que você poderia ser um problema.
Engoli em seco.
Ele olhou para mim com cuidado.
— Eu não queria ser mais uma pessoa fazendo você sentir isso.
— Então ficou quieto.
— É.
— E parecia que não gostava de mim.
— É.
Suspirei.
— Seu plano foi péssimo.
— Foi.
— Muito ruim.
— Já entendi.
— Só estou confirmando.
Um sorriso apareceu no rosto dele.
Depois desapareceu quando perguntei:
— E aquelas coisas que você escreveu? Que sempre quis uma filha?
Mauro desviou os olhos pela primeira vez.
— Isso é verdade.
— Por quê?
Ele pensou antes de responder.
— Não sei se existe um motivo bonito.
Encostou as costas na cadeira.
— Cresci numa casa cheia de homens. Meu pai, meus tios, meus irmãos. Era gritaria, futebol, oficina, trabalho. Quando fiquei mais velho, pensei que algum dia teria filhos.
Fez uma pausa.
— Nunca aconteceu.
— Você não teve relacionamento?
— Tive. Só não construí família.
Ele sorriu sem tristeza.
— Depois conheci sua mãe. E descobri que ela vinha com uma adolescente inteligente que mal olhava para mim.
— Você também não ajudava.
— Eu sei.
— Aquela corrente dourada era assustadora.
Mauro olhou para o próprio pescoço.
— Já guardei.
— Não precisava jogar fora.
— Não joguei. Custou caro.
Ri.
A conversa ficou mais leve, mas ainda havia uma coisa presa dentro de mim.
— Posso perguntar outra?
— Pode perguntar qualquer coisa.
— O computador.
Ele fechou os olhos.
— Você leu tudo mesmo.
— Foi você?
— Foi.
— Por que minha mãe disse que era “da casa”?
— Porque pedi.
— Por quê?
— Você acabou de ler o motivo.
Eu lembrava perfeitamente.
“Não quero parecer que estou tentando comprar carinho.”
Balancei a cabeça.
— Você complica tudo.
— Sua mãe fala isso.
— Ela está certa.
— Infelizmente.
Nesse momento, ouvimos a chave na porta.
Minha mãe entrou carregando duas sacolas.
Parou assim que viu nós dois sentados frente a frente.
— Eu perdi alguma coisa?
Mauro apontou para mim.
— Ela descobriu.
Minha mãe arregalou os olhos.
— Descobriu o quê?
Ele fez um gesto desesperado.
— O perfil.
Minha mãe colocou as sacolas no chão.
Então, para minha surpresa, começou a rir.
— Eu falei que um dia isso ia acontecer.
Virei para ela.
— Você sabia?
— Claro que sabia.
— Mãe!
— Eu não lia tudo.
Mauro resmungou:
— Lia, sim.
— Só quando você me mandava.
Olhei de um para o outro.
— Então vocês dois estavam discutindo minha vida com a internet inteira?
Minha mãe levantou as mãos.
— Eu não escrevi nada.
— Mas sabia.
— Sabia.
— Isso é muito constrangedor.
Mauro murmurou:
— Concordo.
Minha mãe olhou para ele.
— Agora você concorda?
— Agora que fui descoberto, sim.
Não consegui manter a indignação.
Comecei a rir.
Minha mãe se sentou no braço do sofá.
— Pelo menos serviu para alguma coisa.
Olhei para Mauro.
— Serviu para a camisa rosa rasgar.
Ele apontou um dedo para mim.
— Aquela camisa morreu em serviço.
Nós três rimos.
Mas eu ainda precisava dizer uma coisa.
Esperei o barulho diminuir.
— Mauro.
Ele olhou.
— Eu não sei chamar você de pai.
Minha mãe ficou quieta.
O rosto dele também se tornou sério.
Continuei antes de perder a coragem.
— Talvez um dia aconteça. Talvez não. Eu não sei.
Ele assentiu devagar.
— Tudo bem.
— Mas também não quero mais agir como se você fosse só um homem que mora aqui.
Mauro baixou os olhos por um instante.
— O que você quer que eu seja?
Era exatamente a pergunta que minha mãe havia dito que ele deveria fazer.
Dessa vez, porém, eu tinha uma resposta.
— Meu padrasto.
Ele esperou.
— De verdade.
Minha voz falhou um pouco.
— Não só no papel.
Mauro respirou fundo.
Assentiu uma vez.
— Eu consigo fazer isso.
Minha mãe enxugou discretamente o canto do olho.
— Se vocês dois começarem a chorar, eu vou para o quarto.
— Você já está chorando — falei.
— É alergia.
Mauro apontou para as sacolas.
— Alergia a supermercado?
— Cala a boca.
Na manhã da apresentação da escola, acordei mais cedo do que precisava.
Mauro também.
Quando saí do quarto, ele estava diante do espelho da sala usando uma camisa azul.
Olhou para mim.
— Muito sério?
Analisei.
— Um pouco.
Ele abriu o primeiro botão.
— Melhor?
— Melhor.
— Corrente?
— Não.
— Relógio?
— Pode.
— Tatuagem?
Olhei para os braços dele.
— Você pretende arrancar?
— Posso usar manga comprida.
Balancei a cabeça.
— Mauro, você não precisa fingir ser outra pessoa.
Ele ficou quieto.
Aproximei-me.
— Eu só precisava descobrir quem você era por trás da cara assustadora.
Ele abriu um sorriso.
— Então o rosa funcionou.
— Não exagera.
Na escola, minha ponte suportou mais peso do que eu esperava.
Não ganhei o primeiro lugar.
Fiquei em terceiro.
Quando meu nome foi anunciado, procurei automaticamente na plateia.
Minha mãe tinha conseguido trocar parte do plantão e estava lá.
Mauro estava ao lado dela.
Foi o primeiro a levantar.
Aplaudiu tão forte que algumas pessoas olharam.
Senti vergonha.
Mas uma vergonha boa.
Depois da apresentação, uma colega perguntou:
— Aquele grandão tatuado é seu pai?
Minha resposta ficou presa por meio segundo.
Olhei para Mauro.
Ele estava ajudando minha mãe a carregar minha maquete sem destruir nada.
Respondi:
— É meu padrasto.
E percebi que, daquela vez, a palavra não pareceu uma explicação.
Pareceu pertencimento.
Nos meses seguintes, nada virou um conto de fadas.
Mauro ainda era fechado.
Eu ainda precisava de espaço.
Às vezes ele fazia perguntas demais sobre horários e eu ficava irritada.
Às vezes eu passava o dia inteiro no quarto e ele voltava a imaginar que tinha feito alguma coisa errada.
Mas nós começamos a perguntar em vez de adivinhar.
Quando ele achava que eu queria ficar sozinha com minha mãe, perguntava.
Quando eu achava que ele estava bravo, perguntava.
Descobrimos que metade dos nossos problemas tinha nascido de pensamentos que nenhum dos dois jamais pronunciara.
O perfil continuou existindo.
Eu sabia.
Mauro sabia que eu sabia.
De vez em quando, eu entrava para ver.
As publicações também mudaram.
“Minha filha ficou em terceiro lugar num projeto de física.”
“Minha filha quer aprender a dirigir no ano que vem. Estou reconsiderando todas as minhas escolhas.”
“Minha filha disse que minha camiseta verde parece uniforme de posto de gasolina. Preciso de novas fontes de orientação de moda.”
Eu quase nunca comentava.
Mas certa noite encontrei uma publicação curta.
“Há algum tempo perguntei como fazer minha filha parar de ter medo de mim.”
“Descobri que eu também precisava parar de ter medo de falar com ela.”
Fiquei olhando para a tela.
Logo abaixo, centenas de desconhecidos deixavam mensagens felizes.
Escrevi apenas:
“Parece que vocês dois aprenderam.”
A resposta de Mauro chegou poucos minutos depois.
“Estamos aprendendo.”
No dia seguinte, quando saí do quarto para tomar café, encontrei uma caixa sobre a mesa.
Abri.
Era uma camisa polo rosa, tamanho certo.
Olhei para Mauro.
Ele estava fingindo ler notícias no celular.
— Você comprou outra?
— Promoção.
— Mentira.
— Cinquenta por cento de desconto.
— Mauro.
Ele finalmente levantou os olhos.
— Sua mãe disse que eu precisava superar o trauma.
Minha mãe apareceu na cozinha.
— Não coloca isso na minha conta.
Peguei a camisa e comecei a rir.
Mauro também.
Dessa vez, não abaixei a cabeça para esconder.
Não senti medo de estar rindo dele, nem preocupação em ocupar espaço demais naquela casa.
Eu apenas fiquei ali, entre minha mãe e o homem que levou mais de um ano, centenas de conselhos de desconhecidos e uma camisa rosa rasgada para descobrir como chegar perto de mim.
E percebi que família nem sempre começa com sangue, nem com a palavra certa.
Às vezes, começa quando duas pessoas finalmente param de imaginar o pior uma da outra e criam coragem para conversar.
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