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Meu namorado de seis anos recusou comprar meu creme, mas voltou da viagem com um presente caro para outra mulher

Parte 4

No dia seguinte, cheguei ao laboratório perto do fim da tarde.

Não pedi que ninguém se reunisse. Não queria transformar meu término em espetáculo. Só sabia que Gabriel costumava estar ali naquele horário e que Vinícius, Larissa e alguns colegas que tinham ouvido diferentes versões provavelmente também estariam.

Estavam.

Gabriel me viu entrar e imediatamente se levantou.

— Podemos conversar lá fora.

— Podemos conversar aqui.

Algumas pessoas pararam discretamente o que estavam fazendo.

Ele baixou a voz.

— Clara, não precisa envolver todo mundo.

— Eu não envolvi.

Coloquei minha bolsa sobre uma cadeira.

— Você envolveu quando falou sobre nossa intimidade neste laboratório. E envolveu novamente quando decidiu contar que eu terminei com você por causa de um creme.

Vinícius baixou os olhos.

Larissa ficou imóvel perto do computador.

Gabriel respirou fundo.

— Eu não disse exatamente isso.

— Então diga exatamente o que aconteceu.

Ele ficou em silêncio.

Eu não aumentei a voz.

— Conte a eles que, no nosso aniversário de seis anos, eu cheguei aqui com um presente e ouvi você dizer que me beijar era tão ruim que dava pesadelo.

O rosto dele ficou vermelho.

— Clara…

— Conte que disse que nossa vida íntima parecia procedimento burocrático.

Ninguém riu.

Dessa vez não havia graça nenhuma naquelas frases.

— Conte também que havia um presente caro na mesa da Larissa e que, quando eu perguntei, você colocou a sacola na minha mão e disse que tinha comprado para mim.

Gabriel apertou a mandíbula.

— Eu já pedi desculpas por isso.

— Para mim.

Dei um passo mais perto.

— Mas para os outros você diz que terminamos por um produto de beleza.

Ele passou a mão pelo rosto.

— Eu não sabia como explicar.

— Você sabia.

Minha voz continuava calma.

— Só não queria parecer o homem que foi.

Larissa se mexeu.

— Clara está dizendo a verdade.

Gabriel virou o rosto para ela.

Larissa não recuou.

— O creme era para mim.

O laboratório ficou ainda mais silencioso.

Ela continuou:

— Eu tinha falado das minhas olheiras, Gabriel comprou e eu aceitei. Quando Clara entrou, ele disse para ela que era presente dela. Eu estava chegando e ouvi parte da conversa.

Gabriel parecia humilhado.

Por um instante, senti vontade de interromper tudo.

Depois lembrei de quantas vezes eu tinha sentido vergonha sozinha por causa de atitudes dele.

Não precisava protegê-lo das consequências da própria verdade.

— E não aconteceu nada físico entre nós — Larissa acrescentou. — Mas eu também não vou fingir que a proximidade era completamente inocente.

Gabriel fechou os olhos.

— Larissa, chega.

Ela ficou séria.

— Não. Você disse várias vezes que queria consertar as coisas. Começa assumindo.

Vinícius afastou a cadeira e ficou de pé.

— Eu também estava aqui naquele dia.

Olhou para mim.

— Fui eu que comecei algumas das piadas.

Depois voltou-se para Gabriel.

— Mas você não precisava entrar na brincadeira.

Gabriel abriu os braços.

— Tá bom. O que vocês querem que eu faça? Que eu me humilhe?

Eu finalmente senti raiva.

— É isso que você acha que está acontecendo?

Ele me encarou.

— Eu estou perdendo você, meus colegas estão me julgando e agora a Larissa está agindo como se tudo tivesse sido culpa minha.

— Não foi tudo culpa sua — respondi.

Larissa olhou para mim.

— Ela errou também.

Gabriel pareceu surpreso.

— Vinícius errou ao transformar meu relacionamento em piada.

Vinícius assentiu.

— E eu errei durante muito tempo ao aceitar migalhas porque tinha medo de perder seis anos de história.

Respirei fundo.

— Mas você era meu namorado. Era você quem tinha compromisso comigo.

Ele não respondeu.

— Portanto, sim, a maior responsabilidade pelo que aconteceu entre nós é sua.

Gabriel sentou novamente.

Parecia exausto.

— Eu nunca quis machucar você desse jeito.

— Eu acredito.

Ele ergueu os olhos.

— Acredito mesmo. Acho que esse é um dos motivos pelos quais demorou tanto para eu ir embora.

Algumas lágrimas ameaçaram aparecer, mas consegui continuar.

— Você não acordava pensando em como me machucar. Só acordava sem pensar em mim.

Aquilo atingiu Gabriel de uma maneira diferente.

Ele desviou o rosto.

— Eu estava ali há tanto tempo que você parou de me enxergar. Minha presença virou uma certeza. Minha paciência virou uma certeza. Meu amor virou uma certeza.

Minha garganta apertou.

— E quando apareceu alguém que admirava cada coisa que você fazia, você gostou da sensação. Não precisou se apaixonar por ela. Bastou começar a oferecer a ela aquilo que já não achava necessário oferecer para mim.

Gabriel abaixou a cabeça.

Ninguém falou durante alguns segundos.

Então ele disse:

— É verdade.

A voz saiu quase inaudível.

— Fala mais alto — pedi.

Ele levantou os olhos.

— É verdade.

Não havia raiva em sua expressão agora.

Só vergonha.

— Eu tratei você como garantida. Gostei da atenção da Larissa. Gostei de parecer engraçado para os outros e disse coisas cruéis sobre você. Comprei o presente para ela, menti quando você perguntou e depois tentei reduzir tudo porque não queria admitir que tinha estragado nosso relacionamento.

As lágrimas finalmente apareceram nos olhos dele.

— E quando você terminou, eu tentei resolver com dinheiro e presentes porque era mais fácil comprar dez caixas do que aceitar que você não confiava mais em mim.

Fiquei parada.

Durante semanas eu tinha imaginado que ouvir uma confissão completa me traria alguma espécie de satisfação.

Não trouxe.

Só trouxe encerramento.

Gabriel se levantou.

— Eu sei que não posso pedir que você esqueça.

— Não pode.

— Mas posso pedir tempo.

Balancei a cabeça.

— Tempo para quê?

— Para mostrar que consigo mudar.

— Você pode mudar.

Ele esperou o restante.

— Mas não vou ser o prêmio pela sua mudança.

Gabriel fechou os olhos.

— Clara…

— Eu passei seis anos tentando ser boa o suficiente para você perceber meu valor. Não vou passar os próximos seis observando se você aprendeu a perceber.

A frase pareceu encerrar algo dentro de mim.

Peguei minha bolsa.

Antes de sair, Gabriel chamou:

— Você ainda me ama?

Parei.

Era a pergunta que eu mais tinha medo de ouvir.

Virei-me.

— Amo uma parte do que nós fomos.

Ele ficou imóvel.

— Talvez ainda ame você de alguma maneira.

As lágrimas desceram pelo rosto dele.

— Mas eu finalmente entendi que amor não é argumento suficiente para continuar num lugar onde eu precise diminuir minhas necessidades para não incomodar.

Gabriel não tentou me impedir.

Foi a primeira vez.

Nas semanas seguintes, ele realmente mudou algumas atitudes.

Não comigo.

E isso, curiosamente, foi a prova de que talvez tivesse entendido o que eu disse.

Parou de mandar mensagens tentando me convencer. Pediu desculpas a Júlia por tê-la colocado no meio da situação. Pediu desculpas a Vinícius por ter alimentado conversas desrespeitosas e manteve apenas contato profissional com Larissa.

Eu soube dessas coisas pelos outros.

Não transformei nenhuma delas em motivo para reconsiderar.

Mudança não apagava consequência.

Enquanto isso, minha vida começou a ocupar os espaços que durante anos tinham sido preenchidos pela espera.

Terminei uma etapa importante do projeto de pesquisa.

Voltei a almoçar sem o celular ao lado do prato.

Passei a sair com Júlia nos fins de semana.

Comprei para mim mesma o creme da Estée Lauder que tinha pedido a Gabriel.

Quando a caixa chegou, fiquei alguns segundos olhando para ela e comecei a rir.

Júlia apareceu na porta.

— O que foi?

Levantei o produto.

— Eu transformei isso numa questão existencial por semanas.

Ela deu de ombros.

— Nunca foi sobre o creme.

— Eu sei.

E sabia mesmo.

Nunca tinha sido sobre Estée Lauder.

Nem sobre Helena Rubinstein.

Nem sobre R$ 700 ou R$ 1,5 mil.

Era sobre um homem que dizia não ter cinco minutos para comprar algo que eu mesma pagaria, mas encontrava tempo, memória e disposição quando outra pessoa queria ser cuidada.

Era sobre seis anos em que eu havia aprendido a interpretar ausência como personalidade.

Frieza como cansaço.

Desinteresse como maturidade.

E migalhas como estabilidade.

Meses depois, encontrei Gabriel por acaso perto da biblioteca.

Ele parecia diferente.

Não melhor nem pior.

Apenas mais sóbrio.

— Oi — disse.

— Oi.

Ficamos alguns segundos parados.

— Como você está?

— Bem.

E eu estava.

Não precisei exagerar.

Gabriel assentiu.

— Eu também estou melhor.

— Que bom.

Ele respirou fundo.

— Eu queria agradecer por uma coisa.

Esperei.

— Você poderia ter simplesmente me odiado. Em vez disso, me obrigou a olhar para o que eu tinha feito.

— Não fiz isso por você.

Ele soltou um sorriso triste.

— Eu sei.

Depois colocou as mãos nos bolsos.

— E também queria dizer que sinto muito. Não só pelo presente. Não só pela mentira.

Olhou para mim diretamente.

— Sinto muito por ter feito você acreditar que pedir carinho era exigir demais. Por ter usado nossa intimidade para fazer piada. Por ter gostado da atenção de outra pessoa enquanto tratava a sua como obrigação.

Dessa vez não havia “mas”.

Nenhuma justificativa.

Nenhum pedido para voltar.

Por isso consegui responder:

— Obrigada por dizer isso.

Gabriel assentiu.

— Não vou pedir outra chance.

— Obrigada por isso também.

Nos despedimos ali.

Sem abraço.

Sem promessa.

Sem cena de filme.

Naquela noite, arquivei nossa conversa antiga.

Não apaguei as fotos.

Também não fiquei olhando para elas.

Elas pertenciam a uma parte da minha vida que tinha existido de verdade. Havia amor ali. Havia momentos bons. Havia uma garota que acreditava que ficar era sempre mais corajoso do que ir embora.

Eu já não precisava destruir aquela garota para provar que tinha mudado.

Alguns meses depois, o gato laranja do campus apareceu mancando perto da biblioteca.

Levei-o a uma clínica veterinária, descobri que não era nada grave e acabei ficando responsável por ele durante alguns dias.

Os “alguns dias” viraram semanas.

As semanas viraram adoção.

Júlia achou engraçadíssimo.

— O gato que recusava sua comida agora dorme na sua cama.

— Pelo menos ele sempre deixou claro que era exigente.

Ela começou a rir.

Eu também.

Certa noite, ele se enroscou ao lado dos meus pés enquanto eu revisava as últimas páginas do meu projeto.

Peguei o celular por reflexo.

Não havia mensagem esperando.

Nenhum “ok”.

Nenhuma resposta seca que eu teria de interpretar.

Nenhuma ansiedade tentando adivinhar se alguém ainda me queria.

Só silêncio.

Mas, dessa vez, o silêncio não doía.

Fechei o computador, apaguei a luz e fiquei alguns minutos observando as sombras do quarto.

Durante muito tempo, achei que terminar significaria admitir que tinha desperdiçado seis anos.

Agora eu entendia de outra forma.

Aqueles anos tinham me ensinado o que eu era capaz de oferecer.

O fim tinha me ensinado o que eu nunca mais aceitaria receber.

E, com o gato laranja dormindo aos meus pés e a minha vida finalmente pertencendo a mim outra vez, percebi que eu não tinha perdido seis anos.

Eu tinha recuperado todos os que ainda estavam por vir.

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