Meu namorado de seis anos recusou comprar meu creme, mas voltou da viagem com um presente caro para outra mulher
Parte 3
Gabriel continuou ajoelhado por alguns segundos depois da minha resposta. A chuva batia no toldo da entrada e respingava nas caixas espalhadas pelo chão. Eu quase conseguia enxergar, no rosto dele, o momento exato em que começou a entender que aquele não era mais um daqueles conflitos que terminavam comigo cedendo.
— Levanta — pedi.
— Eu não vou embora enquanto você não me escutar.
— Então vai passar a noite inteira aí.
Ele abriu a boca, mas não encontrou o que dizer.
Durante seis anos, Gabriel tinha se acostumado a uma versão minha que explicava demais, perdoava rápido e tinha medo de transformar qualquer briga em algo definitivo. Naquela noite, eu não tinha mais energia para desempenhar esse papel.
Júlia apareceu atrás da porta da moradia estudantil com uma toalha nos ombros. Não interferiu. Apenas ficou perto o suficiente para que eu soubesse que não estava sozinha.
— As caixas são suas — Gabriel insistiu.
— Não quero nenhuma.
— Eu procurei em três lugares.
— Esse é exatamente o problema.
Ele franziu a testa.
— Quando foi para Larissa, você lembrou sozinho. Quando foi para mim, precisou me perder primeiro.
Deixei Gabriel na entrada e subi.
Nas duas semanas seguintes, ele tentou praticamente todas as formas de contato possíveis. Mensagens, ligações, e-mails, bilhetes deixados na recepção e até recados através de colegas. Bloqueei as ligações, mas não o WhatsApp, porque ainda tínhamos alguns objetos um do outro para devolver.
Minha mãe disse apenas:
— Se você decidiu, eu confio que teve motivo.
Foi uma frase pequena, mas me fez chorar.
Eu tinha passado tanto tempo tentando provar para Gabriel que minhas necessidades eram razoáveis que quase tinha esquecido como era ser ouvida sem precisar apresentar uma defesa.
Na universidade, a situação ficou desconfortável.
Vinícius, o colega que tinha participado da conversa sobre nosso relacionamento no laboratório, evitava me encarar. Rafael, ao contrário, continuou agindo exatamente como antes. Quando tentei devolver o fone de ouvido que tinha dado a ele num impulso, ele empurrou a caixa de volta.
— Você me deu. Agora é meu.
— Eu estava com raiva.
— Problema seu.
Acabei rindo.
Rafael apontou para mim com uma chave de fenda.
— E antes que você invente qualquer coisa na cabeça: não estou entrando nessa história. Só estou aceitando um fone excelente.
Foi a primeira risada sincera que dei naquela semana.
Talvez por isso eu tenha percebido uma diferença que antes ignorava. Gentileza não precisava vir acompanhada de segundas intenções. Um homem podia me ajudar, conversar comigo e respeitar meus limites sem transformar aquilo em moeda de troca.
Gabriel tinha feito exatamente o contrário com Larissa.
Dois dias depois, ele me pediu uma conversa presencial.
“Só uma vez. Sem presentes. Sem drama. Quero assumir o que fiz.”
Fiquei quase uma hora olhando para a mensagem.
No fim, aceitei encontrá-lo numa cafeteria perto da universidade.
Não porque quisesse voltar.
Eu precisava encerrar seis anos olhando para o homem com quem os tinha vivido.
Gabriel já estava sentado quando cheguei. Parecia ter dormido pouco. Não havia flores na mesa, nem sacolas, nem qualquer tentativa de me impressionar.
Isso me deixou mais disposta a ouvi-lo.
— Eu não fiquei com Larissa — ele começou.
Levantei a mão.
— Se você repetir isso como se fosse a única coisa importante, eu vou embora.
Ele respirou fundo.
— Certo.
Ficou alguns segundos mexendo na xícara.
— Eu gostei da atenção dela.
A sinceridade me surpreendeu.
— Continua.
— Ela me procurava para pedir ajuda. Perguntava minha opinião sobre tudo. Ficava feliz quando eu elogiava alguma coisa. Quando eu resolvia um problema, ela dizia que não sabia o que faria sem mim.
Gabriel baixou os olhos.
— E eu gostei de me sentir necessário.
A dor veio, mas não como antes.
Dessa vez eu consegui apenas perguntar:
— E comigo?
Ele demorou a responder.
— Com você eu tinha certeza.
— Certeza de quê?
— De que você estaria ali.
A frase caiu entre nós.
Nenhuma traição física teria conseguido explicar melhor os últimos anos.
— Então você começou a tratar como garantida a pessoa que estava ao seu lado e passou a investir sua melhor versão em alguém que ainda podia admirar você.
Gabriel assentiu.
— Sim.
Não tentou suavizar.
— E a Helena Rubinstein?
Ele passou as mãos pelo rosto.
— Larissa comentou das olheiras antes da viagem. Eu vi o produto e comprei. Quando você entrou no laboratório e eu percebi que tinha ouvido o que falei com o Vinícius, fiquei com vergonha.
— Vergonha do que falou ou de eu ter ouvido?
Ele fechou os olhos.
— Naquele momento, de você ter ouvido.
A resposta doeu.
Mas pelo menos era verdadeira.
— Então você pegou o presente dela e disse que era meu.
— Sim.
— Sabendo que eu tinha comprado um presente para você no nosso aniversário.
— Sim.
— E depois tentou dizer que era só conversa de homem.
Gabriel apoiou os braços na mesa.
— Eu fui covarde.
Fiquei quieta.
Ele continuou:
— Eu também fui cruel. Falei coisas sobre nossa intimidade para parecer engraçado diante dos outros. Algumas nem eram verdade. Eu estava tentando mostrar que não era aquele cara preso num relacionamento longo.
— Você estava tentando parecer disponível?
Ele imediatamente negou.
— Não exatamente.
Olhei para ele.
Gabriel corrigiu:
— Talvez emocionalmente, sim.
Aquilo foi suficiente.
Não precisei investigar telefones, procurar mensagens apagadas nem inventar uma versão pior para justificar minha decisão. O que tinha acontecido já era grave o bastante.
— Obrigada por finalmente dizer a verdade.
Ele levantou os olhos com uma esperança que me deixou triste.
— Então existe alguma possibilidade?
— De eu entender o que aconteceu? Sim.
— De nós dois.
— Não.
A esperança desapareceu.
Gabriel ficou alguns segundos respirando devagar.
— Se eu mudar?
— Mude.
Ele me encarou.
— Mas faça isso porque não quer continuar sendo essa pessoa. Não porque acha que mudar cria uma dívida que eu terei de pagar voltando para você.
Ele ficou calado.
— Clara, foram seis anos.
— Eu sei.
— Isso não significa nada?
— Significa muito.
Minha voz tremeu pela primeira vez.
— É justamente por significar tanto que eu não vou fingir que os últimos anos não me machucaram.
Saí da cafeteria com as pernas fracas.
Chorei dentro do ônibus.
Chorei no banheiro da universidade.
Chorei naquela noite, abraçada a um travesseiro, tentando entender como uma decisão podia ser tão certa e ainda doer tanto.
Terminar não apagava o amor imediatamente.
Mas amar alguém também não transformava desrespeito em algo aceitável.
Na semana seguinte, Larissa me procurou.
Ela me esperava do lado de fora do prédio do laboratório e parecia desconfortável.
— Posso falar com você?
— Pode.
— Eu queria pedir desculpas.
Não respondi.
Larissa apertou a alça da mochila.
— Eu sabia que vocês namoravam.
A honestidade me surpreendeu.
— Eu nunca achei que ele estivesse solteiro. E nunca aconteceu nada físico entre nós. Mas eu gostava de ser tratada como especial.
Ela respirou fundo.
— Quando ele comprou o creme, eu sabia que era caro demais para ser apenas um favor de colega. Mesmo assim aceitei.
— Por quê?
Larissa desviou os olhos.
— Porque fazia bem para o ego.
Quase ri da ironia.
Era exatamente a mesma resposta de Gabriel.
— Vocês combinaram bastante nisso.
Ela aceitou o golpe sem reclamar.
— Provavelmente.
Depois continuou:
— Mas eu nunca pedi para ele tratar você mal.
— Eu sei.
— Ele dizia que vocês estavam numa fase muito acomodada. Eu não perguntei detalhes porque era conveniente não perguntar.
Apertei os dedos contra a alça da minha bolsa.
— Larissa, não preciso que você transforme Gabriel num monstro para eu me sentir melhor. Ele tomou as decisões dele. Você tomou as suas.
Ela assentiu.
— Eu sei.
— Então aprenda com isso.
Ela pareceu surpresa.
— Só isso?
— O que você esperava? Que eu brigasse com você no corredor?
Larissa ficou vermelha.
— Talvez.
— Eu já perdi tempo demais disputando atenção que deveria ter sido espontânea.
Passei por ela.
Depois daquele dia, Larissa começou a manter uma relação estritamente profissional com Gabriel. Eu percebia isso de longe. Não era uma punição organizada por mim; era apenas a consequência natural de duas pessoas que finalmente tinham entendido a situação constrangedora que criaram.
Gabriel também parou de insistir diariamente.
Ainda mandava uma mensagem a cada poucos dias, mas o tom tinha mudado.
“Espero que sua apresentação tenha ido bem.”
“Deixei seus livros com a Júlia.”
“Não precisa responder.”
Pela primeira vez, ele parecia respeitar o silêncio que eu tinha pedido.
Eu comecei a direcionar minha energia para o projeto de pesquisa que estava atrasado havia meses. Passei tardes inteiras no laboratório, mas agora sem abandonar almoço, sono ou fins de semana para encaixar minha vida na agenda de outra pessoa.
Voltei a assistir filmes.
Voltei a caminhar pelo campus.
E continuei levando comida para o gato laranja, embora ele ainda tivesse a audácia de recusar metade das coisas que eu oferecia.
Certa tarde, encontrei Vinícius perto da máquina de café.
Ele ficou claramente desconfortável.
— Clara…
— Oi.
— Sobre aquele dia.
Esperei.
— Eu fui um idiota.
Ele esfregou a nuca.
— Eu fiz a piada, Gabriel entrou na brincadeira e eu continuei porque todo mundo estava rindo. Não pensei que você pudesse ouvir.
— Se eu não tivesse ouvido, teria sido menos errado?
Vinícius ficou sem resposta.
— Não.
— Então pronto.
Ele assentiu.
— Desculpa.
Aceitei o pedido de desculpas sem dizer que estava tudo bem.
Porque não estava.
Algumas semanas depois, descobri por Júlia que Gabriel estava contando para algumas pessoas uma versão diferente da história.
Não dizia que eu era culpada.
Era mais sutil.
Segundo ele, eu tinha terminado “por causa de um presente comprado errado numa viagem” e porque estava “muito sensível depois de uma fase ruim”.
Quando Júlia terminou de me contar, fiquei imóvel.
A velha Clara teria ignorado.
Teria pensado que se defender seria criar escândalo.
Teria esperado que, um dia, todo mundo descobrisse sozinho.
Mas eu estava cansada de deixar outras pessoas reduzirem minha dor a uma caricatura conveniente.
Peguei o celular.
Abri a conversa com Gabriel.
Escrevi:
“Soube da versão que você está contando sobre nosso término.”
Ele respondeu quase imediatamente.
“Não falei nada contra você.”
“Você disse que terminamos por causa de um creme.”
Demorou um pouco.
“Eu só não queria expor nossa intimidade para todo mundo.”
Respirei fundo.
Então digitei:
“Engraçado. Para dizer que me beijar dava pesadelo e que ir para a cama comigo era burocrático, você não teve esse cuidado.”
A indicação de que ele estava digitando apareceu e desapareceu várias vezes.
Nenhuma resposta veio.
Escrevi mais uma frase:
“Amanhã vou ao laboratório. Quero que você esteja lá.”
Dessa vez ele respondeu:
“Para quê?”
Olhei para a tela e percebi que minhas mãos não tremiam.
“Para você parar de contar metade da história.”
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