Instalei uma câmera no meu gato e descobri que meu marido se reunia escondido com os vizinhos enquanto eu dormia
Parte 3
Recuei da janela tão depressa que quase tropecei no tapete.
“Aumento a dose.”
As três palavras ficaram martelando na minha cabeça.
De repente, todos aqueles cochilos impossíveis entre duas e quatro da tarde deixaram de parecer uma característica estranha do meu corpo. Lembrei das vezes em que Renato insistira para eu não pular o suco depois do almoço, das ocasiões em que eu dizia não estar com vontade e ele respondia que eu precisava “me cuidar melhor”.
Também me lembrei de uma tarde em que acordei quase às cinco com a boca seca e as pernas bambas.
Eu tinha brincado dizendo que parecia ter sido atropelada pelo sono.
Renato rira.
— Você sempre dormiu pesado.
Não.
Eu não sempre dormira daquele jeito.
Comecei a dormir daquele jeito depois que passamos a trabalhar em horários diferentes e Renato assumiu o hábito de preparar meu almoço ou deixar uma bebida pronta na geladeira.
A vontade de correr até a praça e exigir uma explicação veio forte.
Mas bastou olhar novamente para o grupo para desistir.
Eram cinco pessoas.
Eu estava sozinha.
Além disso, Renato ainda acreditava que eu dormia.
Precisava preservar essa vantagem.
Voltei para o quarto, ajeitei os travesseiros e me deitei. Quando ouvi a porta do apartamento abrir quase quarenta minutos depois, mantive a respiração lenta.
Renato entrou no quarto.
A mão dele tocou meu ombro.
— Marina?
Fingi não ouvir.
Ele ficou ali mais um pouco e saiu.
Às quatro e dez, levantei fazendo barulho de propósito.
— Amor?
Renato estava no sofá com o notebook aberto.
Usava outra roupa.
O cheiro de cigarro também havia desaparecido.
— Acordou? — perguntou sorrindo. — Dormiu bem?
Engoli o medo.
— Apaguei.
O sorriso dele aumentou discretamente.
— Eu falei que você estava precisando descansar.
Naquele momento compreendi que qualquer demonstração de desconfiança poderia colocá-lo em alerta.
Passei o restante do dia representando.
Contei uma história boba sobre Bolota.
Reclamei do calor.
Perguntei o que ele queria jantar.
Renato parecia relaxado outra vez.
À noite, disse que no dia seguinte precisava sair cedo. Esperei sua respiração ficar regular e fui ao banheiro com o celular.
Pesquisei um pronto atendimento particular relativamente perto de casa e marquei uma consulta para a manhã seguinte.
Não queria chegar acusando ninguém.
Queria saber o que estava acontecendo no meu corpo.
Antes de dormir, guardei a garrafa com o restante do suco no fundo de uma caixa térmica. Também salvei os vídeos da câmera de Bolota e a gravação feita da janela em dois lugares diferentes.
Eu não tinha prova de toda aquela história.
Tinha apenas imagens, sintomas e a frase de Renato.
Mas já era mais do que tinha na noite anterior.
Na manhã seguinte, inventei que precisava resolver um problema bancário.
Renato tentou se oferecer para ir comigo.
— Não precisa. Vou aproveitar e passar numa farmácia.
Ele apertou os olhos.
— Está sentindo alguma coisa?
— Dor de cabeça.
A expressão dele mudou por um instante.
Não foi preocupação.
Foi cálculo.
— Talvez seja melhor ficar em casa.
— É só dor de cabeça, Renato.
Ele sorriu novamente.
— Tá bom. Me avisa quando chegar.
Saí levando uma bolsa, a garrafa escondida e o celular com os vídeos.
No pronto atendimento, expliquei à médica que havia semanas eu sofria episódios de sonolência intensa depois do almoço e que, no dia anterior, evitara parte de uma bebida preparada em casa e quase não sentira o sintoma.
Não falei do grupo de vizinhos logo de início.
Parecia loucura até para mim.
A médica fez perguntas sobre remédios, alergias, álcool, suplementos e qualidade do sono.
Quando respondi que não usava medicamento sedativo, ela pediu exames básicos e também uma triagem toxicológica, explicando que aquilo não identificaria qualquer substância existente, mas poderia apontar classes comuns de medicamentos.
O resultado preliminar saiu algumas horas depois.
Havia indicação compatível com sedativo.
A médica me perguntou novamente se eu tomava ansiolítico ou remédio para dormir.
— Não.
Minha própria voz saiu fraca.
Ela não tentou adivinhar como a substância tinha chegado ao meu organismo. Apenas registrou o que eu relatara, orientou que eu evitasse consumir alimentos ou bebidas de procedência duvidosa e recomendou procurar atendimento imediatamente se apresentasse confusão, falta de ar ou perda prolongada de consciência.
Saí dali com as pernas moles.
Ainda não era uma resposta completa.
Mas era suficiente para acabar com qualquer esperança de que eu estivesse imaginando tudo.
Sentei num café movimentado e finalmente assisti novamente às duas gravações com fones de ouvido.
Desta vez, parei de tentar compreender aquela língua como idioma.
Comecei a tratá-la como código.
Percebi que Renato e os outros frequentemente misturavam sílabas sem sentido a números.
Blocos.
Horários.
Letras.
Sérgio apontava para caixas enquanto falava determinadas sequências. Seu Valdir respondia olhando para o relógio. A recepcionista mencionava números e Renato conferia o celular.
Eu não conseguia traduzir as frases.
Mas compreendia a lógica.
Estavam coordenando alguma atividade.
Voltei também ao primeiro vídeo de Bolota.
Pouco antes de o grupo se dispersar, Renato entregava a Seu Valdir um objeto retangular.
Ampliei a imagem.
Parecia um cartão.
Ou um crachá.
A lembrança veio de imediato.
Nosso condomínio usava cartões de acesso temporário para prestadores de serviço.
Eu já tinha visto Seu Valdir entregando alguns na portaria.
Naquela tarde, decidi não voltar imediatamente para casa.
Fui até uma delegacia e contei somente o que podia afirmar: havia gravações do meu marido dizendo que aumentaria minha “dose”, eu vinha sofrendo sonolência involuntária e um exame indicava exposição a sedativo.
Mostrei os vídeos.
Não tentei explicar o código.
Não acusei ninguém de roubo ou de qualquer crime que eu ainda não compreendia.
Relatei fatos.
Quando terminei, eu tremia.
Mas não voltei atrás.
Fui orientada sobre como formalizar o registro e sobre medidas de proteção caso me sentisse ameaçada. Também me disseram para preservar os arquivos originais e evitar confronto enquanto estivesse sozinha.
Era exatamente o que eu pretendia fazer.
Antes de voltar ao condomínio, comprei água e comida lacrada.
Quando cheguei, Sérgio estava recebendo algumas caixas no ponto de encomendas.
Ele me viu.
Empalideceu.
A reação durou menos de um segundo, mas eu percebi.
— Boa tarde, Marina.
— Boa tarde.
Continuei andando.
Na portaria, Seu Valdir levantou os olhos do computador.
— Saiu cedo hoje.
Sorri.
— Consulta.
A mão dele parou sobre o teclado.
— Está tudo bem?
— Está.
Entrei no elevador.
Quando a porta fechou, minha respiração ficou curta.
Eles observavam meus horários.
Talvez fizessem isso havia muito tempo.
Ao entrar no apartamento, encontrei Renato preparando o jantar.
— Você demorou.
— Banco cheio.
Ele veio me abraçar.
Permiti.
Por cima do ombro dele, vi o copo que costumava usar para meu suco já colocado sobre a bancada.
— Fiz aquele de maracujá que você gosta.
Meu estômago embrulhou.
— Depois eu tomo.
Renato soltou meu corpo.
— Toma agora. Está gelado.
— Não estou com vontade.
A cozinha ficou quieta.
Ele apoiou uma mão na bancada.
— Você sempre toma.
— Hoje não quero.
O rosto gentil permaneceu ali.
Mas alguma coisa desapareceu dos olhos dele.
— Marina, aconteceu alguma coisa?
— Só tive um dia cansativo.
Renato pegou o copo.
— Então isso vai te fazer bem.
Ele o estendeu para mim.
Não peguei.
Ficamos frente a frente.
Durante anos, eu havia interpretado a calma dele como bondade.
Naquele instante, percebi que calma e bondade não eram a mesma coisa.
— Coloca na geladeira — falei. — Tomo mais tarde.
Renato demorou dois segundos para obedecer.
Dois segundos longos demais.
Naquela noite, coloquei alguns documentos, roupas e os objetos de que realmente precisava dentro de uma mochila. Esperei Renato tomar banho e levei tudo até o carro, em duas viagens rápidas.
Bolota ficou comigo.
Eu não o deixaria para trás.
Ainda não tinha decidido onde dormiria, mas sabia onde não dormiria.
Quando Renato saiu do banheiro, encontrou-me sentada no sofá.
— Amanhã vou passar o dia fora — avisei.
— Onde?
— Tenho coisas para resolver.
— Que coisas?
Levantei os olhos.
— Minhas.
Foi a primeira vez em anos que respondi daquele jeito.
Ele sorriu, mas não havia humor algum.
— Você está estranha desde ontem.
— Talvez eu tenha começado a prestar atenção.
A frase escapou antes que eu pudesse impedir.
O sorriso sumiu.
Renato ficou me encarando.
Meu coração disparou.
Depois ele caminhou até a cozinha.
Ouvi a porta da geladeira abrir.
Quando voltou, carregava o copo de suco.
Colocou-o sobre a mesa diante de mim.
— Então bebe.
— Não.
— Marina.
— Eu disse não.
O maxilar dele endureceu exatamente como no vídeo.
Pela primeira vez, vi dentro do nosso apartamento o mesmo homem que fumava embaixo da árvore.
— O que você descobriu? — perguntou.
Não respondi.
Ele se aproximou.
— Eu perguntei o que você descobriu.
Peguei Bolota no colo e caminhei em direção à porta.
Renato se colocou na minha frente.
— Você não vai sair agora.
Meu medo continuava ali.
Mas alguma coisa dentro de mim já tinha mudado.
— Sai da frente.
— Primeiro você vai me explicar.
— Não.
Ele segurou meu braço.
Não com força suficiente para deixar marca naquele instante.
Mas com força suficiente para me dizer que podia aumentar.
Olhei para a mão dele.
Depois para seu rosto.
— Solta.
Renato hesitou.
Do corredor veio o barulho de um elevador chegando.
Ele afrouxou os dedos.
Aproveitei.
Abri a porta, saí com Bolota e apertei o botão do elevador.
Renato não tentou me puxar de volta.
Só ficou parado no batente.
— Marina.
Entrei no elevador.
Antes de a porta fechar, ele disse:
— Se você sair agora, não tem volta.
Apertei Bolota contra o peito.
— Finalmente você falou uma coisa em que eu consigo acreditar.
As portas se fecharam.
Só quando entrei no carro percebi que estava chorando.
Não era saudade.
Era o luto pela pessoa que eu pensava ter ao meu lado.
Dirigi até uma pousada simples e deixei o celular carregando enquanto alimentava Bolota.
Quase uma hora depois, chegaram mensagens de Renato.
Primeiro carinhosas.
Depois irritadas.
Depois carinhosas novamente.
“Você está exagerando.”
“Volta para casa e a gente conversa.”
“Não sei o que você acha que viu.”
“Eu nunca faria nada contra você.”
A última mensagem chegou às 23h17.
“Marina, apaga os vídeos.”
Fiquei olhando para aquela frase.
Eu nunca tinha contado a ele que existiam vídeos.
E naquele momento Renato confirmou exatamente o que eu precisava saber.
Ele sabia.
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