Fui a noiva de última hora de Rafael por três anos, até a ex-noiva voltar querendo saber por que eu ainda estava ao lado dele
Parte 3
Rafael não respondeu imediatamente.
Durante três anos, eu aprendera a interpretar cada pequena mudança no rosto dele. Sabia quando estava irritado porque sua mandíbula ficava rígida, quando estava preocupado porque passava o polegar pela lateral do indicador e quando uma decisão difícil já estava tomada porque parava completamente de se mexer.
Naquela noite, ele ficou imóvel.
— Você tem razão — disse por fim.
Eu esperava muitas respostas. Aquela não estava entre elas.
— Só isso?
— Não. Mas a primeira coisa que eu preciso dizer é que você tem razão. Eu deixei você passar três anos tentando adivinhar coisas que eu deveria ter dito.
A raiva que eu havia preparado perdeu um pouco da força. Não porque o problema tivesse desaparecido, mas porque ele não tentou me chamar de exagerada, ciumenta ou insegura.
Rafael sentou-se na poltrona diante de mim.
— Quando nos casamos, eu achei que você faria exatamente o que tinha dito. Ficaria por um tempo e depois pediria para ir embora.
— Eu também achava.
— No primeiro ano, toda vez que você fazia alguma pergunta sobre documentos, contas ou patrimônio, eu pensava que estava se preparando para isso.
Quase ri.
— Eu perguntava porque não entendia metade da papelada da sua família.
— Eu sei disso hoje.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Só que naquela época eu não sabia como perguntar se você pretendia ficar sem parecer que estava cobrando alguma coisa de alguém que tinha acabado de me salvar de uma humilhação.
A palavra “salvar” me incomodou.
— Eu não salvei você.
— Para mim, naquele dia, salvou.
— Rafael, eu fiz uma escolha. Não vire isso numa dívida entre nós.
Ele sustentou meu olhar e assentiu.
— É exatamente por isso que eu nunca quis usar o que sentia para prendê-la.
Meu peito apertou.
— O que você sentia?
Ele desviou os olhos por um instante, como se organizar contratos milionários fosse mais fácil do que aquela conversa.
— Você realmente não se lembra de mim no colégio?
A mudança de assunto me irritou.
— Lembro que você existia. Isso conta?
Pela primeira vez naquela noite, ele quase sorriu.
— Você sentava no fundo da sala, perto da janela. Levava lanche de casa e dividia com a garota que sentava ao seu lado quando ela esquecia o dela. Sempre estudava durante o intervalo antes das provas.
Fiquei olhando para ele.
— Como você sabe disso?
— Porque eu reparava.
Uma memória antiga voltou. Rafael atravessando o corredor entre as carteiras. Eu recolhendo as pernas para deixá-lo passar.
— Você mal falava comigo.
— Eu era um adolescente arrogante que achava que ficar olhando de longe era uma forma aceitável de comunicação.
— Pelo menos isso você melhorou um pouco.
Ele aceitou a provocação.
Depois continuou:
— Quando você apareceu anos depois naquela reunião da agência, eu reconheci você no mesmo instante.
— E nunca falou nada.
— Você também não me reconheceu direito. Meu orgulho sobreviveu por pouco.
Aquela versão de Rafael, admitindo algo tão banal, desmontava a imagem distante que eu construíra dele.
Mas eu não queria me distrair.
— Isso ainda não responde por que você ficou comigo.
— Responde uma parte.
Ele se inclinou para a frente.
— Quando Helena foi embora, eu estava com raiva, humilhado e sem condições de pensar direito. Quando você se ofereceu, eu perguntei se tinha certeza porque casamento nunca foi uma coisa pequena para mim, mesmo naquela situação.
Rafael respirou fundo.
— Só que eu não me apaixonei por você porque entrou naquele salão no lugar dela.
Aquilo me fez prender a respiração.
— Eu me apaixonei pelos três anos que vieram depois.
Ele continuou antes que eu pudesse responder.
— Por você discutindo comigo porque eu pulava o almoço. Por deixar minha mãe reclamar dos meus horários e depois fazer exatamente a mesma coisa. Por ir pescar com seu pai mesmo odiando acordar cedo. Por ficar ao lado do Caio quando ele perdeu o primeiro emprego e não contar para ninguém que ele chorou na cozinha.
— Ele vai morrer se souber que você lembra disso.
— Provavelmente.
Rafael baixou a voz.
— Eu me apaixonei por uma vida que não estava planejada.
Finalmente, as palavras que eu esperara durante anos tinham sido ditas.
E, estranhamente, não senti vontade de correr para os braços dele.
Senti alívio, raiva, ternura e um cansaço profundo, tudo ao mesmo tempo.
— Por que demorou três anos?
— Medo.
A resposta me surpreendeu.
— De quê?
— De descobrir que você estava aqui por gratidão.
Minha boca se abriu, mas nenhum som saiu.
Era quase cruel perceber que passáramos anos presos na mesma dúvida, apenas de lados diferentes.
Eu tinha medo de ser a substituta.
Rafael tinha medo de ser uma obrigação.
— Isso não torna o silêncio certo — falei.
— Eu sei.
— E dizer que me ama agora, depois de eu ameaçar ir embora, não apaga isso.
— Eu sei também.
Ele se levantou.
— Não vou pedir que você tome uma decisão hoje.
— Eu não preciso de permissão.
— Não foi isso que eu quis dizer.
Rafael parou a dois passos de mim.
— Só estou dizendo que, se você quiser ir para outro quarto, ficar na casa dos seus pais ou passar algum tempo longe de mim, eu não vou impedir. Mas não vou fingir que quero esse casamento apenas porque virou hábito.
Era a primeira vez que ele colocava o desejo dele em palavras sem me empurrar para uma resposta.
Naquela noite, dormi no quarto de hóspedes.
Não por vingança.
Eu precisava ouvir meus próprios pensamentos sem acordar ao lado dele e deixar que três anos de rotina decidissem por mim.
Na manhã seguinte, minha sogra percebeu que algo estava errado.
Ela não perguntou detalhes.
Apenas colocou uma xícara de café diante de mim.
— Problemas entre vocês?
— Conversas atrasadas.
Ela assentiu.
— Conversas atrasadas costumam cobrar juros.
Quase sorri.
— A senhora sabia que ele gostava de mim?
Minha sogra ergueu uma sobrancelha.
— Meu filho procurou durante duas semanas uma vara de pesca que não era nem para você e você realmente acha que aquilo era educação?
— Eu achava que ele era um genro dedicado.
— Lívia, Rafael não tem tanta dedicação nem para escolher os próprios sapatos.
Ouvir aquilo me aqueceu, mas não resolveu tudo.
Não queria construir minha segurança com observações de terceiros.
Precisava vir dele.
Nos dias seguintes, Rafael não me pressionou.
Também não se afastou.
Passou a chegar para jantar quando podia. Avisava quando se atrasava. Não usava presentes como pedido de desculpas e não tentava compensar três anos de silêncio com gestos grandiosos.
Na quarta-feira, mandou uma mensagem simples:
“Vou almoçar. Você venceu.”
Respondi:
“Quero provas fotográficas.”
Dois minutos depois recebi a foto de um prato de comida.
Ri sozinha diante da tela.
Foi nesse mesmo dia que encontrei Helena novamente.
Eu saía de uma reunião e caminhava para o estacionamento quando ouvi meus passos sendo acompanhados.
— Lívia.
Parei ao lado do carro.
Helena estava alguns metros atrás de mim.
Não usava o sorriso educado da agência.
— Você falou com ele.
Não era uma pergunta.
— Falei.
— E acreditou em tudo?
Girei a chave do carro entre os dedos.
— Essa parte diz respeito a nós dois.
Helena cruzou os braços.
— Você fala como se tivesse muita certeza.
— Não tenho certeza de tudo.
A sinceridade pareceu pegá-la desprevenida.
Continuei:
— Tenho certeza de uma coisa: se meu casamento acabar, não será porque você voltou. Será porque Rafael e eu decidimos que não conseguimos construir algo verdadeiro.
— Você acha que ele me esqueceu?
Dessa vez, havia menos arrogância e mais necessidade na voz dela.
Finalmente entendi.
Helena não tinha voltado para roubar meu marido.
Ela estava prestes a ficar noiva de outro homem.
Mas, antes de seguir em frente, queria saber se ainda ocupava aquele lugar especial na vida de Rafael.
Queria a confirmação de que, apesar de ter ido embora, continuava sendo inesquecível.
Talvez fosse orgulho.
Talvez arrependimento.
Provavelmente um pouco dos dois.
— Acho que essa pergunta deveria ser feita a ele — respondi.
— Eu fiz.
Meu estômago se contraiu.
— E?
Ela demorou.
— Rafael disse que não tinha nada para conversar comigo sobre o passado.
Foi então que percebi por que ela estava ali comigo.
Ela não conseguira de Rafael a resposta que queria.
Por isso tentava obtê-la através de mim.
Helena deu um passo à frente.
— Eu só não entendo uma coisa. Por que é você quem está ao lado dele?
Essa era a pergunta que ela carregava desde que voltara.
Talvez fosse também a pergunta que eu carregava havia três anos.
Olhei para a mulher que deveria ter usado o vestido naquele casamento.
Depois pensei em Rafael comendo almoço porque eu tinha reclamado, esperando no hospital durante a cirurgia da minha mãe, discutindo com Caio, entrando em casa tarde e procurando primeiro por mim.
Pensei também no homem que finalmente admitira seus erros em vez de escondê-los atrás de boas intenções.
Sorri de leve.
— Porque hoje a única mulher para quem ele realmente olha sou eu.
Helena ficou pálida.
Não me senti vitoriosa.
Aquilo não era uma competição.
Eu apenas tinha parado de me enxergar como substituta.
Antes de entrar no carro, acrescentei:
— Mas, se algum dia isso deixar de ser verdade, eu não vou implorar para ficar. Essa é a diferença.
Na sexta-feira, Rafael perguntou se eu queria ir à festa de noivado.
— Só se você quiser — disse ele. — Se preferir não ir, não precisamos provar nada para ninguém.
Fiquei alguns segundos pensando.
— Eu quero ir.
Ele pareceu surpreso.
— Tem certeza?
— Tenho. Mas vou como sua esposa, não como escudo para você mostrar que superou Helena.
— Justo.
— E, Rafael…
— Sim?
— Se ela tentar transformar a festa numa conversa sobre vocês dois, você resolve. Não eu.
Ele assentiu.
— Combinado.
No sábado, entramos juntos no salão do hotel.
Helena estava impecável, cercada pela família e pelos convidados.
O homem com quem ela iria oficializar o noivado conversava com alguns parentes do outro lado do salão.
Por quase uma hora, tudo correu normalmente.
Até Helena se aproximar de nós durante o brinde.
Ela segurava uma taça de espumante.
— Rafael, posso fazer uma última pergunta?
Senti o corpo dele ficar tenso.
— Helena, hoje não é o momento.
Ela sorriu, mas seus olhos estavam úmidos.
— É justamente hoje.
Algumas pessoas perto de nós diminuíram as conversas.
Helena olhou primeiro para ele e depois para mim.
— Se eu não tivesse ido embora há três anos… você teria se casado comigo?
O salão ao nosso redor pareceu diminuir.
Eu não toquei no braço de Rafael.
Não respondi por ele.
Dessa vez, aquela escolha precisava sair da boca dele.
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