Meu avião fez um pouso de emergência, mas o aeroporto estava iluminado, vazio e coberto de sangue
Parte 3
Continuei encarando o mapa até as letras perderem o contorno. Eu conhecia cada rua daquela região. Sabia qual mercado minha mãe frequentava, qual farmácia fechava mais tarde e até qual vizinha costumava deixar a televisão tão alta que dava para ouvir do corredor do prédio. Agora, tudo aquilo estava reduzido a um quadrado vermelho numa tela.
— Ela pode ter sido evacuada — disse a mãe da menina, percebendo o que eu estava vendo.
Assenti, mas não consegui responder. “Pode” era uma palavra pequena demais para sustentar tudo o que eu precisava acreditar. Minha mãe morava sozinha e tinha o hábito irritante de ignorar qualquer coisa que considerasse exagero.
Se alguém tivesse tocado a campainha dizendo que o bairro precisava ser esvaziado imediatamente, eu conseguia imaginá-la respondendo que primeiro precisava desligar o fogão.
O comandante reuniu os adultos que estavam mais próximos da parte dianteira. Explicou que permanecer na aeronave também começava a representar um risco. O sistema de climatização dependia de recursos limitados, a água não duraria indefinidamente e ninguém sabia quando chegaria ajuda.
O hangar parecia mais seguro que o terminal principal. A equipe havia observado a área pelas câmeras internas e não havia movimento recente. A proposta era transferir os passageiros aos poucos e manter todas as portas fechadas.
— E depois? — perguntou o homem de terno.
— Depois tentaremos entender qual é a situação fora daqui — respondeu o comandante. — Não vou colocar cento e poucas pessoas na estrada sem informação.
Dessa vez ninguém discutiu.
A saída foi organizada em pequenos grupos. Quando chegou minha vez, desci segurando a mochila contra o peito e tentando não olhar para a pista onde Ju tinha desaparecido. Mesmo assim, meus olhos procuraram por ele.
Não havia sinal.
A menina percebeu.
— O Ju vai voltar?
A mãe apertou o ombro da filha.
Nenhum adulto teve coragem de responder.
Dentro do hangar, encontramos garrafas de água, kits de primeiros socorros e alguns armários com alimentos embalados. Não era muito, mas suficiente para algumas horas. Também havia uma sala operacional com computadores, rádios e um painel de câmeras do aeroporto.
Foi por essas câmeras que entendemos um pouco melhor o tamanho do problema.
Alguns corredores estavam vazios.
Em outros, havia pessoas caídas.
Numa área de embarque, duas figuras caminhavam sem rumo entre as cadeiras. Uma delas parava a cada poucos passos, como se estivesse desorientada. De repente, começou a bater repetidamente contra uma porta de vidro.
A transmissão de emergência voltou a ser captada perto da meia-noite.
Dessa vez conseguimos ouvir quase tudo.
As autoridades falavam de uma síndrome neurológica aguda, ainda sem causa confirmada, que provocava confusão, perda de coordenação, agressividade extrema e rápida deterioração física. Recomendavam evitar contato com sangue e outros fluidos, não se aproximar de pessoas desorientadas e não tentar transportar doentes sem equipamento adequado.
Não havia nenhuma palavra sobre mortos voltando a andar.
Nenhuma explicação fantástica.
Aquilo tornava tudo pior.
Eram pessoas.
Pessoas doentes, aterrorizadas e perigosas.
O estudante que estivera do outro lado do corredor durante o voo passou boa parte do tempo ajudando a tripulação com os computadores. Ele encontrou arquivos automáticos recebidos antes de o sistema externo cair.
Um deles continha rotas de evacuação.
— Tem um centro provisório montado num complexo esportivo perto da saída para a capital — explicou. — A mensagem foi enviada às 19h20. Não sabemos se ainda está funcionando.
O homem de terno se inclinou sobre o mapa.
— Pela rodovia, daqui até lá dá menos de uma hora sem trânsito.
— E com estrada bloqueada? — perguntou alguém.
Ninguém respondeu.
Eu procurei o nome do meu bairro entre as mensagens armazenadas.
Havia um boletim posterior ao mapa que tínhamos visto no avião. Segundo o documento, ônibus municipais haviam começado a retirar moradores de áreas afetadas e levá-los para três pontos de triagem antes de seguirem para abrigos maiores.
Um desses pontos ficava a menos de quinze minutos da casa da minha mãe.
Meu coração disparou.
— Se ela saiu, provavelmente passou por lá.
O comandante negou com a cabeça antes que eu terminasse.
— Você não pode ir sozinha.
— Eu não disse que vou sair correndo agora.
Minha voz saiu mais dura do que eu esperava.
— Mas também não vou ficar sentada esperando alguém aparecer e me dizer, daqui a dois dias, que talvez minha mãe esteja viva.
O silêncio que veio depois me incomodou, mas não me fez recuar.
Durante anos, minha mãe tinha sido a pessoa para quem eu ligava quando alguma coisa dava errado. Um pneu furado, uma decepção amorosa, uma febre, uma demissão. Eu tinha trinta e poucos anos e ainda ouvia “leva um casaco” como se fosse adolescente.
Naquela noite, pela primeira vez, não havia ninguém do outro lado da linha.
E eu precisava aprender a decidir sem ela.
Pouco depois das duas da manhã, o comandante conseguiu contato mais claro com uma frequência de emergência. Um aviso orientava pessoas isoladas na região de Campinas a permanecerem onde estavam, mas permitia deslocamentos em veículos fechados para pontos de triagem quando o local não oferecesse condições de abrigo prolongado.
O hangar não oferecia.
A água era limitada.
Havia crianças, idosos e uma passageira que precisava de medicamentos que estavam acabando.
A decisão foi sair ao amanhecer.
Encontramos dois micro-ônibus de funcionários numa garagem lateral. As chaves estavam dentro de uma sala administrativa, presas a um painel devidamente identificado. Nada precisou ser arrombado ou improvisado como num filme.
Ainda assim, chegar até a garagem significava atravessar cerca de cem metros de área aberta.
Às quatro da manhã, vimos Júlio.
Foi numa câmera lateral.
Ele apareceu cambaleando próximo de um depósito, ainda usando parte do uniforme. Havia sangue na camisa e ele mantinha uma das mãos pressionada contra o próprio pescoço.
A menina reconheceu primeiro.
— Ju!
A mãe tapou a boca dela.
Todos se aproximaram da tela.
Júlio andava devagar, aparentemente consciente. Parou diante de uma câmera e ergueu o rosto. Por um instante, pensei que talvez estivesse procurando a aeronave.
Então vimos outra pessoa surgir atrás dele.
Júlio tentou se afastar.
Caiu.
A imagem ficou parcialmente encoberta por equipamentos, mas ouvimos um grito vindo de algum lugar do aeroporto.
A comissária que havia voltado sozinha começou a chorar.
— Ele ficou para me dar tempo.
Aquilo tirou de nós a última esperança de que tudo não passasse de um mal-entendido.
Ninguém assistiu ao restante.
O comandante desligou aquela câmera.
Às seis, começamos a transferência para os micro-ônibus. Os adultos mais aptos ficaram nas laterais, atentos ao pátio. Não tínhamos armas, apenas extintores, ferramentas do hangar e a certeza de que correr era melhor do que tentar bancar heróis.
Eu levei a menina pela mão enquanto a mãe carregava duas mochilas.
No meio do caminho, um barulho veio de trás de um veículo estacionado.
Todos congelaram.
Uma mulher surgiu.
Vestia uniforme de limpeza.
Havia sangue seco no rosto.
— Ajuda — ela pediu.
Por reflexo, dei um passo.
O comandante ergueu o braço.
— Não se aproxime.
A mulher continuou avançando.
— Por favor.
Ela parecia lúcida.
Até ficar a cerca de dez metros.
Então seu rosto mudou.
Ela soltou um grito e começou a correr.
Nós corremos também.
Entramos no micro-ônibus quase ao mesmo tempo. O homem de terno puxou a porta enquanto a mulher batia no vidro. Ninguém tentou machucá-la.
O motorista acelerou.
Só quando o aeroporto ficou para trás eu percebi que minhas mãos tremiam.
A menina estava sentada ao meu lado.
— Ela estava doente?
— Estava.
— Igual ao Ju?
Demorei antes de responder.
— Provavelmente.
Ela apertou o coelho contra o peito.
— Então ele não foi embora porque quis.
— Não.
A garota assentiu, séria demais para a idade.
— Minha mãe sempre fala que, quando uma pessoa faz uma coisa boa pela gente, a gente não pode esquecer.
Olhei pela janela.
Prometi silenciosamente que não esqueceria.
A rodovia estava quase vazia, mas havia sinais do caos por toda parte. Carros abandonados, um caminhão atravessado numa faixa, placas eletrônicas repetindo mensagens de emergência.
Em alguns trechos, passávamos dez minutos sem ver ninguém.
Em outros, víamos grupos caminhando com mochilas e malas.
Seguimos diretamente para o centro de triagem indicado no boletim.
Quando chegamos, o portão estava fechado.
Meu estômago afundou.
O homem de terno desceu apenas o suficiente para ler um aviso preso à grade.
— Eles mudaram o ponto de atendimento.
— Para onde? — perguntei.
Ele voltou olhando para mim.
— São Paulo.
O novo endereço era um centro de exposições convertido em abrigo temporário. Segundo o aviso, os evacuados dos bairros marcados em vermelho estavam sendo encaminhados para lá desde a madrugada.
Minha mãe podia estar naquele lugar.
O comandante decidiu seguir.
Quanto mais nos aproximávamos da capital, mais a estrada mostrava sinais da evacuação. Vi ônibus oficiais indo na direção contrária, ambulâncias e veículos de emergência. As comunicações também começaram a voltar em pequenas áreas.
Meu celular recebeu dezenas de notificações atrasadas de uma só vez.
Mensagens da empresa.
Alertas automáticos.
Ligações perdidas.
Nenhuma da minha mãe.
Tentei ligar.
O telefone dela estava desligado.
Às dez e vinte da manhã, chegamos ao centro de exposições.
Havia centenas de pessoas.
Filas separadas por bairros, equipes médicas protegidas e mesas com listas de pessoas já cadastradas.
Meu coração batia tão forte que mal consegui falar.
Passei o nome da minha mãe.
A funcionária digitou.
Esperou.
Franziu a testa.
— Ela não está na lista deste abrigo.
Senti minhas pernas perderem força.
— Procura de novo, por favor.
A mulher confirmou os dados.
Depois consultou outro sistema.
— Ela aparece na lista de evacuação do bairro.
Meu peito voltou a se encher de ar.
— Então ela saiu?
— Sim.
— Para onde foi?
A funcionária percorreu a tela.
Sua expressão mudou.
— O ônibus dela não chegou aqui.
— Como assim?
— O veículo saiu do ponto de triagem às 21h05. Mas há um registro de desvio de rota perto da Marginal.
— Desvio para onde?
Ela virou a tela um pouco.
Havia um endereço anotado manualmente.
Um antigo ginásio municipal usado como ponto de emergência.
A funcionária apontou para a observação abaixo.
“Última comunicação do veículo: passageiros vivos. Abrigo improvisado. Aguardando transferência.”
Minha mãe estivera naquele ônibus.
E, pela primeira vez desde que pousamos naquele aeroporto, eu tinha algo mais sólido que esperança.
Eu tinha um lugar para procurar.
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