Eu cuidava do meu pai havia três anos; no aniversário dele, meu irmão chegou com um corretor e anunciou que já havia comprador para a casa
Parte 3
No sábado, meu pai apareceu na garagem às oito da manhã usando uma camisa azul que costumava reservar para sair.
— Você não vai visitar apartamento vestida assim, vai?
Olhei para minha camiseta manchada de giz de alfaiate.
— Eu ia trocar.
— Ainda bem. Quero fingir que somos gente organizada.
Ri contra a vontade.
Paulo chegaria às nove. Tínhamos marcado duas visitas a apartamentos e uma sala comercial que eu encontrara perto da Avenida Silviano Brandão. Eu tinha insistido para que tudo acontecesse no mesmo dia porque não queria passar a semana inteira esperando.
Talvez aquela pressa fosse outro jeito de tentar recuperar controle.
O primeiro apartamento ficava no terceiro andar de um prédio antigo com elevador estreito. Tinha dois quartos, uma cozinha iluminada e uma varanda pequena voltada para a rua.
Meu pai caminhou devagar pelos cômodos.
Eu vinha logo atrás.
Quando ele entrou no banheiro, quase perguntei se precisava de ajuda. Mordi a língua.
Dário segurou na barra já instalada ao lado do vaso e bateu nela com a mão.
— Isso aqui me interessa mais do que varanda.
A corretora riu.
— É uma adaptação simples, mas ajuda bastante.
Paulo perguntou sobre condomínio. Meu pai perguntou sobre barulho. Eu perguntei sobre distância da farmácia.
Cada um à sua maneira.
O segundo apartamento era menor, porém térreo, com uma área externa estreita onde caberiam duas cadeiras e alguns vasos. Ficava a oito minutos de carro da casa e perto de uma praça onde meu pai costumava jogar conversa fora com antigos conhecidos.
Ele gostou.
Percebi antes que dissesse.
Foi o jeito como abriu a janela da sala e ficou olhando o movimento da rua.
— Tem padaria perto? — perguntou.
A corretora disse que sim.
— Padaria boa?
— Essa eu não posso garantir.
— Então teremos que investigar.
Paulo riu.
Eu fiquei observando meu pai.
Durante meses, quando pensava na possibilidade de ele sair da casa, imaginava perda. Naquele apartamento, pela primeira vez, consegui enxergar possibilidade.
Não para mim.
Para ele.
No carro, Dário perguntou se poderíamos voltar outro dia.
— Claro — respondeu Paulo.
Meu pai olhou para mim pelo retrovisor.
— Você acha pequeno demais?
Era uma pergunta simples, mas eu entendi o que havia por trás.
Ele estava pedindo opinião, não autorização.
— Para mim seria pequeno — respondi. — Para o senhor, acho que pode funcionar. Principalmente por ser térreo.
Dário assentiu satisfeito.
Nenhum de nós disse mais nada.
A sala comercial que fui visitar depois ficava em cima de uma papelaria. Tinha uma janela grande, banheiro pequeno e espaço suficiente para minhas máquinas, uma mesa de corte e um provador.
Quando a proprietária falou o valor do aluguel, meu entusiasmo caiu.
Era mais caro do que eu pretendia pagar.
— Vou pensar — respondi.
No caminho de volta, Paulo perguntou quanto faltava para caber no meu orçamento.
— Não é problema seu.
— Eu perguntei quanto, não se é problema meu.
— Paulo.
— Tá bom.
Meu pai ficou quieto até chegarmos em casa.
No almoço, ele colocou arroz no prato e disse:
— Eu posso ajudar com seis meses de aluguel.
Soltei o garfo.
— Não.
— Nem terminei.
— Não precisa.
— Marta, vender a casa vai me dar uma reserva confortável depois de comprar o apartamento. Não estou falando em sustentar você. Estou falando em reconhecer que você desmontou sua estrutura de trabalho para vir morar comigo.
— Eu escolhi fazer isso.
— E eu posso escolher ajudar agora.
A discussão quase começou de novo.
Reconheci o padrão antes de entrar nele.
Respirei.
— Quero pensar.
Meu pai sorriu.
— Já é melhor que “não”.
À tarde, sentei com ele para revisar as contas que fizera. Paulo deixou todos os documentos na mesa e foi embora depois de explicar o que sabia.
Sem decidir por ninguém.
Descobri que a proposta de R$ 780 mil não era absurda, mas também não era excelente. Uma segunda avaliação, feita por outro profissional, indicava que a casa poderia chegar perto de R$ 830 mil dependendo do prazo.
— Então não aceitamos setecentos e oitenta — falei.
Meu pai franziu a testa.
— Quem é “aceitamos”?
Parei.
— O senhor não aceita.
Ele sorriu.
— Estou te treinando.
Revirei os olhos.
— Então o senhor faz uma contraproposta.
— Quanto?
— A decisão é sua.
— Mas estou pedindo opinião.
Essa diferença começou a se tornar importante.
Sugeri R$ 820 mil com prazo suficiente para a mudança. Paulo achava que R$ 810 mil seria mais realista. Meu pai escolheu R$ 815 mil.
Na quarta-feira, Sônia voltou.
Dessa vez, sentei à mesa sem avental e sem pano de prato nas mãos.
Ela explicou cada etapa. A proposta não obrigava meu pai a vender. Se houvesse acordo de valor, seria preciso formalizar o compromisso e depois cumprir a documentação necessária antes da transferência definitiva.
Não haveria ninguém “tomando a casa” de uma hora para outra.
Meu medo começou a perder o tamanho monstruoso que ganhara no domingo.
O comprador respondeu no dia seguinte oferecendo R$ 805 mil.
Dário recusou.
— Oitocentos e dez — disse.
Paulo não tentou convencê-lo.
Eu também não.
Sônia levou a resposta.
Naquela noite, eu e meu pai jantamos sopa na cozinha. Ele estava mais falante do que de costume.
— Você sabe do que senti falta esses anos? — perguntou.
— Da mamãe.
— Também.
Mexeu a colher.
— De errar.
Achei que não tinha ouvido direito.
— Como assim?
— Quando a gente fica velho, todo mundo começa a evitar que você faça besteira. É remédio no horário, comida certa, cuidado com degrau, cuidado com dinheiro, cuidado com chuva. De repente, parece que até escolher errado virou privilégio de gente jovem.
Eu fiquei olhando para ele.
— Eu não quero deixar o senhor fazer uma coisa perigosa.
— Nem eu quero. Mas comprar um apartamento de que eu não goste é um erro que ainda posso ter o direito de cometer.
Ri.
— De preferência, não.
— Está vendo?
Ele apontou a colher para mim.
— Você ainda quer me salvar até do apartamento feio.
Foi difícil admitir, mas meu pai tinha razão.
Eu comecei a pensar em todas as vezes em que minha preocupação tinha chegado antes da pergunta.
“Pai, não sobe.”
“Pai, não sai.”
“Pai, não carrega.”
“Pai, deixa que eu faço.”
Talvez o amor também pudesse diminuir uma pessoa quando não soubesse a hora de recuar.
Na sexta-feira, os compradores aceitaram os R$ 810 mil, desde que meu pai entregasse o imóvel em até noventa dias.
Dário pediu um fim de semana para pensar.
Aquela noite foi estranha.
A casa parecia saber que estava sendo observada.
Passei pelo corredor reparando em marcas que não via havia anos. O risco na parede onde Paulo batera uma bicicleta aos onze. O pequeno furo perto da janela onde minha mãe pendurava enfeites de Natal. Um pedaço de piso diferente depois de um vazamento antigo.
Entrei na garagem.
Minhas máquinas estavam silenciosas.
Pela primeira vez, pensei que eu também tinha usado aquela casa como desculpa.
Enquanto estivesse cuidando do meu pai, ninguém poderia cobrar que eu reconstruísse completamente a vida depois do divórcio. Não precisava arriscar dinheiro numa oficina maior. Não precisava viajar. Não precisava aceitar convites.
Minha rotina era cansativa.
Mas também era conhecida.
Recomeçar assustava.
No domingo de manhã, Paulo apareceu sozinho.
Sentamos no quintal.
— Você acha que eu quero vender a casa para ficar com herança? — ele perguntou.
A pergunta me surpreendeu.
— Eu achei.
— Eu percebi.
Ele passou a mão pelo rosto.
— E eu achei que você queria impedir a venda porque se acostumou a mandar aqui.
— Também percebeu certo.
Nós dois rimos sem alegria.
Depois ficamos quietos.
— Eu devia ter falado com você antes — ele disse. — Trazer a corretora no aniversário foi uma idiotice.
— Foi.
— Eu estava tentando forçar a conversa porque o pai adiava contar.
— E eu devia ter parado de tratar você como visitante só porque não cuidou dele do jeito que eu cuidei.
Paulo olhou para mim.
— Eu ainda devia ter vindo mais.
— Devia.
— Obrigado por não aliviar.
— Não quero estragar o momento.
Ele sorriu.
Meu pai surgiu na porta.
— Vocês terminaram de descobrir que nenhum dos dois é santo?
— Quase — respondi.
Dário sentou conosco.
— Quero aceitar.
Meu estômago apertou.
Mesmo sabendo que aquilo viria, ouvir foi diferente.
— Tem certeza? — perguntei.
— Tenho.
— Então vamos fazer direito.
Ele assentiu.
— Sem esconder conversa de mim — acrescentei.
— Sem esconder.
Olhei para Paulo.
— Sem decidir por ele.
— Sem decidir.
Meu pai apontou para mim.
— E sem decidir por mim porque você acha que sabe o que é melhor.
Suspirei.
— Essa parte vai exigir prática.
Ele riu.
Na manhã seguinte, liguei para a dona da sala comercial.
Negociei o aluguel.
Consegui reduzir o valor em troca de um contrato mais longo. Meu pai voltou a oferecer ajuda.
Dessa vez, não disse não imediatamente.
Combinei que ele pagaria a caução e os primeiros três meses. Depois disso, a oficina seria responsabilidade minha.
Não era esmola.
Não era recompensa por cuidar dele.
Era uma ajuda com começo e fim.
Também procurei um apartamento simples para mim a poucas quadras dali.
Não cabia tudo.
Talvez essa fosse a ideia.
Na semana seguinte, assinei o contrato da sala comercial.
Quando coloquei minha assinatura no papel, minhas mãos tremeram mais do que no dia em que abandonei o antigo espaço três anos antes.
Voltei para casa carregando a chave nova.
Meu pai estava sentado na varanda.
Abri a mão e mostrei.
— Consegui.
Ele segurou a chave entre os dedos.
— Bonita.
— É uma chave normal.
— Não estou falando da chave.
Entendi.
Sentei ao lado dele.
Dário devolveu a chave para minha mão.
— Agora falta a minha.
Naquela tarde, ele ligou para Sônia e disse que aceitava a proposta de R$ 810 mil, desde que todos os prazos e condições combinados constassem claramente nos documentos.
Depois desligou e me encarou.
— Você vai ficar bem?
Apertei a chave da minha oficina.
— Acho que ainda não.
Ele assentiu.
— Eu também não.
Foi a resposta mais reconfortante que poderia ter me dado.
Porque nenhum de nós precisava fingir que mudar de vida era fácil.
Precisávamos apenas parar de confundir dificuldade com erro.
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