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“Eu tomei o portão dos valentões para obrigar alunos a estudar — até um herdeiro ameaçar chamar a mãe”

Parte 3

Minha primeira reação foi olhar para trás.

Talvez existisse outra garota ali. Alguma pessoa sensata, adulta, preparada para receber R$ 1 milhão e um adolescente problemático no mesmo pacote.

Não havia ninguém.

— Acho que a senhora está confundindo alguma coisa — consegui dizer.

— Não estou, não. Meu filho chegou em casa ontem sabendo explicar diferença entre “borrow” e “lend”. Você tem ideia do que isso significa?

O herdeiro cobriu o rosto com uma das mãos.

— Mãe, pelo amor de Deus.

Ela nem ligou.

Explicou que o filho já tinha passado por três professores particulares. Um desistira depois de duas semanas, outro acabara fazendo as tarefas por ele, e o terceiro aprendera rapidamente que concordar com tudo rendia menos discussão.

O problema, segundo ela, nunca tinha sido falta de capacidade.

Era que todos ao redor dele tinham aprendido a ceder.

Se ele não queria estudar, alguém dava um jeito. Se chegava atrasado, aparecia uma desculpa. Se entregava um trabalho incompleto, algum adulto telefonava para resolver.

— E aí você apareceu — disse ela. — Mandou ele decorar cento e oitenta palavras em três dias.

— Cento e setenta e seis — corrigiu ele, atrás dela.

Virei o rosto devagar.

— Você contou?

Ele percebeu tarde demais o que tinha admitido.

— Não interessa.

Quase sorri.

A mãe abriu a pasta e me mostrou o documento de uma aplicação financeira que pretendia colocar no meu nome com autorização dos meus responsáveis.

Eu devolvi sem tocar direito.

— Não quero.

Ela me encarou como se eu tivesse recusado uma ilha.

— É R$ 1 milhão.

— Eu sei ler números.

— Posso aumentar.

— Esse não é o problema.

Meu pai poderia ser um ex-encrenqueiro que achava sinuca uma disciplina acadêmica, mas havia uma coisa que ele sempre repetia: dinheiro recebido sem entender exatamente por quê costuma cobrar juros que não aparecem no papel.

Minha mãe dizia a mesma coisa de um jeito mais elegante.

Então respirei e apontei para o filho dela.

— Se ele estudar comigo, vai ser porque ele quer. Não porque a senhora me pagou.

O garoto levantou os olhos.

A mãe pareceu surpresa.

— Mas ele nunca quer.

— Então ele não estuda.

— Você passou três dias obrigando ele.

— Eu estava administrando o portão.

— Isso não melhora sua defesa — murmurou o herdeiro.

Ignorei.

A mãe demorou um pouco, mas guardou a pasta.

— Está bem. Sem dinheiro.

Depois apontou discretamente para mim.

— A parte da nora continua em negociação.

— Mãe!

Ela foi embora satisfeita demais para alguém que acabara de ter R$ 1 milhão recusados.

O filho ficou diante de mim, rígido.

— Você podia ter aceitado.

— Podia.

— Então por que não aceitou?

— Porque depois sua mãe poderia dizer que eu tenho obrigação de consertar você.

Ele franziu a testa.

— Eu não preciso ser consertado.

— Concordo.

Aquilo o desarmou.

Pela primeira vez, ele não tinha resposta pronta.

Entreguei a ele os cartões de vocabulário.

— Você também não precisa voltar amanhã.

Ele olhou para as fichas.

— Está me expulsando?

— Estou deixando você escolher.

Virei as costas.

Passei o resto daquele dia tentando entender por que aquilo tinha me incomodado tanto.

Talvez porque eu própria odiasse quando meu pai decidia antecipadamente que tipo de escola servia para mim. Eu ria das tentativas dele de me afastar da universidade, mas no fundo sabia como era irritante quando alguém escolhia seu caminho antes mesmo de perguntar.

Eu tinha feito algo parecido.

Com matemática.

No dia seguinte, cheguei ao portão preparada para nunca mais ver o herdeiro.

Ele já estava lá.

Sentado no muro baixo, segurando as fichas.

— “Borrow” é receber algo emprestado. “Lend” é emprestar para alguém — disse antes que eu perguntasse.

— Bom dia pra você também.

— Eu vim porque quis.

— Eu não perguntei.

— Mas precisava deixar claro.

Ele ficou.

E alguma coisa mudou depois disso.

Comecei a perguntar aos alunos se queriam fazer uma questão em vez de simplesmente colocá-la na frente deles.

Para minha surpresa, muitos aceitaram.

Havia gente que odiava matemática, mas gostava de biologia. Outros tinham vergonha de perguntar ao professor na sala lotada. Alguns só precisavam de alguém explicando sem rir quando erravam.

O antigo Dragão Azul começou a ganhar uma função que nenhum de nós havia planejado.

Um dos garotos descobriu que era excelente explicando química.

O outro tinha facilidade com redação.

Até Leandro, embora reclamasse, resolvia porcentagem mais rápido do que metade da turma.

Meu pai apareceu numa tarde e ficou parado do outro lado da rua observando tudo.

— O que você está fazendo?

— Nada.

— Tem quinze adolescentes com apostila em volta de você.

— Coincidência.

Ele apertou os olhos.

— Isso está com cara de ensino superior.

— Pai.

— Estou só dizendo.

Depois trouxe uma caixa de salgados no dia seguinte.

Minha mãe mandou suco.

Por algumas semanas, funcionou melhor do que eu esperava.

Até uma garota do primeiro ano me procurar perto do banheiro.

Ela segurava o celular com tanta força que os dedos estavam brancos.

— Preciso perguntar uma coisa.

— Fala.

— O Dragão Azul ainda cobra dinheiro?

Meu estômago apertou.

— Não.

Ela abaixou os olhos.

— Então por que eu tive que fazer um Pix de R$ 50 ontem?

Pedi que explicasse.

Ela disse que Leandro havia parado ela perto da quadra. Falou que a “taxa” era para quem não quisesse participar dos exercícios e que o dinheiro ajudava a comprar material para o grupo.

Eu não tinha autorizado taxa nenhuma.

Nunca tínhamos comprado material com dinheiro de aluno.

— Você tem o comprovante?

Ela mostrou.

O Pix tinha ido para a conta dele.

Não corri atrás de Leandro imediatamente.

Primeiro perguntei discretamente a outros estudantes.

Encontrei mais quatro casos.

R$ 20.

R$ 30.

R$ 50.

Valores pequenos justamente para que ninguém achasse que valia a pena fazer barulho.

Quando confrontei Leandro, ele não pareceu arrependido.

— Precisávamos de dinheiro.

— Nós não precisamos de dinheiro.

— Você não precisa. Tem lanche levado pelo papai, caderno bom, essas coisas.

— E isso te dá direito de roubar os outros?

Ele endureceu o rosto.

— Não chama de roubo.

— Então como você chama?

— Taxa.

— Taxa cobrada com ameaça é extorsão.

Ele deu uma risada curta.

— Escuta você falando. Foi você que tomou o portão no soco. Foi você que mandou as pessoas fazerem exercício pra poder sair. Agora quer bancar a santa?

A frase acertou.

Porque havia uma parte verdadeira nela.

Eu não tinha pegado dinheiro de ninguém.

Mas tinha transformado medo em ferramenta.

Só que admitir meu erro não tornava o dele aceitável.

— Eu vou devolver cada centavo para esses alunos.

— Você não recebeu nada.

— Você vai devolver.

— E se eu não devolver?

— Então eu vou à coordenação.

O rosto dele mudou.

— Vai denunciar a própria gangue?

— Não existe mais gangue.

Leandro deu um passo na minha direção.

— Você não decide isso sozinha.

— Eu decidi sozinha quando tomei o lugar de vocês. Posso decidir agora que acabou.

Na manhã seguinte, fui até a coordenação antes da aula.

Não escondi a briga.

Não escondi que eu havia bloqueado alunos para fazê-los estudar.

Também não tentei fingir que a ideia de dominar o portão tinha sido madura.

A coordenadora me ouviu até o fim e disse algo que doeu mais do que uma bronca.

— Fazer uma coisa boa usando medo ainda pode machucar pessoas.

Assenti.

Entreguei os relatos dos estudantes que aceitaram falar e os comprovantes de Pix que eles próprios haviam enviado.

A escola chamou os responsáveis envolvidos e iniciou o procedimento disciplinar.

Eu também receberia uma advertência formal pela confusão no portão e pelas brigas.

Aceitei.

Depois propus outra coisa.

Usar uma sala vazia perto da biblioteca depois das aulas.

Sem bloqueio.

Sem “pedágio”.

Sem Dragão Azul.

Quem quisesse entrava.

Quem quisesse ir embora, ia.

A coordenadora não respondeu na hora, mas disse que avaliaria.

Quando saí da sala, o herdeiro estava me esperando no corredor.

— Então acabou?

— O quê?

— Nosso grupo.

— A gangue acabou.

— E os estudos?

Pensei um pouco.

— Talvez estejam começando agora.

Naquela tarde, não fui ao portão.

Fiquei na biblioteca.

O herdeiro apareceu.

Depois vieram oito alunos.

No fim da semana, éramos vinte e três.

Leandro desapareceu por alguns dias.

Achei que a situação estivesse encerrada.

Estava errada.

Na sexta-feira, saí da escola mais tarde porque tinha ficado organizando as mesas da sala de estudos.

Quando atravessei o corredor externo, percebi um grupo parado diante do portão.

Leandro estava no meio.

Ao lado dele havia cinco garotos que eu não conhecia.

Não carregavam cadernos.

Leandro abriu espaço quando me viu.

— Chefe chegou — disse, com ironia.

Parei.

— Eu não sou mais chefe de ninguém.

— Melhor ainda.

Ele apontou para o lugar onde tudo tinha começado.

— Hoje o portão volta a ser meu.

Depois estendeu a mão.

— E o primeiro pedágio vai ser você.

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