Depois que Lucas recusou minha declaração, passei dois anos fugindo dele — até um casamento nos colocar frente a frente
Parte 4
Nosso primeiro encontro aconteceu num sábado à tarde.
Lucas escolheu um pequeno restaurante em Perdizes.
Nada excessivamente romântico.
Nenhuma mesa com pétalas, nenhuma surpresa constrangedora, nenhum gesto pensado para compensar dois anos de ausência.
Apenas almoço.
Talvez por isso tenha sido bom.
Falamos de filmes, trabalho, viagens que queríamos fazer e histórias absurdas da faculdade que agora pareciam pertencer a outras pessoas.
Em alguns momentos eu esquecia que estava num encontro com Lucas.
Em outros, lembrava com força demais.
Quando ele me acompanhou até o carro, não tentou me beijar.
— Obrigada pelo almoço — falei.
— Obrigado por aceitar.
Fiquei esperando.
Ele também.
— Você pode me beijar — disse.
Lucas abriu um sorriso incrédulo.
— Eu estava tentando ser respeitoso.
— Está demorando tanto que começou a parecer desinteresse.
— Depois do nosso histórico, prefiro correr esse risco.
Ri.
Então fui eu quem diminuiu a distância.
O beijo foi diferente de tudo que eu tinha imaginado durante os anos de faculdade.
Naquela época, eu imaginava fogos de artifício.
Foi mais silencioso.
Cuidadoso.
Real.
E talvez tenha sido melhor assim.
Nos meses seguintes, começamos a namorar sem anunciar oficialmente para ninguém.
Não porque fosse segredo.
Eu apenas precisava de tempo.
Lucas aceitou.
Camila percebeu sozinha quando nos viu chegando juntos ao aniversário de Bruno e praticamente abriu um sorriso de orelha a orelha.
— Nem começa — avisei.
— Eu não falei nada.
— Seu rosto falou quinze coisas.
Lucas fingiu interesse exagerado numa bandeja de salgadinhos.
— Covarde — murmurei.
— Eu trabalho com pesquisa. Não com situações de alto risco.
A relação foi ficando mais séria devagar.
E foi justamente quando tudo parecia tranquilo que surgiu a conversa que eu vinha evitando.
Aconteceu numa quarta-feira à noite.
Lucas estava no meu apartamento, ajudando a preparar o jantar.
Ou, mais precisamente, cortando legumes enquanto eu tentava impedir que ele destruísse minha cozinha.
— Você corta cebola como se estivesse fazendo cirurgia — reclamei.
— Precisão é importante.
— É uma cebola.
— Falta rigor científico na sua cozinha.
Revirei os olhos.
Ele riu.
Era uma noite comum.
Talvez por isso a pergunta tenha saído sem aviso.
— Lívia, você pensa em nós a longo prazo?
Minha mão parou sobre a panela.
— O que você quer dizer?
— Não estou falando em casamento amanhã.
— Ainda bem.
— Estou falando sério.
Desliguei o fogo.
Lucas percebeu imediatamente que alguma coisa tinha mudado.
— O que foi?
Encostei na bancada.
Passei meses evitando aquela conversa porque havia uma pergunta que ainda me incomodava.
— Eu preciso entender uma coisa.
— Pergunta.
— Por que eu?
Ele franziu a testa.
— Como assim?
— Você tinha minha amizade durante anos. Eu estava disponível, gostava de você, fazia tudo por você. E você não me quis.
Lucas abriu a boca.
Levantei a mão.
— Não estou te culpando por isso. Você tinha todo direito de não sentir nada. Mas depois eu desapareci, você sentiu falta, e então começou a me querer.
Ele ficou sério.
— Você acha que estou com você porque perdi alguma coisa confortável.
— Às vezes.
Era a primeira vez que eu admitia aquilo em voz alta.
— Às vezes penso que você não se apaixonou por mim. Talvez só tenha se apaixonado pela ausência.
Lucas largou a faca na bancada.
Não tentou me interromper.
Então continuei.
— Tenho medo de que um dia essa novidade passe e você perceba que queria apenas recuperar a pessoa que estava sempre disponível para você.
Minha voz saiu mais baixa.
— E eu não quero voltar a ser aquela garota.
Lucas puxou uma cadeira.
Sentou.
— Então não volte.
A resposta me irritou.
— É só isso?
— Não.
Ele apontou para a cadeira em frente.
— Senta, por favor.
Sentei.
Lucas ficou alguns segundos organizando as palavras.
— Você tem razão em uma parte.
Meu estômago apertou.
— Qual?
— Quando você sumiu, a primeira coisa que senti foi falta da facilidade que sua presença trazia para minha vida.
Eu não esperava uma admissão tão direta.
— Certo.
— E tenho vergonha de dizer isso.
— Pelo menos é verdade.
— É.
Lucas juntou as mãos sobre a mesa.
— Eu estava acostumado com você. Com sua atenção. Com você lembrando de coisas que eu esquecia. E só percebi o quanto recebia quando parei de receber.
Respirei fundo.
— Então…
— Deixa eu terminar.
Pela primeira vez naquela noite, havia firmeza na voz dele.
— Se tivesse parado aí, eu nunca teria voltado para sua vida.
Fiquei quieta.
— Depois de alguns meses, comecei a perceber outra coisa. Eu não sentia falta apenas da garota que fazia coisas por mim. Sentia falta da pessoa que discutia comigo quando eu era arrogante. Da mulher que achava meus filmes chatos. Da sua risada quando alguma coisa saía completamente errada. Sentia falta até das coisas em você que nunca tornaram minha vida mais fácil.
Ele respirou.
— E quando você voltou, dois anos depois, descobri que várias dessas coisas tinham mudado.
Olhei para ele.
— O café.
— O café, o trabalho, seu apartamento, seu jeito de falar comigo. Você já não era a Lívia que eu tinha perdido.
Lucas sorriu de leve.
— E foi aí que eu tive certeza.
— Certeza de quê?
— Se eu estivesse apaixonado apenas pela lembrança, eu teria ficado decepcionado ao encontrar alguém diferente.
Meu peito apertou.
— Mas eu gostei de conhecer quem você virou.
A cozinha ficou silenciosa.
Lucas continuou:
— Eu não posso provar que vou sentir a mesma coisa daqui a vinte anos.
— Ninguém pode.
— Exato. Posso só te dizer o que escolho agora.
Ele se inclinou um pouco para frente.
— Eu quero estar com você hoje. Não com a garota que me dava bubble tea na faculdade. Não com a amiga que estava sempre disponível. Com você.
Engoli em seco.
— E se eu nunca esquecer o que aconteceu?
— Você não precisa esquecer.
— E se, às vezes, eu ainda tiver medo?
— Então você fala.
— E se eu desconfiar?
— A gente conversa.
— E se eu decidir que não consigo continuar?
Lucas ficou alguns segundos em silêncio.
— Eu vou sofrer.
Meus olhos arderam.
— Mas?
— Mas a decisão continua sendo sua.
Foi aquela frase que derrubou o último pedaço da defesa que eu ainda segurava.
Não porque fosse romântica.
Mas porque era exatamente o contrário daquilo que eu havia vivido dois anos antes.
Na cafeteria, eu tinha colocado minha felicidade inteira nas mãos dele.
Agora Lucas estava devolvendo a decisão para mim.
Levantei.
Ele me acompanhou com os olhos.
Caminhei até o quarto.
Abri a última gaveta do guarda-roupa.
Peguei a caixa pequena.
Quando voltei para a cozinha, Lucas reconheceu imediatamente.
— Você ainda tem isso?
Abri a caixa.
A corrente estava exatamente como eu havia deixado.
— Tenho.
Lucas olhou para ela, depois para mim.
— Eu te dei no seu aniversário.
— Eu sei.
— Você quer que eu…
— Não.
Tirei a corrente da caixa.
Por um segundo, Lucas pareceu pensar que eu a colocaria no pescoço.
Em vez disso, fechei-a na palma da mão.
— Passei muito tempo guardando isso porque parecia representar tudo que eu não conseguia superar.
— Lívia…
— Agora é só uma corrente.
Sorri.
— Uma bonita, por sinal.
Lucas riu baixinho.
— Foi cara.
— Então ainda bem que não joguei fora.
Guardei a corrente de volta.
Mas não devolvi a caixa para a última gaveta.
Na manhã seguinte, coloquei-a junto de outras bijuterias.
Não como uma relíquia.
Apenas como um objeto do passado.
Foi quando percebi que aquela história realmente tinha mudado de lugar dentro de mim.
Nós continuamos juntos.
Não houve transformação milagrosa.
Lucas continuava esquecendo o horário quando ficava concentrado no laboratório.
Eu continuava ficando irritada quando ele respondia “tanto faz” ao escolher restaurante.
Tivemos discussões.
Algumas pequenas.
Outras nem tanto.
Mas havia uma diferença importante.
Eu não ficava mais em silêncio com medo de perdê-lo.
Quando algo me machucava, eu dizia.
Quando Lucas errava, não tentava compensar com desculpas bonitas.
Ele reconhecia.
Mudava o que precisava mudar.
E eu também.
Quase um ano depois do casamento da Camila, passamos perto da universidade num sábado.
Lucas estava dirigindo quando apontou para uma rua.
— Aquela cafeteria ainda existe.
Meu estômago deu uma pequena volta.
— Qual?
Ele me lançou um olhar.
— Você sabe qual.
Sabia.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
Depois perguntei:
— Quer entrar?
Lucas pareceu surpreso.
— Tem certeza?
— Tenho.
Estacionamos.
O lugar havia mudado um pouco.
Mesas novas.
Outra decoração.
Funcionários diferentes.
Mas o balcão estava quase no mesmo lugar.
Escolhemos uma mesa perto da janela.
Não era a mesa de dois anos antes.
Ainda bem.
Lucas pegou o cardápio.
— O de sempre?
Olhei para ele.
A pergunta carregava tanta história que comecei a rir.
— Você ainda lembra?
— Manga com pomelo, pouco açúcar, sem gelo, com pérolas crocantes.
Balancei a cabeça.
— Não.
— Não?
— Agora eu prefiro chá de pêssego, quase sem açúcar e com gelo.
Lucas fechou o cardápio lentamente.
— Você mudou tudo.
— Bastante coisa.
— Então vou precisar aprender de novo.
Aquela frase me fez sorrir.
Dois anos antes, eu tinha saído daquele lugar chorando porque Lucas não conseguia me amar do jeito que eu queria.
Durante muito tempo, tratei aquela rejeição como se fosse uma prova de que havia algo errado comigo.
Não havia.
Eu apenas tinha amado alguém numa hora em que ele não podia me devolver o mesmo sentimento.
E Lucas também não era um vilão por isso.
O que importava era o que fizemos depois.
Eu aprendi a não implorar por reciprocidade.
Ele aprendeu que sentir falta de alguém não lhe dava automaticamente o direito de recuperar essa pessoa.
Nós dois tivemos que conhecer versões novas um do outro.
Sem dívidas.
Sem promessas antigas.
Sem transformar sofrimento em obrigação.
Lucas se levantou para fazer os pedidos.
Antes de ir até o balcão, inclinou-se e perguntou:
— Chá de pêssego, quase sem açúcar, com gelo. Certo?
— Certo.
— Vou lembrar.
Observei enquanto ele caminhava até o caixa.
Então olhei pela janela.
A tarde estava clara, mas dessa vez a luz não doía nos meus olhos.
Sorri sozinha.
Eu não precisava mais que Lucas se lembrasse da garota que eu tinha sido.
Se ele quisesse continuar ao meu lado, teria apenas que fazer o que nós dois aprendemos a fazer desde aquele reencontro:
me conhecer de novo, todos os dias.
Obrigado por acompanhar e ler a história até o final 🙏 Deixe nos comentários sua opinião, reação ou sugestão. Isso nos ajuda muito a melhorar as próximas histórias. Não se esqueça de seguir a página para não perder as novas histórias de cada dia 📖✨