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Meu namorado escolheu a ex para chefiar minha equipe e passou a me culpar por tudo o que ela fazia

Parte 3

Guilherme ficou olhando para mim como se quisesse perguntar alguma coisa, mas não soubesse por onde começar.

Eu me levantei.

— Não tente falar com a Lívia sobre isso.

Ele franziu a testa.

— Você acha que eu iria avisá-la?

— Eu acho que, até agora, você sempre partiu do princípio de que ela estava certa. Então prefiro que o RH faça o trabalho sem interferência de ninguém.

Aquilo o atingiu.

Ainda assim, não retirei o que tinha dito.

Passei o restante da manhã reunindo apenas fatos. Não queria transformar a revisão numa vingança pessoal, nem correr o risco de parecer que eu estava tentando provar uma traição amorosa através de um problema profissional.

O que eu precisava entender era mais simples: as decisões tomadas por Lívia contra mim tinham base real ou não?

O RH pediu acesso aos registros de viagem, distribuição de tarefas, histórico de alterações do projeto e avaliações anteriores da equipe.

Também solicitaram uma conversa comigo.

Contei tudo sem mencionar o hospital, os brincos ou as fotos nas redes sociais. Expliquei apenas que Lívia havia sido minha concorrente indireta pela gerência, que mantivera um relacionamento anterior com Guilherme e que, desde que assumira a equipe, minha carga de trabalho havia mudado de maneira significativa.

— Você acredita que o Guilherme interferiu diretamente nas decisões dela? — perguntou a analista.

Pensei antes de responder.

— Não tenho prova disso.

Ela anotou.

— E o que você acredita que aconteceu?

— Acho que ele deixou de avaliar minhas reclamações com imparcialidade porque confiava nela. Isso é diferente de dizer que ele participou das decisões.

Foi difícil dizer aquilo.

Uma parte de mim queria culpá-lo por tudo.

Mas eu sabia que não seria justo.

Guilherme não tinha me mandado para quatro cidades numa mesma semana. Não tinha restaurado sozinho o arquivo errado. Não tinha me retirado diretamente do projeto.

O erro dele era outro.

Ele tinha fechado os olhos.

No começo da tarde, Lívia convocou uma reunião da equipe.

Entrou na sala com a mesma postura segura de sempre e anunciou que algumas funções seriam redistribuídas temporariamente.

Então olhou para mim.

— Renata, como você demonstrou dificuldade em acompanhar determinadas demandas, vou retirar você também da apresentação final do projeto.

Algumas pessoas abaixaram os olhos.

Eu respirei fundo.

— Essa alteração foi aprovada pelo RH durante a revisão?

A expressão dela se modificou por uma fração de segundo.

— Eu sou a gerente da equipe.

— Eu sei. Só estou perguntando porque existe uma revisão formal em andamento justamente sobre as decisões relacionadas a esse projeto.

Um colega ao meu lado ajeitou a cadeira.

Lívia sorriu.

— Está sugerindo que eu preciso pedir autorização para gerenciar meu próprio time?

— Estou perguntando se é adequado ampliar uma medida que está sendo analisada enquanto a análise ainda não terminou.

Ela ficou séria.

— Depois conversamos.

— Prefiro que qualquer conversa sobre isso seja registrada por e-mail.

Dessa vez, o silêncio foi completo.

Meses antes, eu provavelmente teria discutido. Teria aumentado o tom de voz, dado a ela a oportunidade de me chamar de emocional e saído da sala tremendo.

Naquela tarde, eu só anotei o que ela tinha dito.

Quando a reunião acabou, minhas mãos ainda estavam frias, mas eu não me arrependi.

Júlia me mandou mensagem perguntando se eu estava bem.

Respondi que sim.

Ela não acreditou.

— Você sempre diz que está bem quando está prestes a desmontar — falou quando me ligou.

Sorri pela primeira vez naquele dia.

— Talvez eu esteja aprendendo a desmontar depois do expediente.

— Já é progresso.

Naquela noite, voltei ao apartamento porque precisava buscar mais roupas.

Guilherme estava sentado na sala.

Não havia televisão ligada, música ou notebook diante dele.

Ele simplesmente estava ali.

Quando me viu com a mala menor, se levantou.

— Renata, eu quero conversar.

— Eu vim buscar minhas coisas.

— Eu sei.

Ele respirou fundo.

— Liguei para o hospital onde você foi atendida.

Parei.

— Como você soube qual era?

— A Júlia me disse a cidade. O resto eu encontrei nos recibos do seguro que chegaram ao nosso endereço.

Minha expressão mudou.

— Você ligou para quê?

— Para saber se você estava bem.

— Agora?

Ele abaixou os olhos.

— Eu sei.

Aquela resposta, pelo menos, não tentou me convencer de que eu estava exagerando.

Guilherme se aproximou, mas manteve distância suficiente para não me tocar.

— Você ficou em observação por quase um dia.

— Sim.

— Teve uma lesão no ombro.

— Sim.

Ele engoliu em seco.

— E você estava sozinha.

Olhei para ele.

— Sim.

O rosto dele se contraiu.

— Eu fico tentando lembrar daquela ligação. Você ficou quieta durante alguns segundos. Eu achei que estava me ligando para discutir por causa da Lívia.

— Eu sei o que você achou.

— Não devia ter achado.

Aquela foi a primeira vez em semanas que senti vontade de chorar na frente dele.

Mas as lágrimas não vieram.

Talvez eu já tivesse gastado todas durante aquelas noites em hotel, depois de desligar o computador.

— O problema, Guilherme, é que você sempre achava alguma coisa antes de me ouvir.

Ele não respondeu.

Continuei:

— Quando eu reclamei das viagens, você decidiu que era ciúme. Quando questionei a promoção, decidiu que era inveja. Quando falei do projeto, decidiu que era incompetência. Quando liguei machucada, decidiu que eu queria brigar.

A voz dele saiu baixa.

— Eu errei.

— Errou.

— Mas eu nunca tive nada com a Lívia desde que comecei a namorar você.

Fechei a mala.

— Talvez seja verdade.

Ele pareceu surpreso.

— Talvez?

— Eu não tenho prova de que você me traiu. E, sinceramente, isso já não é o principal.

Ele passou a mão pela testa.

— Então o que é?

Olhei diretamente para ele.

— Eu não quero dividir a minha vida com alguém diante de quem preciso apresentar provas para ser tratada com respeito.

A frase deixou a sala imóvel.

Guilherme se sentou devagar.

Eu peguei a bolsa.

Antes de sair, ele falou:

— A Lívia também me ligou hoje.

Virei o rosto.

— Para quê?

— Queria saber se eu tinha conhecimento da reclamação.

— E o que você respondeu?

— Que qualquer questão profissional deveria ser tratada pelo RH.

Assenti.

— É o mínimo.

Ele aceitou sem discutir.

Dois dias depois, a empresa suspendeu temporariamente a autonomia de Lívia para alterar minha equipe e minhas viagens enquanto a revisão continuava.

Não significava que ela fosse culpada.

Mas significava que, finalmente, alguém estava verificando antes de decidir.

A análise do arquivo também avançou.

O registro mostrava que minha versão correta havia sido enviada às 23h18, três dias antes da reunião. Na manhã seguinte, às 7h42, uma versão anterior foi restaurada no sistema.

A alteração tinha sido feita com a conta de Lívia.

Quando foi chamada para explicar, ela disse que provavelmente havia cometido um erro ao organizar os documentos.

Poderia ter sido verdade.

Se aquele fosse o único problema.

Mas não era.

Ao comparar os e-mails, o RH descobriu que, depois de restaurar o arquivo antigo, Lívia tinha encaminhado aquela mesma versão para a apresentação final, embora existisse uma versão posterior claramente identificada no histórico.

Ela também tinha enviado uma mensagem a um coordenador dizendo:

“Vamos usar o arquivo que está na pasta oficial. Se houver erro, a responsabilidade é de quem elaborou.”

Eu era quem tinha elaborado.

Quando a analista me mostrou aquilo, senti o estômago revirar.

Não porque fosse uma prova espetacular.

Era pior.

Era banal.

Pequeno.

Calculado o suficiente para me prejudicar, mas simples o bastante para parecer um descuido.

A revisão das viagens mostrou algo parecido.

Lívia tinha justificativas operacionais para quase todas elas. O problema era a concentração.

Sempre que havia dois ou três profissionais disponíveis, meu nome aparecia primeiro.

Quando um coordenador questionou por e-mail por que eu estava sendo enviada novamente, ela respondeu:

“A Renata precisa demonstrar mais consistência antes de assumir responsabilidades maiores. Essas viagens vão ajudar a testá-la.”

Eu já tinha a melhor avaliação da equipe antes de ela chegar.

Não era desenvolvimento.

Era um filtro que só existia para mim.

A empresa marcou uma reunião formal para a semana seguinte.

Naquela mesma tarde, encontrei Lívia no elevador.

Ficamos sozinhas.

Ela apertou o botão do térreo e permaneceu alguns segundos calada.

Depois disse:

— Satisfeita?

Olhei para a porta fechada.

— Com o quê?

— Com tudo isso.

— Eu ainda não sei o resultado.

Ela soltou uma risada curta.

— Não precisa fingir.

Então virou o rosto para mim.

— Você nunca aceitou que eu fui escolhida porque era melhor para o cargo.

A velha Renata teria respondido na mesma hora.

Eu apenas perguntei:

— Se você acreditava que era melhor, por que precisava restaurar uma versão antiga do meu relatório?

O rosto dela endureceu.

— Foi um erro.

— Então você vai ter a oportunidade de explicar.

As portas se abriram.

Eu saí.

Lívia veio atrás de mim.

— Você acha que o Guilherme vai escolher você depois disso?

Parei.

Virei devagar.

— Esse é o seu problema.

Ela ficou em silêncio.

— Você ainda acha que isso é sobre ele escolher uma de nós.

Cheguei um pouco mais perto.

— Eu não quero mais ser escolhida pelo Guilherme. Quero ser avaliada pelo meu trabalho.

Pela primeira vez desde que Lívia tinha entrado naquela empresa, ela não encontrou uma resposta pronta.

Na manhã da reunião formal, Guilherme me esperava perto da sala de conferências.

— Renata.

Parei.

Ele parecia ter dormido pouco.

— Eu também fui chamado.

— Faz sentido.

— Vão perguntar sobre a contratação da Lívia e sobre as reclamações que você fez comigo.

Assenti.

Ele respirou fundo.

— Eu vou contar a verdade.

Fiquei olhando para ele.

— Espero que sim.

Guilherme baixou a voz.

— Mesmo que isso me prejudique.

Por um instante, pensei nos três anos que tínhamos passado juntos.

Nos cafés da manhã.

Nas viagens de fim de semana.

Nas noites em que ele dormia no sofá enquanto esperava que eu terminasse um relatório.

Houve coisas boas.

Isso era o que tornava tudo mais doloroso.

Mas lembranças boas não apagavam o que tinha acontecido depois.

A porta da sala se abriu.

Antes de entrar, Guilherme disse:

— Eu não deveria ter deixado minha história com a Lívia influenciar a maneira como tratei você.

Dessa vez, não respondi.

Entrei na sala.

E, pela primeira vez, eu não estava ali para convencer Guilherme de nada.

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