Depois que Lucas recusou minha declaração, passei dois anos fugindo dele — até um casamento nos colocar frente a frente
Parte 3
Lucas não tentou me impedir quando voltei para a festa.
Aquilo, de algum jeito, me deu mais trabalho do que se ele tivesse insistido.
Passei o restante da noite conversando com pessoas que eu não via havia meses, tirei fotos com Camila, dancei até meus pés doerem e ajudei a organizar os presentes que seriam levados para o carro dos noivos. Ainda assim, a frase dele continuava presa em algum canto da minha cabeça.
“Eu te perdi antes de entender o que comecei a sentir.”
Dois anos antes, eu teria transformado aquilo numa declaração perfeita.
Agora eu sabia que não era.
Sentir falta de alguém não era necessariamente amar essa pessoa. Culpa também podia parecer carinho. Solidão podia se fantasiar de saudade.
E eu tinha trabalhado demais para sair daquela história para voltar correndo só porque Lucas finalmente parecia confuso.
Na manhã seguinte ao casamento, encontrei Camila no café do hotel.
Ela estava exausta, sem maquiagem e com o cabelo preso de qualquer jeito, mas parecia feliz.
— Você e o Lucas conversaram — disse sem nenhuma introdução.
Quase engasguei com o café.
— Você acabou de casar. Não tem outra coisa para pensar?
— Tenho. Mas consigo pensar em duas coisas ao mesmo tempo.
— Conversamos um pouco.
Camila apoiou o queixo na mão.
— E?
— E nada.
— Lívia.
— Ele disse que começou a sentir alguma coisa depois que eu me afastei.
Ela ficou séria.
— E você acredita?
Pensei antes de responder.
— Acredito que ele acredita.
Camila soltou o ar pelo nariz.
— Isso foi uma resposta muito de publicitária.
— Trabalhei duro para desenvolver essa habilidade.
Ela não riu.
— Lucas perguntou de você algumas vezes nesses dois anos.
— Eu sei. Ele contou.
— Eu nunca te disse porque achei que não era meu papel criar expectativa.
Isso me fez olhar para ela com mais atenção.
— Fez certo.
— E também porque perguntar não significa amar alguém.
— Exatamente.
Camila estendeu a mão por cima da mesa e apertou meus dedos.
— Mas uma coisa eu sei. Ele respeitou sua distância. Nunca pediu seu número novo, nunca tentou chegar até você através de mim e nunca apareceu no seu trabalho. Se agora ele quer alguma coisa, vai ter que mostrar direito.
— Mostrar o quê?
— Isso é problema dele.
Sorri.
Era por isso que Camila continuava sendo minha amiga.
No domingo à noite, quando voltei para meu apartamento, encontrei uma solicitação de mensagem no Instagram.
Lucas.
Fiquei olhando para a tela.
Ele escrevera apenas:
“Posso voltar a falar com você por aqui? Se a resposta for não, eu respeito.”
Nada sobre amor.
Nada sobre destino.
Nenhum texto dramático.
Deixei a mensagem ali por quase uma hora.
Depois respondi:
“Pode. Como amigo.”
A resposta veio apenas alguns minutos mais tarde.
“Entendido.”
Nos dias seguintes, Lucas não mudou de repente para o papel de homem apaixonado.
Isso me surpreendeu.
Mandou uma foto de Bruno dormindo no aeroporto depois do casamento e escreveu que aquilo merecia entrar para o arquivo histórico da turma.
Depois comentou uma publicação sobre um restaurante que havíamos frequentado na época da faculdade.
Às vezes ficávamos dois dias sem conversar.
Ele não perguntava onde eu estava.
Não cobrava resposta.
Não fazia discursos.
Talvez por isso eu tenha começado a baixar a guarda.
Cerca de três semanas depois, ele me chamou para tomar café.
“Sem conversa séria, se você não quiser.”
Pensei durante uma tarde inteira.
Aceitei.
Escolhi um lugar movimentado em Pinheiros, perto do meu trabalho.
Cheguei dez minutos antes e me odiei um pouco por perceber que ainda tinha o hábito de chegar cedo.
Lucas apareceu pontualmente.
— Você cortou o cabelo — ele disse.
— Faz oito meses.
Ele sorriu.
— Então estou bem atrasado.
Sentamos.
Quando o garçom veio, Lucas começou:
— Para ela…
Parei-o.
— Eu peço.
Ele fechou a boca imediatamente.
Pedi um café gelado.
Lucas ergueu as sobrancelhas.
— Você não gostava de café.
— Agora gosto.
Aquele pequeno detalhe parecia ridículo, mas produziu uma mudança no rosto dele.
Talvez fosse a primeira vez que Lucas entendia de verdade que não havia apenas perdido contato comigo.
Ele havia perdido versões inteiras de mim.
— Eu acho que ainda estou te conhecendo de novo — disse.
— Talvez você nunca tenha me conhecido tão bem quanto imaginava.
Ele aceitou a frase sem se defender.
Durante quase uma hora, conversamos sobre trabalho.
O instituto onde Lucas trabalhava tinha recebido novos projetos. Ele liderava uma pequena equipe e reclamava que passava mais tempo preenchendo relatórios do que dentro do laboratório.
Contei sobre a agência, sobre um cliente que mudava de ideia cinco vezes por semana e sobre minha recente promoção.
— Você virou coordenadora?
— Há quatro meses.
— Parabéns.
— Obrigada.
— Eu queria ter sabido.
A frase saiu naturalmente, sem pressão.
Mesmo assim, senti alguma coisa dentro de mim.
— Você teria sabido se eu não tivesse desaparecido.
— Eu sei.
Foi a primeira vez que tocamos no assunto naquela tarde.
Lucas girou a xícara devagar.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Depende.
— Você se arrepende de ter me contado?
Demorei.
— Durante muito tempo, sim.
Ele baixou os olhos.
— Agora não.
— Por quê?
— Porque eu precisava descobrir o que aconteceria. Se tivesse ficado quieta, talvez passasse anos interpretando cada gentileza sua como um sinal.
Lucas ficou alguns segundos olhando para a mesa.
— Eu era muito próximo de você sem perceber o quanto isso podia parecer diferente do seu lado.
— Você não fez nada de propósito.
— Não. Mas hoje consigo ver que eu também me acostumei a receber muito de você.
Aquela frase me chamou a atenção.
— Como assim?
— Você lembrava das coisas que eu esquecia. Levava comida quando eu passava o dia no laboratório. Fazia questão de me incluir nas coisas. Escutava quando eu reclamava do trabalho. Eu achava que tudo aquilo era simplesmente… você.
— E era.
— Só que depois você não estava mais lá.
Ele não terminou.
Não precisava.
— Então você sentiu falta de ser cuidado — falei.
Lucas levantou os olhos.
— No começo, talvez.
A honestidade me surpreendeu.
— E depois?
— Depois comecei a sentir falta de você quando não precisava de nada.
Fiquei quieta.
Ele continuou:
— Quando alguma coisa engraçada acontecia e eu pensava em te mandar. Quando eu conhecia um lugar e imaginava que você ia gostar. Quando alguém fazia uma piada e eu sabia exatamente a expressão que você faria. Foi aí que comecei a perceber que não era só sobre o que você fazia por mim.
— Quanto tempo depois?
— Meses.
— Quantos?
— Não sei exatamente. Talvez seis ou sete.
Ri sem alegria.
— Bastante tempo.
— Eu sei.
— E por que não me procurou?
— Porque você tinha deixado muito claro que queria distância. Eu já tinha te machucado uma vez. Não achei que tinha direito de invadir sua vida só porque meus sentimentos tinham mudado.
Não respondi.
Lucas poderia ter dito exatamente aquilo que eu queria ouvir.
Poderia ter inventado que percebeu tudo na noite em que me rejeitou, que ficou sofrendo desde o primeiro momento, que sempre havia me amado sem saber.
Seria mais romântico.
Também seria menos verdadeiro.
Naquela noite, ao chegar em casa, abri a última gaveta do guarda-roupa.
A caixa continuava ali.
Peguei a corrente e fiquei olhando para ela.
Não senti vontade de colocá-la no pescoço.
Isso me tranquilizou.
Algumas semanas depois, Lucas me chamou para outro café.
Depois para almoçar.
Uma vez fomos com Camila e o marido a uma exposição. Outra vez encontramos Bruno num bar.
Nós não retomamos a amizade antiga.
Construímos outra.
Mais cautelosa.
Mais adulta.
E, pela primeira vez, percebi características dele que minha paixão de faculdade costumava esconder.
Lucas era teimoso.
Quando se concentrava no trabalho, podia esquecer completamente o mundo ao redor.
Tinha dificuldade para falar sobre o que sentia e a irritante mania de tentar resolver sozinho problemas que deveriam ser divididos.
Também percebi coisas boas que antes eu atribuía à perfeição.
Ele ouvia de verdade.
Nunca tentava transformar minhas conquistas numa competição.
E, quando eu colocava um limite, ele respeitava.
Foi justamente isso que começou a me assustar.
Uma noite, depois de jantarmos num restaurante perto da Avenida Paulista, caminhamos até o estacionamento.
Lucas parou ao lado do meu carro.
— Posso te falar uma coisa?
— Você sempre começa assim quando a conversa vai ficar complicada.
— Estou tentando te dar chance de fugir.
— Então fala logo.
Ele sorriu, mas ficou sério logo depois.
— Eu gosto de você.
Meu coração bateu mais forte.
Não porque eu nunca tivesse imaginado ouvir aquilo.
Mas porque finalmente estava ouvindo sem precisar implorar.
— Lucas…
— Não estou te pedindo resposta.
Quase ri.
— Engraçado.
— O quê?
— Foi exatamente o que eu disse para você naquela cafeteria.
A lembrança atingiu os dois ao mesmo tempo.
Lucas baixou os olhos.
— Eu lembro.
— Eu também.
— E sei que não tenho direito de esperar que agora você sinta a mesma coisa.
— Você não tem.
Ele assentiu.
— Eu só queria ser claro.
Fiquei observando o trânsito passar ao fundo.
Depois perguntei:
— Se eu disser que ainda não sei o que sinto, o que você faz?
— Continuo vivendo minha vida.
— E comigo?
— O que você permitir.
— Sem pressão?
— Sem pressão.
— Sem pedir para a Camila falar comigo?
— Nunca pedi.
— Sem aparecer com flores no meu trabalho?
Ele riu.
— Isso estava nos meus planos para amanhã.
— Lucas.
— Brincadeira.
Balancei a cabeça, tentando esconder o sorriso.
Então tomei uma decisão pequena.
Talvez a primeira verdadeiramente importante desde que ele voltara para minha vida.
— Sábado eu estou livre.
Lucas pareceu confuso.
— Certo.
— Você pode me chamar para sair.
Ele ficou parado.
— Isso é um encontro?
— É uma chance.
A expressão dele mudou.
Não foi euforia.
Foi algo mais cuidadoso.
— Tá bom.
Abri a porta do carro.
Lucas deu dois passos para trás.
Antes de entrar, ainda acrescentei:
— E não escolha aquela cafeteria perto da universidade.
Ele sorriu.
— Justo.
Entrei no carro e fechei a porta.
Quando liguei o motor, minhas mãos tremiam um pouco.
Só que, dessa vez, não era porque eu estava esperando ser escolhida.
Era porque, depois de dois anos fugindo da história que me machucou, eu finalmente estava escolhendo descobrir por mim mesma se havia alguma coisa nova diante de mim.
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