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Depois de anos bancando a faculdade do neto, descobri que meu genro o tirou da universidade e continuou pedindo dinheiro

Parte 3

Na manhã seguinte, Daniel entrou no quarto do hospital devagar, como se ainda não soubesse se tinha o direito de estar ali.

Meu marido estava sentado numa cadeira, dando os primeiros passos depois da cirurgia com a ajuda de uma fisioterapeuta. Quando viu o neto na porta, parou.

Nenhum dos dois falou imediatamente.

Daniel tirou o boné.

— Oi, vô.

Meu marido abriu os braços.

Foi só isso.

O rapaz atravessou o quarto e se abaixou diante dele. Meu marido segurou a cabeça do neto contra o peito e começou a chorar. Daniel tentou se controlar, mas logo estava chorando também.

Eu fiquei perto da janela.

Durante anos, Carlos tinha conseguido transformar o amor que existia naquela família em dois silêncios diferentes.

De um lado, nós achávamos que Daniel estava ocupado estudando.

Do outro, Daniel achava que nós tínhamos desistido dele.

Meu marido foi o primeiro a recuperar a voz.

— Você devia ter ligado.

Daniel limpou o rosto.

— Eu achei que vocês não queriam falar comigo.

— E nós achávamos que você não tinha tempo para falar conosco.

Ele respirou fundo.

— Meu pai fazia tudo parecer verdade.

Meu marido olhou para mim.

— Então vamos parar de viver do que ele faz parecer.

Aquela frase ficou comigo.

Até então, eu estava tomada pela vontade de correr até a casa de Carlos, jogar os documentos na mesa e exigir uma explicação.

Mas percebi que isso só daria a ele a oportunidade de construir mais uma história antes que entendêssemos tudo.

Não precisávamos descobrir para onde cada real tinha ido naquele mesmo dia.

Precisávamos saber exatamente o que nós tínhamos entregue, o que Daniel tinha recebido e o que a universidade realmente cobrara.

Foi essa a primeira decisão que tomei.

Não confrontar Carlos ainda.

Quando meu marido recebeu alta dois dias depois, voltamos para casa. Daniel passou a primeira noite conosco depois de quase dois anos.

Eu fui ao banco na manhã seguinte.

Como as transferências tinham saído da minha própria conta, consegui solicitar o histórico completo.

Voltei com várias folhas dentro de uma pasta.

Espalhamos tudo sobre a mesa da cozinha.

R$ 2.800 em janeiro.

R$ 2.800 em fevereiro.

R$ 2.800 em março.

Mês após mês.

Além disso, cinco transferências maiores feitas sempre quando Carlos dizia que havia renovação de matrícula, mensalidades acumuladas ou despesas acadêmicas extraordinárias.

Somando apenas o período posterior ao primeiro semestre, quando Daniel já tinha deixado a universidade, havia mais de R$ 110 mil enviados a Carlos sob a justificativa de manter o neto estudando.

Meu marido ficou pálido.

Daniel olhava os comprovantes sem tocar neles.

— Vó… eu trabalhava doze horas por dia porque achava que vocês não tinham dinheiro.

Sentei ao lado dele.

— E nós economizávamos porque achávamos que você precisava.

Ele baixou a cabeça.

— Que bagunça.

Não era apenas bagunça.

Era uma escolha repetida.

Uma mentira poderia ter começado num momento de desespero.

Mas aquela mentira tinha sido renovada todos os meses.

Carlos nos mandava mensagens.

Inventava atividades.

Criava cobranças.

Impedira nossas visitas.

Escondera o novo telefone de Daniel.

Usara fotografias antigas para dar aparência de normalidade.

Nada daquilo acontecera por acidente.

Naquela tarde, Daniel autorizou formalmente a universidade a conversar conosco sobre a situação acadêmica.

Voltamos juntos.

Dessa vez, não havia dúvida de privacidade.

A coordenação confirmou que não existia mensalidade, matrícula ou qualquer débito acadêmico em nome de Daniel depois do encerramento do primeiro semestre.

Também explicou que ele poderia, no próximo processo interno, pedir reingresso. Algumas disciplinas já concluídas poderiam ser aproveitadas, enquanto outras dependeriam da grade atual.

Daniel ficou ouvindo em silêncio.

Na saída, perguntei:

— Você quer voltar?

Ele demorou a responder.

— Eu não sei se consigo.

— Não perguntei se consegue. Perguntei se quer.

Daniel olhou para os prédios do campus.

— Quero.

Foi a primeira vez, desde que o encontrei de uniforme, que vi alguma coisa diferente de cansaço nos olhos dele.

Não era alegria.

Ainda não.

Era vontade.

Na volta para casa, meu marido disse que pagaríamos a faculdade diretamente à instituição caso Daniel fosse readmitido.

— Nunca mais dinheiro de estudo vai passar pela mão de outra pessoa.

Concordei.

E acrescentei:

— Mas primeiro nós vamos cuidar das nossas contas.

Ele me olhou.

— Como assim?

Apontei para a barriga dele.

— Você quase esperou sua vesícula explodir para economizar dinheiro.

Depois coloquei a mão no rosto.

— E eu estou vivendo de analgésico por causa de um dente.

Meu marido fez uma expressão envergonhada.

Daniel interrompeu:

— Vocês não vão fazer isso de novo por minha causa.

— Não — respondi. — Não vamos.

Na semana seguinte, marquei meu dentista.

Meu marido voltou ao cirurgião para o acompanhamento correto.

Daniel continuou fazendo algumas entregas, mas reduziu os turnos noturnos. Enquanto aguardava o período de reingresso, começou a revisar as matérias que havia abandonado.

Carlos, porém, não parava de mandar mensagens.

Primeiro perguntou sobre os R$ 14 mil.

Depois disse que a universidade estava pressionando.

Dois dias mais tarde, a história mudou.

“Consegui negociar mais prazo.”

Depois:

“Se a senhora transferir pelo menos metade, eu resolvo o resto.”

Não respondemos.

Então vieram as mensagens de preocupação.

“Como o pai está?”

“A senhora conseguiu marcar o dentista?”

“Daniel anda muito ocupado, mas está bem.”

Essa última quase me fez rir de nervoso.

Daniel estava sentado à nossa frente quando li.

Mostrei a tela.

Ele ficou sério.

— Ele ainda está fingindo que sabe onde eu estou.

Foi naquele momento que entendemos que Carlos não suspeitava de nada.

Para ele, os dois lados continuavam separados.

Meu marido sugeriu chamá-lo imediatamente.

Daniel recusou.

— Antes quero perguntar uma coisa.

— O quê?

Ele ficou olhando para os comprovantes.

— Por que meu pai fez isso?

Eu não tinha resposta.

Podia imaginar dezenas de motivos.

Dívidas.

Problemas no trabalho.

Medo.

Ganância.

Mas não queria substituir fatos por suposições.

Foi Daniel quem acabou oferecendo a primeira pista.

— Na época em que eu saí da faculdade, ele estava com problemas na oficina.

Carlos tinha uma pequena oficina automotiva havia anos. Nossa filha tinha ajudado no começo do negócio, mas depois da morte dela ele continuara sozinho.

Daniel lembrava de fornecedores ligando constantemente.

Lembrava de discussões sobre parcelas atrasadas.

— Ele me dizia que era uma fase — contou. — Depois parou de falar.

Meu marido fez uma pergunta simples:

— A oficina ainda está aberta?

— Está.

No dia seguinte, Carlos ligou pela primeira vez desde que tínhamos parado de responder.

Atendi.

— Mãe, está acontecendo alguma coisa?

— Por quê?

— A senhora nunca deixa mensagem sem resposta.

— Estive ocupada com o pai.

A voz dele suavizou na hora.

— Claro. Eu entendo. E o Daniel também está em época de prova.

Daniel, sentado diante de mim, fechou os olhos.

Carlos continuou:

— Sobre aquele dinheiro da faculdade…

Interrompi.

— Venha aqui em casa sábado.

Houve uma pequena pausa.

— Para quê?

— Você disse que precisa do pagamento. Venha pegar o comprovante.

Minha própria voz me surpreendeu.

Não tremia.

Carlos pareceu aliviado.

— Ah, tá. Claro. Passo depois do almoço.

Quando desliguei, meu marido me encarou.

— Você vai transferir?

— Não.

Coloquei os comprovantes dentro da pasta.

— Vou entregar outra coisa.

Daniel perguntou se deveria ir embora antes de o pai chegar.

Meu marido respondeu antes de mim.

— Não.

Daniel ficou tenso.

— Vô…

— Durante quase dois anos, ele falou conosco sobre você sem você estar presente. E falou com você sobre nós sem nós estarmos presentes.

Meu marido puxou uma cadeira para perto da mesa.

— Acabou.

No sábado, pouco depois das duas da tarde, ouvimos o portão.

Daniel estava sentado à mesa da cozinha.

A pasta com os comprovantes estava fechada diante de mim.

Meu marido permanecia ao meu lado.

Carlos entrou chamando:

— Mãe?

Respondi:

— Estamos na cozinha.

Os passos se aproximaram.

Carlos apareceu na porta sorrindo, uma sacola de frutas nas mãos.

— Trouxe umas coisas para o pai…

Então viu Daniel.

O sorriso desapareceu.

A sacola ficou imóvel em sua mão.

Meu neto se levantou.

Pela primeira vez em quase dois anos, pai, filho e avós estavam no mesmo cômodo sem que Carlos pudesse controlar o que cada um sabia sobre o outro.

Eu empurrei a cadeira vazia.

— Senta, Carlos.

Abri a pasta.

— Agora você vai explicar por que continuou cobrando a faculdade de um filho que você mesmo tirou da universidade.

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