No reality de namoro, diagnostiquei a costela de um astro — e o perfume do galã escondia cheiro de necrotério
Parte 3
O cheiro de erva para gatos deixou de ser uma curiosidade no mesmo instante.
Sentei no sofá do camarim e fechei os olhos, não porque tivesse solucionado alguma coisa, mas justamente porque sabia que não tinha solucionado. Meu trabalho me ensinara uma regra que televisão nenhuma respeitava: indício não era conclusão. Eu podia ter reconhecido sangue, arranhões e um cheiro específico, mas aquilo não me dava o direito de montar um crime inteiro dentro da cabeça e apresentá-lo como verdade.
— O que aconteceu? — Theo perguntou da porta.
Ele não entrou.
Gostei disso.
— Existe uma ocorrência envolvendo Gabriel — respondi. — Não posso falar sobre detalhes.
Theo assentiu.
— Então não fale.
Esperei uma pergunta que não veio. Nenhum “ele fez mesmo?”. Nenhuma tentativa de arrancar informação privilegiada. Theo apenas apontou para a garrafa de água ao meu lado.
— Você está há quase duas horas sem beber nada.
— Você observa demais.
— Olha quem está falando.
Tomei um gole para encerrar a discussão.
Na manhã seguinte, a situação já tinha virado um incêndio nas redes sociais. O vídeo em que Gabriel se dobrava quando toquei suas costelas acumulava milhões de visualizações. Outro trecho, gravado por uma câmera do corredor, mostrava apenas parte da discussão entre nós porque o ângulo não captara o momento inicial em que ele segurara meu pulso.
Isso bastou para dividir a internet.
Para alguns, eu era uma especialista brilhante que havia “desmascarado um criminoso em trinta segundos”.
Para outros, eu era uma mulher desesperada por fama que tinha inventado uma acusação contra um artista querido.
As duas versões me incomodavam.
Eu não tinha desmascarado ninguém em trinta segundos.
E não precisava inventar o que tinha acontecido comigo.
A produção queria que eu gravasse um vídeo explicando minhas “deduções”.
Recusei.
— Vocês querem transformar uma denúncia de violência em quadro de entretenimento — falei numa reunião com a direção. — Não vou participar disso.
— Mas você já falou das costelas ao vivo.
— E foi um erro falar daquele jeito diante das câmeras. Posso admitir isso sem retirar o fato de que havia sinais físicos reais. Uma coisa não apaga a outra.
Um dos produtores tentou argumentar que a audiência tinha dobrado.
Olhei para ele.
— Se o objetivo de vocês é dobrar de novo, procurem outra pessoa.
O contrato me obrigava a permanecer disponível por mais alguns dias, mas ninguém podia me obrigar a comentar uma investigação em andamento. Naquela tarde, fui chamada formalmente para prestar depoimento sobre o que ocorrera no corredor.
Contei apenas o que eu mesma tinha visto e sentido.
Gabriel segurou meu pulso.
Eu pedi que soltasse.
Ele condicionou a soltura a uma declaração pública.
Eu retirei a mão.
Havia arranhões recentes no dorso da mão direita dele e um pequeno resíduo de sangue junto à unha.
Quando o investigador perguntou o que eu concluía daquilo, respondi:
— Nada. Conclusões precisam de contexto e perícia adequada.
O homem ergueu os olhos do computador.
— Mesmo sendo médica-legista?
— Principalmente por isso.
Saí de lá mais leve.
Do outro lado da investigação, as coisas avançavam sem mim.
A ex-namorada de Gabriel havia conseguido uma medida protetiva meses antes depois de relatar ameaças, empurrões e uma agressão dentro do apartamento onde os dois haviam morado juntos. Ela não tornara o caso público. A carreira dele continuara intacta.
Na manhã da estreia do reality, segundo o depoimento dela, Gabriel teria ido ao prédio sem autorização.
A portaria registrara sua entrada porque ele ainda era reconhecido pelos funcionários.
Ele dizia que só queria conversar.
Ela disse que ele queria que retirasse a denúncia anterior antes que a imprensa descobrisse.
Quando ela se recusou, houve uma discussão.
Um dos gatos se assustou, pulou sobre uma bancada e o arranhou quando Gabriel tentou agarrar o braço dela.
Ela conseguiu se trancar no quarto e ligar para a polícia.
Gabriel saiu antes da viatura chegar.
Não era uma história sustentada apenas pela palavra dela.
Existiam registros da portaria, mensagens anteriores em que ele insistia em encontrá-la e a própria medida protetiva da qual Gabriel tinha sido formalmente intimado.
Nada disso apareceu magicamente depois de eu apertar sua mão.
Já existia.
Eu apenas entrara no caminho no pior momento possível para ele.
As costelas também ganharam contexto alguns dias depois.
Meses antes, durante uma das discussões descritas na ocorrência inicial, a mulher afirmara ter empurrado uma cadeira para afastá-lo quando ele bloqueou sua saída. Gabriel caiu contra a quina de um móvel.
Na época, ele passou algumas semanas longe dos palcos.
Sua equipe anunciou uma infecção respiratória.
Ele tratou as fraturas numa clínica particular e voltou a trabalhar antes de estar totalmente recuperado.
A informação não provava a agressão contra a ex-namorada.
Mas desmontava a versão pública de que eu havia “inventado” uma lesão para humilhá-lo.
Quando isso começou a circular, um jornalista tentou me arrancar uma confirmação.
— Doutora Lívia, então sua análise estava certa?
— Minha recomendação era que ele procurasse um médico e fizesse uma radiografia.
— Mas a senhora sabia que ele era violento?
— Não.
— As mãos dele não mostravam isso?
Respirei antes de responder.
— Mãos mostram uso, lesões, hábitos físicos. Não mostram caráter.
Foi a única frase minha que permiti que circulasse.
Theo me encontrou naquela noite na varanda da casa onde os participantes ficavam hospedados durante as gravações.
Ele colocou uma caneca sobre a mesa.
— Café.
— Isso é tentativa de ganhar pontos no programa?
— Não. Se fosse, eu teria pedido para a câmera filmar.
Procurei instintivamente alguma lente.
Theo riu.
— Viu? Você já está contaminada pela televisão.
Peguei a caneca.
— E você? Por que um ator passa uma manhã num laboratório de anatomia antes de entrar num programa de namoro?
— Porque vou interpretar um patologista num filme daqui a três meses.
— Isso você já falou.
— Você não acreditou.
— Acreditei em parte.
Ele tirou o celular do bolso, abriu uma foto e colocou a tela diante de mim. Não era prova de inocência de coisa alguma. Apenas uma imagem dele usando avental numa sala universitária, ao lado de dois professores, durante uma visita técnica registrada semanas antes.
— Estou fazendo preparação há quase dois meses — explicou. — Aquele cheiro ficou na minha mochila. Eu levei uma camisa limpa, mas usei a mesma bolsa e o mesmo relógio.
— E o éter?
— Material antigo de laboratório. Também perguntei.
Assenti.
— Então eu exagerei.
— Você pensou.
— Pensei que você pudesse estar envolvido em alguma coisa ruim.
— Pensar não é acusar.
— Mesmo assim.
Theo apoiou os braços na mesa.
— Lívia, quando você sentiu o cheiro em mim, seu rosto mudou. Mas você não me chamou de assassino. Você perguntou onde eu tinha estado. Existe uma diferença enorme.
Fiquei mexendo na borda da caneca.
— A internet não entende diferenças enormes.
— A internet mal entende diferenças pequenas.
Aquilo quase me fez rir.
Quase.
No terceiro dia, a produção nos informou que Gabriel estava oficialmente fora do programa até que sua situação jurídica fosse esclarecida. Alguns patrocinadores suspenderam campanhas que tinham sido gravadas com ele. A empresa que administrava sua carreira anunciou que revisaria os fatos antes de tomar uma decisão definitiva.
Não houve queda instantânea.
Nem prisão cinematográfica.
Nem ruína em cinco minutos.
Houve algo mais real.
Contratos congelados.
Reuniões canceladas.
Advogados.
Depoimentos.
Uma apuração que continuaria mesmo depois que as câmeras fossem desligadas.
Naquela mesma tarde, a direção do Sinais do Coração me ofereceu permanência até a final.
— Você virou o nome mais comentado da temporada — disseram.
Minha vontade inicial foi ir embora.
Eu tinha aceitado permanecer dois episódios e ser eliminada. Queria voltar ao IML, onde ossos eram mais previsíveis do que celebridades.
Então li uma cláusula nova que a produção pretendia acrescentar.
Queriam criar um quadro em que eu analisaria fisicamente os participantes.
Fechei o documento.
— Não.
— Podemos negociar o cachê.
— Não é dinheiro.
— Então o que você quer?
Empurrei o contrato de volta.
— Se eu ficar, ninguém será examinado sem consentimento explícito. Nenhuma informação médica será usada como brincadeira. E vocês vão reforçar o protocolo de segurança nos bastidores.
O produtor hesitou.
— Isso é inegociável?
— É.
Talvez eu ainda não soubesse se queria continuar no reality.
Mas percebi que sabia exatamente como não queria continuar vivendo.
Passei anos usando ironia para me proteger de encontros ruins, de homens assustados com meu trabalho, de colegas que me chamavam de fria.
No programa, pela primeira vez, meu defeito mais inconveniente tinha me colocado diante de algo sério.
Eu podia fugir.
Ou podia aprender a estabelecer limites sem diminuir quem eu era.
Assinei apenas depois que as alterações foram aceitas.
Na última gravação daquela semana, Theo foi colocado diante de mim numa dinâmica de perguntas rápidas.
A apresentadora sorriu.
— Theo, qual característica de Lívia mais incomoda você?
Ele pensou.
— Ela esquece que pessoas vivas também merecem privacidade.
A plateia fez aquele som coletivo de surpresa.
Eu arqueei a sobrancelha.
— Belo começo.
Theo continuou:
— E qual característica eu mais admiro? Ela é capaz de reconhecer isso quando percebe que passou do limite.
Não esperava aquela segunda parte.
A apresentadora virou para mim.
— Lívia, sua vez. O que mais incomoda você no Theo?
Observei o homem ao meu lado.
— A coluna cervical.
A plateia caiu na gargalhada.
Theo fechou os olhos.
— Eu sabia.
— É perfeita demais. Profissionalmente irritante.
Foi a primeira vez que ri de verdade desde que entrara naquele programa.
Mais tarde, quando as câmeras foram desligadas, meu celular tocou.
Era o diretor do IML.
Atendi ainda sorrindo.
A voz dele apagou meu sorriso.
— Lívia, Gabriel pediu autorização para voltar ao estúdio amanhã e recolher pessoalmente os pertences dele.
— E?
— A produção autorizou com segurança reforçada.
— Isso é problema deles.
— Talvez não. Ele afirmou ao advogado que quer falar com você.
Fiquei em silêncio.
O diretor continuou:
— Você não tem obrigação nenhuma de aceitar.
Olhei através do vidro do estúdio vazio.
— Eu sei.
A diferença era que, dessa vez, eu não pretendia encontrar Gabriel como participante de um programa.
Eu pretendia encontrá-lo como a mulher cujo braço ele acreditara ter o direito de segurar.
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