A aluna transferida jurou tirar meu primeiro lugar — e virou a sala inteira contra mim por apenas dois pontos
Parte 4
A seletiva interna seria realizada duas semanas depois.
Durante aquele período, algo curioso aconteceu.
A sala ficou mais silenciosa.
Não porque todos tivessem passado a gostar de mim de repente. A vida não funcionava assim.
Algumas pessoas continuavam me achando arrogante. Outras ainda preferiam Bianca. Algumas simplesmente tinham percebido que a rivalidade tinha ido longe demais e decidiram parar de participar.
Para mim, aquilo já era suficiente.
Bianca também mudou de comportamento.
Continuou estudando muito, mas parou de anunciar cada progresso como uma vitória futura sobre mim. Quando sabia uma resposta, respondia. Quando errava, corrigia.
Certa manhã, passamos uma pela outra diante da biblioteca.
Ela levantou um livro.
— Terminei a lista de eletromagnetismo.
— A questão dezessete tem uma pegadinha.
Bianca estreitou os olhos.
— Você está tentando me ajudar ou me confundir?
— Descubra.
Ela riu.
Foi uma conversa de dez segundos.
Ainda não éramos amigas.
Talvez nunca fôssemos.
Mas finalmente parecíamos duas concorrentes de verdade.
Caio, por outro lado, demorou mais para entender minha decisão.
Durante alguns dias, tentou agir como antes.
Esperou perto do portão da minha casa numa manhã.
Quando meu pai abriu a garagem, Caio deu um passo na direção do carro.
Baixei o vidro.
— Você não disse que não iria mais comigo?
Ele enfiou as mãos nos bolsos.
— Aquilo foi besteira.
— Foi uma decisão sua.
— Você ainda está brava?
Pensei por um momento.
— Não estou brava. Só parei de organizar minha rotina considerando você.
O carro seguiu.
Do retrovisor, vi Caio parado na calçada.
Doeu menos do que eu imaginava.
Acho que algumas relações só parecem enormes enquanto nunca paramos para medir o espaço real que ocupam.
No dia da seletiva, cheguei quarenta minutos antes.
As carteiras estavam afastadas umas das outras. Os celulares ficaram desligados dentro das mochilas, deixadas na frente da sala. Dois professores acompanharam toda a aplicação.
Nada de torcida.
Nada de comentários.
Nada de olhos vermelhos.
Durante três horas, fomos apenas alunos diante de uma prova.
E eu adorei.
Havia uma questão de física tão difícil que passei quase vinte minutos nela. Quando encontrei a solução, senti aquela velha satisfação atravessar meu peito.
Era por aquilo que eu competia.
Não pelo rosto de Bianca.
Não pelos comentários de Caio.
Não para provar à sala inteira que eu era superior.
Eu gostava de descobrir até onde conseguia chegar.
Quando entreguei a prova, Bianca ainda escrevia.
Passei pela carteira dela sem olhar sua folha.
Na saída, sentei num banco perto da quadra.
Dez minutos depois, ela apareceu.
— A questão onze foi criminosa.
— A de física?
— Sim.
— Gostei dela.
Bianca me encarou horrorizada.
— Você não é normal.
— Isso já me disseram.
Ela soltou uma risada.
Caio, que estava alguns metros adiante com outros alunos, olhou em nossa direção.
Bianca percebeu.
— Ele está estranho comigo também.
— Isso é entre vocês.
— Achei que você fosse ficar feliz.
— Por quê?
— Sei lá. Porque eu “roubei” seu amigo.
— Bianca, você ainda não entendeu que eu nunca pensei assim?
Ela ficou constrangida.
— Acho que estou começando a entender.
Os resultados sairiam na segunda-feira.
Quando entrei na sala naquela manhã, havia uma tensão familiar no ar, mas ninguém fazia piada.
O professor chegou com duas folhas.
— A primeira etapa selecionava os dois maiores resultados para representar o colégio na fase estadual.
Meu coração acelerou.
— Segundo lugar: Bianca Duarte, 181 pontos.
Algumas pessoas bateram palmas.
Bianca sorriu, claramente emocionada.
Eu também bati palmas duas vezes.
Ela olhou para mim.
Então o professor continuou:
— Primeiro lugar: Clara Nogueira, 192 pontos.
Onze pontos de diferença.
Ouvi aplausos dispersos.
Dessa vez, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, Bianca começou a bater palmas também.
Não de maneira exagerada.
Não parecia feliz por perder.
Parecia apenas reconhecer o resultado.
E isso, vindo dela, valia mais que qualquer discurso.
— As duas representarão o colégio — concluiu o professor. — Parabéns.
Foi quando um garoto no fundo comentou:
— Pelo menos agora ninguém vai pedir auditoria.
Alguns riram.
Bianca ficou séria.
Ela se levantou.
— Não.
A sala silenciou.
— Não façam isso.
O garoto ergueu as mãos.
— Eu só estava brincando.
— Eu sei. Mas fui eu quem acusou a Clara sem ter prova. Eu estava frustrada e passei do limite. Não quero transformar isso em piada como se não tivesse sido grave.
Ninguém respondeu.
Eu também não.
Bianca respirou fundo.
— Ela ganhou aquela prova honestamente. Ganhou essa também. Eu errei quando tentei colocar isso em dúvida.
Era provavelmente a frase mais difícil que ela havia dito desde que chegara ao colégio.
Sentou novamente.
Não houve abraço.
Não houve música imaginária de reconciliação.
Só um silêncio um pouco diferente.
Mais limpo.
No intervalo, encontrei Bianca perto das escadas.
— Obrigada pelo que falou.
— Eu devia ter falado antes.
— Devia.
Ela fez uma careta.
— Você poderia facilitar um pouco a aceitação de um pedido de desculpas.
— Poderia.
— E não vai?
— Não.
Bianca riu.
Depois ficou séria.
— Minha mãe conversou comigo depois da reunião na coordenação. Meu pai também.
Esperei.
— Ele pediu desculpas pelas comparações.
— Isso é bom.
— Não resolveu tudo.
— Essas coisas raramente resolvem tudo em uma conversa.
Ela assentiu.
— A coordenadora me tirou da comissão de recepção dos alunos novos este semestre.
Eu sabia que Bianca participava da atividade.
— Faz sentido.
— Eu fiquei muito irritada quando soube.
— Imagino.
— Depois percebi que alguém que recebe alunos novos não deveria transformar uma colega em alvo porque perdeu uma prova.
Aquilo me surpreendeu.
— É.
Bianca soltou o ar.
— Vou tentar entrar de novo no próximo semestre.
— Então faça por merecer.
Ela sorriu de lado.
— Às vezes você parece uma senhora de sessenta anos.
— E você fala demais.
— Acho que estamos evoluindo.
Não pude evitar um pequeno sorriso.
Mais tarde, Caio me encontrou perto do portão.
Dessa vez, não tentou brincar.
— Posso falar com você?
Olhei o relógio.
— Pode.
Ele respirou fundo.
— Você estava certa.
Esperei o resto.
— Quando você perguntou sua matéria favorita, eu fiquei tentando lembrar depois. E fiquei com vergonha.
Não respondi.
— Eu gostava de dizer que era seu amigo de infância porque… não sei. Parecia especial. Você sempre foi a pessoa que todo mundo conhecia, e eu podia dizer que conhecia você antes de todo mundo.
A sinceridade me surpreendeu.
— Mas eu não conhecia você direito — continuou. — E quando a Bianca chegou, ela precisava de mim de um jeito que você nunca precisou. Acho que gostei disso.
— Provavelmente.
Ele deu uma risada sem graça.
— Você não facilita nada.
— Já ouvi isso hoje.
Caio abaixou os olhos.
— Eu também fui injusto quando ela acusou você. Fiquei tentando proteger o sentimento dela e nem pensei no que aquilo significava para você.
— É.
— Desculpa.
Dessa vez, não havia um “mas”.
Aquilo importava.
— Eu aceito seu pedido de desculpas.
O rosto dele relaxou imediatamente.
Então acrescentei:
— Mas nossa relação não volta automaticamente ao que era.
Ele pareceu decepcionado, mas assentiu.
— Eu entendo.
— Se um dia formos amigos de verdade, vai acontecer porque construímos uma amizade. Não porque nossas casas ficam perto.
— Justo.
Ele começou a sair, depois se virou.
— Sua matéria favorita é física.
— Agora você sabe.
— E você quer engenharia?
— Ciência da computação.
Caio fechou os olhos.
— Nossa, eu sou péssimo nisso.
Pela primeira vez em semanas, ri perto dele.
Mas fui embora sozinha.
E estava tudo bem.
Nos meses seguintes, Bianca e eu nos preparamos para a fase estadual.
Ela ganhou de mim em simulados.
Eu ganhei dela em outros.
Quando ficava na minha frente, ela sorria como se tivesse conquistado um campeonato.
Eu odiava.
E adorava.
Era exatamente o tipo de rivalidade que eu tinha esperado desde o começo.
Sem choro usado como arma.
Sem colegas escolhendo vilões.
Sem suspeitas inventadas.
Na competição estadual, nenhum de nós terminou em primeiro lugar.
Eu fiquei em terceiro.
Bianca, em quinto.
Quando vi a classificação, senti uma pontada feroz de frustração.
Ela apareceu atrás de mim.
— Então é assim que você fica quando perde?
— Não fale comigo por cinco minutos.
Bianca começou a rir.
— Estou falando sério.
— Eu sei.
Cinco minutos depois, sentei ao lado dela com o relatório de desempenho.
— Errei duas questões ridículas.
Bianca abriu o próprio relatório.
— Eu também.
Passamos quase meia hora comparando erros.
Não houve lágrimas.
Não houve desculpas.
Nenhuma de nós culpou quem estava acima na classificação.
Na volta para Campinas, percebi uma coisa que teria achado absurda meses antes.
Ficar em terceiro não tinha diminuído meu valor.
Só tinha me mostrado o próximo degrau.
Continuei competitiva.
Continuei querendo ser primeira.
Continuei estudando mais do que quase todo mundo.
Não aprendi a fingir modéstia para que outras pessoas se sentissem confortáveis.
Também não passei a acreditar que ambição fosse defeito.
Mas aprendi outra coisa.
Eu não precisava confundir independência com isolamento.
Quando uma colega me pediu ajuda numa questão, parei dez minutos para explicar.
Quando alguém me convidou para almoçar, às vezes aceitei.
Descobri que algumas pessoas não me odiavam.
Elas apenas tinham desistido de se aproximar porque eu sempre parecia ocupada demais para responder.
Outras realmente não gostavam de mim.
E isso continuava não sendo um problema.
Bianca também mudou.
Continuava falando demais, conhecendo metade da escola e fazendo amizade em qualquer fila.
Só parou de precisar que todo mundo escolhesse um lado.
Quanto a Caio, nossa relação ficou mais simples.
Às vezes conversávamos.
Às vezes passávamos dias sem conversar.
Ele nunca mais entrou no carro da minha família sem perguntar.
E nunca mais me apresentou como “a amiga de infância inseparável”.
Curiosamente, só depois disso começamos a conversar de verdade.
No último resultado geral do ano, meu nome apareceu novamente no topo.
Bianca ficou em segundo.
A diferença foi de quatro pontos.
Ela ficou diante do mural com as mãos na cintura.
— Quatro.
— Quatro.
— Ano que vem não teremos mais escola.
— Existem vestibulares, universidade, concursos, projetos…
Ela virou lentamente para mim.
— Você está me convidando para continuar competindo pelo resto da vida?
— Estou avisando que oportunidades não vão faltar.
Bianca estendeu a mão.
— Então está combinado.
Apertei.
— Desde que você não chore.
Ela puxou a mão de volta.
— E desde que você pare de prometer vinte pontos.
— Não prometo.
Bianca sorriu.
— Milagre.
Balancei a cabeça e segui pelo corredor.
No começo daquele ano, eu acreditava que estar no topo significava necessariamente estar sozinha.
Depois descobri que não era tão simples.
Eu não precisava descer para que alguém gostasse de mim.
Também não precisava empurrar ninguém para provar que merecia subir.
Meu lugar nunca dependeu das lágrimas de Bianca, da aprovação da turma ou da proximidade de Caio.
Dependia do que eu fazia quando ninguém estava olhando.
Continuei avançando exatamente como sempre quis.
A diferença era que agora eu sabia que chegar mais alto não exigia transformar todo mundo ao meu redor em adversário — apenas continuar sendo dona das minhas escolhas, dos meus limites e do caminho que eu queria construir.
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