A garota mais rica da turma me transferiu R$ 78 mil numa aposta — e oito anos depois eu a encontrei sob um viaduto
Parte 3
Na manhã seguinte, liguei para Caio de novo. Ele ainda morava em Belo Horizonte e conhecia mais gente da época da faculdade do que eu. Perguntei se alguém tinha contato recente com Valentina. Ele prometeu perguntar sem transformar aquilo em fofoca.
As respostas começaram a chegar aos poucos. Uma antiga colega sabia que Valentina vendera o apartamento que possuía. Outra lembrava que ela tinha vendido o carro antes disso. Um rapaz que trabalhara por alguns meses na empresa da família disse que Valentina aparecera várias vezes durante o encerramento das atividades, tentando organizar pagamentos de funcionários.
Nada combinava com a imagem que muita gente construíra dela na faculdade.
A garota que supostamente podia jogar dinheiro fora sem pensar havia ficado até quase o fim tentando resolver uma empresa que não fora ela quem destruíra.
Comecei a procurar informações públicas sobre os processos empresariais. Não podia acessar documentos protegidos, mas havia movimentações disponíveis nos sistemas judiciais e notícias sobre a falência. O nome de Valentina aparecia em alguns casos porque ela havia assinado garantias pessoais de dois empréstimos e figurava como sócia minoritária em uma das empresas.
Aquilo explicava parte do problema.
Não significava que todas as dívidas da família fossem dela. Muito menos que qualquer credor pudesse simplesmente cobrar tudo da filha dos donos. Mas também deixava claro que ela tinha colocado a própria assinatura em documentos que agora podiam alcançar seus bens.
Lembrei da conversa que tinha ouvido anos antes.
“Eu assino depois de ler.”
Naquela época, pensei que Valentina fosse apenas cuidadosa. Agora eu me perguntava quantas vezes os pais haviam insistido até ela ceder.
Caio conseguiu o contato de uma antiga colega de apartamento dela. Liguei naquela mesma tarde.
— Faz quase um ano que não vejo a Valentina — disse a mulher. — Depois que vendeu o último apartamento, alugou um quarto pequeno. Trabalhava fazendo serviços administrativos. Aí começaram a aparecer cobradores no trabalho, mesmo quando as cobranças nem estavam no nome dela. Ela ficou com vergonha e saiu.
— Você sabe onde ela foi?
— Não.
A mulher hesitou.
— Tiago, ela mudou muito. Não é só questão de dinheiro. Ela ficou com vergonha de existir.
Essa frase ficou na minha cabeça.
Nos dias seguintes, continuei trabalhando normalmente, mas passei a sair do escritório pensando nela. Eu tinha uma boa vida agora. Não era rico, mas pagava minhas contas, ajudava meus pais e conseguia dormir sem medo de faltar dinheiro no fim do mês.
Grande parte dessa estabilidade tinha começado com uma noite absurda num karaokê.
Com R$ 78 mil que Valentina poderia ter se recusado a pagar.
Eu sabia que ela nunca havia considerado aquilo um empréstimo. Também sabia que eu nunca conseguira considerar um presente.
Numa sexta-feira, depois do trabalho, resolvi passar pela região central. Caio tinha ouvido que Valentina fora vista meses antes perto de pensões baratas nos arredores do centro. Eu não esperava encontrá-la. Só precisava fazer alguma coisa além de olhar processos e mandar mensagens sem resposta.
Passei por duas pensões.
Em uma delas, ninguém reconheceu a foto antiga que eu tinha.
Na outra, a proprietária olhou por alguns segundos.
— Ela ficou aqui um tempo.
Meu peito apertou.
— Sabe pra onde foi?
— Saiu depois de atrasar duas semanas. Não fez confusão. Deixou até uma bolsa como pagamento parcial. Eu disse que podia buscar depois, mas nunca voltou.
— Quando foi isso?
— Uns dois meses atrás.
Pedi que, se Valentina aparecesse, dissesse apenas que Tiago estava procurando por ela e que eu não era cobrador.
A mulher me observou com desconfiança.
— Você é parente?
— Não.
— Namorado?
— Também não.
Ela pareceu ainda mais confusa.
— Então o que você é?
Não soube responder.
Saí de lá quando já estava escurecendo.
Andei por várias ruas sem direção certa. Em algum momento, começou uma garoa fina. Entrei numa lanchonete, pedi um café e fiquei olhando as pessoas pela janela.
Eu podia continuar procurando.
Podia também aceitar que Valentina talvez não quisesse ser encontrada.
Essa possibilidade doía mais do que eu esperava.
Ajudar alguém não dá a você o direito de invadir a vida dessa pessoa.
Terminei o café e decidi voltar para casa.
Foi então que a vi.
Eu estava atravessando uma rua perto do Viaduto Santa Tereza quando reparei numa mulher sentada junto a uma pilastra, parcialmente protegida da chuva. Havia uma mochila pequena ao lado e uma sacola de mercado dobrada sob os pés.
Passei alguns metros.
Então parei.
O modo como ela mantinha os braços cruzados sobre os joelhos me pareceu familiar.
Voltei.
Cheguei mais perto.
O rosto estava magro e sujo. O cabelo, sem corte havia muito tempo. As roupas eram velhas e grandes demais para ela.
Mas aqueles olhos eram os mesmos.
— Valentina?
Ela levantou o rosto.
Demorou alguns segundos para me reconhecer.
Vi a surpresa primeiro.
Depois vergonha.
Ela tentou se levantar.
— Você se enganou.
— Não me enganei.
— Tiago…
A voz saiu quase sem força.
Aproximei-me devagar.
— Eu procurei você.
Ela passou a mão no rosto como se quisesse esconder a própria aparência.
— Não devia ter procurado.
— Por quê?
— Porque não existe mais nada daquela pessoa que você conheceu.
Aquilo me atingiu com mais força do que qualquer notícia sobre falência.
Agachei diante dela.
— Vem comigo?
Valentina ficou imóvel.
Os olhos se encheram de lágrimas.
— Não faz isso.
— Fazer o quê?
— Ter pena.
— Eu não estou com pena.
Ela soltou uma risada curta, sem humor.
— Você está olhando pra uma mulher dormindo debaixo de um viaduto e quer dizer que não sente pena?
— Eu estou olhando pra pessoa que me deu quatro anos quando eu não tinha como comprar nem meus livros.
— Eu não dei quatro anos pra você.
— Deu.
— Era uma aposta idiota.
— Pra você.
Valentina apertou os lábios.
— Eu não tenho como devolver nada.
Levantei.
— Ótimo. Porque eu não vim cobrar.
Estendi a mão.
Ela olhou para meus dedos.
Durante alguns segundos, achei que fosse recusar.
Então segurou.
Levei Valentina para meu apartamento.
No caminho, ela ficou em silêncio no banco do passageiro. Quando chegamos, mostrei o banheiro, deixei uma toalha limpa e separei algumas roupas largas que poderiam servir temporariamente.
— Você pode dormir no quarto — falei. — Eu fico no sofá.
— Tiago, eu não posso ficar aqui.
— Hoje pode.
— E amanhã?
— Amanhã a gente conversa.
Ela me encarou.
— Você continua decidindo tudo com planilha?
Quase sorri.
— Algumas coisas.
Foi a primeira vez que vi um traço da antiga Valentina naquela noite.
Depois do banho, ela sentou à mesa usando uma camiseta minha. Coloquei comida na frente dela e não fiz perguntas enquanto ela comia.
Só quando terminou foi que começou a falar.
A empresa do pai tinha enfrentado problemas de caixa durante quase dois anos. Para conseguir novos créditos, ele pedira que Valentina assinasse garantias pessoais em duas operações. Disse que seriam temporárias. Garantiu que os contratos seriam substituídos quando determinados imóveis fossem vendidos.
Ela confiou.
Os imóveis não foram vendidos a tempo.
Vieram atrasos, ações de fornecedores e a recuperação judicial.
Então os pais saíram do país.
— Eu acordei um dia e descobri que eles tinham ido embora — disse ela. — Minha mãe deixou uma mensagem dizendo que era “só por algumas semanas”.
— E você?
— Fiquei porque tinha funcionários sem receber, gente ligando, advogado procurando alguém da família. Eu achava que podia resolver pelo menos uma parte.
Ela vendeu o carro.
Depois vendeu o apartamento.
Pagou o que conseguiu.
Alguns credores cobravam dívidas legítimas. Outros tentavam empurrar para ela obrigações exclusivamente das empresas ou dos pais.
Sem orientação constante, Valentina foi pagando o que parecia urgente.
Até não ter mais nada.
— Por que não procurou seus amigos?
Ela baixou os olhos.
— Que amigos, Tiago? Os que me conheciam quando eu pagava uma mesa inteira sem perguntar o preço?
Não respondi.
— E você?
Ela ergueu o rosto.
— Eu fui a pessoa que te deu dinheiro numa brincadeira absurda. Imagina aparecer oito anos depois e dizer: “Oi, lembra de mim? Agora não tenho onde dormir.”
Levantei e fui até o armário.
Peguei o velho caderno.
A capa estava gasta.
Coloquei sobre a mesa.
Valentina franziu a testa.
— O que é isso?
Abri na primeira página.
“Plano de quatro anos.”
Mostrei as contas.
Cada gasto.
Cada ajuste.
A anotação feita no dia da formatura: “Saldo: R$ 0,82.”
Depois abri o aplicativo do banco no celular.
A conta chamada “V.G.” tinha pouco mais de R$ 104 mil.
Valentina ficou branca.
— O que é isso?
— Seu dinheiro.
Ela empurrou o celular na minha direção.
— Não.
— Valentina…
— Não.
— Eu disse que devolveria.
— E eu disse que não era empréstimo.
— Então chama de outra coisa.
Ela se levantou.
— Eu não vou pegar esse dinheiro.
— E eu não vou fingir que ele não existe.
A voz dela aumentou.
— Você não entende! Eu passei anos vendo dinheiro entrar numa conta e desaparecer no dia seguinte por causa de dívida. Eu vendi tudo. Tudo. Se você colocar isso na minha mão agora, eu nem sei o que acontece com ele.
Aquilo me fez parar.
Ela tinha razão.
Transferir dinheiro sem saber a situação jurídica dela podia ser imprudente.
Sentei novamente.
— Tá bom.
Valentina pareceu surpresa.
— Tá bom?
— Não vou transferir nada hoje.
Ela respirou melhor.
— Amanhã a gente procura orientação jurídica. Se alguma dívida for realmente sua, vamos entender qual. Se não for, você para de pagar culpa como se fosse boleto.
Ela começou a chorar.
Dessa vez, não tentou esconder.
— Eu tô cansada, Tiago.
— Eu sei.
— Não sabe.
— Não. Provavelmente não sei.
Empurrei o caderno na direção dela.
— Mas eu sei como é olhar para quatro anos pela frente e achar que você não tem dinheiro nem para chegar ao mês seguinte.
Valentina passou os dedos sobre a primeira página.
Ficou ali por muito tempo.
Quando finalmente falou, a voz estava baixa.
— Só hoje.
— Só hoje.
— Amanhã eu vou embora.
— Amanhã você decide.
Ela me olhou.
Eu esperei.
Depois de alguns segundos, Valentina fechou o caderno.
— Amanhã eu vou com você procurar ajuda.
Foi uma frase simples.
Mas eu entendi que, para alguém que havia passado tanto tempo fugindo da própria vergonha, aquilo era a primeira decisão real de voltar a enfrentar a vida.
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