Voltei de viagem e encontrei meu apartamento de noiva ocupado pelo irmão do meu noivo — e eles disseram que agora era deles
Parte 3
Daniel ficou parado na calçada como se não tivesse entendido as palavras.
— Você está mentindo.
— Não estou.
— Você não pode simplesmente vender o apartamento.
— Posso vender um imóvel que é exclusivamente meu. E foi exatamente o que eu fiz.
Ele passou a mão pelo rosto.
— A uma semana do nosso casamento?
— Engraçado você estar preocupado com a data agora. Quando decidiu entregar nosso futuro lar ao seu irmão sem me perguntar, não pareceu lembrar que nós também íamos nos casar.
Daniel olhou para Sérgio, que preferiu não participar da discussão e se despediu.
Quando ficamos sozinhos, Daniel diminuiu a voz.
— Marina, vamos conversar dentro do carro.
— Podemos conversar aqui.
— Não quero fazer um escândalo na rua.
Quase ri.
Depois de tudo o que havia acontecido, a aparência pública ainda parecia importante para ele.
Daniel tentou argumentar que a venda não poderia estar concluída. Nisso ele tinha parcialmente razão: ainda existiam etapas cartorárias e registrais a cumprir. Eu expliquei que havia um compromisso de compra e venda assinado, sinal pago e documentação encaminhada.
Além disso, eu não havia escondido os ocupantes do comprador.
— Você contou sobre Lucas e Camila?
— Claro.
— E ele aceitou comprar mesmo assim?
— Aceitou.
Daniel ficou ainda mais nervoso.
— Você perdeu a cabeça.
— Não. Acho que comecei a recuperá-la.
Ele me encarou.
— E onde nós vamos morar depois do casamento?
A pergunta foi tão absurda que levei alguns segundos para responder.
— Você ainda acha que haverá casamento?
Seu rosto mudou.
— Marina.
— O quê?
— Não fala isso.
— Por quê? Você realmente acredita que, depois de tudo, eu deveria colocar um vestido branco, sorrir para as fotografias e fingir que estou entrando numa família que me respeita?
Daniel segurou meu braço.
Não com força suficiente para machucar, mas retirei a mão imediatamente.
— Não encosta em mim.
Ele soltou.
— Eu errei por não avisar.
— Esse não foi o único erro.
— Lucas precisava de ajuda.
— E eu precisava de um noivo que me tratasse como companheira.
Daniel fechou os olhos.
— Você está misturando as coisas.
— Então vamos separar.
Levantei um dedo.
— Primeiro: você colocou duas pessoas no meu apartamento sem minha autorização.
Outro.
— Segundo: prometeu que seriam dois meses sabendo que talvez elas nunca saíssem.
Outro.
— Terceiro: permitiu que destruíssem parte da decoração que eu paguei.
Outro.
— Quarto: decidiu sozinho que elas continuariam morando conosco depois do casamento.
Daniel abriu a boca.
Não deixei.
— Quinto: quando sua cunhada sugeriu que você me batesse, sua maior preocupação continuou sendo impedir que eu chamasse a polícia.
Ele empalideceu.
— Eu nunca bateria em você.
— Eu espero que não. Mas você também não me defendeu.
Ele não respondeu.
Fui embora.
Na manhã seguinte, as ligações começaram.
Primeiro, a mãe de Daniel.
Depois, o pai.
Depois, Lucas.
Não atendi nenhuma.
Quando Daniel apareceu no meu trabalho, pedi para conversar numa cafeteria do outro lado da rua.
Ele parecia não ter dormido.
— Minha mãe está passando mal com essa história.
— Se ela realmente estiver passando mal, leve-a ao médico.
— Você sabe o que eu quis dizer.
— Sei. E não vou aceitar que use a saúde dela para me pressionar.
Daniel ficou vermelho.
— Você está diferente.
— Estou.
— Antes você era mais compreensiva.
A frase me atingiu de uma maneira inesperada.
Compreensiva.
Durante anos, eu tinha considerado aquilo uma qualidade. Eu cedia, evitava conflito, pagava contas quando ele estava apertado, aceitava atrasos, desculpas e favores para a família.
Agora eu começava a entender que, na cabeça deles, minha compreensão havia se transformado numa obrigação.
— Daniel, posso fazer uma pergunta?
— Pode.
— Se eu não tivesse esse apartamento, você teria me pedido em casamento?
Ele levantou a cabeça de repente.
— Que pergunta é essa?
— Uma pergunta simples.
— Claro que sim.
— Então por que Camila disse aquilo?
— Porque ela fala demais.
— Ela disse que sua família só me aceitou porque eu tinha condições de comprar uma casa.
— Minha família nunca falou desse jeito.
— Não foi isso que eu perguntei.
Ele começou a mexer na xícara.
— Quando meus pais souberam que você tinha comprado o apartamento, eles ficaram aliviados.
— Aliviados com o quê?
Silêncio.
— Daniel.
Ele soltou o ar.
— Eles sabiam que não tinham condições de ajudar nem a mim nem ao Lucas.
Comecei a entender.
— Continue.
— Minha mãe dizia que, como você já tinha imóvel próprio, pelo menos um dos filhos estava resolvido.
— “Um dos filhos”?
— Depois apareceu a gravidez da Camila.
— E vocês decidiram resolver o segundo filho usando o mesmo apartamento.
— Não foi assim.
— Como foi?
Daniel se irritou.
— Você quer que eu diga o quê? Que meus pais esperavam que você ajudasse? Sim. Esperavam. Eu também achei que, depois do casamento, você não veria problema em ajudar minha família.
A dor veio, mas dessa vez não me desmontou.
— Você não pensou que eu ajudaria. Você decidiu que eu ajudaria.
Daniel permaneceu calado.
— E a promessa de dois meses?
Ele olhou para a rua.
— No começo, eu pensei que eles encontrariam outra coisa.
— No começo?
— Depois Lucas disse que o aluguel estava caro, que o bebê ia nascer, que não fazia sentido eles gastarem dinheiro enquanto havia espaço.
— E você concordou.
— Achei que daria para administrar.
— Sem conversar comigo.
Daniel perdeu a paciência.
— Porque eu sabia que você diria não!
Ali estava.
A frase que eu precisava ouvir.
Não uma gravação secreta. Não um documento milagroso. Apenas a verdade saindo da boca dele.
— Exatamente — respondi. — Você sabia que eu não concordaria, por isso fez escondido.
Daniel percebeu o que havia acabado de admitir.
Tentou voltar atrás.
— Eu estava tentando evitar uma briga.
— Não. Você estava tentando evitar minha decisão.
Levantei.
— Marina, senta.
— Preciso voltar ao trabalho.
— E o casamento?
Olhei para ele.
— Vou decidir hoje.
Naquela tarde, telefonei para o espaço onde seria realizada a cerimônia e perguntei sobre as condições de cancelamento.
Perderíamos parte do valor.
Alguns fornecedores permitiam reagendamento ou devolução parcial. Outros, não.
Durante alguns minutos, fiquei olhando para a planilha no computador.
Era muito dinheiro.
Mas então pensei no preço de me casar apenas porque já tínhamos pago a festa.
Fechei os olhos e confirmei os cancelamentos.
Daniel recebeu as notificações de alguns fornecedores antes que eu tivesse terminado.
Meu celular começou a tocar.
Não atendi.
Ele apareceu na minha casa naquela noite.
Dessa vez, meus pais estavam comigo.
Daniel ficou na porta.
— Você cancelou?
— Cancelei.
— Sem falar comigo?
A pergunta quase me fez perder a calma.
— Você está realmente reclamando que eu tomei sozinha uma decisão sobre algo que também era seu?
Ele percebeu a ironia.
— Não é a mesma coisa.
— Tem razão. Porque ninguém está usando seu patrimônio sem sua autorização.
Daniel olhou para meus pais e abaixou a voz.
— Podemos conversar sozinhos?
Concordei.
Fomos até a varanda.
Ele segurava uma pequena caixa.
— Eu sei que fiz tudo errado.
Não respondi.
— Eu deveria ter falado com você antes de deixar Lucas entrar.
— Sim.
— E deveria ter obrigado os dois a sair quando o prazo acabou.
— Sim.
— Mas você também está exagerando.
Foi impressionante.
Até quando tentava pedir desculpas, ele precisava repartir a culpa.
— De que maneira?
— Vendendo o apartamento. Cancelando tudo. Você destruiu anos de relacionamento em três dias.
— Eu?
— Nós poderíamos consertar.
— Como?
Daniel se aproximou.
— Eu falo com Lucas. Dou um prazo. A gente procura outro apartamento para nós.
Quase não acreditei.
— Para nós?
— Sim.
— E quem paga?
Ele hesitou.
Foi uma hesitação pequena.
Mas eu vi.
— Marina…
— Você continua esperando que eu resolva.
— Eu não tenho dinheiro para entrada agora.
— Eu sei.
— Então precisamos pensar juntos.
— Não existe mais “juntos”.
Daniel ficou muito pálido.
— Você está terminando comigo?
Peguei a aliança de noivado que eu ainda usava.
Tirei lentamente.
Coloquei na palma da mão dele.
— Estou cancelando um casamento que nunca deveria acontecer nessas condições.
Os olhos dele ficaram úmidos.
— Marina, eu amo você.
Meu peito apertou.
Eu ainda amava alguma versão daquele homem.
Talvez a versão que eu tinha acreditado conhecer.
— Talvez ame — respondi. — Mas seu amor sempre veio depois das necessidades da sua família e antes dos meus limites.
Daniel fechou a mão sobre a aliança.
— Eu posso mudar.
— Pode.
Ele levantou os olhos, esperançoso.
Completei:
— Mas não vou me casar esperando para descobrir se vai.
Daniel foi embora.
Achei que aquela seria a parte mais difícil.
Eu estava errada.
Dois dias depois, meu celular recebeu mais de vinte mensagens de Lucas.
A última dizia:
“Pode vender para quem quiser. A gente não vai sair.”
Logo abaixo, havia outra, enviada por Camila:
“Quero ver quem vai conseguir tirar uma mulher grávida daqui.”
Olhei para aquelas palavras durante um longo tempo.
Depois abri a pasta com todos os documentos que eu havia preparado.
O prazo que eu dera a eles ainda não tinha terminado.
Eu não pretendia arrancar ninguém de casa no meio da noite.
Também não pretendia discutir mais.
Mas, quando aquele prazo acabasse, pela primeira vez naquela história, não seriam eles que decidiriam o que aconteceria com aquilo que era meu.
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