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Meu namorado terminou comigo pela amiga de infância — e os melhores amigos dele se revoltaram por causa da minha comida

Parte 3

Na sexta-feira, Caio apareceu no cartório.

Eu não sabia se ele iria até vê-lo entrar pela porta de camisa clara, óculos escuros na mão e uma expressão que parecia misturar irritação com uma espécie de curiosidade. O advogado da família já estava ali com a documentação preparada, depois de dias conferindo matrícula, certidões e os custos necessários para formalizar a transferência.

Caio se sentou diante de mim.

— Você veio mesmo.

— Eu marquei horário.

— Não foi isso que eu quis dizer.

Eu sabia.

Ele queria dizer que eu tinha chegado até o fim.

Durante três anos, Caio havia se acostumado a me ver voltar depois das discussões. Às vezes eu realmente exagerava. Eu perguntava onde ele estava, reclamava quando saía sem me avisar, ficava incomodada com mulheres que se aproximavam demais.

Mas sempre terminávamos do mesmo jeito: eu preparando alguma coisa que ele gostava, ele aparecendo na cozinha por trás de mim e a briga sendo encerrada sem ninguém falar sobre o que realmente tinha acontecido.

Durante muito tempo, achei aquilo romântico.

Agora parecia apenas conveniente.

O funcionário do cartório explicou os documentos, as responsabilidades de cada parte e os passos seguintes para o registro da escritura. Caio ouviu tudo em silêncio. Quando chegou o momento da assinatura, segurou a caneta, mas não escreveu imediatamente.

— Lívia.

— O quê?

— Se eu assinar isso, você vai mesmo embora?

Eu ergui os olhos.

— Você terminou comigo antes de oferecer a casa.

— Eu sei.

— Então por que está fazendo essa pergunta?

A mandíbula dele se contraiu.

— Porque você está agindo como se não sentisse nada.

Aquilo finalmente me atingiu.

Não porque ele estivesse certo, mas porque passei noites chorando escondida enquanto ele imaginava que minha falta de espetáculo significava falta de sentimento.

— Eu senti muita coisa, Caio. Só não senti necessidade de fazer uma apresentação para você.

Ele baixou os olhos para a escritura.

— Helena não tem nada a ver com isso.

— Então melhor ainda. Não precisamos falar dela.

Assinei primeiro.

Depois de alguns segundos, ele também assinou.

Saí do cartório sabendo que ainda existiriam procedimentos até o registro definitivo, mas a parte essencial estava formalizada. Não era uma promessa enviada no calor de uma discussão. Era uma decisão que ambos tinham assumido diante de documentos reais.

Na calçada, Caio veio atrás de mim.

— Você vendeu as bolsas?

Eu parei.

— Algumas.

— Por quê?

— Porque eram minhas.

— Eu que comprei.

— E me deu de presente.

Ele abriu a boca, mas não conseguiu discutir com isso.

Eu quase ri, porém não havia graça.

Aquele era o problema central entre nós. Caio passara tanto tempo oferecendo coisas que começou a acreditar que continuava tendo algum direito sobre tudo o que havia oferecido, inclusive sobre mim.

Na semana seguinte, mudei para Alphaville.

A casa era grande demais para uma pessoa, mas pela primeira vez isso não me incomodou. Escolhi um quarto, deixei dois praticamente vazios e passei os primeiros dias limpando, organizando documentos e tentando descobrir como seria minha vida sem horários construídos ao redor de Caio.

Foi então que comecei a cozinhar de novo.

Não para ele.

Não para Rafael.

Não para a turma.

Para mim.

Preparei um almoço simples e sentei sozinha na varanda. Durante alguns minutos, fiquei apenas olhando o prato.

Era estranho perceber que uma coisa que sempre amei tinha se transformado em serviço automático.

Eu não odiava cozinhar para as pessoas.

Eu odiava ter começado a acreditar que precisava fazer aquilo para merecer permanecer perto delas.

Rafael mandou mensagem no terceiro dia.

“Posso fazer uma pergunta sem você me bloquear?”

Respondi:

“Depende.”

“Você aceitaria fazer um almoço para doze pessoas se eu pagar?”

Fiquei olhando a tela.

Depois escrevi:

“Você está falando sério?”

“Completamente. Tenho uma reunião pequena da empresa no sábado. O buffet que contratei cancelou.”

Quase respondi não por puro reflexo.

Então percebi uma coisa.

Rafael não estava pedindo um favor daquela vez.

Estava oferecendo trabalho.

Pedi número de convidados, restrições alimentares, horário e cardápio pretendido. Fiz as contas de ingredientes, deslocamento, tempo de preparação e meu trabalho. Quando mandei o orçamento, fiquei esperando alguma piada sobre o preço.

Ele respondeu:

“Fechado.”

No sábado, entreguei tudo no horário.

Não fiquei para servir.

Não lavei louça de ninguém.

Não passei a noite perguntando se estavam satisfeitos.

Recebi o pagamento e fui embora.

Na segunda-feira, duas pessoas que tinham participado daquela reunião entraram em contato comigo.

Uma queria um jantar de aniversário.

Outra precisava de almoço para uma reunião mensal de vinte pessoas.

Sentei diante do notebook e fiquei encarando as mensagens.

Eu tinha passado anos ouvindo que meu único talento era cozinhar, como se aquilo diminuísse tudo o que eu era.

Pela primeira vez, pensei que talvez o problema nunca tivesse sido “só saber cozinhar”.

O problema era ter oferecido de graça aquilo que tinha valor.

Usei uma parte pequena do dinheiro da venda dos meus acessórios para comprar equipamentos melhores e adaptar uma área da casa, respeitando as exigências necessárias para começar pequeno e trabalhar de forma organizada. Não inventei restaurante, não fiz dívida e não contratei uma equipe enorme.

Comecei com encomendas limitadas.

Eu mesma decidia quantas aceitava.

Rafael se tornou cliente frequente.

Os outros amigos de Caio começaram a aparecer também.

No início, alguns ainda tentavam brincar:

— Para antigo cunhado não tem desconto?

Eu respondia:

— Tem. Eu cobro mais caro porque vocês dão trabalho.

Depois de perceberem que eu falava sério sobre meus limites, pararam de insistir.

Estranhamente, começaram a me tratar melhor.

Não porque eu estivesse cozinhando melhor do que antes.

Porque, agora, eu tratava meu tempo como algo que merecia respeito.

Caio soube das encomendas através deles.

Certa noite, recebi uma mensagem dele.

“Então agora você cobra dos meus amigos para fazer o que fazia de graça?”

Li duas vezes.

Depois respondi:

“Agora eu trabalho.”

Ele telefonou quase imediatamente.

— Não precisava responder desse jeito.

— Que jeito?

— Como se eu tivesse explorado você.

A palavra não tinha saído da minha boca.

Isso me chamou atenção.

— Eu disse apenas que agora trabalho, Caio.

Do outro lado, ele ficou quieto.

Depois tentou mudar de assunto.

— Helena comentou que você está falando mal dela.

— Helena está enganada.

— Ela disse que Rafael contou que você acha que nós dois tivemos alguma coisa enquanto você estava comigo.

— Eu nunca disse isso.

— Então você acredita em mim?

Encostei na bancada.

— A questão já não é essa.

— Como assim?

— Mesmo que você nunca tenha encostado nela, você passou semanas dizendo que minhas preocupações eram ridículas enquanto reclamava de mim para seus amigos. Você me fazia parecer uma mulher inconveniente e, depois, voltava para casa para jantar o que eu tinha preparado.

Ele respirou fundo.

— Você também errou muito.

— Errei.

Minha resposta o pegou de surpresa.

Continuei:

— Eu tentei controlar situações porque estava insegura. Não deveria ter feito isso. Mas reconhecer meu erro não me obriga a voltar para um relacionamento em que você me desprezava quando eu não estava ouvindo.

— Quem falou isso para você?

— Faz diferença?

Fez.

Naquela noite, Caio discutiu com Rafael.

Eu soube porque, no dia seguinte, Rafael apareceu para buscar uma encomenda com uma expressão péssima.

— Ele está furioso comigo.

— Por ter contado a verdade?

Rafael colocou as mãos nos bolsos.

— Eu devia ter falado antes.

— Devia.

Ele assentiu.

Não tentou se defender.

— A gente fazia piada. Todo mundo fazia. Sobre você não ter dinheiro, sobre ter vindo de uma família simples… Eu entrei na onda muitas vezes.

Eu o encarei.

Rafael parecia sinceramente constrangido.

— E depois iam para minha casa comer.

— Pois é.

— Isso é bem feio.

— É.

A resposta simples me pareceu mais honesta do que qualquer pedido de desculpas elaborado.

Rafael continuou:

— Quando você terminou com ele… quer dizer, quando ele terminou com você… a ficha caiu. A gente estava com medo de perder seus jantares antes de pensar no que você estava sentindo.

Cruzei os braços.

— Pelo menos você percebeu.

— Estou tentando melhorar.

Ele ergueu a sacola da encomenda.

— Inclusive pagando.

Dessa vez, eu sorri.

Pouco.

Mas de verdade.

Duas semanas depois, Caio apareceu na minha porta.

Eu estava terminando uma encomenda e quase não o reconheci naquele cenário.

Na antiga casa onde morávamos, tudo parecia pertencer a ele.

Ali, era o contrário.

Ele era o visitante.

— Posso entrar?

— Estou trabalhando.

— São cinco minutos.

Tirei as luvas, lavei as mãos e fui até a varanda.

Não o convidei para dentro.

Caio percebeu.

— Você mudou muito rápido.

— Talvez eu só tenha parado de fazer algumas coisas.

— Rafael e os outros vivem falando daqui.

— Eles são clientes.

Ele soltou uma risada sem humor.

— Agora você chama meus melhores amigos de clientes.

— O que você queria que eu chamasse?

Ele se aproximou um pouco.

— Lívia, eu acho que a gente tomou uma decisão no impulso.

— Você tomou.

— Tá bom. Eu tomei.

Foi a primeira vez que admitiu isso sem transferir parte da culpa.

Mas a frase seguinte estragou o efeito.

— Só que você também podia ter me impedido.

Fiquei olhando para ele.

— Impedido você de terminar comigo?

— Você sabe como eu sou.

— Exatamente.

Aquilo o fez recuar.

Caio passou a mão pelos cabelos.

— Helena não era o que eu imaginava.

Meu peito apertou, mas não pela razão que ele esperava.

— E eu deveria fazer o quê com essa informação?

— Não estou dizendo que quero voltar só porque não deu certo com ela.

— Vocês ficaram juntos?

Ele hesitou.

Foi uma hesitação pequena.

Mas suficiente.

— Não exatamente.

Eu não disse nada.

Caio continuou rápido:

— A gente tentou sair algumas vezes depois do nosso término. Ela também achava que talvez existisse alguma coisa. Só que não funcionou.

Pronto.

Não houve traição física enquanto estávamos juntos, pelo menos segundo ele.

Mas também não havia sido apenas “uma irmã”.

A verdade ficava justamente no espaço que ele tinha passado semanas tentando me convencer de que não existia.

— Então minhas inseguranças não surgiram completamente do nada — falei.

— Eu nunca disse isso.

— Disse de todas as formas possíveis.

Ele desviou os olhos.

Eu senti dor.

Claro que senti.

Mas não era mais aquela dor desesperada que me fazia querer segurá-lo.

Era a dor limpa de finalmente enxergar uma relação sem as desculpas que eu mesma tinha criado para mantê-la inteira.

— Você terminou comigo porque queria descobrir se poderia viver alguma coisa com ela.

Caio demorou a responder.

— Em parte.

— E agora descobriu que não.

— Lívia…

Levantei a mão.

— Não.

Minha voz saiu tranquila.

— Eu não quero discutir hoje.

— Eu vim justamente para conversar.

— E eu estou escolhendo não conversar.

Ele pareceu não acreditar.

— Então quando?

Olhei pela porta de vidro para as caixas de comida prontas sobre a bancada.

Depois voltei para ele.

— Quando eu decidir que essa conversa serve para alguma coisa.

Caio apertou os lábios.

— Você está fazendo isso para me punir?

— Não. Estou fazendo porque tenho trabalho para entregar e porque, pela primeira vez em três anos, minha prioridade não é acalmar você.

Ele permaneceu parado.

Eu abri a porta da varanda.

Antes de entrar, acrescentei:

— E se um dia a gente conversar de verdade, Caio, você vai ter que vir preparado para falar do que fez. Não do que perdeu.

Fechei a porta.

Naquela noite, pela primeira vez, deixei o celular no silencioso sem medo de quem poderia estar tentando falar comigo.

Eu ainda não tinha decidido o que faria quando Caio voltasse.

Mas já sabia de uma coisa.

Ele não voltaria a entrar na minha vida apenas porque percebeu que a porta podia se fechar.

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