Depois de me divorciar para ficar com outra mulher, descobri que meu melhor amigo tinha o telefone da minha ex
PARTE 3
Minha voz mudou automaticamente.
— Ele está bem?
— Está. Terminou a lição e vai almoçar.
— Posso falar com ele?
Ela passou o telefone.
Conversamos por alguns minutos sobre escola, futebol e um trabalho que ele precisava entregar. Quando Joana voltou à linha, meu tom já estava menos agressivo.
— Lucas já encontrou com ele?
— Encontrou.
Meu corpo endureceu.
— Quando?
— No domingo. Por acaso, numa praça. Eles ficaram falando de futebol.
— E você achou normal?
— Achei.
— Joana…
— Nosso filho sabe quem é o pai dele. Ninguém está tentando ocupar seu lugar.
A ligação terminou pouco depois.
À noite, Lucas me mandou uma mensagem.
“Precisamos conversar sem plateia.”
Encontrei com ele numa cafeteria perto do trabalho no dia seguinte. Sentei e fui direto ao assunto.
— Você está interessado nela?
Lucas não fingiu surpresa.
— Estou conhecendo a Joana.
— Então está.
— Talvez.
A serenidade dele me deixou ainda mais nervoso.
— Entre tanta mulher no mundo, precisava ser justamente minha ex?
Lucas se inclinou sobre a mesa.
— Você realmente quer fazer essa pergunta?
— Quero.
— Então responde outra primeiro. Entre tanta mulher no mundo, precisava ser justamente a Viviane enquanto você ainda era casado?
Meu maxilar travou.
— Isso não é da sua conta.
— Minha relação com Joana também não é da sua.
Levantei os olhos para ele.
Lucas continuou:
— E antes que você use minha infertilidade como desculpa, eu nunca disse que precisava ter um filho biológico para amar uma mulher ou conviver com uma criança.
— Eu não falei isso.
— Mas pensou.
Eu sabia que ele tinha razão, e isso me irritou ainda mais.
Levantei, deixei dinheiro sobre a mesa e disse que a conversa tinha acabado.
Lucas me chamou antes que eu chegasse à porta.
— André.
Virei.
— Sábado eu vou ao jogo do seu filho. A Joana me convidou. Achei melhor você saber por mim.
Dessa vez, não consegui esconder o que senti.
Passei os dois dias seguintes repetindo para mim mesmo que não me importava.
Era mentira.
No sábado, acordei antes das sete, embora o jogo do meu filho só começasse às dez. Viviane percebeu enquanto eu procurava uma camiseta no armário.
— Você nunca acorda cedo assim para os jogos.
— Tenho ido sempre que posso.
Ela me lançou um olhar comprido.
— Não. Você vai quando não tem outra coisa marcada.
Fechei a gaveta com mais força do que precisava.
— O que você quer dizer?
— Nada que você já não saiba.
Não respondi. Tomei café quase sem sentir o gosto e saí dizendo que talvez demorasse.
O campo ficava numa escola esportiva na outra ponta de Campinas. Quando cheguei, algumas famílias já estavam nas arquibancadas. Procurei nosso filho primeiro.
Ele estava perto do banco de reservas, amarrando a chuteira.
Depois vi Joana.
E, dois lugares ao lado dela, Lucas.
A primeira coisa que me incomodou foi perceber que nenhum dos dois parecia estar fazendo nada para me provocar. Não estavam de mãos dadas. Não estavam grudados. Lucas segurava dois copos de café, e Joana ria de alguma coisa que uma mãe sentada perto deles tinha dito.
Aquilo era pior do que se estivessem exibindo uma relação.
Parecia natural.
Joana me viu e levantou a mão em cumprimento.
Lucas fez o mesmo.
Sentei do outro lado.
Durante o primeiro tempo, meu filho olhou para a arquibancada três vezes. Na primeira, acenei. Na segunda, ele abriu um sorriso. Na terceira, Lucas gritou alguma orientação sobre posicionamento e ele respondeu com o polegar levantado.
Senti uma fisgada ridícula.
Quando o intervalo começou, desci.
Meu filho correu até nós, suado e ofegante.
— Pai, você viu meu passe?
— Vi. Foi bom.
— O tio Lucas falou que eu preciso olhar antes de receber a bola.
A palavra “tio” deveria ter me tranquilizado.
Não tranquilizou.
— Seu treinador já está aí para ensinar isso.
O sorriso dele diminuiu um pouco.
Lucas percebeu.
— Eu só comentei porque ele perguntou.
— Eu ouvi.
Joana se aproximou.
— André, não começa.
— Eu não comecei nada.
— Seu rosto está dizendo outra coisa.
Nosso filho olhou de um para outro.
Foi aí que me dei conta de onde estávamos.
Abaixei o tom imediatamente.
— Vai beber água. Depois você me mostra aquele chute que treinou.
Ele saiu correndo.
Joana esperou até que estivesse longe o suficiente.
— Não faça isso na frente dele.
— Fazer o quê?
— Transformar qualquer pessoa que conversa comigo numa ameaça ao seu lugar de pai.
Lucas abriu a boca, mas Joana ergueu a mão.
— Eu mesma resolvo.
Aquilo também me incomodou.
— Você está defendendo ele agora?
— Não. Estou estabelecendo um limite com você.
Eu ri, sem humor.
— Limite? Eu sou o pai do seu filho.
— E vai continuar sendo. Mas deixou de ser meu marido.
A simplicidade da frase me calou.
Joana voltou para a arquibancada antes que eu respondesse.
Lucas permaneceu ali.
— Quer me dar um soco? — perguntou.
— Não seja idiota.
— Então para de agir como se eu tivesse roubado alguma coisa sua.
— Você é meu amigo.
— Justamente por isso estou falando na sua cara.
Ele passou a mão pela nuca.
— Eu não procurei a Joana. Comprei aquela cadeira sem saber que era dela. Conversamos por causa da entrega, depois falamos sobre o time, sobre trabalho, sobre umas coisas comuns. Eu gostei dela.
— E ela gostou de você?
— Pergunta para ela.
— Estou perguntando para você.
— Isso é parte do problema, André. Você ainda acha que tudo precisa passar por você.
Antes que eu respondesse, o apito chamou os jogadores para o segundo tempo.
Lucas voltou para a arquibancada.
Fiquei parado perto da grade.
Naquele instante, pela primeira vez desde o divórcio, uma pergunta desconfortável surgiu com clareza: por que exatamente eu estava tão irritado?
Eu tinha escolhido Viviane.
Tinha saído do casamento.
Tinha assinado o acordo.
Tinha construído outra família.
Mesmo assim, uma parte de mim parecia esperar que Joana permanecesse congelada no lugar onde eu a deixei.
Voltei para casa depois do jogo sem passar no almoço que alguns pais fariam.
Viviane estava na mesa ajudando o filho com uma atividade escolar.
Quando me viu, fechou o caderno.
— E então?
— Então o quê?
— Seu amigo estava lá?
Parei.
— Como você sabe?
— Você falou dele três vezes desde quinta-feira.
Sentei.
— Estava.
Ela esperou.
Contei parte da conversa no campo. Quanto mais eu falava, mais estranha a situação parecia até para mim mesmo.
Viviane ouviu tudo sem interromper.
Depois perguntou:
— Você ainda ama a Joana?
— Não.
A resposta veio rápida.
Ela assentiu.
— Eu acredito.
Isso me surpreendeu.
— Então qual é o problema?
Viviane apoiou os cotovelos na mesa.
— Talvez você não a ame. Talvez só não suporte descobrir que ela não pertence mais à parte da sua vida que você deixou guardada.
— Isso não faz sentido.
— Faz bastante.
Fiquei em silêncio.
Ela continuou:
— Quando começamos, você dizia que seu casamento já tinha acabado emocionalmente. Dizia que só faltava coragem para sair. Eu acreditei porque queria acreditar.
A lembrança me deixou desconfortável.
— Não vamos voltar a isso.
— Precisamos voltar, sim. Porque você sempre contou essa história como se as coisas simplesmente tivessem acontecido com você.
Seu filho apareceu no corredor e ela fez sinal para ele voltar ao quarto.
Esperou a porta fechar.
— Você escolheu sair daquele casamento, André. Eu também errei ao aceitar uma relação com um homem casado. Não vou fingir que fui inocente. Mas agora estamos aqui. Se você começa a vigiar a vida da Joana porque ela pode gostar de alguém, eu preciso saber que tipo de casamento temos.
Aquela foi a primeira vez em muito tempo que Viviane falou sobre o início da nossa relação sem suavizar nada.
Eu me levantei e fui para o escritório.
Não queria discutir.
Liguei o computador, abri arquivos antigos e depois, quase sem perceber, peguei o celular.
Procurei conversas com Joana da época da separação.
Grande parte já estava arquivada.
Rolei mensagens durante quase vinte minutos.
Encontrei a conversa que eu lembrava.
Eu tinha escrito:
“Se você colocar outro homem dentro daquela casa, isso vai bagunçar a cabeça do nosso filho.”
Ela tinha respondido:
“Eu nem penso em casamento. Depois de tudo isso, só quero criar nosso filho em paz.”
Mais abaixo, eu tinha escrito:
“Então fica assim. Não vou discutir a casa.”
Nenhuma promessa.
Nenhum “nunca”.
Nenhum acordo condicionando a propriedade à vida amorosa dela.
Apenas uma mulher devastada dizendo que naquele momento não conseguia imaginar outro casamento.
Eu tinha transformado aquilo em uma obrigação eterna.
Senti vergonha.
Continuei lendo.
Havia mensagens minhas reclamando do valor de um móvel, do carro, da divisão das contas. Havia mensagens dela perguntando se eu buscaria nosso filho no horário combinado.
Em duas ocasiões, eu tinha cancelado em cima da hora porque Viviane precisava de mim.
Na minha memória, eu era o homem que tinha “deixado sessenta por cento de tudo” para a ex-esposa.
Na tela, eu parecia apenas um homem tentando medir cada perda em números enquanto Joana organizava a vida prática de uma criança no meio de um divórcio.
Fechei a conversa.
Na segunda-feira, pedi uma cópia digital do acordo que já tinha guardada no e-mail e li com atenção.
A casa estava atribuída a Joana na partilha.
Sem condições.
Sem cláusula de novo casamento.
Sem qualquer direito meu de interferir no uso daquele imóvel.
Eu sabia disso quando assinei.
Só tinha preferido contar a história de outro jeito depois.
À tarde, Lucas apareceu no meu escritório.
— Você não respondeu minhas mensagens.
— Estava ocupado.
Ele puxou uma cadeira.
— Joana acha que eu causei um problema entre vocês.
— Você causou.
Lucas fez menção de levantar.
— Espera.
Ele parou.
Respirei fundo.
— Você não causou sozinho.
Lucas me encarou.
Foi mais difícil dizer o resto.
— Eu achei as mensagens do divórcio.
— E?
— Ela não prometeu nunca se casar de novo.
Lucas não comemorou.
Isso ajudou.
— Você vai falar com ela?
— Vou.
Naquela noite, liguei para Joana.
Não comecei falando de Lucas.
— Eu reli nossas conversas.
Ela ficou quieta.
— E?
— Você tinha razão.
A frase saiu pesada.
— Sobre o quê?
— Sobre aquela suposta promessa.
Ela respirou do outro lado.
— André…
— Eu transformei uma frase sua em algo que você nunca prometeu.
Ela não respondeu de imediato.
Continuei:
— E a casa é sua. Sem condição nenhuma. Eu sei disso.
— Obrigada por finalmente dizer isso.
— Mas ainda quero que qualquer mudança importante envolvendo nosso filho seja conversada entre nós.
— Isso é justo.
Pela primeira vez, chegamos a um ponto comum sem brigar.
— Se você sair com alguém, eu não preciso saber — acrescentei. — Só preciso saber do que realmente afeta nosso filho.
— Concordo.
Eu poderia ter encerrado ali.
Mas perguntei:
— E o Lucas?
Joana soltou uma pequena risada.
— Você ainda tinha que perguntar.
— Eu estou tentando melhorar, não virar santo em uma ligação.
Ela ficou mais leve.
— Nós estamos nos conhecendo.
Meu peito apertou, mas não interrompi.
— Não existe casamento marcado, mudança de casa nem substituição de pai. Existe café, conversa e duas pessoas tentando ver se gostam uma da outra.
— Entendi.
— Consegue lidar com isso?
Olhei para o corredor vazio.
— Vou ter que conseguir.
Depois da ligação, fiquei sentado no escuro durante vários minutos.
Aquela pequena decisão — parar de me comportar como dono da vida dela — não resolveu o que eu sentia.
Mas mudou o que eu faria com esse sentimento.
Quando voltei para o quarto, Viviane estava dobrando roupas sobre a cama.
Contei que tinha falado com Joana.
Ela ouviu.
— Pedi desculpas.
— Foi sincero?
— Foi.
Viviane continuou dobrando uma camiseta.
— Então pelo menos você começou a enxergar uma parte do problema.
— Uma parte?
Ela colocou a roupa sobre a pilha.
— Sim.
— Qual é a outra?
Viviane ergueu os olhos para mim.
— Você está tão preocupado em descobrir por que a Joana pode seguir em frente que ainda não percebeu o que isso revelou sobre nós dois.
Senti meu estômago apertar.
Ela fechou a porta do quarto.
— E dessa conversa você não vai fugir.
Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖