A amante do meu marido me mandou o vídeo da traição — e na homenagem ao meu sogro, eu levei os documentos que eles temiam
Parte 3
Saí da casa dos Ferraz antes do almoço. Não esperei Gustavo, não aceitei o quarto que Teresa mandou preparar para mim e também não fui para o apartamento onde eu havia morado com meu marido nos últimos anos. Pedi a uma amiga que deixasse a chave de um imóvel vazio comigo por alguns dias e passei a primeira noite sozinha, cercada por duas malas e uma fotografia da minha mãe que eu ainda não conseguia olhar sem sentir um aperto no peito.
Doutor César havia sido advogado de Alberto, não meu. Por isso, antes de qualquer outra coisa, procurei uma advogada de família e um contador independente. Não queria alguém que prometesse “destruir Gustavo”, nem alguém disposto a transformar tudo em espetáculo. Eu precisava saber exatamente o que era meu, o que pertencia à empresa e o que tinha sido feito sem transparência.
Naquela mesma tarde, mandei uma notificação formal ao Grupo Ferraz solicitando acesso aos documentos relativos ao meu empréstimo e às operações que apareciam na pasta. Eu tinha esse direito como credora e também porque algumas garantias estavam ligadas a participações societárias. A empresa respondeu que faria uma revisão interna e que, até o fim da análise, pagamentos ligados à empresa de Marina passariam por aprovação adicional.
Não houve congelamento mágico de contas nem polícia na porta de ninguém. Houve uma coisa muito pior para Gustavo: perguntas.
O departamento de compras informou que não havia solicitado duas das campanhas descritas nas notas fiscais. O marketing reconheceu apenas um trabalho pequeno, muito abaixo dos valores cobrados. A diretora financeira apresentou três e-mails em que funcionários pediam detalhamento dos serviços e recebiam respostas vagas assinadas pelo gabinete de Gustavo.
Marina insistia que tudo tinha explicação.
“Consultoria não é só entregar panfleto e postagem”, disse ela em uma reunião por vídeo.
O contador que eu havia contratado respondeu com calma:
“Ninguém está perguntando se consultoria é intangível. Estamos perguntando onde estão as propostas, relatórios, indicadores, cronogramas e aprovações compatíveis com R$ 780 mil.”
Marina encerrou a ligação antes do fim.
Gustavo apareceu no apartamento três dias depois.
Eu não o deixei entrar.
Conversamos no corredor.
Ele estava sem paletó, com olheiras profundas e uma raiva que tentava esconder sob um tom de voz baixo.
“Você está expondo minha família.”
“Eu pedi documentos.”
“Você sabe como esse tipo de auditoria afeta a imagem da empresa.”
“Então talvez você devesse ter pensado nisso antes de usar a empresa de sua namorada como fornecedora.”
Ele respirou fundo.
“Marina não é só minha namorada. A empresa dela prestou serviços.”
“Então apresente as entregas.”
“Você não entende como funciona a minha área.”
Eu quase ri.
Durante seis anos, sempre que eu fazia uma pergunta que o incomodava, ele encontrava um jeito de me diminuir. Se eu falava de números, eu era “emocional”. Se eu perguntava sobre decisões do conselho, eu “não entendia a dinâmica da família”. Se eu lembrava do dinheiro que havia colocado no grupo, eu estava “jogando ajuda na cara”.
Naquela noite, ouvi tudo de maneira diferente.
“Eu entendo o suficiente para saber que uma nota fiscal não transforma uma despesa pessoal em despesa empresarial.”
A mandíbula dele travou.
“Você quer o quê? Dinheiro? Vingança? Fazer minha mãe me expulsar da empresa?”
“Quero a verdade.”
“Não existe grande conspiração, Lívia.”
“Ótimo. Então deve ser fácil provar.”
Ele me encarou por alguns segundos.
“Eu vou pedir o divórcio.”
“Eu também.”
Foi a primeira vez que a frase saiu da minha boca sem dor.
Gustavo pareceu surpreso.
Talvez ele tivesse imaginado que eu faria exatamente o que Marina previra: choraria, ameaçaria, pediria outra chance, tentaria lembrar os bons momentos. Talvez esperasse que meu maior medo fosse perdê-lo.
Mas, depois daquele vídeo e daquela manhã em Campinas, meu maior medo havia mudado.
Era continuar casada com alguém que acreditava que meu amor podia ser usado contra mim.
Dois dias depois, recebi uma minuta de acordo enviada pelo advogado particular de Gustavo. Ele propunha uma separação “rápida e amigável”. Eu ficaria com o apartamento em São Paulo, um carro, R$ 4 milhões em dinheiro e renunciaria a qualquer outra pretensão relacionada ao casamento.
No fim do documento havia uma cláusula de duas páginas.
Minha advogada foi a primeira a apontar.
“Leia devagar.”
A cláusula dizia que, em troca do acordo, eu daria quitação ampla, geral e irrevogável não apenas a Gustavo, mas também às empresas do Grupo Ferraz, seus administradores e sociedades relacionadas, por qualquer obrigação anterior à assinatura.
Senti um frio na barriga.
O valor era o mesmo do cheque que Marina colocara diante de mim.
R$ 4 milhões.
Liguei para minha advogada.
“Se eu tivesse assinado isso sem revisar…”
“Eles argumentariam depois que você encerrou voluntariamente todas as discussões patrimoniais. Não significa que venceriam automaticamente, porque uma cláusula abusiva pode ser discutida. Mas criaria uma briga enorme.”
“E o empréstimo de R$ 8,6 milhões?”
“É exatamente por isso que não vamos assinar.”
Naquela tarde, mandei uma única mensagem para Gustavo:
“Por que o acordo de divórcio tenta incluir a dívida da empresa?”
Ele visualizou.
Demorou quarenta minutos para responder.
“É cláusula padrão.”
Minha advogada riu quando viu.
“Não é.”
No dia seguinte, Teresa me ligou.
Eu quase não atendi.
“Lívia, posso falar com você?”
“Pode.”
A voz dela não tinha mais a dureza da manhã da homenagem.
“Eu não sabia dessa cláusula.”
“Entendi.”
“E eu também não sabia que Gustavo tinha aprovado tantos pagamentos para Marina.”
Fiquei em silêncio.
Teresa continuou:
“Eu errei com você naquele dia.”
Não respondi imediatamente.
Ela respirou fundo.
“Eu vi meu filho infeliz no casamento, ouvi a versão dele durante meses e aceitei Marina por perto sem me perguntar o que estava acontecendo do outro lado. Eu ainda não sei tudo sobre as contas, mas sei que permitir que ela entrasse naquela casa usando o colar da família foi uma humilhação desnecessária.”
“Foi.”
“Eu sinto muito.”
Era um pedido de desculpas.
Mas não apagava nada.
“Obrigada por reconhecer.”
“Você vai me perdoar?”
Fechei os olhos.
“Hoje não.”
Teresa ficou quieta.
Eu acrescentei:
“Talvez um dia. Mas perdão não pode ser usado como atalho para ninguém deixar de lidar com o que fez.”
Ela não insistiu.
“Você tem razão.”
Antes de desligar, contou que o conselho do Grupo Ferraz havia marcado uma reunião extraordinária. Não era para me “dar a empresa”, como alguns parentes estavam espalhando. Era para analisar a conduta de Gustavo como diretor, os contratos com a empresa de Marina e a dívida reconhecida comigo.
Eu decidi comparecer.
Não para ocupar o lugar de ninguém.
Para não permitirem que falassem sobre meu dinheiro, meu casamento e meu nome como se eu não estivesse presente.
Na véspera da reunião, chegou o relatório preliminar da revisão interna.
Não era uma prova perfeita de tudo.
E justamente por isso parecia real.
Uma parte dos serviços de Marina existia, mas os valores estavam muito acima do que havia sido entregue. Havia contratos sem aprovação adequada, aditivos assinados diretamente por Gustavo e despesas descritas de maneira genérica. O pagamento de R$ 1,2 milhão havia sido suspenso pelo próprio setor financeiro antes da liquidação porque faltavam documentos.
A pior parte veio depois.
Um e-mail enviado pelo assistente de Gustavo ao jurídico interno, duas semanas antes da homenagem a Alberto, pedia um modelo de acordo de separação capaz de “encerrar também eventuais passivos da holding vinculados à esposa do diretor”.
Não mencionava meu nome.
Não precisava.
A data bastava.
Mostrei à minha advogada.
“Então ele já estava planejando isso antes de Marina me mandar o vídeo.”
“Parece que sim.”
“E ela sabia?”
“Isso ainda não está provado.”
Eu pensei no cheque sobre a mesa.
Na confiança dela.
Na pergunta: “Quanto você quer para aceitar o divórcio?”
Pela primeira vez, percebi que talvez Marina não estivesse apenas comemorando o fim do meu casamento.
Talvez acreditasse que o acordo já estivesse preparado.
Na manhã da reunião, vesti um terninho simples, coloquei a fotografia de minha mãe dentro da bolsa e levei apenas os documentos necessários.
Quando cheguei à sede do Grupo Ferraz, Gustavo já estava na sala.
Marina também.
Assim que me viu, ela se levantou.
“Eu não sou obrigada a ficar aqui sendo tratada como criminosa.”
Eu coloquei a minuta do divórcio sobre a mesa.
“Não. Mas vai precisar explicar uma coisa.”
Ela olhou para o documento.
Empalideceu.
Apontei para o valor.
“Por que o acordo que Gustavo me mandou oferece exatamente os mesmos R$ 4 milhões do cheque que você levou para a casa da família?”
Gustavo se levantou tão rápido que a cadeira bateu na parede.
“Lívia…”
Eu não tirei os olhos de Marina.
“Quero ouvir dela.”
Marina abriu a boca.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, ela não tinha nenhuma resposta pronta.
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