Pedi apenas um creme para os olhos, mas meu namorado de seis anos preferiu presentear outra mulher
Parte 4
Não toquei na sacola.
Fiquei perto da porta.
— Se for outra tentativa de me convencer a voltar, não precisa.
Gustavo balançou a cabeça.
— Não é.
Parecia diferente.
Não melhor.
Apenas menos defensivo.
Sentou-se na cadeira e olhou para as próprias mãos.
— O creme nunca foi para você.
Eu quase sorri.
— Isso eu descobri no mesmo segundo em que a Lívia entrou naquela sala.
— Eu sei. Mas tem uma parte que você não sabe.
Esperei.
— Quando você me pediu o Estée Lauder, eu poderia ter comprado.
Aquela frase me atingiu de um jeito estranho.
Não pela revelação.
Eu já imaginava.
Mas porque era a primeira vez que Gustavo parava de esconder a escolha atrás das circunstâncias.
— O professor não estava comigo o tempo todo — continuou. — Tivemos uma tarde livre.
— E você foi ao duty free.
— Fui.
— Com Lívia.
Ele assentiu.
— Ela comentou que queria aquele creme. Eu lembrei das olheiras dela, das noites que passou trabalhando e comprei.
Cruzei os braços.
— E lembrou do que eu pedi?
— Lembrei.
— Mesmo assim não comprou.
A voz dele saiu baixa.
— Mesmo assim.
Foi doloroso.
Mas também libertador.
Durante semanas, eu tinha buscado uma explicação complicada para uma coisa simples.
Não havia.
Gustavo se lembrara de mim.
Só escolhera não fazer nada.
— Por quê?
Ele demorou.
— Porque, quando você pediu, eu pensei: “Ela pode comprar depois.”
Ri sem vontade.
— Claro.
— Mas quando a Lívia comentou, eu quis surpreender ela.
— Porque ela ficaria impressionada.
— Sim.
— E eu não.
Ele ergueu os olhos.
— Eu achava que você já sabia que eu te amava.
— Então comigo você não precisava mais demonstrar.
— Acho que foi isso.
A honestidade dele finalmente tinha chegado.
Tarde demais, mas tinha chegado.
Aproximei-me da bancada apenas o suficiente para apoiar a bolsa.
— Gustavo, sabe qual foi a pior parte?
Ele não respondeu.
— Não foi a Lívia.
Seus olhos se moveram para a sacola.
— Também não foi o creme.
Respirei fundo.
— Foi descobrir que você tratava minha presença como uma garantia. Eu estava ali havia seis anos, então você achava que podia me oferecer sempre o mínimo e ainda me encontrar no mesmo lugar.
Ele apertou os olhos.
— Eu sei.
— Não. Agora você sabe.
A sala ficou quieta.
Do corredor vinham vozes distantes e o som de alguém fechando um armário.
Gustavo levantou.
— Eu passei essas semanas pensando naquela conversa com o Lucas.
Meu corpo ficou rígido.
— Eu não quero ouvir outra justificativa.
— Não é justificativa.
Ele se aproximou um pouco, mas parou quando percebeu que eu não queria proximidade.
— Eu falava daquele jeito porque eles faziam piada dizendo que eu era “casado” desde novo. Eu queria provar que ainda era livre, que não era completamente… domesticado.
A palavra me fez encará-lo.
— Então você precisava me humilhar para parecer livre?
Ele baixou a cabeça.
— Sim.
Não houve “mas”.
Não houve “você também”.
Não houve “os homens falam assim”.
Apenas “sim”.
Aquilo não apagava o que ele tinha feito.
Mas finalmente colocava a responsabilidade no lugar correto.
— Eu sinto vergonha — acrescentou. — Não porque você ouviu. Porque eu falei.
Assenti.
— Deveria.
Ele recebeu a frase sem reclamar.
— Eu pedi desculpas ao Lucas também.
— Ao Lucas?
— Porque passei semanas dizendo para ele que aquilo era só conversa de homem. Como se ele fosse responsável pelo que saiu da minha boca. Ele não era.
Essa parte eu não esperava.
— E falei com Lívia. Pedi desculpas por ter alimentado uma proximidade que eu não teria coragem de mostrar para você da mesma maneira.
— Certo.
— Também parei de orientar a parte do projeto dela. O professor redistribuiu as tarefas.
— Ela me contou.
Gustavo respirou fundo.
— Não estou falando isso para conseguir alguma recompensa.
Olhei diretamente para ele.
— Espero que não.
— Eu sei que acabou.
Pela primeira vez, ouvir aquilo da boca dele não doeu.
Talvez porque eu já tivesse atravessado a parte em que precisava que Gustavo entendesse para que minha decisão fosse legítima.
Ela era legítima mesmo quando ele não entendia.
— Então por que me chamou? — perguntei.
Ele pegou a sacola.
Por um segundo achei que tentaria entregá-la novamente.
Mas foi até a lixeira e jogou a embalagem dentro.
— Porque eu queria dizer a verdade inteira sem tentar fazer você voltar.
Voltou para a bancada.
— E porque ainda tenho uma coisa para te devolver.
Tirou do bolso uma pequena chave.
Reconheci imediatamente.
Era uma cópia antiga da chave do meu armário particular, feita anos antes, quando eu costumava deixar materiais e documentos no laboratório.
Eu tinha esquecido completamente dela.
Gustavo colocou a chave sobre a mesa.
— Eu nunca usei sem você saber. Mas não tenho motivo para ficar com isso.
Peguei a chave.
Era um gesto pequeno.
Talvez justamente por isso tivesse mais valor do que as dez caixas de creme na chuva.
Não era uma demonstração grandiosa.
Era apenas respeito a um limite.
— Obrigada.
Ele assentiu.
Quando me virei para sair, Gustavo chamou meu nome.
— Helena.
Parei.
— Eu não vou pedir para você voltar.
Esperei.
— Mas espero que, algum dia, quando lembrar de mim, não pense que os seis anos inteiros foram mentira.
A pergunta ficou suspensa entre nós.
Eu poderia ter sido cruel.
Durante algum tempo, achei que precisaria odiá-lo para conseguir seguir em frente.
Mas não precisava.
— Não foram.
Ele respirou com dificuldade.
— A gente foi feliz muitas vezes. Você esteve comigo em momentos importantes, e eu estive com você em outros.
Os olhos dele ficaram vermelhos.
— Só que uma história ter sido boa durante muito tempo não obriga ninguém a permanecer quando ela deixa de ser boa.
Gustavo assentiu lentamente.
— Eu entendo.
— Espero que um dia entenda de verdade.
Saí.
E dessa vez ele não veio atrás de mim.
Nos meses seguintes, nossa convivência passou a ser estritamente acadêmica.
Gustavo cumprimentava quando necessário.
Falávamos sobre equipamentos, horários do laboratório ou tarefas coletivas.
Nada além disso.
Lívia também manteve distância dele fora do trabalho.
Não porque eu tivesse exigido.
Nunca pedi.
Ela própria havia percebido que não queria construir nenhuma relação, nem mesmo de amizade, baseada naquele tipo de atenção ambígua.
Certa tarde, encontrei-a na copa.
Ela fechou a geladeira e me perguntou:
— Você ainda me odeia?
Pensei antes de responder.
— Eu nunca odiei você.
Ela pareceu surpresa.
— Fiquei com raiva. E acho que você poderia ter percebido alguns limites antes.
Lívia concordou.
— Poderia.
— Mas meu relacionamento era com Gustavo. A maior responsabilidade era dele.
Ela encostou na bancada.
— Eu queria pedir desculpas.
— Pelo quê?
— Por ter gostado de ser escolhida sabendo que provavelmente existia alguém sendo deixado de lado.
Aquilo era específico.
Sem desculpa disfarçada.
— Obrigada por dizer.
Ela sorriu de leve.
Não nos abraçamos.
Não viramos melhores amigas.
A vida real raramente precisa dessas cenas perfeitas.
Mas a partir daquele dia conseguimos trabalhar no mesmo ambiente sem aquela tensão constante.
E isso bastava.
Eu também mudei.
Não de uma forma cinematográfica.
Continuei gostando do mesmo café.
Continuei perdendo tempo assistindo vídeos de gatos.
Continuei ligando para minha mãe aos domingos e reclamando quando o ônibus atrasava.
Mas parei de tratar minhas próprias necessidades como coisas inconvenientes.
Quando algo me incomodava, eu dizia.
Quando não queria fazer alguma coisa, respondia não.
Quando alguém demorava dias para demonstrar um mínimo de interesse e reaparecia apenas quando precisava de mim, eu não inventava desculpas em seu lugar.
Minha banca final aconteceu quase oito meses depois.
Eu estava nervosa desde cedo.
Júlia apareceu com pão de queijo e café.
— Você vai mandar bem.
— Se eu desmaiar, promete que pelo menos fecha o PowerPoint antes?
Ela riu.
— De jeito nenhum. Vou tirar foto primeiro.
Aquilo me fez rir também.
Quando entrei na sala, vi Gustavo sentado nas últimas cadeiras.
Ele fazia parte do mesmo grupo de pesquisa e outras pessoas do laboratório também estavam ali.
Por um momento, nossos olhos se encontraram.
Ele apenas inclinou a cabeça.
Nenhum sorriso triste.
Nenhum gesto dramático.
Nenhuma tentativa de transformar meu dia em algo sobre nós.
E eu percebi que aquilo era, talvez, a primeira demonstração real de respeito que ele me oferecia desde o fim.
Fiz minha apresentação.
Respondi às perguntas.
Defendi minhas escolhas metodológicas.
Quando a comissão anunciou minha aprovação, senti minhas pernas perderem força.
Júlia me abraçou primeiro.
Depois vieram os colegas.
Diego apertou minha mão e brincou:
— Agora você tem dinheiro para comprar outro fone.
Ri.
— Aquele ficou bom?
— Excelente.
— Então estamos quites.
Gustavo se aproximou apenas quando havia menos gente ao redor.
— Parabéns, Helena.
— Obrigada.
— Você mereceu.
— Eu sei.
Ele sorriu.
Não com ironia.
Só com uma expressão quase tranquila.
— Fico feliz que saiba.
Foi a última conversa pessoal que tivemos.
Algumas semanas depois, Gustavo recebeu uma oportunidade de continuar o trabalho em outro grupo de pesquisa, em outra instituição.
Não fugiu humilhado.
Não perdeu a carreira.
Não teve uma punição absurda por ter sido um namorado ruim.
A consequência dele foi mais simples e, talvez, mais difícil.
Precisou conviver com a certeza de que perdeu alguém que o amava porque confundiu amor seguro com amor garantido.
E eu?
Recebi uma proposta para continuar minha pesquisa em um projeto em Campinas.
Não era um prêmio mágico surgido depois do término. Eu havia me candidatado meses antes, ainda durante a preparação da tese.
Quando a confirmação chegou, fiquei quase uma hora olhando para o e-mail.
No passado, meu primeiro pensamento teria sido:
“Como isso vai funcionar com Gustavo?”
Dessa vez pensei:
“Eu quero ir?”
A resposta era sim.
Aceitei.
Na última semana antes da mudança, Júlia me ajudou a arrumar as caixas.
No fundo de uma gaveta encontrei uma fotografia antiga.
Gustavo e eu tínhamos pouco mais de vinte anos.
Ele estava com o braço sobre meus ombros.
Eu ria para a câmera.
Júlia olhou por cima.
— Vai jogar fora?
Passei o dedo sobre a borda da foto.
— Não.
Coloquei-a dentro de uma caixa com outras lembranças.
— Não preciso destruir o passado para seguir em frente.
Na manhã da mudança, paramos numa cafeteria antes de pegar a estrada.
Enquanto esperava meu pedido, vi uma pequena loja de cosméticos do outro lado da rua.
Júlia percebeu para onde eu olhava.
— Não me diga que você vai comprar aquele creme.
Sorri.
— Por que não?
Entramos.
Peguei exatamente o Estée Lauder que tinha pedido meses antes.
Nada extravagante.
Nenhuma edição especial.
Nenhuma caixa cheia de significado.
Quando fui pagar, Júlia começou a rir.
— Depois de tudo isso, você ainda queria o creme?
— Claro.
— Então por que não comprou antes?
Olhei para a embalagem em minhas mãos.
Talvez porque durante muito tempo aquela história nunca tivesse sido realmente sobre cosméticos.
Eu tinha pedido uma coisa pequena à pessoa que amava.
E descobri que, para ela, fazer algo pequeno por mim já parecia esforço demais.
Hoje eu não precisava que ninguém atravessasse um duty free, enfrentasse chuva ou comprasse dez caixas para provar meu valor.
Paguei o creme com meu próprio cartão.
Saí da loja.
O sol daquela manhã estava forte, e Júlia reclamou que eu andava rápido demais.
Diminuí o passo para esperá-la.
Quando entramos no carro, coloquei a pequena sacola no banco de trás.
Não senti triunfo.
Não senti vontade de mostrar aquilo a Gustavo.
Nem pensei em Lívia.
Pela primeira vez, aquele creme era apenas um creme.
E talvez essa tenha sido a melhor parte.
Algumas coisas deixam de doer não quando recebemos o pedido de desculpas perfeito, mas quando já não precisamos que a pessoa que nos feriu faça nada para provar quanto valemos.
Eu perdi um relacionamento de seis anos.
Mas não perdi seis anos da minha vida.
Levei comigo o que foi bom, aprendi com o que me machucou e deixei para trás aquilo que não cabia mais na mulher que eu estava me tornando.
Quando o carro entrou na estrada em direção a Campinas, abaixei um pouco a janela.
O vento bagunçou meu cabelo.
Júlia aumentou a música.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu não estava indo embora de alguém.
Eu estava indo em direção à minha própria vida.
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