Pedi apenas um creme para os olhos, mas meu namorado de seis anos preferiu presentear outra mulher
Parte 3
Na manhã seguinte, acordei com mais de quarenta mensagens.
Não eram de Gustavo. Eu o tinha silenciado e não pretendia mudar isso.
Eram de colegas.
Júlia colocou uma caneca de café ao meu lado e ficou observando enquanto eu abria o grupo dos pós-graduandos. Não precisei procurar muito. Gustavo havia enviado, pouco depois das seis da manhã, um texto enorme dizendo que “problemas pessoais estavam sendo interpretados de forma injusta” e pedindo que ninguém alimentasse “fofocas capazes de prejudicar colegas inocentes”.
Ele não mencionava meu nome.
Também não mencionava Lívia.
Mas todo mundo sabia do que se tratava.
No final, escreveu:
“Helena e eu estamos passando por um momento delicado, mas tenho certeza de que, depois que ela se acalmar, conseguiremos resolver tudo como adultos.”
Li duas vezes.
Depois bloqueei a tela.
— Ele acabou de anunciar para cinquenta pessoas que eu preciso “me acalmar” — falei.
Júlia fez uma careta.
— E chamou isso de resolver como adultos.
Eu não respondi.
O que mais doía não era a exposição.
Era a familiaridade daquilo.
Gustavo sempre fazia isso de uma maneira muito sutil. Se eu reclamava que ele tinha esquecido um compromisso, eu estava cansada. Se dizia que alguma piada tinha me machucado, eu estava sensível. Se perguntava por que ele passava horas respondendo Lívia e demorava metade do dia para me responder, eu estava insegura.
Durante muito tempo, eu mesma havia acreditado nessas explicações.
Naquele momento, porém, vi o padrão inteiro.
Eu não precisava provar que Gustavo era um monstro.
Ele não era.
Precisava apenas aceitar que ele tinha se acostumado a diminuir meus sentimentos sempre que eles exigiam alguma mudança da parte dele.
Cheguei ao laboratório pouco antes das nove.
O ambiente estava desconfortavelmente silencioso.
Algumas pessoas fingiram estar ocupadas. Outras me cumprimentaram com uma naturalidade exagerada.
Lívia estava diante do computador, com a caixa da Helena Rubinstein ao lado do teclado.
Quando me viu, levantou-se.
— Helena, posso falar com você?
— Se for sobre o projeto, claro.
— Não é.
Parei.
Ela olhou ao redor e pediu para conversarmos no corredor.
Aceitei porque não queria transformar aquilo num espetáculo.
Assim que saímos, Lívia cruzou os braços.
— Eu não sabia que vocês estavam tão sérios.
Demorei um instante para entender.
— Seis anos parece sério para você?
Ela ficou vermelha.
— Gustavo dizia que vocês estavam juntos mais por hábito.
Meu estômago apertou.
Lívia continuou antes que eu perguntasse.
— Ele nunca disse que estava solteiro. Eu não vou mentir. Mas dizia que vocês quase não faziam mais nada juntos, que o relacionamento tinha virado amizade e que provavelmente terminaria quando o doutorado acabasse.
Apoiei as costas na parede.
Era estranho.
Eu esperava sentir raiva dela.
Mas naquele momento senti sobretudo cansaço.
— E você acreditou?
— Eu não tinha motivo para achar que ele estava inventando.
— Você sabia que ontem era nosso aniversário de seis anos?
Ela arregalou os olhos.
Não precisava responder.
O silêncio respondeu por ela.
Lívia respirou fundo.
— O presente não foi a única coisa.
Olhei para ela.
— O que mais?
— Ele me trouxe café várias vezes. Me ajudou com dados à noite. Quando fomos para Foz, ficou comigo escolhendo algumas coisas no duty free.
A mesma pessoa que não podia se afastar do professor para comprar o produto que eu tinha pago.
Fechei os olhos por um instante.
— A viagem terminou um dia antes — continuou Lívia. — Eu pedi ajuda para montar a apresentação da reunião de hoje. Ele disse que poderia voltar mais cedo.
Aquilo doeu mais do que o creme.
Gustavo tinha antecipado o retorno por causa dela.
Tinha voltado para São Paulo sem me contar.
Não porque estivesse proibido de falar comigo.
Não porque estivesse ocupado demais.
Mas porque eu simplesmente não fazia parte das prioridades dele.
— Vocês ficaram juntos? — perguntei.
Lívia entendeu imediatamente.
— Não.
Ela respondeu sem hesitar.
— Nunca beijei o Gustavo. Nunca dormi com ele. E não estou dizendo isso para me fazer de inocente. Eu gostava da atenção. Gostava de saber que ele parava tudo para me ajudar. Talvez eu também tenha fingido não perceber algumas coisas.
A honestidade me surpreendeu.
— Mas ontem — ela continuou — quando você saiu, eu perguntei por que ele tinha tentado entregar meu presente para você.
— E?
— Ele disse que precisava “administrar a situação”.
Soltei uma risada sem humor.
Aquilo parecia tanto com Gustavo que quase doía.
Pessoas não eram pessoas quando ele estava pressionado.
Eram situações a serem administradas.
— Eu também não vou jantar com ele — Lívia falou. — Só queria que você soubesse.
— Você não precisa fazer isso por mim.
— Não é por você.
Ela olhou para a porta do laboratório.
— É por mim.
Assenti.
Não viramos amigas naquele instante. Nem seria realista.
Mas a conversa tirou de mim uma necessidade que eu nem sabia que tinha: a de competir.
Durante semanas eu havia me comparado silenciosamente com Lívia. Ela era mais nova, mais animada, trabalhava até tarde, ria das piadas de Gustavo.
Eu me perguntava se tinha me tornado previsível.
Se eu era pouco interessante.
Se seis anos de intimidade tinham apagado alguma coisa em mim.
Agora eu entendia.
Não havia uma competição.
Gustavo gostava da sensação de ser admirado por alguém que ainda não conhecia seus defeitos.
Comigo, ele precisava ser responsável pelo que prometia.
Com Lívia, bastava ser gentil por algumas horas e receber gratidão.
Quando voltamos ao laboratório, Gustavo já estava lá.
Ele veio diretamente até mim.
— Você bloqueou minhas mensagens?
— Silenciei.
— A gente precisa conversar.
— Agora não.
— Helena.
A forma como pronunciou meu nome fez várias pessoas levantarem os olhos.
Eu me virei.
— Não faça isso aqui.
— Eu só quero cinco minutos.
— Você já usou o grupo inteiro para falar da nossa vida. Acho que já ocupou espaço suficiente hoje.
O rosto dele mudou.
— Eu mandei aquela mensagem para proteger você.
— De quê?
— De comentários.
— Dizendo para todo mundo que eu preciso me acalmar?
Ele passou a mão pelos cabelos.
— Você está pegando uma frase e…
Parei de escutar.
Não porque eu estivesse fugindo.
Mas porque percebi que aquela discussão poderia durar horas e terminar exatamente onde todas as outras terminavam: Gustavo explicando minhas próprias emoções para mim.
Voltei para a bancada.
— Tenho uma apresentação às dez.
— Então a gente conversa depois.
— Não.
Ele ficou atrás de mim.
— Como assim?
Abri meu computador.
— Significa que não existe “depois” para nós dois.
Gustavo ficou pálido.
— Você realmente vai jogar seis anos fora?
Finalmente olhei para ele.
— Não fui eu que joguei.
Ele apertou a mandíbula e saiu.
Minhas mãos tremiam quando comecei a trabalhar.
Força não se parecia com o que eu imaginava.
Eu achava que, quando finalmente me respeitasse, não sentiria medo, culpa ou saudade.
Mas sentia tudo ao mesmo tempo.
Ainda assim, continuei.
Naquela tarde, pedi à administração do alojamento que retirasse Gustavo da lista de pessoas autorizadas a entrar no meu andar como visitante frequente.
Depois, separei nossas despesas compartilhadas.
Não tínhamos imóvel, casamento ou conta conjunta. Mas durante anos dividíramos assinaturas, compras, viagens e pequenas despesas.
Cancelei o cartão adicional que ele usava em uma plataforma que estava no meu nome.
Retirei minha conta de dois serviços que ele pagava.
Anotei o valor de uma viagem que ele ainda me devia e mandei uma mensagem objetiva:
“Estou organizando o que ficou pendente. Você me deve R$ 2.340 da viagem de julho. As despesas estão na planilha que sempre usamos. Pode transferir até sexta.”
Nenhuma acusação.
Nenhuma discussão sobre Lívia.
Nenhuma lembrança dos seis anos.
Ele respondeu três minutos depois.
“É isso que eu virei para você? Uma planilha?”
Fiquei olhando para a mensagem.
Depois escrevi:
“Não. A planilha é só a parte que ainda precisa ser resolvida.”
Não respondi mais.
Nos dias seguintes, Gustavo mudou de estratégia.
Primeiro vieram flores.
Devolvi na portaria.
Depois chegou uma caixa com fotografias nossas.
Guardei as fotos numa gaveta, porque terminar uma relação não apaga o passado.
Mas não respondi.
Ele pediu a Júlia para falar comigo.
Ela recusou.
Tentou conversar com Diego.
Diego respondeu que não se meteria.
Então Gustavo começou a aparecer nos lugares onde sabia que eu estaria.
Na cantina.
Na biblioteca.
Perto do prédio onde eu tinha aula.
Nunca me ameaçou.
Nunca levantou a voz.
O que tornava tudo mais difícil de explicar para os outros.
Ele apenas permanecia ali, com aquela expressão cansada de quem parecia acreditar que persistência era prova de amor.
Na sexta-feira, encontrei-o sentado no banco diante do laboratório.
— Transferi o dinheiro — disse.
— Obrigada.
Continuei andando.
— Helena, espera.
Parei a uma distância segura.
Ele parecia ter dormido pouco.
— Lívia pediu para sair do projeto comigo.
Aquilo me surpreendeu.
— Ela falou com o professor e pediu para que outra pessoa acompanhe a parte dela.
— Isso é entre vocês.
— Você não entende? Todo mundo está me tratando como se eu tivesse traído você.
— Eu nunca disse para ninguém que você me traiu fisicamente.
— Mas é isso que parece.
Respirei devagar.
— Talvez você esteja descobrindo que existem comportamentos que machucam uma relação mesmo sem beijo e sem sexo.
Gustavo me encarou.
— Eu não tive um caso com ela.
— Eu sei.
A resposta o desarmou.
— Ela me contou.
— Vocês conversaram?
— Sim.
— O que ela disse?
— Isso não importa.
Ele deu um passo na minha direção.
— Importa para mim.
— Pois deveria ter importado para você o que eu dizia enquanto ainda éramos um casal.
Gustavo parou.
Havia alguma coisa diferente na expressão dele.
Não era raiva.
Parecia medo.
— Helena… eu só gostava de ajudar ela.
— Eu sei.
— Eu gostava de me sentir necessário.
Dessa vez, fiquei em silêncio.
Ele soltou o ar.
— Com você… você sempre resolvia tudo.
Aquilo foi talvez a primeira frase verdadeiramente honesta que ele me disse desde o término.
— Então eu comecei a achar que você não precisava mais de mim. A Lívia pedia ajuda para tudo. Perguntava minha opinião. Agradecia. Eu me sentia…
— Importante.
Ele baixou os olhos.
— Sim.
Eu podia entender aquele sentimento.
Mas compreender uma fraqueza não significa aceitar o dano causado por ela.
— E para se sentir importante com ela, você precisou me tratar como se eu fosse irrelevante.
— Eu não percebia.
— Eu percebia por nós dois.
Ele ficou calado.
— Eu falei aquelas coisas para o Lucas porque queria parecer… sei lá. Como se eu não fosse aquele cara preso num namoro desde a graduação.
Meu peito apertou.
— Então tinha vergonha de parecer comprometido comigo?
— Não de você.
— Gustavo, escuta o que está dizendo.
Ele passou as mãos pelo rosto.
— Eu estraguei tudo.
Pela primeira vez, não respondi “não”.
Ele realmente tinha estragado.
Não por ter comprado cosmético para uma colega.
Não por ter almoçado ou trabalhado com outra mulher.
Mas porque, aos poucos, tinha transformado nossa intimidade numa coisa que desprezava em público enquanto buscava fora a admiração que deixou de cultivar dentro da relação.
— Eu posso mudar — disse.
Olhei para ele.
— Pode.
Os olhos dele se iluminaram.
Completei:
— Mas não precisa mudar para me recuperar.
A esperança desapareceu.
— Muda porque não quer repetir isso com outra pessoa.
Ele engoliu em seco.
— Então acabou mesmo?
Dessa vez, consegui responder sem sentir que alguma coisa em mim estava desmoronando.
— Acabou.
Voltei para o laboratório.
Naquele mesmo dia, recebi a confirmação de que minha banca de qualificação seria dali a três semanas.
Durante seis anos, eu havia organizado uma parte enorme da minha vida em torno de “nós”.
Naquela noite, abri meu calendário e comecei a organizar os próximos vinte e um dias em torno de mim.
Não era uma grande vingança.
Não havia música dramática, nem sensação de vitória.
Era apenas uma decisão pequena.
Mas fundamental.
Pela primeira vez em muito tempo, meu futuro não precisava passar pela agenda de Gustavo.
Três semanas depois, saí da sala da banca com as pernas bambas e a sensação de ter recuperado uma parte de mim.
Júlia me abraçou no corredor.
Diego levantou o polegar de longe.
Até Lívia apareceu alguns minutos depois e disse:
— Parabéns. Sua apresentação foi muito boa.
Agradeci.
Eu estava começando a acreditar que a história terminaria assim: sem grande confronto, apenas com duas pessoas seguindo caminhos diferentes.
Então, ao voltar para buscar minha bolsa no laboratório, encontrei Gustavo sozinho.
Sobre a bancada havia a mesma sacola da Helena Rubinstein.
Ele a tinha guardado durante aquelas três semanas.
Quando me viu, empurrou a sacola para o lado e disse:
— Preciso contar uma coisa que eu devia ter contado desde o primeiro dia.
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