No meu aniversário, meu namorado me abandonou para cuidar da minha melhor amiga — e ainda exigiu que eu pedisse desculpas
Parte 3
Na manhã seguinte, reli o slide 48 e percebi uma coisa que me incomodou mais do que todos os telefonemas da noite anterior.
Eu ainda estava documentando tudo como se precisasse montar um processo para ter direito de dizer “isso me machuca”. Mesmo depois de organizar seis meses inteiros em gráficos, datas e prints, alguma parte de mim continuava procurando uma prova definitiva de que meus sentimentos eram válidos.
Fechei o notebook.
Gustavo mandou uma mensagem pouco depois das oito.
“Posso falar com você sozinho?”
Fiquei vários minutos olhando para a tela. O pedido, pelo menos, respeitava uma das coisas que eu tinha dito na noite anterior.
Respondi que poderia encontrá-lo no café em frente ao campus, durante a manhã.
Quando cheguei, ele já estava lá.
Parecia cansado. Tinha olheiras e segurava uma xícara de café que já devia estar fria.
Dessa vez Júlia não estava com ele.
Sentei do outro lado da mesa.
Gustavo respirou fundo.
— Eu li tudo.
— Eu sei.
— Mais de uma vez.
Assenti.
Ele passou a mão pelos cabelos.
— Algumas coisas realmente ficaram ruins quando você colocou daquele jeito.
A frase quase me fez rir.
— Eu não “coloquei daquele jeito”, Gustavo. Eu coloquei em ordem cronológica.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Então diz o que quis dizer.
Ele desviou os olhos para a rua.
— Eu não percebia que acontecia com tanta frequência.
Aquilo poderia ter sido um começo.
Poderia.
Mas então ele completou:
— Só acho injusto você tratar todas aquelas situações como se eu tivesse escolhido a Júlia no lugar de você.
Cruzei as mãos sobre a mesa.
— E o que você acha que aconteceu ontem?
— Ela estava machucada.
— E o que aconteceu quando você descobriu que eu estava magoada?
Gustavo abriu a boca.
Não respondeu.
Continuei:
— Você saiu do meu aniversário para cuidar dela. Depois, quando ela me provocou com uma foto e um áudio, você não perguntou o que aconteceu. Não perguntou por que eu tinha reagido daquele jeito. Sua primeira preocupação foi o fato de ela ter chorado.
— Marina…
— E quando eu cheguei em casa, você estava abraçando ela, ela estava com sua jaqueta, e você exigiu que eu pedisse desculpas.
Ele abaixou a cabeça.
— Eu estava irritado.
— Eu também estava. Só que minha irritação nunca foi considerada motivo suficiente para ninguém parar e me escutar.
A garçonete colocou um copo de água na minha frente.
Esperei que ela se afastasse.
— Posso fazer uma pergunta?
Gustavo concordou.
— Ontem a Júlia disse que ficou assustada e só pensou em ligar para nós dois. Ela ligou para mim?
O rosto dele mudou.
Quase nada.
Mas eu conhecia Gustavo.
Percebi.
— Não.
— Mandou mensagem pedindo ajuda?
— Não que eu saiba.
— Então ela não pensou em nós dois. Pensou em você.
Ele se mexeu na cadeira.
— Ela podia ter imaginado que eu te avisaria.
— E você avisou. Enquanto já estava levantando para ir embora.
Gustavo ficou quieto.
Eu não precisava de um relatório telefônico nem de qualquer documento novo. A contradição estava diante de nós desde o começo.
Júlia não tinha chamado “os dois”.
Tinha chamado Gustavo.
E ele tinha ido.
— Ela sabia que era meu aniversário — falei. — Mesmo assim, depois de você chegar, a primeira coisa que fez foi me mandar uma foto de você ajoelhado diante dela. Depois gravou um áudio fazendo graça sobre o meu namorado estar cuidando dela.
— Ela disse que estava brincando.
— Eu sei. Júlia sempre está brincando quando sou eu quem fica desconfortável.
Gustavo apertou a xícara entre as mãos.
— Eu conversei com ela sobre isso ontem.
Aquilo me surpreendeu.
— E?
— Perguntei por que ela tinha enviado a foto.
— O que ela respondeu?
— Que achou que você fosse rir.
Não consegui evitar.
— Depois de quarenta e seis situações parecidas?
Gustavo fechou os olhos por um instante.
— Eu sei.
Pela primeira vez, ouvi aquelas duas palavras sem um “mas” logo depois.
Ainda assim, alguma coisa dentro de mim não relaxou.
Porque o problema nunca tinha sido apenas Júlia.
— E você? — perguntei.
Ele franziu a testa.
— Eu o quê?
— Por que continuava indo?
— Porque ela precisava de ajuda.
— Quarenta e sete vezes?
— Nem todas foram assim.
— Gustavo, para.
Minha voz não saiu alta.
Talvez por isso ele tenha parado.
— Eu não estou perguntando por que você ajudou uma amiga uma vez. Estou perguntando por que, toda vez que havia conflito entre o conforto dela e o meu, você achava mais fácil pedir para eu compreender.
Ele demorou a responder.
— Porque eu sabia que você compreenderia.
Aquela frase atingiu um lugar muito específico.
Fiquei olhando para ele.
Gustavo pareceu perceber o que havia acabado de dizer.
— Não foi nesse sentido.
— Foi exatamente nesse sentido.
Minha garganta apertou, mas não desviei os olhos.
— Você sabia que eu cederia.
— Marina…
— Você sabia que eu não faria escândalo. Sabia que eu tentaria ser razoável. Sabia que, se dissesse que ela estava triste, assustada, sozinha ou precisando de ajuda, eu me sentiria culpada por reclamar.
Ele não negou.
E aquele silêncio me deu uma resposta que quarenta e oito registros não tinham conseguido dar.
Júlia testava limites.
Gustavo deixava.
E eu pagava a conta porque era a pessoa “compreensiva”.
Meu celular vibrou sobre a mesa.
Era Júlia.
“Você está com ele?”
Logo depois:
“Eu sabia.”
Outra mensagem apareceu.
“Você pediu para falar sozinho porque quer colocar ele contra mim?”
Mostrei a tela para Gustavo.
— Eu não contei onde estaria — disse ele.
— Eu também não.
Gustavo pegou o próprio celular.
Havia várias mensagens dela.
“Você chegou?”
“Ela apareceu?”
“Está brava?”
“Me avisa quando acabar.”
“Não deixa ela terminar com você por minha causa.”
Observei o rosto dele enquanto lia.
A irritação apareceu devagar.
— Eu disse para ela me dar espaço hoje.
— E ela não deu.
— Não.
— Parece familiar?
Ele levantou os olhos para mim.
Dessa vez, não discutiu.
O celular dele tocou.
Júlia.
Gustavo recusou a chamada.
Ela ligou novamente.
Ele recusou outra vez.
Na terceira, deixou tocar até parar.
— É assim há muito tempo? — perguntei.
— O quê?
— Ela não aceitar quando você não responde imediatamente.
Ele demorou.
— Às vezes.
— E você sempre responde?
Gustavo olhou para a mesa.
— Quase sempre.
A resposta era pequena, mas explicava muita coisa.
Eu tinha passado meses enxergando Júlia como alguém que invadia meu relacionamento.
Naquela manhã, finalmente percebi que Gustavo tinha mantido a porta aberta.
Ninguém invadia quarenta e sete vezes uma casa cuja porta estava realmente fechada.
Respirei fundo.
— Eu preciso de distância de vocês dois.
Ele levantou os olhos rapidamente.
— Marina, não decide nada agora.
— Eu acabei de decidir uma coisa.
— O quê?
— Hoje eu não vou discutir para convencer ninguém de que tenho direito de me sentir mal.
Peguei minha bolsa.
— Não vou bloquear você. Se tiver alguma coisa realmente importante, pode mandar mensagem. Mas não quero ligação, visita no meu quarto nem conversa mediada pela Júlia.
Gustavo segurou meu pulso por reflexo, mas soltou imediatamente.
— Quanto tempo?
— Não sei.
— E a gente?
Olhei para ele.
Por meses, aquela pergunta teria me aterrorizado.
Naquela manhã, não.
— É justamente isso que eu preciso descobrir.
Levantei.
Quando saí do café, Júlia estava do outro lado da rua.
Ela tinha vindo mesmo assim.
A perna estava com um curativo pequeno, e ela mancava levemente.
Quando me viu, atravessou depressa.
— Mari, espera.
Continuei andando.
Ela alcançou meu braço.
— Eu preciso falar com você.
Afastei a mão dela.
— Hoje não.
— Você vai mesmo acabar com tudo por causa disso?
Parei.
— Tudo o quê?
Júlia ficou confusa.
— Nossa amizade. Seu namoro. Tudo.
— Eu não estou acabando com nada “por causa disso”. Estou tentando entender por que minha melhor amiga passou seis meses competindo comigo dentro do meu próprio relacionamento.
O rosto dela ficou vermelho.
— Eu nunca competi com você.
Gustavo tinha saído do café e se aproximava.
Júlia apontou para ele.
— Eu sempre apoiei vocês!
— Você mandou uma foto do meu namorado ajoelhado diante de você no meu aniversário.
— Era brincadeira!
— Pois é. Sempre é.
Ela perdeu a paciência.
— Porque você transforma tudo em problema!
Gustavo parou alguns passos atrás dela.
— Júlia…
Mas ela continuou.
— Eu tenho que ficar medindo cada palavra porque você é insegura? Eu conheço o Gustavo, sei como ele é. A gente sempre se tratou assim.
Olhei para ela.
— Esse é exatamente o problema.
— Não, Marina. O problema é que você quer que ele mude uma amizade inteira só para provar que te ama.
Balancei a cabeça.
— Não. Eu queria que vocês respeitassem quando eu dizia que algo estava passando do limite.
— Mas não estava!
— Para mim, estava.
— Isso não significa que você está certa.
A frase saiu tão rápida que Júlia nem percebeu o que havia confessado.
Não importava quantas vezes eu falasse.
Para ela, meu limite só seria legítimo se ela concordasse com ele.
Gustavo finalmente interveio.
— Júlia, chega.
Ela virou-se para ele, indignada.
— Você também vai ficar do lado dela agora?
A pergunta saiu carregada de algo que fez nós três ficarmos quietos.
Gustavo franziu a testa.
— “Ficar do lado dela”?
Júlia percebeu tarde demais.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Então o que você quis dizer?
Ela começou a chorar de novo.
Mas, pela primeira vez, Gustavo não correu para abraçá-la.
Júlia olhou para mim, depois para ele.
A raiva venceu o choro.
— Quer saber? Talvez eu esteja cansada de ser tratada como se fosse uma intrusa quando, toda vez que ele precisava escolher, ele sempre escolheu a mim.
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