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No dia em que a assistente do meu marido deu à luz, vendi minhas ações e deixei para ele um teste de DNA

Parte 3

Eduardo chegou ao laboratório antes de Lívia. O advogado indicado para acompanhar o procedimento já estava esperando, assim como uma funcionária responsável por registrar a identidade de todos os envolvidos e lacrar as amostras. Dessa vez não haveria copos guardados, escovas de dentes ou relatórios anônimos. Se o resultado viesse negativo, ninguém poderia dizer que eu o havia manipulado.

Lívia apareceu vinte minutos atrasada, empurrando o carrinho do bebê. Usava óculos escuros apesar de estarem dentro do prédio. Quando viu Eduardo, não o abraçou nem perguntou como estava a empresa.

— Depois disso, você vai acreditar em mim?

— Depois disso, eu vou acreditar no resultado.

Ela tirou os óculos.

— Bonito. Passei nove meses ouvindo você dizer que ia cuidar de nós e bastou Marina mandar um papel para você me tratar como criminosa.

Eduardo respondeu baixo:

— Se Marina estiver mentindo, eu vou descobrir.

— E se não estiver?

Ele não respondeu.

A coleta levou poucos minutos. Primeiro Eduardo. Depois o bebê. Lívia assinou os documentos como responsável legal pela criança e permaneceu de braços cruzados enquanto os envelopes eram lacrados na frente deles.

O resultado sairia em alguns dias.

Antes de deixar o laboratório, Lívia segurou o braço dele.

— Podemos conversar?

Foram até o estacionamento.

— Eu sei que você está assustado — disse ela. — Mas Marina está fazendo tudo isso porque perdeu você.

Eduardo a encarou.

— Marina não me perdeu, Lívia. Eu traí Marina.

Talvez tenha sido a primeira vez que ele pronunciou aquilo sem procurar uma palavra mais confortável.

Não chamou de erro.

Não chamou de envolvimento.

Não chamou de momento de fraqueza.

Traição.

Lívia pareceu se irritar mais com a palavra do que com a acusação sobre o bebê.

— Então agora você virou santo?

— Não. Justamente o contrário.

Ela entrou no carro sem responder.

Na manhã seguinte, Eduardo participou da reunião do conselho da Aurora. Ali descobriu que meu afastamento causara efeitos muito maiores do que imaginava.

Eu não havia levado clientes comigo.

Não precisava.

Dois contratos importantes venciam nos meses seguintes, e os executivos responsáveis tinham pedido reuniões para discutir a continuidade da parceria. Durante anos, eu participara pessoalmente dessas negociações.

O diretor comercial tentou tranquilizar o conselho.

— Temos os históricos, contratos, atas, relatórios e contatos no CRM.

Um conselheiro respondeu:

— Temos informações. Não temos relacionamento.

A frase resumiu cinco anos da minha vida.

Eduardo sempre soubera que eu trabalhava muito. Só nunca havia calculado exatamente quanto valor existia naquele trabalho porque ele não aparecia numa linha isolada do balanço.

Por telefone, recebeu ainda uma cobrança que não esperava.

— Por que ninguém preparou sucessão para a área da Marina? — perguntou um investidor.

Eduardo não tinha resposta.

Porque, para ele, eu nunca iria embora.

Era essa a verdade.

Não importava quantas vezes chegasse tarde. Não importava quantas mensagens escondesse. Não importava quantas viagens “profissionais” fizesse com Lívia.

Eu era a parte estável da vida dele.

A mulher que reclamaria, choraria, talvez ameaçasse sair, mas continuaria no mesmo lugar.

Ele havia transformado minha lealdade em uma garantia.

Naquela tarde, recebi um e-mail do advogado de Eduardo pedindo uma reunião sobre o divórcio.

Aceitei por videoconferência.

Na tela, Eduardo parecia não dormir havia dias.

— Você está mesmo em Zurique?

— Isso muda alguma coisa?

— Quanto tempo pretende ficar aí?

— O suficiente.

O advogado tentou manter a conversa objetiva. Nosso casamento havia sido celebrado sob regime de comunhão parcial de bens. Precisávamos levantar patrimônio adquirido durante o relacionamento, investimentos, imóveis e obrigações comuns.

Eduardo interrompeu:

— Não quero discutir patrimônio agora.

— Mas eu quero — respondi.

Ele ficou quieto.

— Durante anos você decidiu quais assuntos podiam esperar. Isso acabou.

Mostrei os documentos que meus representantes haviam organizado. Não pedi dinheiro que fosse exclusivamente dele. Também não aceitei abrir mão daquilo que legalmente fazia parte do patrimônio comum.

Eduardo olhava para mim como se conhecesse uma pessoa nova.

Na verdade, a pessoa era a mesma.

A diferença era que eu havia parado de pedir permissão.

— E a empresa? — perguntou.

— Minhas ações negociáveis já foram vendidas. As participações sujeitas a restrições serão tratadas conforme o acordo societário.

— Você sabe o estrago que sua saída está causando.

— Minha saída não criou os problemas de governança da Aurora. Ela revelou problemas que vocês preferiram ignorar.

— Você podia ter me avisado.

Não consegui evitar um sorriso sem humor.

— Avisado que eu sairia?

— Sim.

— Você me avisou quando alugou uma casa para Lívia?

Ele desviou o olhar.

— Você me avisou quando começou a pagar as despesas dela?

Silêncio.

— Você me avisou quando decidiu que vinte seguranças seriam necessários para impedir sua própria esposa de chegar perto do nascimento do filho da sua amante?

O advogado ficou imóvel.

Eduardo apertou a mandíbula.

— Não.

— Então não me peça a transparência que você nunca me ofereceu.

A reunião terminou sem acordo definitivo, mas algo importante aconteceu.

Pela primeira vez, não senti necessidade de fazê-lo compreender minha dor.

Eu queria apenas proteger meus direitos e encerrar aquele casamento de maneira limpa.

Na noite seguinte, Eduardo foi até a casa onde Lívia estava com o bebê. Ela parecia nervosa.

— Você falou com Marina?

— Falei.

— E?

— Vamos nos divorciar.

Lívia ficou em silêncio por um instante, depois segurou a mão dele.

— Talvez seja melhor assim. Agora podemos finalmente ser uma família.

Eduardo retirou a mão.

— Primeiro sai o exame.

A expressão dela mudou.

— Você pretende passar o resto da vida jogando isso na minha cara?

— O resultado nem saiu.

— Mas você já escolheu acreditar nela.

— Não. Eu escolhi parar de acreditar cegamente em qualquer pessoa.

Lívia riu, amarga.

— Engraçado você aprender isso justo agora.

Eduardo ia responder quando o celular tocou.

Era o laboratório.

O laudo estava pronto.

O profissional explicou que o arquivo seria liberado simultaneamente aos responsáveis cadastrados e que poderia ser retirado presencialmente.

Eduardo decidiu ir pessoalmente.

Lívia não quis acompanhá-lo.

— Veja sozinho.

— Por quê?

— Porque estou cansada dessa humilhação.

Ele ficou olhando para ela.

— Você não está curiosa?

Lívia virou o rosto.

Foi uma reação pequena.

Mas suficiente para que uma certeza desagradável começasse a se formar dentro dele.

Naquela mesma noite, Eduardo recebeu o envelope.

Sentou dentro do carro, no estacionamento do laboratório, e abriu.

Leu as identificações.

Conferiu os códigos das amostras.

Leu a conclusão uma vez.

Depois outra.

A probabilidade de paternidade de Eduardo Rocha era de 0%.

Ele permaneceu parado com o papel nas mãos.

Não era meu documento.

Não era uma amostra anônima.

Não era uma hipótese.

Era o exame que ele próprio exigira, acompanhado por um advogado e realizado com material coletado diretamente dele e do bebê.

Eduardo fechou os olhos.

A mulher que ele traíra estava a milhares de quilômetros.

A empresa que construíra enfrentava sua pior crise de confiança.

E o menino por quem ele havia colocado vinte seguranças diante de uma maternidade não era seu filho.

Mas aquela descoberta ainda deixava uma pergunta.

Se Eduardo não era o pai, Lívia sabia quem era?

Ele voltou à casa dela.

Quando Lívia abriu a porta, percebeu imediatamente.

Não precisou perguntar o resultado.

O rosto dela perdeu a cor.

Eduardo colocou o envelope sobre a mesa.

— Zero por cento.

Lívia não tocou no papel.

— Eduardo…

— Não diga meu nome. Só responda.

Ela começou a chorar.

— Eu estava com medo.

— De quê?

— De perder tudo.

— Tudo o quê?

Lívia levou as mãos ao rosto.

— Você.

Eduardo soltou uma risada seca.

— Você mentiu sobre um filho para não me perder?

— Eu não tinha certeza!

Ele parou.

— Então havia outro homem.

Lívia não respondeu.

Aquilo já era uma resposta.

Eduardo caminhou até a janela, respirando com dificuldade.

— Quem?

— Isso não importa.

Ele se virou.

— Para mim talvez não. Para essa criança, importa.

Lívia chorava de verdade agora.

— Foi antes de nós ficarmos juntos oficialmente.

— Nós nunca estivemos juntos oficialmente. Eu era casado.

Ela abaixou a cabeça.

A frase atingiu os dois.

Durante meses, Lívia se convencera de que eu era apenas um obstáculo burocrático entre ela e a vida que merecia. Eduardo havia alimentado essa fantasia cada vez que prometia “resolver as coisas”.

Agora nenhum dos dois conseguia esconder a realidade atrás de palavras bonitas.

Eduardo pegou o envelope.

— Amanhã você vai me dizer tudo.

— E se eu não disser?

Ele abriu a porta.

— Então eu vou parar de pagar uma vida construída sobre uma mentira. E, se você precisar discutir qualquer obrigação legítima, fazemos isso pelos meios corretos. Mas não vou continuar fingindo ser pai de uma criança depois deste resultado.

Foi embora.

Na manhã seguinte, recebi apenas uma mensagem dele.

“Deu negativo.”

Fiquei olhando para aquelas duas palavras.

Meses antes, eu teria sentido prazer.

Naquele momento senti apenas uma tristeza distante.

Respondi:

“Agora você conhece uma parte da verdade. O restante é problema de vocês.”

Eduardo digitou durante bastante tempo.

A mensagem que chegou foi diferente de todas as anteriores.

“Eu destruí nosso casamento antes de descobrir que ela também mentia para mim. Eu sei que uma coisa não apaga a outra.”

Li duas vezes.

Não respondi.

Porque finalmente ele havia entendido algo que eu já sabia.

A mentira de Lívia não transformava Eduardo em vítima inocente.

E eu não voltaria para casa apenas porque o homem que me traiu acabara de descobrir como era ser traído.

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