Minha sogra interrompeu meu casamento para me chamar de golpista — até meu pai abrir os contratos da família dela
Parte 3
Camila demorou alguns segundos para responder. Rafael avançou na direção dela, mas meu pai se colocou discretamente entre os dois, sem dizer nada. Não foi um gesto teatral; apenas deixou claro que ninguém pisaria em ninguém para impedir a verdade de aparecer.
— A gente ia viajar hoje à noite — Camila disse.
Meu peito apertou, embora parte de mim já soubesse.
— Para onde?
— Florianópolis. Ficamos quatro dias fora e depois… depois veríamos o que fazer.
Rafael soltou uma risada nervosa.
— Você está distorcendo tudo.
Camila pegou o próprio celular.
— Quer mesmo que eu mostre?
Ele perdeu a cor.
Naquele momento, compreendi por que ela havia corrido para impedir meu pai de ler os contratos. Como secretária particular de Rafael, Camila organizava a agenda dele, recebia documentos de reuniões, enviava arquivos para consultores e tinha acesso às correspondências sobre a Martins Capital. Ela sabia que a acusação contra mim era frágil porque conhecia o histórico entre as duas empresas.
— Você sabia que meu pai era acionista? — perguntei.
Camila assentiu.
— Sabia.
— E mesmo assim enviou aqueles documentos para os supostos investigadores?
Ela apertou os lábios.
— Rafael pediu.
— Camila! — ele gritou.
— Para de jogar tudo nas costas dos outros! — ela rebateu. — Você disse que sua mãe precisava de alguma coisa concreta para justificar o cancelamento sem expor a gente.
A palavra “gente” pareceu atingir Beatriz mais do que qualquer documento.
Ela olhou para o filho.
— Você me disse que tinha dúvidas sobre a Helena. Disse que aqueles papéis mostravam que ela tinha planejado o casamento desde o começo.
— E eu tinha dúvidas.
— Não — respondi. — Você tinha uma amante e precisava de uma desculpa.
Rafael me encarou.
— Não foi assim que começou.
— E como começou?
Ele passou a mão pelo cabelo, irritado, como se fosse ele quem estivesse cercado injustamente.
— Depois que descobri a verdadeira dimensão dos negócios do seu pai, comecei a pensar por que você nunca tinha me contado.
— Talvez porque eu não soubesse.
— Como uma filha não sabe que o pai tem uma holding desse tamanho?
Meu pai respondeu antes que eu pudesse falar.
— Porque eu nunca achei que patrimônio fosse assunto para construir o caráter dos meus filhos.
O rosto de Rafael endureceu.
Meu pai continuou:
— Helena sempre soube que nossa família vivia confortavelmente. Nunca fingimos pobreza. Mas ela não participava da Martins Capital, não tinha cargo, não possuía procuração e não acompanhava nossos investimentos. Quando você assinou comigo, eu pedi discrição justamente porque não queria que minha relação comercial interferisse no namoro de vocês.
Aquilo me fez olhar para ele.
— Por que você nunca me contou?
Meu pai respirou fundo.
— Porque, quando você começou a namorar Rafael, eu já estava negociando com a empresa dele. Se eu contasse, você passaria anos se perguntando se ele estava com você ou com a filha de um acionista. Preferi manter as coisas separadas.
Era uma escolha discutível, e ele sabia disso.
— Depois a gente conversa sobre isso — eu disse.
— Vamos conversar — respondeu. — E você tem o direito de ficar brava comigo também.
A frase me surpreendeu mais do que qualquer tentativa de se defender teria feito. Meu pai não pediu que eu o entendesse imediatamente. Apenas reconheceu que também havia tomado uma decisão que me afetava.
Beatriz não demonstrou a mesma disposição.
— Isso tudo continua não explicando por que Helena apresentou informações incompletas no processo do pacto antenupcial.
A advogada abriu o documento novamente.
— Porque a senhora está usando uma minuta preliminar.
Beatriz ficou imóvel.
A profissional colocou duas versões lado a lado. Na primeira, que estava na pasta usada para me acusar, faltavam anexos e havia campos ainda em revisão. Na segunda, registrada no cartório, estavam os bens que efetivamente pertenciam a mim, todos devidamente declarados.
— O patrimônio da Martins Capital não pertence à Helena — explicou a advogada. — Portanto, não tinha motivo para aparecer como patrimônio dela. A comparação apresentada aqui mistura bens do pai com bens da filha.
Virei-me para Rafael.
— Você sabia disso também?
Ele não respondeu.
— Você assinou o pacto comigo, Rafael.
— Minha mãe organizou essa investigação.
— E você deixou.
— Eu estava confuso.
— Confuso não leva uma secretária com mala para o aeroporto.
Camila fechou os olhos.
Rafael se voltou para ela.
— Você também queria viajar.
Ela riu, mas não havia alegria.
— Claro que eu queria. Porque você me disse que terminaria com ela antes do casamento.
Ele ergueu as mãos.
— E por que você está se fazendo de vítima agora?
A expressão de Camila mudou.
— Porque uma coisa é eu ter errado aceitando ficar com um homem comprometido. Outra é assistir você culpar sua mãe, depois me culpar e fingir que não participou de nada.
Ela desbloqueou o celular.
— Eu tenho nossas conversas.
Rafael avançou um passo.
— Não faz isso.
Camila ergueu a tela, mas não entregou o aparelho a ninguém.
— Você escreveu ontem: “Quando ela tirar o anel, acabou. Você espera no hall e a gente vai embora.”
Eu não precisava ver a mensagem.
A reação de Rafael bastava.
Beatriz se sentou em uma das cadeiras do palco como se suas pernas tivessem perdido força.
— Você me usou — ela murmurou para o filho.
Eu quase senti pena dela.
Quase.
Então me lembrei da forma como havia tirado o bracelete do meu pulso, da satisfação com que ordenara que eu removesse a aliança e do modo como me acusara diante da minha mãe.
— Ele pode ter usado você — falei. — Mas foi você quem escolheu me humilhar.
Beatriz ergueu os olhos.
— Eu achei que estava protegendo minha família.
— Você poderia ter me chamado para conversar em particular. Poderia ter pedido os documentos originais. Poderia ter ouvido a minha versão. Em vez disso, preparou um espetáculo no meu casamento.
Ela ficou sem resposta.
Rafael tentou se aproximar novamente.
— Helena, eu errei. Mas a gente não precisa terminar assim. Podemos dispensar os convidados, conversar com calma e…
— A cerimônia terminou quando você soltou a minha mão.
— Não fala isso.
— Você soltou minha mão antes de qualquer documento ser aberto. Antes de qualquer explicação. Antes de saber se eu tinha feito alguma coisa.
Ele respirava cada vez mais rápido.
— Eu estava pressionado.
— E eu estava diante de duzentas pessoas sendo chamada de golpista.
A diferença entre nós estava ali.
Quando a pressão apareceu, Rafael escolheu proteger a si mesmo.
Meu pai pediu que os funcionários do hotel dessem espaço à família. Muitos convidados já começavam a sair, cochichando. Outros continuavam parados, talvez esperando mais alguma cena.
Foi quando minha mãe subiu ao palco.
Ela não discutiu com Beatriz.
Não gritou com Rafael.
Apenas colocou uma das mãos sobre minhas costas.
— Você quer ir embora?
Olhei para minha aliança sobre a mesa.
Durante meses eu havia escolhido vestido, flores, músicas, lista de convidados, convites, doces e pequenos detalhes que, naquela manhã, pareciam representar o começo da minha vida.
Agora tudo aquilo parecia cenário de uma peça que eu não queria mais interpretar.
— Ainda não.
Rafael levantou a cabeça, como se tivesse encontrado esperança.
Mas eu não estava falando do casamento.
— Antes de sair, quero saber por que precisavam me destruir para terminar comigo.
Rafael fechou a boca.
Meu pai retirou mais um documento da pasta.
— Talvez isso ajude.
Beatriz imediatamente ficou tensa.
O documento não tinha relação com nossa vida amorosa. Era uma notificação empresarial enviada semanas antes à diretoria da Tavares Participações. O contrato de financiamento com a Martins Capital chegaria ao vencimento no trimestre seguinte, e determinadas obrigações de prestação de informações ainda não haviam sido cumpridas.
— Isso não significa falência — meu pai deixou claro. — Nem significa que alguém vai tomar a empresa amanhã. Significa apenas que não existe renovação automática.
Beatriz leu a notificação.
— Eu não sabia disso.
Meu pai olhou para Rafael.
Ela também.
— Rafael?
Ele desviou o rosto.
Camila respondeu em voz baixa:
— Ele recebeu três comunicações sobre o assunto.
— E você sabia?
— Eu organizei as correspondências da diretoria.
Beatriz se levantou.
— Você estava pedindo que eu acusasse Helena de tentar entrar na nossa empresa enquanto escondia de mim que a empresa precisava renegociar um financiamento com o pai dela?
Rafael explodiu:
— Eu estava tentando resolver!
— Como?
Ele não respondeu.
Meu pai guardou o documento.
— Não vou misturar minha filha com uma negociação empresarial. O contrato seguirá seu curso normal, com os mesmos critérios que seguiria se este casamento tivesse acontecido.
Olhei para ele e senti um alívio inesperado.
Eu não queria que meu pai destruísse Rafael por mim.
Eu queria que Rafael enfrentasse aquilo que havia feito.
— Então vai ser assim — falei.
Todos olharam para mim.
— Meu pai não vai usar a empresa para me vingar. E eu não quero dinheiro da família Tavares para fingir que nada aconteceu.
Rafael deu um passo à frente.
— Helena…
Ergui a mão.
— Mas vocês me acusaram publicamente. Portanto, a correção também será pública.
Beatriz franziu a testa.
— O que você quer?
— Uma declaração escrita para todos os convidados dizendo que não havia prova de que eu tentei obter patrimônio da família. Quero que expliquem que os documentos apresentados estavam incompletos e foram interpretados de forma errada.
— Isso vai destruir nossa imagem — ela disse.
Eu quase sorri.
— Curioso. Quando era a minha imagem, isso não preocupou você.
Beatriz ficou em silêncio.
Continuei:
— E quero que Rafael assuma que a cerimônia não terminou por causa de uma fraude minha.
Rafael arregalou os olhos.
— Você quer que eu conte sobre Camila para duzentas pessoas?
— Eu não disse isso. Quero que pare de usar meu nome para esconder suas decisões.
Ele ficou parado.
Pela primeira vez naquele dia, eu não estava esperando que alguém me defendesse.
Eu mesma estava estabelecendo os limites.
Peguei a aliança sobre a mesa, não para colocá-la de volta no dedo, mas para entregá-la diretamente a Rafael.
— Você tem até amanhã de manhã para decidir se vai corrigir a mentira.
Ele recebeu o anel com a mão trêmula.
— E se eu não fizer?
Olhei para a pasta de documentos, para as testemunhas que já não sustentavam a acusação e para o salão onde minha vida havia sido transformada em espetáculo.
— Então eu mesma vou contar por que esse casamento terminou.
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