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Na 16ª vez que Rafael pediu o divórcio, Mariana desligou o fogo e respondeu: “Então vamos nos divorciar.”

Parte 3

Mariana não esperava uma resposta imediata aos currículos. Sabia que sete anos fora de um escritório de arquitetura pesavam e que o mercado não lhe devia uma segunda chance apenas porque sua história era triste. Por isso, enquanto organizava a documentação do divórcio, começou também a reconstruir seu portfólio. Passava horas atualizando plantas antigas, estudando ferramentas que haviam mudado e refazendo projetos que antes considerava prontos.

Camila ofereceu ajuda, mas Mariana recusou atalhos.

— Se eu voltar, quero voltar sabendo trabalhar de verdade. Não quero que ninguém me contrate por pena.

— Ninguém que conheça você faria isso — respondeu Camila. — Mas gostei de ouvir essa frase.

Nos dias seguintes, Rafael oscilou entre indiferença e irritação. Em uma noite dizia que Mariana estava exagerando; na seguinte perguntava se ela realmente pretendia levar tudo adiante. Ela deixou de responder perguntas emocionais e passou a falar apenas do necessário: documentos, contas, apartamento e datas.

A mudança o desorganizava mais do que qualquer discussão.

Durante anos, Rafael aprendera que bastava levantar a voz ou ameaçar sair para fazer Mariana correr atrás dele. Agora podia bater a porta do quarto, passar horas fora de casa ou chegar sem avisar, e ela simplesmente continuava trabalhando diante do computador.

Quando a relação patrimonial do casal começou a ser organizada, Mariana recebeu extratos das contas que os dois precisariam apresentar. Não havia ali uma revelação cinematográfica nem uma transferência secreta de milhões. Havia algo mais comum e, talvez por isso, mais doloroso: uma longa sequência de pequenas decisões tomadas como se ela não existisse.

Transferências frequentes para Diego.

Pagamentos de despesas de Sônia.

Compras feitas por Rafael sem nunca comentar com Mariana.

E, em três datas específicas, contas de restaurantes caros em noites nas quais ele havia dito que estava em reuniões com clientes.

Mariana reconheceu imediatamente uma das datas.

Era a noite da mensagem de Lívia.

Ela não chamou Rafael naquele momento.

Primeiro abriu o calendário que os dois compartilhavam para organizar compromissos familiares. Naquela noite, Rafael havia registrado apenas “reunião externa”. Na semana seguinte, havia outro jantar. Depois outro.

Mariana anotou as datas e fechou o computador.

Não precisava transformar suspeita em certeza às pressas.

Dias depois, enquanto os dois separavam documentos na mesa da sala, ela colocou os extratos diante dele.

— Quero fazer uma pergunta e quero uma resposta sem me chamar de louca, insegura ou paranoica.

Rafael viu os comprovantes e ficou rígido.

— O que é isso?

— Você sabe o que é.

Mariana apontou para as três datas.

— Esses jantares eram com clientes?

Ele demorou.

Foi um atraso mínimo, mas suficiente.

— Alguns clientes estavam…

— Rafael.

Ele fechou a boca.

Mariana continuou:

— A primeira dessas noites foi quando Lívia me mandou aquela mensagem. Você disse que ela apenas havia feito a reserva para uma reunião. Quero saber se isso era verdade.

— Não aconteceu nada.

— Não foi o que perguntei.

Rafael se levantou e começou a andar pela sala.

Disse que Mariana estava procurando justificativas para não assumir a própria responsabilidade pelo fim do casamento. Disse que ele passara anos trabalhando para oferecer conforto a ela e que era injusto transformar três restaurantes em prova de traição.

Mariana esperou.

Quando ele terminou, perguntou novamente:

— Ela estava jantando sozinha com você?

Rafael parou.

— Estava.

Mariana sentiu o estômago apertar, embora uma parte dela já conhecesse a resposta.

— Quantas vezes?

— Não sei.

— Tenta lembrar.

Ele passou a mão pelo rosto.

— Algumas.

— Três?

Silêncio.

— Cinco?

Rafael desviou os olhos.

— Talvez.

Mariana respirou pelo nariz.

— E você me disse que eram clientes.

— Porque eu sabia que você faria exatamente isso.

A frase escapou antes que ele pudesse corrigir.

Mariana ficou olhando para ele.

Não gritou.

— Então você mentiu porque sabia que aquilo ultrapassava um limite.

— Eu não dormi com ela.

— Eu não perguntei isso.

— Mariana…

— Você me fez duvidar de mim mesma por meses. Toda vez que eu percebia alguma coisa, você dizia que eu estava imaginando.

A voz dela finalmente tremeu.

— Você pode dizer que não houve sexo. Pode dizer que não chama isso de traição. Mas houve mentira, houve intimidade escondida e houve a certeza de que eu ficaria em casa esperando por você.

Rafael caiu no sofá.

Depois de alguns segundos, admitiu que Lívia se aproximara dele durante um período difícil na empresa. Disse que conversavam muito, que ela o admirava, que gostava de ouvi-lo falar sobre trabalho.

— Com ela eu não sentia que precisava explicar tudo.

Mariana riu sem alegria.

— Claro. Ela conhecia o Rafael bem-sucedido do escritório. Eu conhecia o homem que chegava em casa e descontava nos outros quando as coisas davam errado.

Ele ergueu os olhos.

— Teve um beijo.

Mariana ficou imóvel.

Rafael falou rápido, como se a velocidade pudesse diminuir o peso da confissão.

— Uma vez. Depois de um jantar. Eu parei. Disse que não devia acontecer.

Mariana apertou os dedos contra a palma da mão.

A dor veio limpa, sem surpresa.

Talvez porque a parte mais cruel já não fosse o beijo.

Era lembrar de todas as vezes em que ele a chamara de insegura enquanto escondia exatamente aquilo que ela suspeitava.

— Quando?

Ele disse a data.

Mariana a reconheceu imediatamente.

Dois dias depois daquele beijo, ela tinha preparado o jantar favorito dele porque Rafael chegara em casa dizendo estar esgotado.

Naquela noite, ele comera em silêncio e reclamara porque o arroz estava frio.

Mariana se levantou.

— Obrigada por finalmente falar a verdade.

Rafael pareceu assustado com a calma.

— Só isso?

— O que você quer que eu faça? Quebre um prato? Bata em você? Chore para que você se sinta importante?

— Eu estou tentando explicar.

— Você está tentando diminuir.

Ela recolheu os documentos.

— E eu não preciso mais ajudá-lo a fazer isso.

Naquela mesma semana, Mariana saiu do apartamento.

Não porque Rafael mandou.

Foi uma escolha dela.

O clima dentro da casa havia se tornado insustentável e, depois de conversar sobre a situação patrimonial, ela alugou temporariamente um pequeno apartamento mobiliado perto do metrô. Levou roupas, livros, o computador e a velha pasta de projetos.

Antes de sair, deixou o avental creme dentro de uma gaveta.

Rafael encontrou as malas perto da porta.

— Então é isso?

— Por enquanto.

— Você vai simplesmente embora?

Mariana o encarou.

— Quando você falou em divórcio pela primeira vez, eu passei a noite implorando para você não sair. Na décima quinta, ainda chorei. Na décima sexta, finalmente entendi que não posso continuar fazendo da ameaça de alguém o centro da minha vida.

Rafael abriu a boca, mas ela continuou:

— Não estou indo embora porque você venceu. Estou indo porque eu parei de disputar um casamento que só eu estava tentando manter inteiro.

No apartamento novo, a primeira noite foi difícil.

Não havia fotografias na parede, cheiro conhecido na cozinha nem barulho de Rafael abrindo a porta tarde da noite.

Mariana chorou.

Depois tomou banho, vestiu uma camiseta velha e sentou-se no chão da sala com o notebook.

Às onze e quarenta, terminou de atualizar a primeira parte do portfólio.

Três dias depois, recebeu uma resposta de um escritório pequeno de arquitetura e interiores em Pinheiros.

Não era uma proposta.

Era um convite para entrevista.

Mariana leu o e-mail cinco vezes.

Na manhã da entrevista, suas mãos estavam frias. O responsável pelo escritório perguntou diretamente sobre os sete anos afastada e ela respondeu sem inventar desculpas.

Disse que havia deixado a profissão por uma decisão familiar, que hoje faria escolhas diferentes e que estava estudando para recuperar o tempo perdido.

Mostrou seus projetos antigos e os trabalhos que havia atualizado nas últimas semanas.

Saiu sem saber se tinha ido bem.

Dois dias depois, ofereceram a ela uma vaga de nível inferior ao cargo que provavelmente teria se nunca tivesse parado.

O salário também não era extraordinário.

Mariana aceitou.

Quando contou a Camila, a amiga gritou do outro lado da ligação.

Mariana riu até os olhos encherem de lágrimas.

Não era o emprego dos sonhos.

Era melhor.

Era uma porta que ela mesma havia conseguido abrir.

Rafael descobriu a novidade quando recebeu uma mensagem sobre a próxima reunião da partilha e perguntou por que Mariana só tinha disponibilidade depois das seis.

— Estou trabalhando.

Houve uma pausa.

— Trabalhando onde?

Ela explicou.

— Você aceitou mesmo?

— Aceitei.

— Mariana, você não precisava correr assim. Eu nunca disse que deixaria você sem dinheiro.

Ela ficou alguns segundos em silêncio.

— Você ainda não entendeu.

— O quê?

— Eu não voltei a trabalhar porque tenho medo de você tirar meu dinheiro. Voltei porque preciso ter novamente uma vida que seja minha.

A conversa terminou logo depois.

Mas Rafael ligou outra vez naquela noite.

Mariana não atendeu.

Ele enviou uma mensagem.

“Podemos conversar sem advogado, sem documentos e sem falar de dinheiro?”

Ela demorou antes de responder.

“Sobre o quê?”

A resposta veio quase imediatamente.

“Sobre nós.”

Mariana apoiou o celular sobre a mesa e continuou revisando uma planta.

Dez minutos depois escreveu:

“Não existe mais ‘nós’ para resolver. Existe um divórcio para finalizar.”

Rafael apareceu no prédio dela no sábado.

Mariana não permitiu que subisse.

Desceu até a portaria.

Ele parecia cansado. Pela primeira vez em anos, não usava terno nem parecia preparado para dominar uma conversa.

— Minha mãe disse que você está me destruindo.

Mariana soltou uma pequena risada.

— Então você veio aqui por causa da sua mãe?

— Não. Eu vim porque…

Ele hesitou.

— A casa está estranha sem você.

— A casa não ficou estranha. Você só começou a perceber tudo o que eu fazia.

Rafael abaixou o olhar.

Contou que Sônia continuava pressionando por dinheiro para Diego. Disse que o irmão agora queria abrir outro negócio e esperava uma nova ajuda.

— E você vai dar?

— Não sei.

— A decisão é sua.

— Você não vai dizer nada?

Mariana balançou a cabeça.

— Durante anos, eu disse. Você sempre respondia que era sua família e que eu estava sendo mesquinha. Agora realmente é problema seu.

A frase pareceu atingir Rafael de um jeito inesperado.

Ele passou a mão pela nuca.

— Tem alguma chance de a gente parar tudo isso?

Mariana sentiu o peito apertar.

O homem diante dela ainda era aquele que um dia segurara sua mão no corredor da faculdade. Ainda existiam lembranças boas. Ainda existia uma versão antiga de Rafael que ela havia amado de verdade.

Mas amor não apagava sete anos de desgaste.

E saudade não era mudança.

— A próxima vez que eu encontrar você — disse Mariana — quero que seja para acertarmos os termos finais.

Rafael ficou olhando para ela.

Mariana voltou para dentro do prédio sem se virar.

No elevador, as pernas tremiam.

Ainda doía.

Só que, agora, a dor já não decidia por ela.

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