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Minha melhor amiga conseguiu o patrocínio que salvaria nossa escolinha de futsal — mas, para assinar, eu teria de cortar as 20 vagas gratuitas que criamos para as crianças do bairro

Parte 3

Na primeira semana sem a proposta do patrocinador, fiquei esperando sentir orgulho.

Não senti.

Senti medo.

A planilha que eu havia montado parecia razoável quando estava cheia de estimativas. Na prática, quatro famílias aceitaram imediatamente o novo valor, seis pediram um mês para se organizar e as outras ainda não tinham respondido. Das nove pessoas que participaram da aula para adultos, apenas cinco fizeram matrícula.

Joana não disse “eu avisei”.

Foi pior.

Ela simplesmente registrou cada número.

Na sexta-feira, chamou-me para a salinha.

— Se continuar assim, fechamos o mês R$ 1.100 abaixo.

Sentei diante dela.

— Ainda temos três semanas.

— Temos. Só não quero que você confunda tempo com garantia.

Eu já não confundia.

Comecei a oferecer as aulas experimentais em horários diferentes. Não fiz campanha dizendo que as pessoas estariam “salvando crianças pobres”. Aquilo me parecia desrespeitoso com os alunos e péssimo como modelo de negócio.

Vendemos a aula pelo que ela era: atividade física orientada, futsal recreativo para adultos e uma hora em que ninguém precisava ser bom o suficiente para entrar em quadra.

Funcionou melhor.

Na segunda semana, tínhamos treze adultos matriculados.

Ainda não bastava.

Também cortei uma das coisas de que mais gostava: os amistosos de sábado que exigiam duas horas extras de aluguel. Fui eu quem deu a notícia aos alunos.

As reclamações começaram imediatamente.

— Mas era a melhor parte! — Cauã protestou.

— Eu sei.

— Então por que acabou?

Antes, eu teria inventado uma resposta pedagógica. Teria falado de calendário, organização, qualquer coisa.

Dessa vez sentei no banco ao lado dele.

— Porque custa dinheiro e, por enquanto, precisamos escolher o que é mais importante para manter os treinos.

Ele ficou pensativo.

— Vai voltar?

— Quando couber.

— Tá.

A simplicidade da resposta me surpreendeu.

Talvez eu tivesse passado anos acreditando que proteger as crianças significava nunca deixá-las perceber que havia limites.

Cauã se levantou e voltou para o treino.

Naquela tarde, Vera apareceu quinze minutos antes do fim.

— Posso falar com você?

Fomos para a arquibancada.

Ela segurava um envelope pequeno.

— Não quero que você entenda errado. Não consigo pagar mensalidade inteira. Mas conversei com meu chefe e vou começar a fazer algumas horas extras. Posso contribuir com R$ 30 este mês.

— Vera, você não precisa…

Ela levantou a mão.

— É exatamente por isso que quis conversar.

Calei.

— Desde que o Cauã entrou aqui, você nunca me fez sentir que eu devia alguma coisa. Sou grata por isso. Mas às vezes você decide por nós antes de perguntar o que conseguimos fazer.

A frase era parecida com o que Joana vinha tentando me dizer.

— Eu achava que estava evitando constrangimento.

— E evitou. Só que também tirou de mim a chance de participar.

Olhei para o envelope.

— Não quero que nenhuma família ache que a vaga depende disso.

— Então deixa isso claro. Minha ajuda não compra a vaga dele. É só minha ajuda.

Aceitei.

Naquela noite, criei uma regra simples com Joana: nenhuma das vinte vagas dependeria de contribuição financeira. Famílias que quisessem colaborar poderiam fazê-lo em dinheiro, em tarefas administrativas pontuais ou simplesmente em nada.

A vaga continuaria sendo vaga.

Joana gostou da regra, mas fez uma ressalva:

— E não vamos contar com essas contribuições no orçamento.

— Por quê?

— Porque ajuda voluntária não pode pagar conta fixa.

Anotei.

Comecei a gostar menos de algumas respostas dela e a confiar mais nelas.

Na terceira semana, o número de adultos chegou a dezenove.

Faltava apenas uma matrícula para a meta inicial.

Mesmo assim, outro problema apareceu.

Uma mãe que pagava mensalidade integral me esperou depois do treino.

— Ouvi dizer que tem gente pagando trinta reais.

— Algumas famílias têm vagas gratuitas e podem contribuir voluntariamente, mas isso não muda a condição delas.

— Então eu pago cento e quarenta e outra pessoa paga nada?

— Sim.

Ela franziu a testa.

— Isso é justo?

Eu já tinha imaginado essa conversa, mas não daquele jeito.

— Posso te responder com uma pergunta?

— Pode.

— Seu filho está recebendo menos treino porque outra criança não paga?

— Não.

— Tem menos material?

— Não.

— Então vocês estão comprando o mesmo serviço. A diferença é que algumas famílias não conseguem arcar com o custo.

Ela cruzou os braços.

— Mas eu não tenho obrigação de pagar pelos outros.

— Não tem. Por isso o valor da sua mensalidade foi calculado pelo custo do seu filho e pela estrutura geral da turma. Não colocamos uma taxa escondida de solidariedade.

Joana, que escutava da porta, se aproximou.

— E por isso também estamos abrindo outras fontes de receita. A ideia não é jogar a conta das bolsas nas famílias pagantes.

A mulher pareceu menos irritada.

— Eu só queria entender.

— Você está certa em perguntar — respondi.

Depois que ela foi embora, Joana encostou na parede.

— Se fosse dois meses atrás, você teria ficado ofendida.

— Eu fiquei um pouco.

Ela riu.

— Melhorou.

Na sexta-feira daquele mês, sentamos novamente com a planilha.

Dezenove adultos.

Treze famílias infantis pagando o novo valor.

Quatro mantendo temporariamente a mensalidade anterior porque avisaram que não conseguiriam o reajuste naquele mês.

Redução de horários de quadra.

Fim dos amistosos pagos.

Duas pequenas contribuições espontâneas que não entravam na projeção fixa.

Resultado: ainda faltavam R$ 370.

— Isso é administrável? — perguntei.

— Um mês, talvez. Todo mês, não.

Passei a mão pelo rosto.

— Podemos cortar mais um horário.

— Prejudica as turmas.

— Posso deixar minha retirada para depois.

Joana me olhou imediatamente.

— Não.

— Só este mês.

— Foi assim que eu comecei.

A frase me fez parar.

Ela apontou para a planilha.

— O projeto não pode depender de uma de nós bancar dinheiro nem de trabalhar de graça. Se esse é o único jeito de preservar vinte bolsas, então o modelo ainda não funciona.

Fiquei irritada porque sabia que ela estava certa.

Saí da salinha e caminhei pela quadra vazia.

Havia uma caixa de bolas no canto, duas traves, os bancos riscados e uma faixa antiga com o nome da escolinha. Nada ali parecia valer uma discussão tão grande.

Mas eu sabia que valia.

Não pelas paredes.

Pelo que significava entrar sem precisar provar quanto dinheiro havia em casa.

Joana veio atrás de mim.

— Talvez a gente tenha de reduzir o número de vagas gratuitas.

Virei.

— Não.

— Escuta.

— Eu estou escutando há um mês.

— Então escuta mais uma vez. Se precisarmos passar de vinte para dezesseis e voltar a crescer depois, isso não significa que viramos pessoas ruins.

— E quais quatro saem?

Ela apertou os lábios.

— É isso que eu não sei.

— Eu também não.

Caminhei até a arquibancada.

— Quando começamos, prometemos que essas vinte crianças teriam vaga enquanto estivessem na faixa etária do projeto e cumprissem as regras. Não prometemos que todas as futuras turmas teriam vinte bolsas para sempre. Mas essas vinte já entraram confiando nisso.

Joana sentou ao meu lado.

— Eu tinha esquecido dessa promessa.

— Eu não.

— E você tinha esquecido das contas.

A verdade caiu entre nós sem raiva.

— Tinha.

Ficamos caladas.

Foi então que percebi uma coisa que aparecia na planilha todos os meses e que eu sempre tratava como detalhe.

Usávamos a quadra às segundas-feiras para um treino avançado com apenas sete alunos.

— Joana.

— O quê?

— Se juntarmos o avançado com o treino técnico de quarta, perdemos alguma coisa essencial?

Ela pensou.

— Para os sete, perdem atenção individual.

— Mas continuam treinando.

— Sim.

— Quanto economiza?

— Uns quatrocentos e vinte.

Nós duas fizemos a conta mental.

Eu sorri primeiro.

Ela não.

— Não comemora ainda. Quero perguntar aos professores e verificar se cabe.

— Claro.

No dia seguinte, testamos a mudança.

Coube.

Não ficou perfeito.

Os sete alunos reclamaram da turma maior. Um deles quase saiu. Tivemos de dividir exercícios, reorganizar tempo e adaptar o treino.

Mas coube.

Na última noite do mês, Joana fechou a planilha.

Receita e despesa ficaram separadas por R$ 38,70.

— Negativo? — perguntei.

Ela virou a tela.

— Positivo.

Olhei para o número ridiculamente pequeno.

— Trinta e oito reais?

— E setenta centavos.

Comecei a rir.

Joana também.

Foi um riso cansado, quase absurdo.

— Não dá nem para comprar uma bola boa — falei.

— Mas pela primeira vez em sete meses eu não coloquei dinheiro.

Isso me fez parar de rir.

Olhei para ela.

— Desculpa.

— Pelo quê exatamente?

Eu sabia que ela precisava ouvir de forma específica.

— Por tratar sua preocupação com dinheiro como se fosse falta de coração. Por autorizar desconto, horário e gasto sem entender quem resolvia depois. E por deixar você assumir o risco sozinha enquanto eu ficava com a parte bonita do projeto.

Joana baixou os olhos.

— Eu também errei.

— Em quê?

— Em esconder que estava cobrindo as contas. Eu fiquei com raiva de você e, em vez de colocar limite, fui acumulando prova de que você era irresponsável.

Ela respirou fundo.

— Quando apareceu o patrocinador, eu queria poder dizer: “Viu? Eu resolvi.” Mesmo que a solução doesse em você.

Não gostei de ouvir aquilo.

Mas gostei de ela dizer.

— Então a gente estava tentando ganhar uma da outra.

— Mais ou menos.

— E quase perdemos a escolinha.

Joana fechou o notebook.

— Ainda podemos perder.

— Obrigada pelo otimismo.

— Realismo.

Levantei para apagar as luzes.

Antes de sair, ela me chamou.

— Camila.

— Oi?

— O patrocinador mandou mensagem hoje.

Meu estômago apertou.

— Querem voltar?

— Não exatamente. A outra escolinha não fechou com eles. Perguntaram se ainda queremos conversar sobre o contrato original.

Olhei para ela.

— E você respondeu?

Joana pegou o celular e o estendeu para mim.

Na tela havia apenas uma frase ainda não enviada:

“Podemos conversar, desde que as vinte vagas gratuitas não façam parte da negociação.”

Ela entregou o aparelho na minha mão.

— Dessa vez, se eles disserem não, nós duas vamos ouvir juntas.

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