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Meu namorado sempre colocava a melhor amiga em primeiro lugar — até eu decidir parar de esperar pela minha vez

Parte 3

Caio ficou me encarando como se tivesse ouvido uma língua que não conhecia.

— Você está terminando comigo?

— Estou.

A palavra saiu simples. Sem grito, sem ameaça, sem aquela esperança escondida de que ele me impedisse de ir. Talvez justamente por isso tenha atingido Caio com tanta força.

Ele passou a mão pelo rosto e começou a andar pelo quarto.

— Você não pode simplesmente jogar dois anos fora por causa de ciúme.

— Eu não estou jogando dois anos fora. Estou parando de gastar mais tempo da mesma forma.

— Helena nunca fez nada contra você.

— Eu não disse que fez.

A resposta o desarmou por um instante.

Durante muito tempo, eu havia cometido o erro de transformar Helena no centro de tudo. Comparava roupas, família, dinheiro, intimidade, lembranças. Sempre que ela aparecia, eu me perguntava o que ela tinha que eu não tinha.

Naquela manhã, finalmente entendi que a pergunta estava errada.

Helena podia ligar.

Podia pedir ajuda.

Podia brincar com Caio.

Podia aceitar presentes.

Quem tinha assumido um compromisso comigo era ele.

— O problema não é ela existir na sua vida — continuei. — O problema é você usar essa amizade como justificativa para me colocar atrás dela o tempo inteiro.

— Isso não é verdade.

— No restaurante, quem recebeu primeiro o cartão?

Caio abriu a boca.

Não respondeu.

— Quando sua mãe achou que vocês estavam juntos ontem, quem corrigiu?

Silêncio.

— Quando fomos à sua casa pela primeira vez, como você me apresentou?

Ele desviou os olhos.

— Era uma situação complicada.

— Para você. Porque quem pagou pela sua tranquilidade fui eu.

Caio se aproximou outra vez.

— Eu disse que vou conversar com minha mãe.

— Agora.

— O quê?

— Você vai fazer agora porque eu estou indo embora. Não porque entendeu antes.

Ele ficou visivelmente irritado.

— Então nada do que eu fizer serve?

— Não é isso. Só não quero mais permanecer numa relação esperando a versão futura de você que sempre vai aparecer “daqui a pouco”.

Peguei a mala.

Caio segurou a alça.

— Não sai assim.

— Solta.

— Pelo menos espera a gente conversar direito.

Quase ri, mas não havia graça nenhuma.

Eu havia esperado dois anos.

Naquela manhã, esperar mais uma hora parecia demais.

Ele soltou a mala.

Passei por ele e saí.

Eu ainda não tinha conseguido alugar um lugar. Passei alguns dias em uma hospedagem simples perto da universidade enquanto visitava pequenos apartamentos que cabiam no meu orçamento.

Não era confortável.

O quarto tinha uma cama estreita, uma mesa pequena e uma janela voltada para a parede do prédio ao lado.

Mesmo assim, quando tranquei a porta na primeira noite, senti uma coisa que não sentia havia muito tempo.

Silêncio sem ansiedade.

Eu não precisava ouvir Caio atendendo Helena na sala.

Não precisava imaginar se ele voltaria cedo.

Não precisava fingir que uma coisa pequena não doía só porque ele dizia que não deveria doer.

Nos primeiros dois dias, Caio mandou dezenas de mensagens.

Começou irritado.

“Você está exagerando.”

Depois tentou ser racional.

“Vamos conversar quando você estiver mais calma.”

Depois ficou carinhoso.

“Eu te amo.”

“Volta para casa.”

“Eu falei com minha mãe.”

Na última, ele escreveu:

“Contei para ela que você era minha namorada.”

Fiquei muito tempo olhando para aquela frase.

Dois anos antes, eu teria chorado de felicidade.

Agora parecia apenas uma informação atrasada.

Respondi:

“Obrigada por finalmente dizer a verdade. Mas isso não muda minha decisão.”

Pouco depois, Helena me procurou na saída de uma aula.

Eu a vi encostada perto das escadas, segurando duas garrafas de água. Estendeu uma para mim.

— Podemos conversar?

— Se for rápido.

Ela franziu a testa.

— Você realmente terminou com ele?

— Sim.

— Caio está péssimo.

— Imagino.

— Ele gosta muito de você.

Respirei devagar.

— Helena, se você veio me convencer a voltar, não precisa.

— Não foi exatamente por isso.

Ela baixou os olhos para a garrafa.

Pela primeira vez desde que eu a conhecia, Helena parecia desconfortável.

— Ele disse que você acha que eu me meto demais.

— Não preciso achar.

Ela levantou o rosto.

— Eu nunca tentei roubar seu namorado.

— Eu sei.

Minha resposta pareceu surpreendê-la.

— Sabe?

— Sei. Você não precisava roubar nada. Caio entregava o espaço para você sozinho.

Helena ficou séria.

Eu continuei:

— Você ligava, ele ia. Você queria alguma coisa, ele providenciava. A mãe dele fazia comentários sobre vocês dois e nenhum dos dois corrigia. Eu não sei se você gostava disso ou apenas achava normal. Mas eu não quero mais participar.

Ela levou alguns segundos para responder.

— Eu achava engraçado.

— O quê?

— A mãe dele achar que a gente acabaria juntos. Eu nunca pensei muito nisso.

Assenti.

Helena apertou a garrafa nas mãos.

— Talvez eu também tenha passado do limite algumas vezes.

Não respondi.

Ela continuou, mais baixo:

— Quando ele começou a namorar você, eu achei que nossa amizade fosse mudar. Então comecei a testar até onde continuava tendo espaço.

Aquela frase me fez parar.

— Testar?

— Ligava para coisas que eu poderia resolver sozinha. Chamava para sair quando sabia que vocês estavam juntos. Fazia brincadeiras. Ele sempre vinha.

Não havia orgulho no rosto dela naquele momento.

Mas também não havia como apagar o que ela acabara de admitir.

— Por quê?

Helena respirou fundo.

— Porque eu gostava de saber que continuava sendo importante.

Não era uma declaração de amor.

Talvez fosse pior justamente por ser tão banal.

Ela não queria necessariamente Caio como namorado.

Queria a certeza de que, mesmo depois de ele começar uma relação, ela ainda seria a pessoa que conseguia fazê-lo levantar da mesa e sair.

— E você nunca pensou em como isso me fazia sentir?

— Achei que você entendesse nossa amizade.

Fechei os olhos por um instante.

A mesma frase.

De novo.

“Você precisa entender.”

Parecia que entender sempre significava aceitar.

— Eu entendo agora — respondi. — Entendo perfeitamente.

Helena ficou em silêncio.

— Então você não vai voltar?

— Não.

— Mesmo se ele mudar?

Olhei para ela.

— Se ele mudar, isso vai ser bom para a próxima relação dele. Não é obrigação minha ficar esperando para descobrir.

Passei por Helena e segui para o ponto de ônibus.

Naquela noite, Caio apareceu na porta da hospedagem.

Eu não havia contado onde estava.

Ele provavelmente perguntou a colegas em comum.

Quando desci para encontrá-lo na recepção, parecia cansado.

— Helena me contou que falou com você.

— Contou tudo?

Caio travou.

Foi resposta suficiente.

— Você sabia que ela fazia isso de propósito?

— Não desse jeito.

— Mas sabia que ela ficava testando sua disponibilidade.

— Ela sempre foi assim.

— E você sempre gostou.

Ele reagiu imediatamente.

— Não fala como se eu tivesse alguma coisa com ela.

— Eu não estou falando de romance.

Cruzei os braços.

— Você gostava de ser necessário para ela. Gostava de ser o cara que sempre resolvia tudo. E, quando eu reclamava, era mais fácil me chamar de ciumenta do que admitir que aquela dinâmica fazia bem para o seu ego.

Caio abriu a boca, mas nada saiu.

Pela primeira vez, ele não tinha uma explicação pronta.

Depois de alguns segundos, falou:

— Minha mãe ficou furiosa quando contei sobre nós.

— Imagino.

— Disse que eu escondi você porque sabia que ela não aprovaria.

Aquilo me fez erguer os olhos.

— E ela está errada?

Caio demorou.

Demorou demais.

— Eu queria evitar conflito.

Meu peito apertou, mas minha voz permaneceu calma.

— Finalmente.

— Finalmente o quê?

— Você parou de dizer que era só para evitar encontros arranjados.

Ele desviou o rosto.

Ali estava a verdade que eu já conhecia, mas que ele nunca havia dito em voz alta.

Caio não me escondia apenas porque sua mãe era insistente.

Ele me escondia porque sabia que ela preferia alguém com o sobrenome, o dinheiro e a família de Helena.

E, durante dois anos, proteger o próprio conforto havia sido mais importante do que proteger minha dignidade.

— Eu estava com medo — disse ele. — Minha mãe consegue tornar tudo muito difícil.

— E tornou para mim.

— Eu sei.

— Agora sabe.

Caio deu um passo à frente.

— Me dá uma chance de consertar.

— O que você quer consertar?

— Tudo.

— Não existe “tudo”, Caio. Existem escolhas. Você fez as suas todos os dias.

Os olhos dele ficaram vermelhos.

— Eu te amo.

Dessa vez eu acreditei.

Esse era o mais triste.

Caio provavelmente me amava.

Mas amor não transformava automaticamente uma relação em algo saudável.

Uma pessoa podia amar e, ainda assim, ser covarde.

Podia amar e priorizar a própria comodidade.

Podia amar e ferir alguém repetidamente enquanto exigia compreensão.

— Eu também te amei muito — respondi.

— Amou?

A palavra pareceu machucá-lo.

— Não faz isso.

— Eu não estou tentando machucar você.

Respirei fundo.

— Só estou aceitando que amar alguém não é motivo suficiente para continuar aceitando qualquer lugar na vida dele.

Ele passou as mãos pelos cabelos.

— Então acabou mesmo?

Olhei para a porta de vidro da hospedagem.

Durante dois anos, eu esperava que Caio me escolhesse.

Naquela noite, percebi que ainda existia uma escolha que dependia inteiramente de mim.

— Amanhã vou assinar o contrato de um apartamento pequeno perto da faculdade — falei. — Depois vou buscar o restante das minhas coisas.

Caio ficou pálido.

— Você já alugou outro lugar?

— Vou alugar.

— Então você decidiu tudo sem mim.

Segurei seu olhar.

— Pela primeira vez, sim.

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