Fui ao hospital interromper uma gravidez de quase cinco meses — e a médica era irmã do meu marido
Parte 3
— Repete.
Caio falou tão baixo que, por um instante, achei que não tivesse entendido.
— Estou grávida. Quase cinco meses.
Ele olhou novamente para minha barriga. O vestido preto ainda escondia quase tudo, e eu vi nos olhos dele a tentativa desesperada de reorganizar os últimos meses.
— Como eu não percebi?
A pergunta doeu de um jeito diferente.
Não porque eu esperasse que ele percebesse a gravidez por algum milagre, mas porque a resposta era simples demais.
— Você quase nunca olha para mim.
Caio recuou um passo.
— Lívia…
— Não estou dizendo isso para machucar você. Estou respondendo.
Ele passou a mão pelos cabelos e começou a andar pelo quarto.
A expressão controlada que eu conhecia havia desaparecido. O CEO capaz de enfrentar conselhos de administração, investidores e crises empresariais parecia não saber o que fazer com uma conversa dentro da própria casa.
— Você sabia há quanto tempo?
— Algumas semanas.
— E não me contou?
— Não.
— Por quê?
Soltei um riso sem humor.
— Porque eu ainda estava tentando entender o que fazer com a minha vida.
— Mas esse filho também é meu.
— Eu sei.
— Então como você pôde decidir tudo sozinha?
A pergunta me atingiu.
Por alguns instantes, não respondi.
Havia raiva legítima na voz dele. Não queria fingir que não havia. Eu escondera uma gravidez por semanas e tomara uma decisão enorme sem conversar com ele.
Mas havia outra verdade naquela história.
— Você quer falar sobre decisões tomadas sozinho? — perguntei. — Podemos começar pela nossa vida inteira.
Caio travou o maxilar.
— Não compare isso.
— Eu não estou comparando gravidez com jantar de negócios. Estou falando de como chegamos aqui.
Ele ficou diante de mim.
— Quero saber por que você marcou esse procedimento.
— Porque eu achei que não conseguiria criar uma criança presa a um casamento que estava me destruindo.
— Nós podemos nos divorciar e cuidar da criança.
— Agora você consegue dizer isso porque acabou de descobrir que ela existe.
A palavra “ela” escapou naturalmente.
Caio percebeu.
— É uma menina?
Balancei a cabeça.
— Eu ainda não sei. Falei “ela” sem pensar.
Ele fechou os olhos por um momento.
Quando tornou a abri-los, havia alguma coisa diferente ali.
Não autoridade.
Medo.
— Cancela.
— Não.
A resposta saiu imediata.
Caio respirou fundo.
— Estou pedindo.
— E eu estou dizendo que não vou tomar nenhuma decisão nesta noite porque você está assustado.
— Você já tomou uma decisão sem mim.
— Tomei. E talvez isso tenha sido errado. Mas amanhã, antes de qualquer coisa, eu vou decidir o que eu quero fazer com a cabeça limpa. Não porque você mandou cancelar. Nem porque você mandou continuar.
A palavra “mandou” pareceu incomodá-lo.
— Eu nunca mandei você fazer tudo.
— Caio, você literalmente me liga para dizer como devo me vestir antes de um jantar.
Ele não respondeu.
Aquela ausência de resposta disse muito.
Sentei na ponta da cama e senti o cansaço acumulado daquele dia cair sobre meus ombros.
— Eu não quero transformar isso numa guerra.
— Então me deixa ir com você amanhã.
Levantei os olhos.
— Você tem reunião às oito e meia.
Ele pareceu ofendido.
— Você acha que eu vou para uma reunião sabendo que minha esposa está no hospital?
— Há vinte minutos, você nem sabia que sua esposa estava grávida.
Caio fechou os olhos outra vez.
Dessa vez, não respondeu imediatamente.
— Eu mereci isso.
Foi a primeira frase dele naquela noite que me surpreendeu.
Não pedi desculpas.
Também não aproveitei para atacá-lo.
Apenas fiquei calada.
Depois de alguns minutos, Caio sentou na poltrona diante da cama.
O telefone vibrou várias vezes.
Ele o colocou no silencioso.
— Por que você nunca disse que estava tão infeliz?
Aquilo despertou uma irritação cansada em mim.
— Eu disse.
— Não desse jeito.
— Claro que não. No começo eu dizia que queria jantar com você. Depois dizia que sentia sua falta. Depois perguntava se precisava aceitar todos os convites de trabalho. Depois parei.
Ele desviou os olhos.
— Eu achei que você tinha entendido minha rotina.
— Eu entendi sua rotina. Você é que confundiu minha adaptação com felicidade.
Caio permaneceu sentado.
Eu pensei em todas as vezes em que eu mesma diminuíra minhas necessidades para evitar parecer ingrata. A casa era enorme. Nunca me faltara dinheiro. Eu poderia comprar praticamente qualquer coisa sem pedir autorização.
Era fácil, naquele ambiente, acreditar que solidão acompanhada de conforto não deveria doer.
Mas doía.
— E a Isabela? — perguntei.
Ele ergueu o rosto.
— O que tem ela?
— Eu preciso que você seja sincero. Não porque isso vá salvar nosso casamento. Não vai. Mas porque eu cansei de imaginar respostas.
Caio apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Eu gostei da Isabela quando éramos mais novos.
— Eu sei.
— Minha família inteira sabia. Por muito tempo acharam que a gente acabaria junto. Mas ela foi embora. Eu segui minha vida.
— E agora?
— Agora ela é uma pessoa da minha história.
— Só isso?
Ele sustentou meu olhar.
— Só isso. Eu nunca tive um relacionamento com ela enquanto estava com você. Nunca traí você com a Isabela.
Acreditei.
Não porque quisesse acreditar, mas porque Caio sempre fora um homem brutalmente objetivo quando finalmente decidia responder alguma coisa. Além disso, minha dor nunca tinha sido construída sobre uma prova de traição.
O problema era mais difícil.
Ele não precisava ter me traído para ter me abandonado emocionalmente.
— O que me machucou hoje não foi pensar que você dormia com ela — falei. — Foi ver você se levantar quando ela chegou.
Caio franziu a testa.
— Como assim?
— Você não entende mesmo?
Ele ficou em silêncio.
— Em três anos, você nunca se levantou daquele jeito quando eu entrei em um lugar. Você perguntou sobre a viagem dela. Sobre o trabalho dela. Lembrou histórias antigas. Você prestou atenção.
Minha garganta apertou, mas continuei.
— Eu vi em meia hora uma versão sua que nunca existiu comigo.
— Lívia…
— Isso não quer dizer que você esteja apaixonado por ela. Só quer dizer que você era capaz de ser presente. E escolheu não ser comigo.
A expressão dele desmoronou devagar.
Dessa vez, Caio não tentou se defender.
Aquela noite terminou sem solução.
Ele dormiu no escritório.
Eu quase não dormi.
Às seis da manhã, levantei, tomei banho e vesti roupas largas. Quando saí do quarto, encontrei Caio na cozinha.
Ele ainda usava a camisa da noite anterior.
Havia duas xícaras sobre a mesa.
— Fiz café — disse.
Parei diante dele.
Aquela pequena atitude teria significado muito meses antes.
Naquele momento, era apenas triste.
— Estou em jejum.
Ele olhou para a xícara como se tivesse esquecido.
— Claro.
Peguei minha bolsa.
— Eu vou com você.
— Não.
— Lívia…
— Você me pediu para deixar você ir. Eu pensei nisso. Ainda prefiro ir sozinha.
— Marina vai estar lá?
Assenti.
— Então pelo menos me avise quando sair.
— Eu aviso.
Cheguei ao hospital pouco antes das sete e meia.
Uma funcionária da casa que me conhecia havia anos aceitou me acompanhar e esperou na recepção, conforme a orientação que eu recebera.
Marina me chamou alguns minutos depois.
Quando entramos na sala, ela percebeu meu estado imediatamente.
— Você contou para ele.
Não era exatamente uma pergunta.
— Contei.
— Ele sabe que você está aqui?
— Sabe.
Marina se sentou.
— Não vou perguntar o que meu irmão disse. Só preciso saber uma coisa como sua médica: você continua segura da sua decisão?
Baixei os olhos para minhas mãos.
Na primeira consulta, eu tinha respondido “sim” sem hesitar.
Agora havia alguma coisa diferente.
Não por causa de Caio.
Era isso que eu precisava separar.
Fechei os olhos e imaginei duas vidas.
Na primeira, eu saía dali sem aquela gravidez e finalmente encerrava meu casamento.
Na segunda, eu encerrava o casamento do mesmo jeito, mas continuava grávida.
Foi aí que percebi algo que me assustou.
Eu tinha ligado as duas decisões como se fossem uma só.
Como se terminar meu casamento significasse necessariamente terminar tudo o que tinha começado dentro dele.
— Marina…
Ela esperou.
— Eu não quero continuar casada com seu irmão.
— Eu entendi.
— Mas acho que transformei essa gravidez em parte do divórcio.
Minha voz falhou.
— E isso não é justo comigo.
Marina não sorriu.
Não me aconselhou.
Apenas perguntou:
— O que você quer fazer?
Demorei.
Pela primeira vez desde que descobrira a gravidez, tentei responder sem pensar na família Almeida, em Caio, em Isabela, no casamento ou no medo de ser mãe sozinha.
Pensei apenas em mim.
E naquela vida que eu sentia existir dentro de mim.
— Eu quero cancelar o procedimento.
Marina respirou devagar.
— Tem certeza?
Olhei para ela.
— Do procedimento, sim.
Ela assentiu.
— Então vamos cancelar.
Peguei o celular quando saí da sala.
Havia onze chamadas de Caio.
Não retornei imediatamente.
Em vez disso, abri uma conversa antiga com uma advogada que eu havia consultado meses antes apenas para entender meus direitos.
Escrevi uma mensagem curta.
“Quero iniciar meu divórcio. Desta vez, de verdade.”
Só depois liguei para Caio.
Ele atendeu antes do primeiro toque terminar.
— Lívia?
— Eu cancelei o procedimento.
Ouvi a respiração dele mudar.
— Obrigado.
— Não agradeça.
Ele ficou quieto.
— Eu não fiz isso por você.
— Eu sei.
— E o divórcio continua.
Dessa vez, demorou mais.
— A gente pode conversar?
— Podemos.
— Quando você voltar?
Olhei através das portas de vidro do hospital para a movimentação da rua.
— Não na casa dos Almeida.
— Onde você quiser.
— E sem tentar me convencer a ficar.
A voz de Caio ficou baixa.
— Tudo bem.
Aquela era a primeira vez que ele dizia “tudo bem” para uma condição colocada por mim.
E eu ainda não sabia se isso significava alguma mudança.
Mas sabia exatamente o que faria a seguir.
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