Um pai sem dinheiro deixou um relógio quebrado ao garçom — e o nome dele mudou tudo
Parte 3
Luís não tentou fugir da pergunta.
Olhou para Manuela, depois para as mesas que começavam a ser ocupadas para o jantar e apontou para um banco do lado de fora.
— Não quero falar disso na frente dela.
Gabriel pediu a Renata que desse um copo de suco para Manuela e saiu com ele. Sentaram-se sob a marquise, enquanto o barulho do trânsito preenchia os intervalos entre uma frase e outra.
— Conheci seu pai há vinte e dois anos — começou Luís. — Eu tinha vinte e um. Estava desempregado, sem dinheiro para voltar para minha cidade e com uma mochila contendo tudo o que eu possuía.
Gabriel cruzou os braços.
— E o relógio?
— Era dele. Mas, para explicar como foi parar comigo, preciso contar o que aconteceu naquela noite.
Luís mantinha os olhos na rua.
Na época, Marcelo Moreira trabalhava num pequeno restaurante perto da antiga rodoviária. Não era o dono. Fazia de tudo: atendia, limpava mesa, ajudava na cozinha e, quando faltava gente, ficava no caixa.
Luís havia passado quase dois dias comendo apenas bolacha e café.
Tinha conseguido a promessa de uma vaga como ajudante numa oficina em Contagem, mas precisava se apresentar cedo na manhã seguinte. O problema era que não tinha dinheiro nem para uma refeição decente, muito menos para o transporte.
Entrou no restaurante de Marcelo e pediu o prato mais barato.
Quando chegou a hora de pagar, percebeu que havia calculado errado.
— Faltavam poucos reais — contou Luís. — Poucos para quem tem salário. Para mim, naquela noite, parecia uma fortuna.
Gabriel ficou imóvel.
A semelhança com o que acontecera dias antes era impossível de ignorar.
— O caixa começou a reclamar — continuou Luís. — Eu disse que podia lavar pratos. Seu pai ouviu.
Gabriel apertou os lábios.
— E o que ele fez?
Luís finalmente encarou-o.
— Mentiu.
— Como assim?
— Disse que eu era o cliente de uma promoção da casa.
Gabriel sentiu um arrepio subir pelos braços.
Luís soltou uma risada curta, sem alegria.
— A mesma mentira que você contou para mim.
Por alguns segundos, o ruído dos carros pareceu distante.
Gabriel pensou no modo como improvisara a história da refeição gratuita. Nunca ouvira o pai contar algo parecido. Nunca sequer imaginara que uma situação quase idêntica pudesse ter acontecido décadas antes.
— Depois ele pagou minha comida escondido — disse Luís. — Eu descobri porque tentei agradecer ao gerente antes de ir embora. Foi aí que soube que não existia promoção nenhuma.
— Isso ainda não explica o relógio.
— Eu sei.
Luís passou as mãos pelo rosto.
Naquela mesma noite, Marcelo perguntou por que ele estava andando com uma mochila e para onde pretendia ir. Luís contou sobre a vaga na oficina e admitiu que provavelmente perderia a oportunidade porque não tinha dinheiro para chegar até lá.
Marcelo tirou algumas notas da carteira.
Luís recusou.
Disse que já tinha aceitado comida demais.
Então Marcelo tirou o relógio do pulso.
— Ele colocou na minha mão e falou: “Se você não aceita dinheiro, leve isso. Amanhã, se precisar, venda. Quando sua vida melhorar, compre outro para mim.”
Gabriel abaixou os olhos para o relógio.
— E o senhor vendeu?
— Não.
Luís explicou que saiu do restaurante decidido a não tocar naquele objeto. Na madrugada, conseguiu ajudar um motorista a descarregar caixas num depósito próximo à rodoviária em troca de algum dinheiro. Foi suficiente para o transporte.
Apresentou-se na oficina.
Conseguiu a vaga.
Nos meses seguintes, trabalhou até conseguir alguma estabilidade. Quando finalmente voltou ao restaurante disposto a devolver o relógio, descobriu que Marcelo já não trabalhava ali.
— Eu procurei — disse Luís. — Não vou mentir dizendo que procurei todos os dias durante vinte anos. A vida foi acontecendo. Mudei de cidade, me casei, trabalhei em vários lugares. Mas aquele relógio ficou comigo.
— Meu pai nunca mencionou isso.
— Talvez porque para ele tenha sido uma coisa pequena.
Gabriel soltou o ar devagar.
Isso soava exatamente como Marcelo.
Quando alguém agradecia por alguma ajuda, o pai costumava responder que aquilo não merecia virar assunto.
Luís apontou para a rachadura no vidro.
— Isso aconteceu comigo. Caiu da minha mão durante uma mudança. Eu quase levei para trocar o vidro muitas vezes, mas sempre adiava. Depois comecei a achar que não tinha direito de mexer no relógio.
Gabriel ainda tinha uma pergunta.
— E por que o senhor reagiu daquele jeito quando ouviu meu nome?
— Seu sobrenome primeiro. Depois seu rosto.
Luís explicou que havia notado certa semelhança assim que Gabriel se aproximara da mesa, mas só teve certeza quando ouviu “Moreira”. Anos antes, Marcelo mostrara uma fotografia do filho pequeno que carregava na carteira.
— Você devia ter cinco ou seis anos naquela foto. Não dava para ter certeza só olhando. Quando você falou seu nome completo… eu entendi.
Gabriel ficou com a garganta seca.
— Então por que não contou naquela hora?
Luís demorou a responder.
— Porque eu estava sentado num restaurante sem conseguir pagar comida para minha filha.
A frase saiu baixa.
— Eu tinha imaginado centenas de vezes o dia em que devolveria esse relógio. Na minha cabeça, eu chegaria bem vestido, com a vida organizada. Diria ao seu pai que aquilo que ele fez tinha mudado meu caminho.
Ele apertou as mãos.
— Em vez disso, encontrei o filho dele enquanto eu estava repetindo exatamente a situação em que ele me encontrou.
Gabriel entendeu naquele instante algo que não aparecia em documento algum.
Luís não estava escondendo a história por maldade.
Estava com vergonha.
— O senhor disse que precisava resolver uma coisa.
— Vim para Belo Horizonte cobrar dois meses de pagamento atrasado de uma obra onde trabalhei como ajudante de manutenção. O serviço terminou, o responsável prometeu acertar comigo e foi adiando.
— E conseguiu?
Luís sorriu amargamente.
— Recebi uma parte hoje. Bem menos do que deveria.
Gabriel olhou para o casaco gasto.
— Onde vocês estão ficando?
Luís endureceu a expressão.
— Isso não tem relação com o relógio.
— Eu sei.
— Então não precisa ter pena.
— Não tenho.
Luís encarou-o.
Gabriel escolheu as palavras.
— Meu pai ajudou o senhor sem transformar o senhor num coitado. Foi isso que o senhor está tentando me explicar desde o começo, não é?
Luís não respondeu.
Gabriel continuou:
— Então não vou fazer isso com você.
Os ombros do homem relaxaram um pouco.
Gabriel voltou ao restaurante e conversou com o gerente. Havia quase duas semanas que o ajudante responsável pela limpeza pesada da cozinha tinha pedido demissão, e todos estavam se revezando enquanto procuravam alguém.
Gabriel não pediu que contratassem Luís por caridade.
Disse apenas:
— Ele já trabalhou com manutenção, precisa de serviço e nós precisamos de alguém. Dá para testar por alguns dias e pagar a diária normalmente.
O gerente olhou através do vidro para o homem sentado do lado de fora.
— Você conhece ele?
Gabriel pensou antes de responder.
— Estou começando a conhecer.
Luís recusou na primeira vez.
— Eu não vim aqui atrás de emprego.
— E eu não estou oferecendo favor — respondeu Gabriel. — O restaurante precisa de alguém. Se fizer o serviço, recebe. Se não der certo, cada um segue seu caminho.
— E sua refeição?
— Aquilo foi outra coisa.
Manuela, que escutava perto do balcão, puxou o casaco do pai.
— Pai, você disse que queria trabalhar.
Luís fechou os olhos por um instante.
— Essa menina ainda vai acabar comigo.
Gabriel sorriu.
— Amanhã, oito da manhã.
Luís aceitou.
Antes de ir embora, ele estendeu a mão pedindo o relógio.
Gabriel pensou que ele finalmente o levaria.
Em vez disso, Luís fechou os dedos de Gabriel em torno da peça.
— Agora ele voltou para onde deveria estar.
— O senhor disse que ia buscar.
— Eu disse porque não tive coragem de contar a verdade.
Gabriel observou o vidro rachado.
— Vou mandar consertar.
Luís segurou seu pulso.
— O mecanismo, sim.
Gabriel ergueu os olhos.
— E o vidro?
— Se puder… deixe a rachadura.
— Por quê?
A voz de Luís falhou pela primeira vez.
— Porque foi depois daquela rachadura que eu entendi uma coisa sobre seu pai. Passei anos tentando devolver a ele um relógio perfeito, como se eu só tivesse o direito de aparecer quando minha vida também estivesse perfeita.
Gabriel ficou calado.
Luís continuou:
— Hoje percebi que ele nunca me pediu perfeição. Só pediu que, quando eu pudesse, fizesse por alguém o que ele fez por mim.
Gabriel olhou através da porta de vidro.
Manuela estava sentada à mesa, terminando o suco que Renata havia levado.
Foi então que Luís acrescentou:
— Mas ainda existe uma parte dessa história que você não sabe.
Gabriel voltou o rosto para ele.
— Que parte?
Luís respirou fundo.
— Por que seu pai nunca recuperou esse relógio, mesmo depois de descobrir onde eu estava.
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