Home

Na semana em que minha mãe anunciou que eu herdaria o ateliê da família, devolvi as chaves e disse que só voltaria quando meu trabalho tivesse meu nome.

Parte 3

Ivone não respondeu imediatamente.

Pegou o caderno antigo e o colocou dentro de uma gaveta, como se esconder aquelas páginas fosse mais fácil do que admitir que a frase escrita por uma criança tinha guiado decisões de duas mulheres adultas por anos.

— Você veio ajudar ou fazer condição? — perguntou.

Camila tirou a bolsa do ombro.

— As duas coisas.

— Então continua igual.

— Não. Antes eu ajudava e ficava quieta. Agora eu estou dizendo até onde vou.

Ivone apertou os lábios, mas apontou para a mesa onde estavam os uniformes.

Durante as três horas seguintes, quase não falaram sobre a briga. Falaram de mangas, tamanhos, tecido, linhas e prazos. Era um idioma conhecido, no qual funcionavam melhor do que em qualquer conversa sobre sentimentos.

Camila percebeu que a mãe havia tentado substituir sua organização por anotações espalhadas em folhas soltas. Havia medidas duplicadas e etiquetas trocadas. Não corrigiu tudo sozinha.

Chamou Ivone.

— Aqui tem dois alunos com o mesmo tamanho, mas comprimentos diferentes. Qual deles você já provou?

Ivone buscou as fichas.

— O Gustavo.

— Então coloca sua inicial. Quem mexer depois precisa saber quem conferiu.

— Nunca precisei disso.

— Agora precisa. Tem mais de uma pessoa trabalhando.

A mãe resmungou, mas escreveu “I.S.” no papel.

Era um detalhe pequeno.

Camila percebeu.

Na manhã seguinte, voltou somente depois de terminar o trabalho na confecção. Levou um lanche, não como pedido de desculpas, mas porque sabia que Bia e Ivone provavelmente tinham esquecido de comer.

Bia abriu um sorriso aliviado.

— Ainda bem.

Ivone fingiu não ouvir.

As três reorganizaram a produção, e Camila foi firme ao recusar dois novos pedidos que Ivone queria encaixar.

— Mas são clientes antigas.

— E vão continuar antigas semana que vem.

— Você fala como se dinheiro pudesse esperar.

— Dinheiro de serviço mal calculado não paga cansaço.

Ivone ergueu uma sobrancelha.

— Essa frase veio da faculdade?

— Veio de fazer sua planilha por quatro anos.

Bia baixou a cabeça para esconder um sorriso.

Nos dias seguintes, o atraso diminuiu.

Camila não voltou a ocupar a antiga rotina. Chegava depois do serviço temporário, trabalhava apenas no que tinha assumido antes da saída e ia embora no horário combinado.

Ivone não gostava.

Mas começou a perceber que a filha fazia exatamente aquilo que sempre pedira aos clientes: respeitava prazo e limite.

Na quinta-feira, Patrícia apareceu para uma prova de vestido. Ivone preparou o atendimento, mas a cliente, ao vestir a peça, elogiou diretamente Camila.

— Esse decote foi ideia sua, não foi?

Camila abriu a boca.

Antes que respondesse, Ivone falou:

— Foi. Ela desenhou e fez o molde.

O ateliê pareceu ficar maior por um instante.

Camila não olhou imediatamente para a mãe.

Ajustou um alfinete no ombro de Patrícia e respondeu:

— A dona Ivone resolveu a parte da estrutura interna. Se não fosse isso, o tecido cedia.

Ivone também não olhou para ela.

Mas Bia viu as duas.

Quando a cliente foi embora, ninguém comentou.

Naquela noite, Ivone trouxe duas marmitas de casa. Colocou uma diante da filha.

— Fiz frango com quiabo.

Camila abriu a tampa.

— Obrigada.

Comeram na bancada.

No meio da refeição, Ivone perguntou:

— Estão gostando do seu trabalho lá?

Camila demorou um instante para perceber que a pergunta era sincera.

— Estão.

— Pagam bem?

— Dá para o período. Não sei se vão renovar.

— E você quer?

Camila pensou.

— Não sei.

— Então você saiu daqui sem ter emprego certo.

— Saí.

Ivone soltou o garfo.

— Você sempre foi responsável. Não precisava fazer isso.

— Eu precisava justamente porque sou responsável, mãe. Se eu esperasse ter certeza de tudo, ia continuar aqui mais dez anos reclamando da mesma coisa.

Ivone voltou a comer.

— Eu achei que você gostasse daqui.

Camila sentiu uma tristeza inesperada.

— Eu amo esse lugar.

— Então por que parece querer se livrar dele?

A pergunta não veio agressiva.

Isso tornou a resposta mais difícil.

— Porque eu amo e estava começando a odiar.

Ivone ergueu os olhos.

Camila continuou:

— Eu estava ficando ressentida com cada cliente que te chamava de criadora de uma peça minha. Com cada pedido que você aceitava sem me perguntar. Com cada vez que você dizia que um dia tudo seria meu, como se eu tivesse que agradecer por um futuro que você escolheu sozinha.

— Eu queria te dar segurança.

— Eu sei.

— Você não sabe o que é criar uma filha sem saber se vai ter dinheiro no mês seguinte.

— Não sei. E espero nunca saber. Mas eu sei o que é passar anos com medo de decepcionar você.

Ivone ficou imóvel.

Camila sentiu que finalmente tinha chegado ao centro daquilo que evitavam.

— Quando eu quis fazer estágio numa confecção em São Paulo, você disse que eu estava abandonando o ateliê.

— Você tinha vinte e dois anos.

— Quando pensei em aceitar trabalho numa marca de roupas aqui em Belo Horizonte, você ficou uma semana sem falar comigo.

— Porque pagavam pouco.

— Mãe, eu nem tinha decidido.

Ivone empurrou a marmita.

— Eu fiz sacrifício demais para você ter oportunidade.

— E eu agradeço. Mas às vezes parece que cada sacrifício virou uma parcela que eu tenho que pagar ficando exatamente onde você imaginou.

A mãe se levantou.

— Você acha que eu te prendi?

Camila não respondeu depressa.

— Acho que você nunca trancou a porta. Mas fazia eu me sentir culpada toda vez que chegava perto dela.

Ivone virou de costas.

Camila teve vontade de retirar a frase.

Não retirou.

Depois de alguns minutos, a mãe voltou a sentar.

— Quando seu pai foi embora, ele disse que eu não sabia cuidar nem da minha própria vida — falou.

Camila manteve os olhos nela.

Ivone raramente falava daquela época.

— Eu tinha duas máquinas, dívida no aluguel e você perguntando se dava pra comprar uma mochila nova. Toda vez que eu conseguia alguma coisa, eu pensava: isso aqui ninguém tira de mim. Depois comecei a pensar: isso aqui ninguém tira de você.

Ela apontou ao redor.

— Foi virando tudo a mesma coisa.

Camila sentiu a garganta apertar.

— Mas eu não sou o ateliê.

Ivone fechou os olhos por um momento.

— Eu sei.

Não era um pedido de desculpas.

Ainda não.

Mas era a primeira vez que Camila ouvira a mãe separar as duas coisas.

O prazo dos uniformes foi cumprido dois dias depois. Não perfeitamente: duas barras precisaram ser refeitas, e Ivone teve de pagar horas extras para Bia. Ninguém morreu, nenhum cliente desapareceu e o negócio não desabou.

Camila achou importante.

Durante anos, as duas haviam tratado qualquer falha como ameaça de catástrofe.

Na segunda-feira, terminou seu contrato temporário na confecção. O supervisor perguntou se teria interesse em continuar como prestadora de serviço em alguns projetos.

Camila pediu dois dias para pensar.

Pela primeira vez, havia opções.

Naquela noite, Ivone chamou a filha para o pequeno escritório nos fundos do ateliê.

Sobre a mesa havia uma folha impressa.

Camila olhou, desconfiada.

— Se for outra lista de herança, eu vou embora.

— Não é.

Ivone puxou a cadeira.

— Escrevi algumas coisas.

A folha tinha quatro tópicos.

Participação nas decisões.

Crédito por criação.

Revisão de pagamento.

Possibilidade de sociedade.

Camila leu duas vezes.

— Possibilidade?

Ivone respirou fundo.

— Eu ainda não consigo dizer “sim” para sociedade amanhã.

Camila colocou a folha sobre a mesa.

— Então ainda estamos no mesmo lugar.

— Não.

Ivone segurou o papel antes que a filha se levantasse.

— Porque antes eu dizia que você não precisava disso. Agora estou dizendo que eu preciso aprender a dividir.

Camila permaneceu sentada.

— E quanto tempo isso leva?

— Não sei.

— Eu também não posso ficar esperando sem limite.

— Então não fica.

A resposta a surpreendeu.

Ivone continuou:

— Trabalha fora. Faz seus projetos. Eu não vou pedir para você voltar como era antes.

Camila observou a mãe.

— E o ateliê?

— Continua.

— Sem mim?

Ivone engoliu em seco.

— Se precisar, sim.

Aquelas palavras pareciam custar mais do que qualquer documento.

Camila passou os dedos pela folha.

— Eu também preciso reconhecer uma coisa.

Ivone esperou.

— Eu reclamei durante quase um ano, mas nunca coloquei no papel o que eu queria. Ficava esperando você entender sozinha.

— Você falava bastante.

Camila quase sorriu.

— Falava. Mas misturava salário, autoria, sociedade, horário, tudo numa briga só. Eu também ajudava a transformar qualquer conversa numa guerra.

Ivone assentiu devagar.

Nenhuma das duas saiu inocente.

E isso, estranhamente, tornou a conversa mais possível.

Camila puxou uma caneta.

— Vamos fazer uma proposta de verdade.

— Agora?

— Agora.

Durante quarenta minutos, escreveram o que cada uma considerava indispensável. Ivone queria manter a decisão final sobre dívidas e compromissos financeiros enquanto fosse única proprietária. Camila queria autonomia sobre projetos que assinasse e direito de recusar prazos inviáveis.

Quando chegaram à palavra “sociedade”, pararam.

— Eu não vou prometer que volto — disse Camila.

— Eu sei.

— E não quero metade de graça só porque sou sua filha.

Ivone olhou para ela.

— Também não quero que você compre o que ajudou a construir como se fosse uma desconhecida.

Era um problema real.

Não seria resolvido naquela noite.

Camila fechou a caneta.

— Então vamos calcular direito. Valor do negócio, equipamentos, carteira de clientes, o que eu efetivamente construí, o que você construiu. Sem favor.

Ivone soltou o ar.

— Você ficou igualzinha a mim.

— Nesse ponto, infelizmente.

As duas riram, breve e cansado.

Ao sair, Camila chegou à porta e parou.

As chaves antigas ainda estavam numa pequena bandeja atrás do caixa.

Ivone acompanhou o olhar da filha.

— Pode levar.

Camila balançou a cabeça.

— Ainda não.

E fechou a porta pelo lado de fora sem levar nenhuma chave.

A Parte 4 já está nos comentários desta publicação 👇📖 Se ela não aparecer, abra todos os comentários.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *